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Mãe e filho combatem cancro ao mesmo tempo

Mãe e filho, de Cheshire, estão a submeter-se a tratamentos de quimioterapia ao mesmo tempo e embora estejam a tentar manter-se positivos, Amanda confessa que ambos estão receosos.

“Brincamos e dizemos piadas sobre estarmos carecas e questionamos qual de nós fica melhor”, conta, citada pelo Mirror, referindo que a situação é, contudo, “muito assustadora”.

Abraham foi diagnosticado com dois tipos de cancro no sangue duas semanas depois de a mãe o ter levado ao hospital a pensar que tinha uma gripe. Seis semanas depois, os médicos diagnosticaram dois caroços no peito da mulher.

Amanda, que vive com os dois filhos. revela que está ciente de que a situação do filho é pior e teme o que posa acontecer.

Amigos e família estão a angariar fundos para conseguir suportar as despesas com os tratamentos.

Pais estudantes passam a ter direitos legais

O diploma aprovado na Assembleia da República a 09 de junho resulta de projetos de lei do Bloco de Esquerda, PCP e PAN e visa melhorar as condições de igualdade para mães e pais estudantes, alterando a lei de 2001 que determina os apoios sociais a pais estudantes, com o objetivo de prevenir o insucesso e abandono escolares.

Ao abrigo desta lei, as mães e pais estudantes gozam de um regime especial de faltas, consideradas justificadas, para prestar assistência, em caso de doença ou acidente, a filho menos de 12 anos ou, independentemente da idade, a filho com deficiência ou doença crónica, bem como durante todo o período de eventual hospitalização.

O Governo fica com a responsabilidade de verificar o cumprimento da aplicação deste diploma por parte das escolas e instituições de ensino superior público assim como de proceder ao levantamento do número de alunos que beneficiam dos direitos.

O diploma determina ainda que o Governo deve elaborar um relatório sobre a realidade da gravidez precoce e da gravidez em jovens estudantes assim como estudar e implementar medidas de apoio social que garantam os necessários apoios económicos e sociais para que mães e pais prossigam os seus estudos.

Majora põe nas prateleiras jogos clássicos

Reavivar a infância e ensinar aos mais novos estes jogos são o objetivo da marca no ano do seu 77º aniversário.

Recorde os clássicos :

O Sabichão, mítico feiticeiro de 54 anos, regressa para crianças a partir dos sete anos, acompanhado de uma turma de sete amigos e novas temáticas: a Dina Sara, a dinossaura que adora animais, o Nelson Frederico, o desportista, o Professor Chronos III que cheira a mofo e sabe tudo sobre História, a Luzia que se perde entre Descobertas e Invenções, o cientista H2Óscar que domina tudo o que é relacionado com Ciência da Natureza e Geografia, a extraterrestre Carolina que vai guiar os mais novos pelos Astros e Exploração Espacial e Simão, o cão do Sabichão, de uma raça pouco habitual que sabe tudo sobre música.

Já o Ludo traz Malabaristas, Domadores, Mágicos e Palhaços, um verdadeiro circo, e o Jogo da Glória é uma autêntica selva conduzida pela zebra Glória.

Voltam as cartas para que se reaprenda a jogar a Paciência, o Peixinho, a Sueca e cartas temáticas de Anedotas e Adivinhas que são uma forma original para todos se divertirem com a cultura popular. Ainda no segmento de cartas os Gases e o Plof Presentes apelam ao sentido de humor, prometem muitas horas de riso e podem ser levadas para qualquer lugar.

Nas novidades de tabuleiro a Majora apresenta jogos de família desconhecidos até agora em Portugal, o Top That dedicado à magia, o Levanta-te ou Senta-teque promove a cultura geral e envolve uma componente ativa, o jogo de estratégia e de noção espacial Brix cujo objetivo é alinhar X’s e 0’s num jogo que desafia as equipas a acertar no máximo de respostas em tempo limite através da nomeação de categorias, como “coisas que voam” ou “instrumentos de sopro”.

A vertente educativa continua a estar presente na oferta da Majora para as crianças a partir dos três anos com o regresso das letras, dos números, das sílabas em formato em 3D e a novidade Eco Hero, o jogo desenvolvido em parceria com a Sociedade Ponto Verde que promove a consciência ambiental dos mais pequenos.

