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Jorge Sousa e Lucía Fernández-Suárez abrem-nos as portas à engenharia do futuro

No entanto, é em 2016 que o ISEL conhece um novo ciclo e inicia um processo de crescimento ímpar, do qual o atual presidente do ISEl, professor Jorge Mendes de sousa, e a vice-presidente de relações externas, professora Lúcia Fernández-Suárez, se orgulham.

 

 

Biografia

Jorge Sousa, presidente

Jorge Alberto Mendes de Sousa tem 48 anos e foi eleito presidente do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL) para o quadriénio 2016-2020. É licenciado e mestre em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores (Instituto Superior Técnico) e doutorado em Economia (Nova SBE).

Em 1998 iniciou as funções no ISEL, onde possui a categoria de professor coordenador na Área Departamental de Engenharia Eletrotécnica de Energia e Automação (ADEEEA), da qual foi presidente no período 2014-2016. É coordenador do Grupo Disciplinar de Sistemas de Energia, do Grupo de Investigação em Sistemas de Energia, tendo iniciado e coordenado a pós-graduação em Engenharia e Gestão de Energias Renováveis (EGER) e o programa ISEL Energy Week.

No domínio científico, é investigador integrado do INESC-ID e membro do seu conselho científico, tendo sido investigador associado do MIT/Center for Energy and Environmental Policy Research no período 2008-2011.

Os seus domínios de investigação centram-se na área dos sistemas de energia, nomeadamente energias renováveis, mobilidade sustentável, mercados de energia e gestão de risco, usando abordagens essencialmente centradas em modelação e simulação numérica.

Antes de ingressar na carreira académica desempenhou funções na EDF – Electricité de France (Clamart/Paris), na EDP – Eletricidade de Portugal (Labelec) e no INTERG – Instituto da Energia.

É membro fundador e vice-presidente da Associação Portuguesa de Economia de Energia (APEEN), membro da Ordem dos Engenheiros, da Ordem dos Economistas e membro da direção do IEEE/PES em Portugal.

Como Presidente do ISEL está fortemente empenhado e comprometido com o desenvolvimento da instituição de forma a torná-la líder mundial na abordagem aos desafios societais do terceiro milénio.

Biografia

Lucía Fernández-Suárez, vice-presidente

Lucía Fernández-Suárez tem 47 anos e é vice-presidente do ISEL para as Relações Externas desde 2016. Natural das Astúrias, é também professora coordenadora com nomeação definitiva na Área Departamental de Matemática (ADM) do ISEL. Licenciada em Matemática pela Universidade de Santiago de Compostela (Espanha) e detentora de um  D.E.A. em Matemática pela Université des Sciences et Tecnhologies de Lille (França), obteve o doutoramento europeu em Matemática em 1998, nessas universidades, na área de Geometria e Topologia.

Atualmente, desenvolve investigação na área de Topologia Algebraica. Neste âmbito realizou estadias de investigação na University of Rochester (EUA), no Fields Institute (Canadá) e na Université Catholique de Louvain-La-Neuve (Bélgica). Iniciou a sua carreira docente em 1995 como professora assistente na Faculté Livre des Sciences de Lille (França). De 1996 até 1998 trabalhou também como professora assistente na Université des Sciences et Technologies de Lille.

Em 1999 começou o seu percurso em Portugal, sendo professora auxiliar do departamento de Matemática da Universidade do Minho. Desde março de 2011 que é professora coordenadora com nomeação definitiva na Área Departamental de Matemática (ADM) do ISEL, lecionando habitualmente unidades curriculares na secção de Álgebra. Participou em quatro projetos de investigação internacionais (três pela FCT e um pela GRICES/CNRS), tendo sido investigadora responsável em dois deles. É acérrima defensora da divulgação da matemática, tendo pertencido à direção da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), entre 2008 e 2014, e organizado, nesse período, diversas “Tardes da Matemática – SPM” que percorreram Portugal de Norte a Sul.

Engenharia do futuro

O ISEL é uma instituição pública que iniciou em 1974 o seu percurso no ensino superior. Depois de um trajeto complexo e com três fases bem vincadas na sua história, é hoje uma referência no ensino da engenharia em Portugal.

Implantado num campus com 60.000 m2 na freguesia de Marvila, o ISEL conta atualmente com 11 licenciaturas, 11 mestrados complementados com pós-graduações e laboratórios com tecnologia avançada que apoiam as atividades de ensino, pesquisa e desenvolvimento do ISEL.

Daqui resulta a extensa rede ISEL da qual todos se orgulham: os cerca de 4000 alunos, 369 professores, 110 colaboradores dos serviços administrativos, antigos alunos e as empresas parceiras.

Uma das prioridades estratégicas do Acordo de Parceria do Portugal 2020 traduz-se na necessidade de qualificar as infraestruturas de Investigação e Inovação, i.e., centros tecnológicos, centros de transferência de tecnologia, institutos de novas tecnologias, parques de ciência e tecnologia, bem como de incubadoras de empresas de base tecnológica, com o objetivo final de promover uma atuação cada vez mais próxima e orientada para as necessidades efetivas do tecido empresarial português.

Com parcerias de sucesso com o tecido empresarial e com instituições públicas, o ISEL assume um papel de relevo no Ensino Superior — e também no país — no que se refere à transferência de conhecimento científico e ao trabalho desenvolvido em prol da comunidade.

Percorra connosco o campus do ISEL ao longo desta reportagem e conheça alguns dos inúmeros – e não menos importantes – projetos e iniciativas que convertem esta singular organização numa verdadeira instituição de engenharia do futuro.

ISEL ENERGY WEEK

A Semana da Energia é uma iniciativa do ISEL que conta já com a sua 4.ª edição e que pretende, durante uma semana, organizar atividades dirigidas aos alunos dos 10.º, 11.º e 12.º anos, mas também aos estudantes do ensino superior da área de engenharia, a docentes do ISEL e a quadros de empresas parceiras.

O ISEL Energy Week terá lugar de 8 a 12 de julho e inclui diversas visitas a instalações ligadas à área de energia, incluindo energias renováveis. Os participantes do ISEL Energy Week são integrados em cinco equipas que realizam diversas atividades ao longo da semana. Cada equipa tem uma composição mista de professores, colaboradores das empresas parceiras, alunos do secundário e alunos do superior. No último dia será anunciada a equipa vencedora, em função do seu desempenho.

ISEL ALIVE

O ISEL Alive, que vai entrar na sua 7ª edição, é um curso de verão destinado aos jovens do ensino secundário que pretendem escolher uma carreira na área da engenharia. Durante cinco dias é-lhes prestada toda a informação sobre os diversos cursos de engenharia e licenciaturas que o ISEL tem para oferecer: Engenharia Biomédica; Engenharia Civil; Engenharia Eletrónica, Telecomunicações e Computadores; Engenharia Eletrotécnica; Engenharia Informática e Computadores; Engenharia Informática e Multimédia; Engenharia Informática, Redes e Telecomunicações; Engenharia Mecânica; Engenharia Química e Biológica; licenciatura em Matemática Aplicada à Empresa; e licenciatura em Tecnologias de Gestão Municipal.

ALUMNI

Com mais de 50.000 ex-alunos, o ISEL privilegia a proximidade dos seus alumni, reconhecendo a sua importância na divulgação da instituição junto das entidades empregadoras e da sociedade em geral. “O processo de construção não faz sentido sem vocês, os antigos alunos”, sustenta Jorge Mendes de Sousa.

No ano passado teve lugar o primeiro Encontro Alumni ISEL, que promoveu o reencontro de várias gerações de estudantes com o objetivo de estimular uma ligação intergeracional entre os alunos e construir uma visão partilhada sobre as áreas de engenharia.

Aqui foram destacados projetos de alumni de diversas áreas de engenharia que, através do seu desempenho profissional, têm ajudado a prestigiar o nome do ISEL.

“Com a rede de alumni começámos a ter noção da projeção internacional do ISEL”, explica o presidente. u

FIT – Future Internet Technologies

O FIT é uma iniciativa recente e conjunta de docentes do ISEL que partilham o objetivo de dinamizar a inovação e a transferência tecnológica para a sociedade em geral, promovendo as competências técnicas e científicas existentes no ISEL em áreas que refletem a experiência e conhecimento dos seus membros. Destacam-se as competências em cidades inteligentes, internet das coisas, sistemas de transportes inteligentes, comunicações críticas, redes celulares móveis, bem como toda a componente de analítica de dados associada a estas áreas. A iniciativa conta já com um número relevante de parcerias que visam dinamizar projetos de I&DT nas suas áreas de interesse. Brevemente, o ISEL vai assinar um protocolo com a Câmara Municipal de Lisboa (CML) que se traduz na aplicação da Inteligência Artificial, Aprendizagem Automática, Big Data e outros processos aplicados aos dados que surgem de múltiplos sistemas IT internos e externos à CML, permitindo extrair nova informação para suportar o apoio à decisão preditiva em relação a problemas na cidade. Em suma, o objetivo é melhor sentir a cidade, em tempo real, e transformar essa informação ao serviço do cidadão.

Professor Nuno Cruz

“O FIT não é necessariamente um projeto. Poderá ser visto antes como um grande conjunto de projetos que envolveu pessoas de diversos grupos que se juntaram e formaram o FIT. Vieram de áreas diferentes para a criação de projetos de alguma dimensão.

Estamos neste momento a apoiar a Câmara Municipal de Lisboa (CML), que está a construir uma plataforma de cidade inteligente através da sua especificação e validação.

No início, a CML reuniu os requisitos funcionais e nós os requisitos não funcionais, assim como os desafios tecnológicos e boas práticas.

O município de Lisboa pretende com este projeto criar uma monitorização constante do que se passa nas ruas, sem ter ninguém a vigiar (cumprindo as diretivas ligadas à privacidade) e de forma a agir rapidamente perante incidentes. O projeto integra múltiplas fontes de informação, nomeadamente câmaras de vigilância espalhadas pela cidade, onde são automaticamente detetados diferentes tipos de incidentes, e a informação passa a ser gerida numa sala onde estão despachadas as forças e meios de segurança que vão ocorrer ao evento identificado. Neste momento está a ser projetada a sala física onde as equipas permanentes vão “sentir” a cidade.

Na vertente internacional, o FIT também já colabora em projetos que vão testar a aplicabilidade das novas redes 5G aos veículos autónomos, como o 5G-MOBIX e o C-STREETS, assim como criar corredores rodoviários onde a comunicação com veículos e outros intervenientes será possível (V2X).

