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A lingerie sexy não é só para gente magra

Se ao olharem para mulheres como Ashley, que do alto das suas coxas possantes, peito volumoso e olhar que transpira autoconfiança só lhes ocorre dizerem barbaridades como as que servem de arranque a este texto, não me admira realmente que haja por aí tantas mulheres e miúdas com vergonha dos próprios corpos. A esconde-los debaixo de roupas largas, como se mostrar os contornos de um rabo volumoso fosse um crime nacional. A terem vergonha de usar um biquíni, não vá alguém apontar o dedo àquele refego que teima em localizar-se na cintura por mais saladas que se coma. A taparem-se dos pés à cabeça nos balneários do ginásios, como se a sua imagem corporal pudesse suscitar o olhar reprovador de alguém. A acharem que não há nada como o inverno, para que as camisolas escondam a gordurinha dos braços e das coxas mais maciças. As mesmas que estes senhores aparentemente consideram nojentas. Lingerie? Meu deus, um corpo acima do 42 aparentemente não é digno dela. Os estereótipos de beleza, sob os quais as mulheres dos tempos de hoje vivem escravizadas, assim o dizem sem pudor há décadas. Na televisão, no cinema, nas revistas, nos catálogos de moda, na publicidade e – pasme-se – até mesmo nos desenhos animados.

Posto isto, é muito refrescante ver que a própria indústria da moda começa a perceber a necessidade urgente de quebrar estes mesmos estereótipos. E a aceitar nas suas mais importantes passarelas mulheres que extrapolam a rigidez das medidas corporais supostamente perfeitas. Ashley Graham, 29 anos, mais uma vez surge como embaixadora deste elogio à diversidade.

Profissional da indústria plus size com uma carreira invejável, Ashley já fez campanhas para marcas como Levi’s, Calvin Klein e Marina Rinaldi, além de ter sido fotografada para revistas como a Elle UK, a Vogue ou a Harper’s Bazaar. Não só é uma empreendedora por excelência, como é também uma ativista ferrenha na luta contra o ‘body shaming’ (espreitem a sua interessante participação nas TED Talks, intitulada “Plus Size? More Like my Size!”) e um símbolo de aceitação para mulheres de todo o mundo. Como é que o consegue? Tendo como eterno lema a seguinte frase: “A autoconfiança é algo muito sexy”.

No seu Instagram, Ashley Graham deixou clara a sua intenção com este desfile: “Estou tão orgulhosa do quão longe a minha linha de lingerie para a Addition Elle conseguiu chegar! Mostrá-la pelo segundo ano consecutivo na Semana da Moda de Nova Iorque é um sonho tornado realidade! Para qualquer menina ou mulher que alguma vez sentiu que não estava a ser representada pela moda, televisão ou pelos media por causa do seu tamanho, agora estão e vão estar para sempre!”. Finalmente. E que o exemplo se vá repetindo.

A linha de lingerie que criou para a Addition Elle e que foi apresentada em Nova Iorque é linda. Elegante, sensual e, sim, grande. Mas é isso que a torna mais ou menos sexy? Não me parece. Recorrendo às palavras que Ashley Graham usou para a descrever, esta linha de lingerie é “uma forma de celebrar as mulheres”. E a verdade é que uma larguíssima percentagem das mulheres deste planeta aproxima-se mais dos 96-96-116 de Graham do que dos famigerados 86-60-86. Ao contrário do que o senhor responsável pela primeira frase do texto acha – e que pelo que tenho lido é uma opinião partilhada por muita gente – elogiar corpos volumosos e curvilíneos não é fazer um elogio à obesidade (se calhar também está na altura de começar a perceber a diferença entre excesso de peso e obesidade), nem muitos menos um apelo a uma saúde desleixada. Que não se confunda nem se deturpe a mensagem. É sim um elogio à diversidade e à aceitação corporal, seja ela qual for. Porque não há nada mais ambíguo do que isto da beleza.

Mulheres com força de “homem”

Os estereótipos de género são um bom exemplo de como estes auxiliares do pensamento são simplificações da realidade que não podem ser levadas demasiado a sério. Em termos abstratos o feminino e masculino tendem a ser representados como duas entidades completamente distintas, até opostas. Associamos determinadas características físicas, psicológicas e até intelectuais a mulheres e outras completamente diferentes a homens. As mulheres são mais sensíveis, os homens mais autoritários. As mulheres gostam mais de novelas, já os homens de futebol. As mulheres interessam-se mais por moda e os homens por automóveis. Todos nós conseguimos identificar as características que são associadas a umas e outros, independentemente de concordarmos com essa divisão…

Ana é uma mulher com braços de ferro. Nunca trabalhou fora de casa, mas também não encaixa no estereótipo da dondoca. Vive numa grande casa que faz questão de manter a brilhar e para além disso tem a seu cargo ou participa em muitas tarefas fisicamente exigentes. Rachar lenha, matar animais, amassar grandes quantidades de farinha e preparar o forno para cozer o pão são algumas delas. Digamos que a Ana não precisa de um homem para lhe abrir o frasco de doce, a Ana é a pessoa a quem podemos pedir para o abrir quando não o conseguimos fazer.

Quando penso na maior parte dos homens que conheço ou com quem me cruzo no meu dia-a-dia, seja no trabalho, no supermercado ou entre o meu grupo de amigos mais chegados, não vejo muitos que conseguissem ganhar um braço de ferro à Ana. Alguns não conseguem abrir o frasco de compota hermeticamente fechado há anos.

Os estereótipos são como um desenho grosseirão de uma criança de poucos anos. Conseguimos perceber que está lá uma casa, o sol, as nuvens, mas os tamanhos, as formas, as cores não são reais. Muitas vezes têm elementos ficcionados, como uma porta no meio de uma parede, um animal que não existe.

A realidade é bem mais complexa e matizada do que os estereótipos que a representam. A Ana é real. A Ana é uma mulher.

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