Os jogos Majora encontram-se à venda nos locais habituais e nos quiosques da marca nos centros comerciais Amoreiras, Cascais Shopping, Colombo e Norte Shopping e na loja online.

Governo português averigua processos que resultaram no retiro de filhos aos pais no Reino Unido

A representante da plataforma de advogados que está a apoiar as mães portuguesas confirma que cada caso será avaliado em particular.

Ao contrário do que se passa em Portugal, no Reino Unido é possível  que se retire os filhos do seio familiar pelo receio do que possa vir a acontecer no futuro.

Pais autoritários criam filhos mentirosos

‘As crianças não mentem’ é uma daquelas verdades que damos como absolutas se nos quisermos enganar a nós próprios. Claro que mentem, sobretudo quando fazem algum disparate e não querem ser descobertas. Mas há umas que mentem mais do que outras: as que recebem uma educação autoritária e inflexível na imposição de regras.

Esta é a grande novidade do mais recente estudo conduzido pela canadiana Victoria Talwar, uma especialista na matéria que coleciona inúmeras investigações na área do desenvolvimento cognitivo das crianças. Já se sabia que elas mentem desde os dois anos e por vários motivos, como aponta o psicólogo infantil Mário Cordeiro neste artigo, mas a professora da Universidade McGill, em Montreal, veio agora relacionar a frequência das mentiras com o ambiente mais ou menos rígido em que são educadas. Em casa ou na escola, quanto mais regras os pais e os professores definirem e mais punições impuserem a filhos e alunos quando eles não as cumprem, maior é a tendência para criarem um mentiroso.

Um novo método da equipa de investigadores de Talwar para medir a honestidade das crianças consiste em fazê-las adivinhar qual o objeto que faz determinado som sem olharem para ele. Após duas ou três tentativas de resposta fácil, o teste chega a um ponto em que é impossível associar um som mais estranho a qualquer objeto. Então os investigadores arranjam uma desculpa para saírem da sala e, ao regressarem, insistem na questão: “Qual é o objeto que faz este som?”. E acrescentam outra: “Espreitaste?”

Victoria Talwar fez a experiência em duas escolas africanas, uma com um regime disciplinar mais autoritário e focado na obediência às regras, outra com menos obrigações e castigos. E os resultados do jogo da espreitadela, como lhe chamam, foram bastante conclusivos: enquanto na segunda escola a percentagem de crianças que mentiram, ao dizerem que não tinham espreitado o objeto, ficou em linha com a média de outros estudos do género, na primeira a quantidade de mentirosos disparou.

A explicação avançada é bem simples e lógica: as crianças mentem mais ao sentirem a ameaça de uma punição. É uma espécie de reação em legítima defesa.

Embora moralmente condenável, a habilidade para mentir também tem o seu lado positivo. As crianças que desenvolvem essa capacidade tendem a tornar-se mais inteligentes e bem-sucedidas. E, como ficou demonstrado neste estudo de Kang Lee, da Universidade de Toronto, quanto mais cedo começarem a fintar a verdade, melhor.

O nome do pai

morangos não escolhem onde nascem. Se escolhessem, talvez a história de Rainer tivesse perdido alguma da sua ironia. E o jardim com piscina dos seus avós, tratado com zelo por 30 jardineiros, perdesse para os que ali passaram a infância parte do seu encanto. Os morangos cresciam livremente junto à sebe e eram arrancados e devorados pelos cinco irmãos da casa, num ritual diário em que a mãe lhes dirigia sempre o mesmo aviso: que lavassem os frutos com cuidado para remover qualquer vestígio de cinzas. Nenhum deles parecia importar-se com a enorme chaminé do forno crematório que, a escassos 200 metros, emoldurava o lado direito do jardim. Ou com a pacatez do cenário bucólico no qual acordavam todos os dias — conhecido por Auschwitz, a maior fábrica de morte da Alemanha nazi.