Exportar conhecimento ao serviço da comunidade é o principal objetivo da equipa FIT. Alunos e docentes são bem-vindos a participar.”

 

Formula Student

A Formula Student é a mais prestigiada competição de engenharia universitária. É disputada anualmente em vários circuitos de Fórmula 1 espalhados por todo o mundo.

Na Formula Student é desenvolvido um veículo monolugar que vai a competição. Existem duas classes, 1 e 2, sendo que na classe 2 o veículo vai a competição em projeto (protótipo), enquanto que na classe 1 a equipa tem de construir o veículo e competir com o mesmo. Para além das provas de verificação das boas práticas de engenharia, existem também provas de teste do veículo. Podem participar veículos a gasolina, elétricos e autónomos.

“Com um excelente desempenho, o primeiro veículo desenvolvido pelos nossos alunos foi de motor de combustão interna. No ano passado foi desenvolvido um veículo de motor elétrico que em 2017, na FSUK e em classe 2, trouxe para casa o prémio de primeiro lugar em Business”, diz-nos Jorge Mendes de Sousa, acrescentando também ter conhecimento de alunos que escolhem formar-se no ISEL devido à atratividade do projeto Formula Student.

“Esta é uma associação sem fins lucrativos, um projeto académico formado por alunos que gostam de automobilismo e com um projeto em comum: construir um carro de competição. Este ano é elétrico e feito a pensar no ambiente.

Esta associação está aberta a qualquer aluno do ISEL que queira participar. Neste momento somos 23, todos de engenharias diferentes e unidos para projetar um carro de competição.

A Formula Student é uma mais-valia porque é um espaço em que a teoria ganha vida e põe os alunos em contacto com o mundo do trabalho. Não existe um horário fixo, aquilo que é pedido é que cada aluno disponibilize um mínimo de cinco horas semanais e que cada um trabalhe quando pode. Esta é uma competição de engenharia e existem júris da área cujo objetivo é aplicar o que se aprende nas aulas e o que é esperado no mundo do trabalho. Este ano, a equipa participará nas competições em Itália e na Alemanha. Há dois anos ganhámos o prémio “Best Business Presentation” no Reino Unido por termos tido uma boa performance na hora de “vender” o nosso carro. Este ano queremos o prémio máximo e é para isso que estamos a trabalhar”.

Evolução cronológica:

2013-2014

Projeto

do IFS01

Projeta-se o primeiro carro da equipa, o IFS01.

O conceito desenvolvido é o de um veículo a combustão que tem como principais características a leveza, fiabilidade e simplicidade.

A equipa participa na competição de Silverstone de 2014 em classe 2, classe de projeto, onde termina em terceiro lugar.

2014-2015

Construção do IFS01

Após o excelente resultado obtido em classe 2 em Silverstone e altamente motivada, a equipa inicia a construção do IFS01.

Nesse ano compete-se com o protótipo em Barcelona, tendo havido uma resposta muito positiva dos júris. O IFS01 destaca-se como o melhor carro de 1.º ano na competição.

2015-2016

IFS01 EVO

O ano é dedicado a implementar melhorias no IFS01 a vários níveis.

Na competição Formula Student Czech Republic 2017 nota-se um desempenho consideravelmente superior do IFS01.

2016-2017

Projeto

do IFS02

É um ano em que a ambição continua a guiar os objetivos coletivos ao projetar-se o primeiro carro elétrico da equipa, o IFS02.

Os objetivos são bastante semelhantes ao do IFS01, focando-se na leveza, fiabilidade e simplicidade.

2017-2018

Construção do IFS02e

Após o excelente resultado obtido em classe 2 em Silverstone e altamente motivada, a equipa inicia a construção do IFS02e.

O protótipo é levado a competição em Barcelona, tendo havido uma importante resposta dos júris.

2018-2019

IFS02e EVO

O ano é dedicado a implementar melhorias no IFS02e a vários níveis.

 

Oficina Digital (ODI)

“Esta é uma oficina onde os alunos podem concretizar projetos mas é sobretudo um espaço de intercâmbio, partilha de conhecimento científico e de engenharia. Temos várias impressoras 3D, em que os alunos imprimem objetos que desenharam, ferramentas manuais, material de eletrónica, tudo num mesmo espaço aberto e acessível para a concretização de projetos e ideias.

Este maker space é dedicado à comunidade MAKER do ISEL e é catalisado pelo professor Tiago Charters Azevedo que é um membro muito ativo nesta comunidade. Os interesses são dos mais variados e vão desde a fabricação digital, à impressão 3D, à robótica eletrónica educativa, robots autónomos e interativos ou computação física.

Neste momento temos uma equipa de dez alunos regulares e professores. Todas as semanas vamos tendo alunos novos. É uma oficina interdisciplinar e é esta interdisciplinariedade, que normalmente não está presente em muitos projetos no ensino superior, a característica e a razão principal da existência da Oficina Digital do ISEL: colaborar e fazer coisas em conjunto podia ser o nosso lema”.

 

Rúben Costa e Silva, Presidente da Direção da AEISEL

Este ano serão assinalados os 20 anos desde a Declaração de Bolonha, que deu início a uma revolução no ensino superior dentro da União Europeia, permitindo quebrar barreiras de mobilidade para os estudantes das instituições da UE e com o objetivo de elevar a competitividade internacional do sistema de ensino europeu. Desde então, foram escassas as alterações levadas a cabo no âmbito de evoluir e reformar o ensino superior na Europa, priorizando investimentos nos demais setores.

O tempo para repensar e reconstruir as metodologias de ensino em Portugal urge, sendo necessárias medidas que se baseiem em novas abordagens e que façam uso das mais recentes tecnologias didáticas. O próprio estreitar de diferenças entre os dois subsistemas públicos, universitário e politécnico, deveria ser um ponto de partida, onde seria importante definir um sistema universitário progressivamente mais ligado à investigação divergindo do politécnico, mais próximo da realidade corporativa. Não incentivar e reforçar estas diferenças, leva-nos a equacionar a existência destes dois subsistemas simultaneamente, dado que, por exemplo, os doutoramentos nos politécnicos já são um assunto de debate.

Recentemente, recebemos a notícia da redução das propinas. Apesar de ser uma notícia que nos animou, deixa a seguinte questão: é mais urgente criar uma maior oportunidade de acesso a um ensino superior desatualizado ou melhorar a sua qualidade para as gerações futuras?

 

Licenciatura em Matemática Aplicada à Tecnologia e à Empresa (LMATE)

Com um desenho inovador, a licenciatura em Matemática Aplicada à Tecnologia e à Empresa (LMATE) conta já com três anos de existência e tem na sua génese a parceria de cerca de duas dezenas de empresas que trabalharam juntamente com a Área Departamental de Matemática do ISEL para a sua constituição. As licenciaturas têm, por norma, pouca interação com as empresas, mas este modelo procura ser diferente. “As empresas foram chamadas para ajudarem a desenhar e a conceber este curso à medida das expectativas e das necessidades do mercado de trabalho”, refere o presidente do ISEL.

Os alunos têm, desde o primeiro ano, seminários onde são apresentados problemas e onde são elucidados para a aplicação da matemática na resolução dos mesmos. Alguns destes problemas são resolvidos nas aulas de disciplinas do curso, enquanto outros são temas de estágio que os alunos poderão vir a escolher, uma vez que a LMATE integra um estágio numa das entidades parceiras no terceiro ano. Os alunos desta licenciatura podem ainda personalizar a sua formação de acordo com a área em que querem trabalhar no futuro, escolhendo as várias disciplinas de opção entre as áreas da matemática, física ou engenharia de acordo com os seus interesses.

Professora Sandra Aleixo

“Este curso surgiu quando era ainda presidente da área departamental e teve origem numa vontade de fazer algo diferente. Começámos por perspetivar o que é que havia no mercado nacional e internacional sobre cursos de matemática que tivessem um diferencial e, dentro da matemática aplicada, vimos que não havia um curso com estágio integrado, ou seja, não havia um curso ligado ao mundo do trabalho e isso deu-nos a ideia de procurarmos as nossas entidades parceiras para perceber o que eles gostariam de ver integrado dentro das disciplinas, para que de algum modo os ajudasse a trabalhar melhor nas suas empresas. Foi este o ponto de partida à estruturação deste curso. Normalmente, os cursos são feitos de dentro da instituição para fora e aqui foi ao contrário. Foi pensado das empresas para dentro da sala de aula, pois o que pretendemos é criar uma maior proximidade com o ambiente de trabalho”.

 

Estudante de LMATE, Inês Rodrigues

“Quando escolhi este curso não tinha a perfeita noção de como ele seria. É mais específico do que esperava, mas está a ser uma experiência muito positiva pela vertente prática que existe e pela ligação estreita às empresas. Com isto sei que vai ser mais fácil ingressar no mundo do trabalho”.

 

Engenharia Biomédica

Com uma licenciatura e mestrado em Engenharia Biomédica, o ISEL visa formar profissionais com competências multidisciplinares em tecnologias de diagnóstico e terapêutica, aptos para uma intervenção em áreas estratégicas do mercado de trabalho da engenharia associadas à medicina e saúde em geral, e oferecer uma formação multidisciplinar e abrangente na área de interface entre a engenharia e a medicina, respetivamente, uma área de crescente procura no mercado nacional e internacional.

A criação faz-se com investigação. Daí ter sido acrescentada a este curso uma forte componente da área de investigação, a aliada do ensino superior, pois este só existe com a investigação, uma vez que somos, simultaneamente, produtores e transmissores de conteúdos.

Com o objetivo de promoção da engenharia biomédica, o ISEL fomentou a instalação de um novo laboratório de investigação e desenvolvimento (I&D) nas áreas de interface engenharia-saúde, o “Laboratório de Engenharia e Saúde (ES)”, no qual se desenvolve investigação com foco na bioengenharia aplicada à medicina.

O laboratório resulta de um protocolo de colaboração entre o Instituto Politécnico de Lisboa e a Universidade Católica Portuguesa (UCP) cujo objetivo principal é servir a sociedade portuguesa através da promoção de investigação em engenharia biomédica. As suas linhas principais de ação resultaram de projetos iniciados na Faculdade de Engenharia da UCP.

O laboratório apresenta infraestruturas e equipamentos para realizar trabalho em engenharia biomolecular (como de engenharia genética), microbiologia e de engenharia de células e de tecidos e análises baseadas em eletroforese (1 e 2D), western-blotting, imunocitoquímica, cromatografia, espectroscopia (VIS, UV, IV, Raman e de fluorescência) e de microscopia ótica, de fluorescência e de infravermelho.