“Auschwitz é para mim o equivalente à casa dos meus avós”, diz Rainer Höss. Já lá esteve 28 vezes, com estudantes e amigos ou para participar nas comemorações do campo. E sente sempre a mesma coisa, o mesmo arrepio inconsolável. Desenvolveu comportamentos repetitivos, como começar a visita pelo mesmo sítio — a forca, onde o brutal comandante Rudolf Höss, seu avô, morreu em 1947 após o julgamento em Nuremberga. Ou como não tocar em absolutamente nada, nem sequer para abrir uma porta. “Se estiver frente a um dos blocos, espero que alguém saia para entrar. Não quero ter nenhuma ligação com o meu avô. Os seus crimes estão inscritos em todas as paredes.”

Como os morangos, Rainer não escolheu a família onde nasceu. Nem Rainer nem outros descendentes da elite nazi. Portadores de apelidos que de imediato relacionamos com o horror, a deles é a história de uma herança sinistra e silenciada. Sobreviveram ao seu nome sabendo que tal não é comparável a sobreviver a um campo de extermínio. E essa diferença radical determinou com frequência os seus percursos. Não é por acaso que Katrin Himmler estudou ciência política e se casou com um judeu, que Niklas Frank leva no casaco a fotografia do pai morto, que Bettina Göring decidiu esterilizar-se, que Rainer Höss se tornou ativista a tempo inteiro contra a extrema-direita, e que Horst von Wächter definiu como missão de vida limpar o nome do pai. O Expresso falou com eles, reconstruindo as suas histórias.

Rainer Höss cresceu a pensar no avô Rudolf como herói de guerra e soldado exemplar. Quem primeiro lhe passou esta imagem foi a avó Hedwig, para quem o marido se limitou a obedecer a ordens — ainda que comandasse a vida dentro do campo e fosse responsável pela construção de Birkenau, que decidisse o ritmo dos gaseamentos, que selecionasse quem viveria e quem não, e quem passaria a ser um dos 50 construtores judeus da sua própria villa com piscina. “Ela perdeu o paraíso em Auschwitz, e a pergunta assustadora é: se aos olhos da minha avó aquilo era o paraíso, como seria o inferno para ela?” A infância de Rainer foi dominada por esta mulher “fria e agressiva”, que em nada fazia lembrar uma avó. Que era incapaz de cozinhar — “tudo o que cozinhava era hediondo” — e que em 1984, na última vez que se viram, disse ao único neto que teria sido melhor se a mãe o tivesse abortado.

Até se suicidar em 1989, Hedwig negou que Auschwitz fosse um campo de extermínio, embora o forno crematório fosse visível do seu jardim. Teve cinco filhos e o quarto, Hans-Jurgen, pai de Rainer, tornou-se um pai abusivo. Batia no filho e na mulher, que tentou acabar com a vida numa dezena de ocasiões e só soube a origem familiar do marido três anos depois de se casarem. Quanto a Rainer, percebeu cedo qual era o seu lugar. Aos dez anos, pediu autorização ao pai para participar num jantar de Pesaj [Páscoa judia] a convite do melhor amigo. “Fiz o ritual de sempre: pus-me à frente dele, com as mãos atrás das costas, à espera de poder falar. Quando o fiz, ele saltou da cadeira, partiu-me o nariz e trancou-me no quarto. Eu não fazia ideia do que tinha acontecido, mas era normal e não pensei no assunto. À noite ele apareceu ainda furioso e disse-me: ‘não tens permissão para falar com lixo judeu’.”

 EM cima, Rainer Höss, neto de Rudolf Höss, comandante de Auschwitz. Em baixo, o casal Höss com os filhos (o rapaz mais novo junto a Rudolf Höss é o pai de Rainer); e a villa da família em pleno campo de concentração, de onde se vê o forno crematório

EM cima, Rainer Höss, neto de Rudolf Höss, comandante de Auschwitz. Em baixo, o casal Höss com os filhos (o rapaz mais novo junto a Rudolf Höss é o pai de Rainer); e a villa da família em pleno campo de concentração, de onde se vê o forno crematório

D.R.

ARQUIVO RAINER HÖSS

Dois anos depois, já a viver num colégio interno, um professor apercebeu-se da cegueira na qual estava a ser criado e levou-o a Dachau, onde o avô tinha trabalhado antes da guerra. Era a primeira vez que tomava contacto com um campo de concentração — “na minha juventude não era comum falar-se da II Guerra Mundial”. Ficou surpreendido ao encontrar uma placa com o seu apelido, o que o levou a questionar o pai sobre o assunto. A explicação que recebeu foi um amontoado de mentiras: onde se lia Höss devia ler-se Hess, tratava-se de um engano lamentável, ele até escrevera uma carta a reclamar. Passado algum tempo, viu na estante um livro sobre o comandante Höss que continha o mesmo ‘erro’. “As crianças acreditam no que os pais dizem. Pensei: meu Deus, escreveram de novo mal o nome! Tirei-o para verificar isso e o meu pai saiu disparado do escritório, agarrou-me na mão e proibiu-me de o ler.”