Cecília Calado, coordenadora do Laboratório ES, detém uma vasta experiência em projetos de I&D nacionais e internacionais e procura agora alicerçar o funcionamento do laboratório em mais parcerias, nomeadamente com a indústria farmacêutica, hospitais e outras instituições de saúde, com vista ao desenvolvimento de projetos inovadores na área da engenharia biomédica.

 

Professora Cecília Calado

“A licenciatura em Engenharia Biomédica vem complementar as restantes formações em engenharia do ISEL, promovendo-se uma área com um dos maiores desenvolvimentos tecnológicos e de maior procura de profissionais com formação superior. Por exemplo, o “Bureau of Labor Statistics” dos EUA estima um crescimento médio de procura de engenheiros biomédicos de 23% ao ano no decurso da próxima década. De forma a acompanhar esta evolução tecnológica é fulcral que os docentes associados ao curso sejam também eles promotores de inovação, seja através de investigação seja em colaboração com instituições de saúde. No meu caso, tenho efetuado pesquisa de biomarcadores para apoio ao diagnóstico médico e de desenvolvimento de plataformas de pesquisa de antibióticos e de deteção rápida de resistências a antibióticos. Exemplos de projetos que temos a decorrer no laboratório, em que estão inseridos alunos do mestrado em Engenharia Biomédica e outros de doutoramento, como o Luís Ramalhete, são: pesquisa de biomarcadores em biofluídos, como de sangue ou suor, para prever o estado funcional do rim e identificação de processos de rejeição de transplantes renais; novos métodos de deteção de ativação de linfócitos para imunodiagnósticos e imunoterapias mais eficientes.“

Estudante Filipa Pires

“Sempre gostei da área de biomédica, principalmente da área que engloba células estaminais. Com a licenciatura em Bioquímica queria alargar o conhecimento e o mestrado em Engenharia Biomédica foi a melhor alternativa”.

Estudante Rúben Araújo

“Além de ser estudante do mestrado em Engenharia Biomédica, sou Chair do Student Branch do IEEE-ISEL. O IEEE constitui a maior organização mundial de profissionais técnicos, tendo sido criado o ano passado o student branch do ISEL da EMBS (Engineering in Medicine and Biology Society). Esta associação profissional, também de engenheiros biomédicos, disponibiliza diversos contactos e oportunidades de emprego. É, sem dúvida, uma mais-valia para os estudantes de engenharia biomédica. Pessoalmente, sou licenciado e mestre em engenharia mecânica pelo ISEL, tendo trabalhado brevemente em Portugal como engenheiro mecânico na Siemens. Depois aproveitei uma oportunidade para ir trabalhar na Noruega, mais concretamente na engenharia petrolífera, após uma entrevista no ISEL proporcionada pela rede EURES. No entanto, e embora tenha adorado o trabalho de engenharia, os colegas e condições de trabalho, senti que não estava a acrescentar nada à humanidade e que algo tinha de mudar. Por isso mesmo, acabei por dar outro rumo à minha vida e acabei por aterrar na biomédica, onde finalmente posso trabalhar para o próprio lema do IEEE e “proporcionar o avanço da tecnologia em prol da humanidade”. O meu maior interesse pela biomédica está relacionado com a possibilidade de unir a parte biológica à engenharia, onde os temas de Big Data e de Aprendizagem Automática são os que mais me prendem a atenção”.

 

Licenciatura em Conservação e Reabilitação Urbana (LCRU)

A área de engenharia civil sofreu um duro golpe devido à crise económico-financeira mundial, que teve grandes repercussões na Europa. Sendo o ISEL uma instituição muito ligada à aplicação, também ele sentiu estas repercussões. No entanto, o ISEL soube contornar a situação de forma inteligente e conseguiu olhar com a devida atenção para a emergente área da reabilitação urbana.

A reabilitação urbana é uma área absolutamente incontornável na Europa e esse é, por agora, o verdadeiro desafio ao qual o ISEL quer responder prontamente.

 

Professora Carla Costa

“Em qualquer país cujo património edificado já esteja consolidado, como é o caso dos países europeus, torna-se vital reabilitar. No entanto, atualmente, a necessidade e, sobretudo, a pertinência da reabilitação decorre sob três fatores: por um lado, vivemos num país que já tem um património edificado consolidado e, por outro lado, temos consciência de que necessitamos de uma reabilitação sustentada, dando bastante importância à preservação do património cultural e histórico.

É nessa perspetiva que a reabilitação urbana foi considerada um desafio estratégico e um desígnio nacional.

Com um forte património construído é necessário, agora, mantê-lo. No entanto, reabilitar não é só manter os níveis de funcionalidade, é também adequar aos novos padrões de vida. Os padrões de vida estão a alterar-se de tal forma que precisamos de uma reabilitação adaptada às exigências e necessidades atuais.

Com a expressão do setor de conservação e reabilitação a aumentar significativamente, a perspetiva futura do setor e a empregabilidade são satisfatórias.

O peso significativo das obras de reabilitação no universo da construção nos países europeus, Portugal incluído, está associado: à elevada extensão do parque edificado nestes países, que progressivamente se degrada; às crescentes exigências dos consumidores em termos de conforto, de segurança e de utilização de novas tecnologias; à necessidade de realizar ajustamentos funcionais a novos modos de vida; e à consciência da importância de preservar construções históricas e culturais.

Portanto, o curso LCRU pretende — com base, por um lado, na experiência científica e profissional dos docentes e, por outro lado, dispondo de um plano pragmático com ênfase teórica e prática relevante na inspeção, no diagnóstico, bem como nas patologias de materiais e da construção — preparar profissionais para intervirem especificamente ao nível do parque edificado em meio urbano.

O curso LCRU pretende, também, preparar profissionais com formação superior aptos tanto para enveredarem na atividade ao fim de três anos de curso (seis semestres) no setor da reabilitação urbana como para continuarem os seus estudos de forma a obterem uma maior especialização com a realização de um mestrado na mesma área ou numa área afim”.

 

Centro de Tecnologias e Sistemas (CTS) – Polo ISEL

O CTS é o Centro de Tecnologias e Sistemas que está sediado no UNINOVA – Instituto de Desenvolvimento de Novas Tecnologias. O ISEL constitui, desde 2007, um polo de investigação do CTS, liderado pela professora doutora Manuela Vieira e que conta com oito investigadores integrados e colaboradores que trabalham na área da micro e da optoeletrónica.

Investigação Alessandro Fantoni e Paula Louro

“Somos um grupo de professores e investigadores do ISEL do departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Computadores. Uma das linhas de investigação que desenvolvemos prende-se com a tecnologia Comunicação por Luz Visível (Visible Light Communication, VLC), que utiliza a luz emitida pelas lâmpadas LED para, simultaneamente, iluminar e transmitir informação. Esta tecnologia tem diversas aplicações, tais como serviços de posicionamento e navegação ou controlo de tráfego usando a iluminação LED das infraestruturas e dos veículos. É uma tecnologia muito promissora no domínio das comunicações, prevendo-se a sua inclusão no 5G (5.ª geração de internet móvel). Esta área tem sido desenvolvida no seio do departamento e envolve alunos de doutoramento e mestrado.

Em paralelo, trabalhamos também com dispositivos biomédicos. Em parceria com outras instituições, estamos a trabalhar num projeto para o desenvolvimento de dispositivos sensores que permitam a deteção da doença insuficiência renal aguda.

A divulgação científica é realizada em conferências internacionais com publicação em revistas indexadas. O financiamento provém de projetos nacionais e internacionais em parceria com outras instituições.”

“O trabalho colaborativo é uma vantagem intrínseca do BIM”

De forma a contextualizar o nosso leitor, o que é o Building Information Modelling (BIM)?

O BIM é uma abordagem tecnológica inovadora que está a revolucionar o setor da Arquitetura, Engenharia e Construção (AEC). Consiste em replicar a edificação num modelo digital 3D que centraliza toda a informação – arquitetura, estrutura, redes de água, eletricidade, instalações mecânicas, etc.

Esta inovação permite, pela primeira vez, manter a informação atualizada e acessível, simultaneamente, a todos os participantes no processo (donos de obra, projetistas, empreiteiros, gestores de exploração) e em todas as fases de vida de uma edificação: desde o início do projeto ao planeamento da obra, construção, operação e manutenção.

A que desafios vem responder o BIM e, sobretudo, porque se tornou crucial na Indústria da Arquitetura, Engenharia e Construção?

O imperativo da evolução BIM nasce dos avanços tecnológicos dos últimos anos, de uma maior competição do mercado, das crescentes exigências dos Donos de Obra e das imposições da legislação.

De facto, as metodologias tradicionais vão deixando de dar resposta adequada à evolução do setor; a construção baseia-se ainda em projetos de especialidade distintos, desenvolvidos por entidades diferentes, sequenciais, pouco colaborativos e integrados, e que facilmente apresentam indicações divergentes. Exemplificando, é frequente surgirem incompatibilidades entre estrutura (pilares, vigas) e instalações (canalizações, ar condicionado, etc.).

A integração de toda a informação é uma etapa imprescindível no final do projeto, implicando um considerável consumo de tempo e recursos, e não dispensa a compatibilização dos projetos durante a construção.

A metodologia BIM ultrapassa estes condicionalismos. Recorrendo a softwares interoperacionais e complementares, atuando em processos controlados, possibilita o desenvolvimento sincronizado das várias especialidades, com deteção automática de incompatibilidades (clash-detection), permitindo a rentabilização dos recursos, a redução dos imprevistos e consequentes aumentos de custos e prazos.

O impacto desta metodologia estende-se muito para além da conclusão da obra. O projeto e a construção significam apenas 20% do custo total da vida do edifício, enquanto a sua exploração e manutenção atingem 80%. Um projeto BIM proporciona uma gestão centralizada eficaz, com efetiva redução dos custos de operação.

Estas vantagens tornam a adoção do BIM uma tendência generalizada e uma exigência crescente de Donos de Obra, particularmente em mercados internacionais.

A par dos edifícios eficientes, o trabalho colaborativo é também o foco do BIM. Mas que outras vantagens ou mais-valias, igualmente fulcrais, apresenta o BIM?

O trabalho colaborativo é uma vantagem intrínseca do BIM, pois permite o envolvimento de diversas entidades, ainda que geograficamente dispersas, no projeto; uma mais-valia significativa num mundo cada vez mais especializado e global.

Contudo, a característica fundamental e diferenciadora da metodologia BIM é a centralização de toda a informação num modelo único, validado e em permanente conexão, que abrange todos os intervenientes em todas as fases da vida de uma edificação.