Mas Rainer leu o livro — intitulado “Eu, Comandante de Auschwitz”, nada menos do que a autobiografia escrita por Rudolf Höss na cadeia. Devorou-o em poucos dias aproveitando uma viagem de negócios do pai. No final, soube com uma certeza irrevogável que devia sair de casa. “Era a única hipótese para mim, a única possibilidade. Sei que neste contexto é horrível de se dizer, mas eu sobrevivi a esta família”, desabafa Rainer, de 51 anos. Mudou-se para o colégio onde já começara o treino como cozinheiro, andou ano e meio revoltado e submerso em drogas e álcool, até outro professor lhe estender a mão. O seu “mentor”, como gosta de lhe chamar — também produto da loucura nazi, nascido num Lebensborn, casas onde se promovia a fecundação de bebés de perfil ‘ariano’ —, que o ajudou “a sair desse ciclo” e a começar a consultar arquivos para perceber melhor o significado do seu nome.

DO ÓDIO À COMPAIXÃO

Fugir foi também o caminho que Bettina Göring escolheu aos 13 anos. A sobrinha-neta de Hermann Göring não suportou as consequências de viver na família do fundador da Gestapo, a quem Hitler nomeou seu sucessor. O homem que, após a morte prematura do irmão mais velho, tomou conta do pai de Bettina e era por ele adorado e admirado. “Hermann tornou-se um pai para o meu pai e um padrinho que tomava conta de todos, os enchia de presentes, os convidava para o seu castelo e lhes resolvia todos os problemas”, afiança. Mas o pior, o que desencadeou a rebelião sem retorno foi o facto de a avó paterna se mudar lá para casa e de insistir em negar o Holocausto. Um dia, a televisão emitiu um documentário sobre o tema e a avó, ex-dirigente da Cruz Vermelha que participara no embelezamento do campo de Theresiendstadt para estrangeiro ver, apressou-se a afirmar que era tudo mentira. Bettina e o irmão ficaram chocados, ingressando num longo túnel de perguntas até então não respondidas.

Reparação. Bettina Göring (em cima) forçou-se a deixar de odiar. Em baixo, pormenor de um álbum com a fotografia dos três sobrinhos de Hermann Göring. O rapaz à esquerda na foto é Heinz, pai de Bettina, que “adorava” o tio Hermann

Reparação. Bettina Göring (em cima) forçou-se a deixar de odiar. Em baixo, pormenor de um álbum com a fotografia dos três sobrinhos de Hermann Göring. O rapaz à esquerda na foto é Heinz, pai de Bettina, que “adorava” o tio Hermann

D.R.

ARQUIVO DE BETTINA GÖRING

Aos 13 anos, Bettina não estava em condições de perceber o que hoje lhe parece evidente: que sendo Göring, o pai Heinz e o avô Karl “não tiveram grande escolha” a não ser aceitar um destino militar. “Tive uma grande discussão com o meu pai, em que o acusei de pertencer a esta família e de nunca ter feito nada certo. Ele ficou mesmo zangado e, se nunca antes me tinha batido, fê-lo pela primeira vez. E eu devolvi o gesto. Havia tanta coisa não dita, tanta coisa explosiva, que não consegui aguentar.” Saiu de casa, foi viver para a comunidade de Osho, na Índia, e depois passou vinte anos anos em Santa Fé, no Novo México — sempre a lutar contra o seu apelido, “um fardo que gostava de não ter de carregar”. A dada altura, decidiu que o lugar do ódio tinha de ser ocupado por “alguma compaixão” e forçou-se a olhar para a família de outro modo. Deixou de acusar o pai de perpetrador: “Ele era demasiado jovem para isso.” Quanto a Hermann, mantém que era “um psicopata obcecado pelo poder e a riqueza”. E ficou estarrecida ao saber que o tio-avô tinha apoiado sem reservas a “Solução Final”.