Este modelo fornece acesso seguro a informação atualizada, melhorando a comunicação e gerando uma dinâmica de distribuição de tarefas por equipas altamente especializadas, partilha de experiências, deteção de conflitos e resolução de problemas, que conduz a uma maior eficácia do processo e promove a obtenção de projetos mais funcionais e sustentáveis, com economia de meios.

A utilização de objetos paramétricos/inteligentes, que possuem uma geometria 3D associada a propriedades (modelos, números de série, datas de validade, etc.) e regras específicas, incrementa a automatização e permite a disponibilização de informações essenciais.

Atinge-se, assim, uma otimização da produção – por ex., as peças desenhadas são geradas automaticamente, libertando as equipas para tarefas mais especializadas; a extração de quantidades é possível em qualquer momento; a análise das atividades no espaço e no tempo, face às necessidades de enquadramento, equipamento e aprovisionamento, possibilita uma gestão de obra mais eficaz.

Qual será o futuro do BIM e, principalmente, dos setores onde opera?

O setor AEC é uma das indústrias menos eficientes da atualidade: a maioria dos processos não está automatizada e a generalidade das edificações é um protótipo sem replicação. Numa época em que a gestão de recursos é imperativa, a estandardização inteligente do setor é essencial para garantir a otimização da produção com aumento da qualidade e segurança.

O BIM será certamente protagonista neste cenário. A sua poderosa capacidade de simulação de cenários diversos, de alcançar as soluções mais vantajosas, já a tornam na metodologia state-of-the-art para o setor AEC. As possibilidades de gestão centralizada das construções, através da integração de equipamentos inteligentes, tornarão o BIM na pedra basilar da transformação digital do setor.

Com a experiência de quase um século, de que forma a Teixeira Duarte tem respondido aos desafios da transformação digital na construção?

A Teixeira Duarte, enquanto empresa empenhada na inovação tecnológica, procurou desde sempre integrar as metodologias mais avançadas para garantir a qualidade do seu processo de produção.

A evolução para a digitalização não constituiu exceção, tendo-se consolidado na implementação do BIM a partir de 2016, com a formação específica das equipas, a conceção de procedimentos, o desenvolvimento de projetos e divulgação.

Entre os trabalhos executados pela empresa nesta metodologia contam-se obras públicas e privadas, hospitais, estruturas marítimas e rodoviárias, em diversos países.

Como reconhecimento da sua atividade nesta área, a Teixeira Duarte foi distinguida com o 1º lugar no Prémio de Excelência BIM 2017 na categoria de “Construção e Coordenação”, promovido pela Comissão Técnica BIM Portuguesa (CT 197 – BIM).

Fundada em Portugal, a Teixeira Duarte – Engenharia e Construções, S.A. atua atualmente em que mercados internacionais?

A Teixeira Duarte – Engenharia e Construções, S.A. é uma empresa portuguesa constituída em 1934 com uma estrutura e experiência que remontam ao início de atividade do seu fundador, Eng.º Ricardo Esquível Teixeira Duarte, em 1921.

Atua nas áreas de Geotecnia e Fundações, Reabilitação, Obras Marítimas, Edificações, Infraestruturas, Metalomecânica, Obras Subterrâneas e Obras Ferroviárias, com um total de cerca de 4.000 colaboradores. Para além de Portugal, a empresa está presente em 16 países: Angola, Argélia, Brasil, Colômbia, Equador, Espanha, Estados Unidos da América, França, Gabão, Koweit, Macau, Marrocos, Moçambique, Peru, Reino Unido e Venezuela.

Pioneira na construção e com uma reconhecida capacidade na conceção, inovação, construção e gestão de grandes projetos e empreendimentos, a Teixeira Duarte está a dois anos de festejar o centenário. São cem anos de Teixeira Duarte, são cem anos de…?

… cem anos de Engenho, Verdade e Compromisso, valores estruturantes na conduta dos colaboradores da Teixeira Duarte e que têm permitido à empresa cumprir a sua missão: Fazer, contribuindo para a construção de um mundo melhor.

Qual a importância da Construção no Grupo Teixeira Duarte?

A Construção é a génese e a base do Grupo Teixeira Duarte, sendo a Teixeira Duarte – Engenharia e Construções, S.A. a empresa do Grupo de referência neste setor.

Para além da Teixeira Duarte – Engenharia e Construções existem outras sociedades participadas que operam em áreas específicas, nomeadamente nas obras subterrâneas e ferroviárias.

O constante e sustentado crescimento desta atividade dotaram a Teixeira Duarte de uma capacidade empresarial forte, com meios e recursos que lhe permitiram múltiplos processos de internacionalização e a diversificação da sua atividade a outros setores. Hoje, para além da construção, o grupo atua nas concessões e serviços, imobiliária, hotelaria, distribuição e automóvel, operando em 19 países, em quatro continentes, com a colaboração de mais de 11.000 colaboradores.

Em termos consolidados, a construção representou, em 2018, 58% do volume de negócios do grupo, tendo a atividade desenvolvida nos mercados externos um peso de 73%.

Em termos não consolidados, acrescenta-se que os proveitos operacionais alcançados pelas empresas do grupo no setor da construção em 2018 atingiram o valor global de 636.061 milhares de euros, um aumento de 4,5% face a 2017.

Desafios dos novos paradigmas da mobilidade na integridade estrutural de pontes e viadutos

English version

No sentido de contextualizar o nosso leitor, qual é exatamente a sua função como Consultor em Structural Health Monitoring (SHM) aplicada a pontes e viadutos?

Em primeiro lugar, grato pelo convite para partilhar a minha experiência, opinião e visão numa área – SHM – que é seguramente uma via de futuro para uma maior eficiência na garantia daos requisitos de integridade de uma infraestrutura tão crucial e vital para a mobilidade de todos – i.e. pontes e viadutos. Numa linguagem simples e acessível, de há 15 anos para cá tenho desenvolvido, e aprendido também, num contexto tanto nacional como internacional, como aplicar SHM como ferramenta de apoio à manutenção e gestão de pontes e viadutos, em tudo similar à área da saúde – i.e. desenvolvimento de técnicas de prevenção (i.e., abordagem pró-ativa) em detrimento do tratamento da doença (i.e., abordagem reativa), por exemplo.

Segundo um estudo recente, 90 % das pontes em Portugal encontra-se num estado de conservação entre o razoável e o bom em 2017. Qual o estado atual de pontes e viadutos em Portugal?

Não posso responder a essa pergunta diretamente, pois não estou envolvido como responsável pela gestão deste parque de infraestruturas. No entanto, a minha experiência diz-me que os principais decision-makers em Portugal estão bastante atentos e interessados numa contínua melhoria de processos, nomeadamente em termos de eficiência de recursos. Portugal é internacionalmente reconhecido pelo seus peers, nomeadamente por liderar e/ou participar em projetos inovadores que lhes permita obter mais e melhor informação sobre o real estado da integridade deste importante parque de infraestruturas.

É preciso ter consciência que estamos atualmente a viver uma mudança de ciclo e/ou paradigma. Ou seja, de um país que tem como prioridade a contrução de novas pontes e viadutos, para um país em que a principal prioridade é garantir a integridade das mesmas. Um desafio à escala global, posso dizer.

De que forma é que os novos paradigmas de mobilidade estão relacionados com a saúde estrutural de pontes e viadutos?

De facto, esta pergunta toca num dos pilares fundamentais das técnicas SHM. Dito de outro modo, numa sociedade em que observamos uma dinâmica de mudança de paradigmas cada vez mais rápido e até por vezes imprevisível como podemos nós acompanhar essas mudanças e antecipar as implicações que isso tem na saúde das pessoas? As pontes e viadutos sofrem do mesmo efeito, ainda que numa escala temporal mais lenta, talvez. A mobilidade de hoje em dia não é a mesma de há 50 anos, e daqui a 50 anos não será a mesma de hoje, seguramente. Assim, como podemos nós prever como uma ponte construída há 50 anos (por exemplo) será capaz de dar resposta à mobilidade requerida ao longo dos seus cem anos de vida tendo em conta a evolução tecnológica dos veículos que circulam sobre estas estruturas, nomeadamente (i) cada vez mais inteligentes, (ii) capazes de transportar cargas cada vez mais elevadas e que por conseguinte (iii) afetam as frequências de circulação ao longo do tempo? Deixo a questão em aberto para discussão pública.

No domínio da saúde estrutural de pontes e viadutos, qual a importância da Inovação e das Novas Tecnologias?

As novas tecnologias afetam a sociedade de um modo transversal. É algo inevitável e consequência de um mercado (i.e. as Novas Tecnologias) cada vez mais acessível do ponto de vista de custo. No que diz respeito ao parque de infraestruturas de Engenharia Civil, onde se incluem as pontes e viadutos, está-se atualmente a trabalhar no sentido de as dotar com tecnologias que as tornem mais inteligentes, digamos assim. Ou seja, através da instalação de sistemas sensoriais especificamente desenhados, e suportados em algoritmos dedicados para o processamento da informação recolhida, de modo a permitir obter um conhecimento contínuo, ou pelo menos mais frequente do que o atual, sobre a efetiva integridade estrutural. Ainda que estejamos ainda a trabalhar para atingir o nível de maturidade requerida pelo mercado, é minha convicção que o futuro passará pela implementação de uma nova infraestrutura – sensorial (seja ela de que tipo for) – a qual sustentará uma melhor e mais eficiente priorização das estruturas a intervir, e por consequência um melhor racionamento dos recursos disponíveis.

Não são raros os casos em que quando existe um problema numa infraestrutura em Portugal é quase sempre referido que este problema estava sinalizado e que existia uma conclusão que identifica o(s) problema(s). Acredita que ainda existe uma carência ao nível comunicacional entre quem decide e quem realizar estes estudos e conclusões? É uma lacuna que urge ultrapassar?

É meu entender que esta questão não é exclusiva à problemática aqui em discussão. É transversal e cultural, do meu ponto de vista. Do que conheço noutros países e da experiência que tenho a nível profissional, e até pessoal, trata-se mais como a sociedade se organiza e prioriza o que é mais importante. Resumindo: melhor comunicação entre todos é algo que poderá melhorar, e em muito, a resolução de diversos problemas no nosso país.

A Tragédia de Entre-os-Rios da Ponte Hintze Ribeiro aconteceu há cerca de 17 anos, mais concretamente em março de 2001. De lá para cá, acredita que o cenário melhorou? É possível que algo semelhante volte a acontecer?

Tragédias como a que refere trazem como aspeto construtivo uma maior consciência dos problemas que a sociedade em geral enfrenta. E com isso, evolução nos procedimentos afetos. E como tenho vindo a partilhar ao longo desta entrevista, é minha opinião que há evidência na evolução dos procedimentos afetos à manutenção deste parque de infraestruturas. Quanto à possibilidade de acontecer novamente, é como se me estivesse a perguntar se alguém pode falecer devido a uma doença para a qual existe vacina, metaforicamente falando.

Investigadores do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) alertaram há seis meses o Governo para a necessidade urgente de obras estruturais na Ponte 25 de Abril. Acha que existe um sentido de despreocupação perante as infraestruturas em Portugal como pontes e viadutos?

Não se trata de uma questão de despreocupação, no meu entender, mas sim uma questão de priorização de recursos, pois estes não são infinitos, tendo em conta a gravidade e impacto dos problemas encontrados nestas infraestruturas num contexto socioeconómico. Se é um facto que o LNEC alertou o Governo para a ponte em específico, no meu entender só evidencia que há sentido de responsabilidade e consciência.

Na sua opinião, e no âmbito da integridade destas infraestruturas, Portugal está muito atrasado relativamente a outros congéneres europeus?

Ao longo dos meus 15 anos de carreira profissional, nomeadamente a nível internacional, é meu entender que estamos no grupo da frente na inovação no que diz respeito ao desenvolvimento de novas abordagens e paradigmas que permitam uma melhor e maior eficiência na gestão de infraestruturas de Engenharia Civil.

Isso é facilmente demonstrado pelo envolvimento, tanto das universidades/instituições, como do setor industrial, na investigação e desenvolvimento de novas tecnologias. Basta pesquisar na internet para constatar o que é uma verdade.

Para que exista um nível superior de segurança, é fundamental que haja um maior sentido de parceria entre Universidades e Empresas? Essa ligação é visível atualmente?

A minha carreira profissional sempre assentou entre a academia e a indústria, procurando sempre aprender com as necessidades de mercado porque, no final de contas, quem suporta a minha atividade de investigação são os contribuintes em geral, convém nunca esquecer. É interessante observar que, apesar de em muitos aspetos todos quererem o mesmo, a utilização de vocabulários distintos (i.e., e de um modo simples, a academia com os seus integrais enquanto a indústria com os seus custos) é um entrave a uma comunicação mais efetiva e, por conseguinte, mais profícua. Ainda assim, assisto claramente a um esforço comum, contínuo e até crescente na aproximação e aprendizagem mútua.

As novas gerações de Engenheiros, nomeadamente aqueles com mais sentido de empreendedorismo e inovação, têm contribuído significativamente para que o futuro seja mais cooperativo e sensível às diferentes perspetivas de todos os agentes envolvidos, na problemática da garantia da integridade requerida das nossas pontes e viadutos, numa base custo-benefício para a sociedade em geral.

“Perdoem-me as mulheres, não tenho razão de queixa”

É doutorada em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores, docente na FEUP, investigadora sénior do INESC no Porto e desde 2009, Presidente do Conselho Diretivo do Laboratório Nacional de Energia E Geologia (LNEG). É uma mulher das geociências e das engenharias. O que a fascina nestes dois mundos?

Para completar a minha apresentação devo acrescentar que também fui vice-presidente e presidente em exercício entre 2004 e 2009 do ex-INETI, cujas competências em Energia e Geologia transitaram para o LNEG. Saliento este facto, pois a gestão desta transição foi particularmente exigente.

Sou engenheira e nunca teria a veleidade de dizer que detenho competências nas geociências, mas aprendi muito sobre esta área científica, principalmente a perceber e valorizar a importância das Ciências da Terra. Esta área científica combina de forma sistematizada os conhecimentos da física, da geografia, da matemática, da química e da biologia. É interdisciplinar e produz o conhecimento necessário para um adequado ordenamento do território e para aumentar o conhecimento sobre os recursos geológicos. É uma área pilar para garantir a segurança do cidadão e impulsionar a economia. O LNEG é o Serviço Geológico Nacional e, neste momento, sou presidente dos Serviços Geológicos da Europa, EuroGeoSurveys.

Quais as principais alterações que o cargo de Presidente do LNEG implicaram na sua vida? 

Ter uma vida muito menos presente junto da família, estar mais distante da minha carreira como docente universitária, mas em simultâneo permitir-me um conhecimento alargado e uma maior abertura ao que se passa pelo mundo, principalmente nas nossas áreas de trabalho. Ser mais gestora da investigação do que praticante. Ter um pouco de mundo ajuda na clarividência.

Aprendi a importância de constituir boas redes de trabalho e saber partilhar o conhecimento. A adequada partilha é a base do sucesso.

Tanto a engenharia como a ciência foram campos que sofreram inúmeras mudanças ao longo dos anos. Qual o momento mais desafiante da sua carreira e porquê? 

Transformar o LNEG numa instituição capaz de ombrear com os melhores da Europa e do Mundo. Para isso foi necessário mudar a forma como se faz investigação e mudar mentalidades muito enraizadas. Foi necessário investir na internacionalização através da participação ativa em redes de referência como a European Energy Research Alliance ou os EuroGeoSurveys. Foi fundamental criar novas regras de avaliação da atividade necessariamente alinhada com a missão, quer nacional quer europeia. Só o que medimos existe e tudo que se faz no LNEG implica a estimação do impacto para a sociedade e para as políticas públicas.

Ter papel ativo na Energy Transition de que tanto se fala na Europa e no Mundo, em particular nos países da OCDE, tem sido muito gratificante e demonstrativo de que o LNEG segue a trajetoria correta.

Somos uma instituição repositório de uma enorme quantidade de informação, quer na geologia quer na energia. Tem sido uma preocupação constante trabalhar essa informação de modo a colocá-la em estado de prontidão para as necessidades da sociedade.

Em algum momento do seu percurso profissional, o facto de ser mulher, foi um entrave?

Já tive um episódio, no início da minha carreira, em que o facto de ser jovem e mãe prejudicou abraçar um novo desafio. No entanto, não posso afirmar com segurança que esse caminho fosse melhor do que o que segui mais tarde.

Terão as mulheres de se destacar de forma diferente dos homens para que sejam valorizadas no mundo laboral?

Sempre vivi num mundo predominantemente masculino. Primeiro porque o meu curso era pouco escolhido por mulheres, cuja tendência, apesar de mais atenuada, ainda continua. O meu mundo laboral sempre foi altamente masculino, perdoem-me as mulheres, não tenho razão de queixa.

O que considera necessário para se conseguir construir uma carreira sólida e bem-sucedida?

Observar o mundo à nossa volta. Construir parcerias sólidas e criar as condições para trabalhar em rede.

Ter a humildade e a consciência de que não sabemos tudo, que é preciso apostar no aumento do conhecimento institucional. Investir na aprendizagem permanente principalmente das equipas que nos rodeiam.

Saber ouvir sem preconceitos, mas ter uma enorme perseverança na persecução dos objetivos.

Criar equipas de confiança. Sozinhos não conseguimos chegar, os bons resultados são sempre o fruto de um trabalho de equipa.

Saber delegar e acreditar na capacidade dos outros e ter tolerância ao erro.

Pensar e fazer acontecer

O que a levou a escolher arquitetura como carreira? O que ambicionava na época reflete-se no presente? 

A escolha teve um enquadramento puramente emocional. Foi o contacto com as Rotring e o papel de esquiço, na faculdade de arquitetura Santa Úrsula, no Rio de Janeiro, que me levaram a ver-me neste papel. Anos mais tarde, tive o prazer de trabalhar com a arquiteta, que na altura, era estudante, e me apresentou este mundo. O que me fascinava era a possibilidade de pensar e fazer acontecer. Hoje, continua a ser o que me fascina.

Trabalha na Tecbau, uma empresa de engenharia. Como se dá o cruzamento destes dois mundos? 

Comecei a trabalhar com a Tecbau, antes de fazer parte da equipa Tecbau. Nessa altura, a empresa encontrava-se totalmente organizada para a Construção. De forma natural, as partilhas de knowhow foram surgindo e a relação entre Projeto e Obras (nos investimentos do Grupo), foi-se adensando ao ponto de expandir a área de projeto a investimentos exteriores. Hoje, está totalmente adquirida a dinâmica intrínseca ao fazer arquitetura.

A Tecbau tem sido uma excelente escola ao nível do conhecimento mais aprofundado da dinâmica das obras e do mundo empresarial. Tive a sorte de ter sido convidada para integrar um sistema profundamente vivo, agressivo no que isso tem de estimulante, e, como volátil que é, é a incubadora ideal para novas apostas e novos desafios.

Arquitetos e engenheiros formam equipas multidisciplinares, cujo conhecimento não é possível manter reservado. A partilha tem que ser tanto maior, quanto a complexidade do trabalho. O sucesso de uma obra, será sempre o sucesso da equipa. Há orgulho  e cumplicidade em fazer parte de um projeto em que os níveis de exigência foram elevados, e, consequentemente, obrigaram a muitas horas de entrega. Quem está, faz parte da história.

Quanto mais seguros tecnicamente forem os Arquitetos e os Engenheiros, mais claro está, o limite da intervenção de cada um, e a ideia de que o sucesso do trabalho de um, é o sucesso, dos outros. 

O que mais gosta no seu trabalho? 

O meu trabalho é viciante. Há sempre uma luta pela superação, quer em termos técnicos, quer em termos humanos. Nunca o consegui encarar como um trabalho, mas, antes, como um modo de vida.

Há algum projeto que a tenha marcado de forma especial?

Gosto de desafios. A possibilidade que se abre em cada nova aposta faz-nos vibrar na frequência dos sonhos. Há sempre alguma coisa de alma nova em cada novo trabalho. Todos os projetos obrigam a um envolvimento e, da cabeça para a mão e da mão para a cabeça, levam-nos para um mundo que tem sempre alguma coisa de experimental. Acredito que é necessário manter alguma “ingenuidade” para haver vontade de sair do terreno seguro. Esse pode tornar-se pouco fértil, incapaz de fazer disparar a adrenalina e de empurrar os limites mais para a frente.

Desde o projeto que parece mais insignificante ao que parece mais dignificante, de todos, tenho uma história para contar.

Alguma vez sentiu que lhe foram vedadas metas pelo facto de ser mulher?

Simplesmente não permito. Tenho orgulho em ser mulher.

Não vivo em guerra, mas se tiver que a travar…

Acredito que os lugares se conquistam por competência e por empatia. Há uma mesquinhez associada ao pensamento sexista. Nesse caso, eu nunca seria a escolha, porque não teria admiração por quem arbitrava e, consequentemente, não haveria empatia.

Três coisas que destaca como mais importantes num ambiente laboral:

Empowerment. Honestidade. Lealdade.

A atribuição de poder é o que torna cada indivíduo responsável por si e pelo trabalho que tem a seu cargo. A realização faz milagres ao nível dos resultados. As pessoas tornam-se proativas. O contrário disto, é viver constrangido. Trabalhar só para cumprir, coloca a questão: “Estou a conseguir?”

Não é possível transcendermo-nos se vivermos a medo. Os objetivos têm que estar traçados segundo a coordenação do todo. Depois, cada um, terá que tomar para si, as rédeas do seu trabalho, resolver, criar e acrescentar valor.

Quanto à honestidade e à lealdade são questões de caráter.

Uma pessoa muito capaz em termos humanos tem a possibilidade de vir a ser um excelente profissional, enquanto quem tem algum raquitismo ao nível do desenvolvimento da personalidade, pode até conseguir resultados perfeitos numa determinada altura, mas, no tempo, consegue infetar e secar uma equipa.

Considero-me uma pessoa com sorte, trabalho com uma equipa de luxo.

Pólo de engenharia de polímeros aposta em projetos e networking para desenvolvimento do setor

O PIEP desenvolve a sua atividade em diferentes setores de aplicação que assenta em diferentes tipos tecnologias de processamento. De que competências tecnológicas e científicas falamos? 

O PIEP reúne competências num conjunto alargado de domínios tecnológicos e científicos, nomeadamente, sistemas de base polimérica, engenharia de produto e de processo, processamento de termoplásticos e compósitos e caracterização de materiais, que lhe permitem suportar de forma integrada todos os processos da cadeia de desenvolvimento de produto e de sistemas de diferentes setores de aplicação.

Pode-se mencionar em mais detalhe, o desenvolvimento e otimização de novas formulações de materiais, desde materiais biodegradáveis, nanomateriais e polímeros condutores, o desenvolvimento e design de produtos, e as tecnologias de processamento de polímeros e compósitos. O PIEP possui ainda competências ao nível da caracterização mecânica, térmica, estrutural, reológica, ambiental, químico-física, ótica, morfológica e microestrutural de matérias-primas e de peças em plásticos, que lhe permitem ser um parceiro ativo na resposta ás necessidades mais prementes da indústria.

Transferir conhecimentos para indústrias como a do ambiente, energia transportes, calçado, electrónica e construção, é algo que faz parte de inúmeros projetos dos quais o PIEP faz parte. O que pode ser referido sobre os mesmos?

O PIEP tem desenvolvido a sua atividade em estreita colaboração com as empresas. Em 16 anos de atividade, são vários os exemplos. Gostaria no entanto de mencionar o projeto Hybridtec, o qual teve como objetivo o desenvolvimento de um processo e produto inovador que permitiu oferecer ao mercado uma nova tipologia de componentes injetados, integrando materiais compósitos e insertos metálicos para aumento do reforço e do seu elevado desempenho estrutural. Este projeto possibilitou a obtenção de um demonstrador, estrutura horizontal de um assento automóvel, que apresenta uma redução de peso superior a 41% e um custo de produção inferior 13% em relação aos custos de produção de uma estrutura em alumínio.

O protótipo desenvolvido foi selecionado pela JEC World 2016 para figurar entre as 20 soluções internacionais mais inovadoras a expor no “AUTO Planet”. Sendo o PIEP, quanto sabemos, a primeira entidade nacional a expor na área “Planet” da JEC, ao lado de outras inovações apresentadas pela Lamborghini, Faurecia e BMW, esta presença permitiu reforçar o seu posicionamento enquanto entidade de referência no desenvolvimento de soluções inovadoras com polímeros e compósitos.

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Um dos projetos da instituição é promover a participação de empresas nacionais em projetos de I&DT europeus. De que forma funcionam estas iniciativas? 

Ao nível dos projetos de I&DT europeus, os quais são extremamente competitivos, o PIEP tem assumido um papel ativo na incorporação de empresas nacionais nos consórcios que normalmente integra. A este nível gostaria de destacar o projeto “cTPS – Design of a Crushable TPS for the ERC”, que  foi desenvolvido para a Agência Espacial Europeia (ESA) por um consórcio constituído única e exclusivamente por instituições e empresas nacionais, nomeadamente, a ACC -Amorim Cork Composites, o ISQ e a Critical Materials.

O projeto, para a Agência Espacial Europeia, permitiu ainda demonstrar a capacidade existente a nível nacional nesta matéria, o que será importante para o posicionamento deste consórcio nacional para o futuros desenvolvimentos deste tipo de sistemas.

Na sua opinião, qual é a importância da existência de uma forte rede de contactos internacionais para o desenvolvimento da indústria do setor e da própria Universidade do Minho? 

A rede de contactos e de parcerias internacionais é algo que é extremamente importante para o desenvolvimento do setor dos plásticos e moldes em Portugal e para a própria Universidade do Minho. O PIEP tem vindo a aumentar a sua participação em fóruns e plataformas europeias, como por exemplo a ECP4, o que nos tem permitido aumentar a nossa rede de contactos e parcerias e o reconhecimento por parte das entidades públicas e privadas europeias. 

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Quais diria que são os maiores desafios da Engenharia de Polímeros em Portugal?

Tendo como base a rápida evolução e transformação do setor dos plásticos e moldes e dos seus setores conexos, nomeadamente, automóvel, aeronáutica, espaço e defesa. É extremamente importante que as empresas, os centros de investigação e as universidades, sejam capazes de criar sinergias e competências para poderem acompanhar esta mudança. A transformação digital e a economia circular, faz com tenhamos de pensar em novos materiais, em produtos e processos mais inteligentes e eficientes, o que pressupõem uma nova forma de pensar e de fazer cada vez mais integrada e multissetorial.

Para 2018, que novas iniciativas estão pensadas?

Para 2018, o PIEP pretende alavancar uma iniciativa mais estruturada ao nível da dinamização da  transferência de conhecimento científico e tecnológico na área dos polímeros e compósitos para a indústria e para a sociedade. A esse nível será realizada a promoção, divulgação, disseminação e transferência de conhecimento científico e tecnológico na área dos polímeros e compósitos e o desenvolvimento de demonstradores tecnológicos inovadores com vista à sua valorização económica.

Em Moçambique falta, sobretudo, mais formação

De três empresas e de três sócios, Fernando Gusmão, Raul Bessa e Fernando Pimentel, nasce uma nova entidade empresarial – a GTO. Uma empresa especialista em soluções integradas de Engenharia, atuando principalmente nas áreas de Climatização, Térmica ,Eletrotécnica, Segurança Integrada,Telecomunicações e Luminotécnica (Lighting Design), tanto a nível nacional como internacional.

Fernando Gusmão

Nasceu da vontade de consagrar negócios em Moçambique, atuando localmente. “Procura-se que os trabalhos sejam executados em Moçambique e por isso é que temos uma estrutura local, com profissionais locais. Esta é também uma forma de assegurar uma outra questão muito relevante: a formação. Pretendemos que os profissionais de Moçambique recebam a formação e que, assim, possam desenvolver competências adequadas a práticas inovadoras nas áreas da Engenharia. É óbvio que um jovem país não pode ter a experiência de uma “velha” Europa, mas África está a dar passos significativos quer na área técnica, quer tecnológica. Existe um crescimento mais importante que o científico que por vezes fica esquecido: a evolução das mentalidades. E neste sentido, em Moçambique este desenvolvimento é notório.

A GTO assume-se como entidade que quer marcar presença em África, não simplesmente através de uma perspetiva financeira mas também como uma filosofia pedagógica: “Damos muita importância à questão pedagógica. É nosso objetivo ter colaboradores, localmente, que saibam fazer as coisas. Desta forma esperamos desenvolver uma filosofia no sentido de ensinar para que no futuro sejam eles a fazer tudo sozinhos e, deste modo, tornarmo-nos parceiros”.

Moçambique – Um país à espera de aprender

Fernando Pimentel

Quando está em Moçambique, Fernando Gusmão, é muitas vezes convidado a participar em colóquios nas universidades e afirma que os moçambicanos são pessoas que querem absorver toda a informação que lhes é transmitida: “As pessoas gostam de ouvir as novidades, que os europeus, lhes levam. Novos conceitos, novas formas de olhar para as coisas; são pessoas extremamente recetivas. Por isso, consideramos que a questão de intercâmbio entre estudantes e técnicos seria algo precioso. Moçambique é um país incrível, com pessoas também elas incríveis, dispostas a aprender, no entanto, seria necessário criar condições às empresas para que elas possam conceber projetos de intercâmbio para troca de conhecimentos. Tal poderia dar-se através de criação de bolsas, por exemplo, através de protocolos entre o governo e as empresas. É preciso incentivar e premiar as empresas que estão a querer despender  tempo para formação”.

“Já temos planeado trazer moçambicanos para cá, para aprenderem connosco. Apesar de terem uma sede enorme de conhecimento, não têm ao seu dispor os recursos necessários”.

Por isso, o nosso interlocutor mostra-se a favor da criação de mecanismos para que os jovens moçambicanos venham para Portugal ou que técnicos experientes vão para Moçambique, no entanto, alerta que seriam precisos protocolos entre universidades, governo e empresas. 

“Transmitir conhecimentos”

Foi numa perspetiva de oferecer o que sabem que decidiram constituir a GTO em Moçambique, segundo FG e FP declaram que: “Desde o início que o objetivo passou por levar – além da formação – algo mais criativo e sustentável. Temos conseguido angariar grandes projetos como a iluminação do edifício sede do BCI; Complexo de edifícios do Banco de Moçambique; o edifício Platinum; o edifício Sal & Caldeira; o complexo de edifícios JAT 6; a remodelação do Hotel Polana Mar, entre outros… é aí que somos diferentes. Para além de toda a nossa filosofia e modo de olhar as coisas é algo que queremos perpetuar. A questão da sustentabilidade é de extrema importância”.

“As pessoas são a peça mais importante do negócio”

Teresa Ferreira juntou-se à GMV em 2004 e hoje é Diretora de Espaço na GMV Portugal. Este percurso corresponde ao que expectava?

Estava longe de imaginar! Em 2004 integrei uma PME a dar os primeiros passos na área de Espaço. Com a entrada do grupo GMV passei a integrar uma equipa maior e onde a partilha de ideias e conhecimento tinha (e tem) um lugar de destaque. O caminho até aqui acabou por acontecer com bastante naturalidade.

Como descreveria as três etapas pelas quais já passou neste Grupo?

1) Trabalhar numa PME ambiciosa. Portugal estava a formar uma indústria espacial com a entrada na ESA em 2000 e por isso tudo era muito novo e dinâmico. Ao fim de alguns meses, estava a apresentar um dos nossos produtos na Workshop mais relevante da área de Navegação por Satélite da Agência Espacial Europeia.

2) A entrada do grupo GMV que colocou as nossas atividades num patamar global. Integrada numa equipa de centenas de técnicos de excelência com uma cultura muito sedimentada de colaboração e inovação. Orgulho-me de ter trabalhado com algumas das pessoas mais brilhantes que já conheci. Comecei a coordenar equipas, a especializar-me e tive oportunidade de trocar ideias com os principais especialistas mundiais na área.

3) Assumir o papel de diretora de Espaço onde muito do meu empenho passa por trazer desafios cada vez mais aliciantes, que são a razão principal pela qual voltamos todos os dias. As pessoas são a peça mais importante do negócio e o sucesso da GMV assenta na excelência técnica e numa comunicação fluída entre as equipas internacionais. Outro aspeto fundamental é a consolidação da nossa liderança em Portugal e o posicionamento de referência a nível mundial.

Há cada vez mais mulheres na liderança de empresas portuguesas. No final de 2016, as mulheres ocupavam já cerca de 28,6% dos cargos de liderança. No entanto, a desigualdade de género ainda é um assunto a debater. Em algum momento esta foi uma realidade para si?

Na área da Engenharia o número de mulheres é muito reduzido desde a escolaridade; quando entrei no IST éramos menos de 10% dos alunos do curso. Hoje há mais mulheres em cursos de Engenharia e penso que a igualdade de género já se vai avistando ao fim do túnel.

Ainda esta semana, na Nova Zelândia, um apresentador de televisão questionou a líder do partido trabalhista sobre a maternidade, dizendo que os neozelandeses tinham o direito de saber se ao escolherem o primeiro-ministro essa pessoa pode ausentar-se devido à licença de maternidade. A sociedade está preparada para ter mulheres em cargos de liderança?

Acredito que sim e eu sou um exemplo disso. Fui promovida precisamente quando estava em licença de maternidade e, embora esta não seja a regra em todo o lado, penso que enquanto sociedade estamos a caminhar no sentido de aceitar cada vez mais mulheres em cargos de liderança.

A GMV foi uma das empresas convidadas do encontro Ciência’17, um evento anual que reúne a comunidade científica e tecnologia Portuguesa. No âmbito da discussão sobre a Estratégia Nacional Espacial 2030, participou na sessão Portugal Espacial 2030: Satélites, Antenas e Lançadores. É fácil uma mulher conseguir ter voz neste setor dominado, maioritariamente, por homens?

Em Portugal a GMV é um dos atores principais na área de Espaço e consequentemente uma voz importante nestes debates públicos. A indústria de Espaço em Portugal é muito jovem, tendo praticamente nascido com a entrada de Portugal na ESA, no início do século. Pela minha experiência posso dizer que o ambiente é positivo e o debate de ideias flui naturalmente.

Quem é Teresa Ferreira? Como surgiu este gosto pela tecnologia e engenharia relacionadas com o Espaço?

Sou uma mulher apaixonada pelo que faço e muito feliz por durante o dia ter a cabeça no espaço e à noite os pés bem assentes na terra junto da minha família. O meu gosto esteve sempre ligado à matemática e à física e de achar fascinante como conseguiam explicar fenómenos que nem sequer víamos! A partir daí acabei por estudar ondas eletromagnéticas, processamento de sinal e aterrei no maravilhoso mundo da navegação por satélite! O Espaço tem um efeito inspirador que move gerações e representa hoje a força da multidisciplinaridade, nações a trabalhar em conjunto para conseguir atingir objetivos cada vez mais ambiciosos e, acima de tudo, o retorno para a sociedade num infindável número de aplicações e serviços relacionados com saúde, lazer, segurança marítima, migrações, gestão florestal, entre tantos outros.

SERVIÇOS DE A-Z

Constituída em 2002 com o propósito de prestar serviços na área da Engenharia – Construção Civil, que balanço é possível fazer da presença da ANGULORASO no mercado português?

O balanço é muito positivo para a Anguloraso Portugal. A ARPT (Anguloraso Portugal) nasce da vontade de fazer Engenharia com valor acrescentado para os nossos clientes, focada na área de projetos, fiscalização de obra e project management. Ao longo dos últimos anos a empresa sofreu uma grande reestruturação que nos permite hoje ser uma empresa mais competitiva e com uma qualidade técnica acima da média. Desde logo a AR foi criada com o pensamento no mercado global. Portugal é um país pequeno, mas com uma capacidade produtiva (qualidade e quantidade) que pode competir no mercado global. Somos uma empresa portuguesa com orgulho no que se faz em Portugal. Mas hoje em dia não podemos viver exclusivamente de um mercado.

A ANGULORASO tem uma presença igualmente forte no mercado internacional, sobretudo no mercado africano. Que principais carências são percetíveis no setor da construção civil nestes dois mercados?

A AR tem um conselho consultivo e no qual foi elaborado um plano de negócios a médio prazo 2016-2018. A expansão para mercados da CPLP foi algo normal e de rápida execução. Com especial foco em Angola e Moçambique.

Mas o nosso plano de desenvolvimento para a AR passa por ser uma das empresas de Engenharia do mercado “East Africa”. Para tal não podemos estar focados unicamente em mercados de língua portuguesa. A AR ao longo dos últimos 24 meses moldou a forma de trabalhar da empresa. Foi elaborado um plano de marketing e um plano de formação para estes novos mercados de língua inglesa.

A legislação nestes mercados é completamente diferente da regulamentação portuguesa o que criou a necessidade de formação de todos os colaboradores. Elaboração de documentação técnica, caracterização dos mercados onde já estamos presentes, etc.

É um trabalho árduo, mas que hoje podemos olhar para trás e já se encontra consolidado, com a empresa a atuar em pleno no Quénia e na Zâmbia. O mercado africano é acima de tudo um mercado muito carente e com um potencial altíssimo para uma empresa como a nossa que aposta na produção de serviços de qualidade. Carente de boas infra-estruturas – rede energética, comunicações, serviços, etc. Mas é um mercado cada vez mais aberto para o mundo e com noção do que existe de melhor e com elevada procura para serviços de melhor qualidade. A chave de sucesso para o mercado africano é a presença física (vive muito da empatia pessoal num primeiro passo), a educação (respeito pelas questões culturais e étnicas) e, claro, da qualidade. A AR é diferente, pois aposta na formação de técnicos locais com um plano de formação.

Com o objetivo de apoiar a gestão de projetos, proporcionando custos de produção mais baixos e prazos de execução mais curtos, a ANGULORASO tem assumido um papel de relevo neste ramo da engenharia. Que serviços disponibiliza a empresa aos seus clientes?

ANGULORASO por definição é um angulo de 180º. O que pretendemos demonstrar com o nosso nome e logo é que podemos ajudar de A-Z. Em todos os passos de um projeto. Desde a identificação do projeto, localização, terreno, estudo de viabilidade, projetos, concurso, contrato, fiscalização, período de garantia e fecho de contas. Para tal os nossos procedimentos internos foram definidos de acordo com as normas FIDIC. Possuímos uma forma de trabalhar muita aberta e envolvemos os nossos clientes com relatórios técnicos simples e partilha de informação da obra “on real time” através de Dropbox e/ou Google Drive.

Em qualquer país de atuação temos a preocupação de estudar a legislação nacional e adaptar a nossa forma de trabalhar sem nunca baixar o padrão de qualidade de serviço que pretendemos para a empresa. Somos membros de diversas organizações nacionais e internacionais (ver site para todas elas) e possuímos seguro internacional de cobertura global (exceto USA e Canadá).

Desenvolvimento humano e competência apresentam-se como valores fulcrais para a ANGULORASO. A par destes aspetos qual é a linha orientadora da empresa?

FORMAÇÃO. A AR é diferente pois aposta na formação:

Interna – dos nossos técnicos locais com um plano de formação que nos permite orgulhosamente “gladiar” com qualquer empresa internacional. Quando um colaborador entra na empresa tem sempre um período de formação mínima de 30 dias, sendo depois direcionado para projeto ou fiscalização de obra. Após este período é atribuído um formador para as questões básicas do dia-a-dia. E nada é feito individualmente, trabalhamos todos em equipa.

Externa – A AR está sempre à procura de inovação e melhoria dos nossos serviços. Com a realização de formações adequadas com a nossa área de atividade. Neste ano de 2016 foram realizadas diversas ações de formação na área de estruturas de madeiras e metálicas, gás, “green building construction”, REVIT, AVAC, etc.

O fator inovação assume cada vez mais uma posição central em qualquer atividade. De que forma a ANGULORASO diferencia-se dos demais no campo da inovação?

A AR está atenta às necessidades dos nossos clientes e à evolução do mercado. Na AR a inovação está de braços dados com a formação. Assim nos últimos anos temos feito um investimento muito grande em software específico que permite melhorar e optimizar os nossos processos. A decisão mais importante este ano foi a definição pelo conselho que o REVIT – Autodesk Revit is building information modeling software for architects, structural engineers, MEP engineers, designers and contractors developed by Autodes – (plataforma de trabalho de desenho integrado em 3D) é o futuro da empresa e da atividade de projeto globalmente. Migrando do atual sistema 2D para o 3D.

“GOSTO DO QUE FAÇO, É A MINHA PAIXÃO”

Formada em Engenharia Cerâmica e do Vidro e doutorada em Ciência e Engenharia de Materiais, Paula Vilarinho é uma profissional reconhecida na sua área, nacional e internacionalmente. É presidente da Sociedade Portuguesa de Materiais (SPM), professora na Universidade de Aveiro e Investigadora do Laboratório Associado, Centro de Investigação em Materiais Cerâmicos e Compósitos (CICECO). Por que valores se pautam a sua vida pessoal e profissional em prol deste complexo currículo?

Há valores que estão presentes na minha vida que me foram transmitidos pelos meus pais e alguns excelentes educadores, e que, claramente, determinam o meu comportamento pessoal e profissional. Ética, caráter, dignidade, honestidade, honra, frontalidade, transparência, responsabilidade e comprometimento, são alguns dos valores com que me identifico e, pelos quais luto diariamente.

Do ponto de vista profissional há uns quantos outros aspetos comportamentais que julgo regerem o meu desempenho.

Para além de uma alguma “hiperactividade”, acho que muito do que faço se associa a uma certa Ingenuidade, pois acredito que posso contribuir para ajudar “a mudar o mundo”. Nas minhas atividades talvez haja também alguma ousadia, gosto pela diferença e mudança; na verdade sinto-me estimulada pelo desafio. Dizem que sou uma obcecada por tudo quanto faço, mas eu acho que é mais paixão, pois de uma forma geral gosto muitíssimo do que faço.

Está entre as cientistas mais importantes do mundo na área dos materiais cerâmicos, sendo considerada uma das cem mulheres do mundo que mais e melhor contribuíram para o desenvolvimento internacional desta engenharia, de acordo com o livro “Inspirational Profiles of Successful Women: Ceramic and Glass Scientists and Engineers”, escrito por Lynnette D. Madsen, diretora do programa em Cerâmicos da National Science Foundation dos EUA. O que significa esta distinção para si?

Uma enorme honra.

Considero que qualquer distinção é sempre um ato honroso, já que destaca alguém pelo seu contributo numa determinada área e circunstância. É sempre excelente e altamente motivador ver o nosso esforço e dedicação reconhecidos.

Esta distinção reveste-se para mim de relevância maior por diferentes razões.

Trata-se de um reconhecimento totalmente imparcial vindo de uma comunidade à qual não estou diretamente ligada e que tem origem num pais onde atualmente se desenvolvem as atividades de investigação e desenvolvimento de maior excelência e impacto mundial, os Estados Unidos da América.

É um reconhecimento oriundo num pais que pratica e preconiza a meritocracia, ou seja, promove a excelência, valoriza a diferença e promove com base no mérito; valores estes nos quais acredito, e pelos quais tento pautar a minha vida e transmitir aos que me rodeiam; mas infelizmente “escondidos” ou “esquecidos” no nosso país e na carreira científica.

Este reconhecimento é ainda importante, porque me permite transmitir às mulheres cientistas e profissionais de engenharia portuguesas mais novas, que a excelência, ética e dedicação, mesmo no feminino, acabam por ser reconhecidas.

Esta distinção é também um reconhecimento para o país e para a Universidade de Aveiro. Como está a engenharia e o desenvolvimento da ciência em Portugal?

Embora me considere do ponto de vista profissional uma cidadã do mundo, sou portuguesa. Fiz toda a minha carreira associada à Universidade de Aveiro e foi esta Universidade que contribuiu para o que sou hoje como cientista e potenciou o meu desempenho. Deste modo, qualquer distinção profissional, que me seja atribuída, será também, no meu entendimento, uma distinção para a Universidade de Aveiro. O mesmo se aplica ao pais, claro está.

Sou Engenheira de formação de base. E se há coisas em que acredito, uma delas é que não há desenvolvimento sem Engenharia. Assim sendo, do meu ponto de vista, o Futuro da Engenharia é brilhante. E Portugal não deverá escapar a este Futuro. Portugal tem uma reconhecida tradição em Engenharia, a nível de formação e prática, na qual se apoiam as grandes e médias empresas de Portugal. Portugal tem excelentes escolas de Engenharia, formando profissionais a exercerem em algumas das maiores empresas do Mundo. No entanto, por razões várias, a profissão de Engenharia não está a ter na sociedade o devido reconhecimento. É sobejamente reconhecido que a escolha por parte de estudantes do ensino secundário das áreas das ciências exatas, cruciais na formação de um Engenheiro, não são, atualmente, suficientemente atrativas. Mas há um outro aspeto a ser considerado (para além da educação em Engenharia) e que tem a ver com a necessidade de “evolução” da indústria nacional para indústrias mais avançadas e com base em tecnologia de ponta. Julgo que a “quantidade” e a “qualidade” de tecnologias desenvolvidas, com base na investigação científica permitirá potenciar esta transformação da indústria nacional; aqui os atores de geração de conhecimento e tecnologia têm um papel fundamental. Há inúmeras iniciativas neste sentido no país, que estão a dar os seus frutos, com um número cada vez maior de “start ups” criadas; mas, mais uma vez, uma congregação de esforços e uma estratégia definida, independente do poder político, poderá ajudar a “Engenharia Portuguesa” a não perder este Futuro.

Apesar de considerar que o Futuro da Engenharia é brilhante e com enorme potencial económico, é também claro que num mundo global a competição é feroz e há alguns mais bem posicionados do que outros para colherem os melhores frutos. Tendo isto em consideração e as vantagens da pequena dimensão do nosso pais, julgo que a definição de estratégias a longo prazo, claras, e independentes do poder político (mas com ele concertado), ajudarão a modernizar a Engenharia (no sentido lato) e a Indústria nacional, tornando-a mais competitiva a nível mundial. Aqui há sem dúvida um grande desafio para organizações como a Ordem dos Engenheiros, a Sociedade Portuguesa de Materiais (SPM) e outras idênticas, para serem motores desta mudança e garante dos interesses dos profissionais de Engenharia. Por estas razões e por acreditar que organismos como a Sociedade Portuguesa de Materiais (SPM) podem contribuir e têm mesmo responsabilidades desta natureza que aceitei o desafio de presidir esta Sociedade.

A Ciência Portuguesa (como a conhecemos hoje) é relativamente jovem e o seu grande “boom” ocorreu a partir dos anos 80. Os resultados da política de investimento em ciência são bem visíveis. A Ciência Portuguesa é hoje reconhecida internacionalmente à luz dos mais altos standards de excelência científica internacional. Contudo, para preservar e promover estes standards, e potenciar o investimento que tem sido feito, é fundamental, do meu ponto de vista, manter-se o investimento na ciência, definir, implementar e cumprir estratégias (de acordo com os interesses nacionais) e acima de tudo promover a excelência.

O livro destaca uma centena de mulheres cujos percursos profissionais na área dos materiais cerâmicos e de vida constituem uma inspiração e um exemplo a seguir. É uma líder. E é mulher. Alguma vez sentiu que o seu trabalho não foi devidamente valorizado pelo facto de ser mulher?

Esta é uma questão complicada, na medida em que a descriminação, qualquer que ela seja, pode ser muito difícil de quantificar. Para mim a questão torna-se ainda difícil quando intrinsecamente acredito, que do ponto de vista profissional, Homem e Mulher, são iguais e a sua complementaridade leva a resultados excelentes. No entanto, não é bem esta a realidade. E esta realidade têm-se tornado cada vez mais óbvia à medida que as minhas responsabilidades profissionais têm vindo a aumentar.

Sinto-me muito bem em ser Mulher e uma Mulher na área da Engenharia e Ciência de Materiais. Mais do que o facto de ser Mulher, penso que é principalmente o meu carácter e a minha personalidade que têm definido a minha carreira profissional.

No entanto, julgo que mesmo no século XXI ser uma Mulher trabalhadora continua a ser um desafio. Apesar deste assunto da paridade de géneros, associada às diferenças sociais entre Homens e Mulheres, ser secular, a verdade é que a igualdade de sexos não existe. Numa base competitiva sinto que nós Mulheres temos que desempenhar de uma forma geral muito melhor do que os Homens, para, eventualmente, sermos consideradas identicamente capazes.

Acredito que sim, que existem “Boys Clubs”, caso contrário qual seria a necessidade das medidas auto intituladas de “descriminação positiva”? Embora considere que esta medida é em si uma verdadeira descriminação, espero sinceramente que ajude a provar que nós Mulheres somos perfeitamente capazes de assumir qualquer lugar de liderança, tal como os Homens, contrariamente a muitas convicções antigas.

Nós Mulheres trabalhadoras, cometemos inconscientemente erros que ajudam a sabotar as nossas carreiras. Somos muitas vezes muito mais criticas de nós próprias do que o necessário e temos dificuldade em assumir os créditos quando é devido. Estas “auto-sabotagens” impedem muitas Mulheres de alcançarem os seus objetivos profissionais. Por outro lado, e como provado em estudos científicos, a ausência de “role models” femininos, necessários para a construção de uma identidade, tem sido considerada uma das maiores barreiras para a paridade de género a nível de liderança [Ruth H.V. Sealy and Val Singh, The importance of role models and demographic context for senior women’s work identity development, International Journal of Management Reviews, 2009].

No que diz respeito à Ciência, Mulheres e Homens têm papéis idênticos. O envolvimento das Mulheres na ciência é antigo, mas muitas vezes não devidamente reconhecido. Considero que as Mulheres na Ciência e na Engenharia têm ainda um papel e uma responsabilidade adicional de provar as competências das Mulheres.

Decidiu seguir e apostar numa carreira de investigação na área de materiais. A engenharia ainda é considerada um mundo só (de) para homens?

Sim, não há duvida que há ramos da Engenharia que continuam maioritariamente masculinos. Apesar de haver cada vez mais mulheres em profissões tradicionalmente consideradas masculinas, a Engenharia continua a ser uma área do domínio masculino. No entanto, dentro da Engenharia existem áreas mais masculinas do que outras. Materiais, a minha área de conhecimento, envolve já um número razoável de profissionais femininas.

Além de presidente da Sociedade Portuguesa de Materiais e professora da Universidade de Aveiro acumula outras funções de liderança que conjuga diariamente com os papéis que assume naturalmente enquanto mulher. É fácil fazer esta gestão da vida profissional com a vida pessoal?

Não, de forma alguma é fácil.

Esta dificuldade em gerir profissão e vida privada é válida para Homens e Mulheres, apesar de que, numa sociedade em que há tradicionalmente atividades familiares, que são quase exclusivamente do foro feminino, esta dificuldade é agravada. No entanto, há quem o faça melhor e quem o faça pior. Conheço Mulheres, por quem nutro admiração, que são excepcionais nesta área.

No que me diz respeito, há um sentimento, quase constante, de culpa que assiste os meus dias: ou a família ou o trabalho estão ser desconsiderados. Mas para além deste sentimento, uma incapacidade quase nata de usar o “poder do não” e uma constante necessidade de atividade, torna esta gestão ainda mais difícil. Mas ao longo do tempo tenho aprendido a viver com estas “pressões” e tento cada vez mais seguir algumas regras (fáceis de identificar e difíceis de implementar), e que distinguem alguns dos que, com carreiras idênticas à minha, são excelentes. A auto disciplina é fundamental. A capacidade de definir prioridades, de distinguir o que é essencial do que é urgente, e de entender que de forma alguma é possível agradar a todos, ajudam muitíssimo. A minha experiência também me diz que a definição de objetivos a longo prazo, juntamente com a capacidade de adaptação à mudança e a persistência, também ajudam na gestão do dia à dia.

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