Teve essa revelação em 2008, enquanto participava no documentário “Bloodlines”. Nele, fala-se da sua amizade com Ruth Rich, uma judia alemã cujos pais polacos sobreviveram à guerra, e da forma como cada uma embateu contra a herança da outra. Foi também durante esse processo que Bettina compreendeu melhor a opção por se esterilizar, que fizera aos 30 anos. Percebeu que a falta de vontade de ter filhos afinal não estava desligada da pertença a uma linhagem que “quis cortar”. Ela, que pratica a medicina alternativa, que recentemente trocou Santa Fé pela Tailândia, e que se parece fisicamente com o seu tio-avô Göring, é hoje uma mulher apaziguada. Uma mulher de quase 60 anos para quem a sua missão é “falar”, contar a sua história, contá-la para que o mundo não esqueça.

CONTRARIAR A HERANÇA

Para Katrin Himmler, o mais difícil foi contar a sua história ao próprio filho. Fruto do casamento — entretanto acabado — com um judeu cuja família escapou da Polónia nos anos 30 refugiando-se no que hoje é Israel, o rapaz teria sido exterminado sem escrúpulo pelo tio-avô da mãe, Heinrich Himmler. O Reichführer das SS de 1929 até ao fim da guerra, ideólogo dos Einsatzgruppen [esquadrões de morte] e o homem por trás dos campos de extermínio era um profundo antissemita e a sua afinidade com Hitler muito mais do que política ou de cariz oportunista. Katrin não contou ao filho de 16 anos tudo de uma vez, mas nunca fez segredo acerca do passado. “Não foi tão duro como imaginara. Eu estava a fazer o ‘trabalho sujo’, a pesquisar os segredos familiares. E agora que estão escritos já não há lugar para a especulação. Por outras palavras, aquele era um problema meu, que resolvi, nunca foi um problema dele. E ele pode ir atrás dos seus próprios interesses.”

Investigar. Este foi o destino de Katrin Himmler, sobrinha-neta de Heinrich Himmler, que se casou com um judeu e hoje vive em Berlim

Investigar. Este foi o destino de Katrin Himmler, sobrinha-neta de Heinrich Himmler, que se casou com um judeu e hoje vive em Berlim

D.R.

Investigar foi sempre o caminho de Katrin Himmler, de 49 anos, que na juventude temia que as pessoas reconhecessem o seu nome — o que raras vezes aconteceu. Após um curso de fisioterapia, alterou o rumo doutorando-se em ciência política na Universidade Livre de Berlim. Porque se a família nunca escondeu quem era o tio Heinrich, outros eram os dados enterrados. Por exemplo, a filiação do seu próprio avô Ernst no partido nacional-socialista e nas SS, e com ele a de outros membros do clã Himmler, que descobriu ao indagar nos arquivos federais a pedido do pai. Tais revelações levaram-na a escrever, em 2005, o livro “The Himmler Brothers”, primeiro resultado de uma pesquisa que se prolonga até hoje. Mas a surpresa de ter um avô abertamente nazi não se compara ao embaraço que lhe provocou desvendar a afinidade da avó com aquele ideário. Katrin amava essa avó, que morreu ainda ela era adolescente. “Temos a imagem de que as mulheres não tinham poder dentro do partido e que só os homens eram passíveis de culpa. E este foi o argumento delas depois de 1945: sempre disseram, e toda a gente acreditou, que eram donas de casa a tomar conta dos filhos. Mas isto não é verdade. A minha avó não era membro do partido mas votou a favor e lucrou imenso com isso. E no pós-guerra manteve contacto com ex-criminosos nazis.”

Os Himmler nunca perdoaram a Katrin por estender a sua investigação além da figura de Heinrich, em quem depositavam toda a responsabilidade. Queriam manter a ilusão, diz ela, de que o resto da família estava “limpa” de nazismo. Por razões diferentes, Gudrun, a própria filha de Himmler, ativista de extrema-direita que em 1952 ajudou a erguer a Wiking-Jugend [sucedânea da Juventude Hitleriana], deixou de lhe falar. E não o fará tão cedo. Há dois anos, Katrin publicou “Correspondência de Heinrich Himmler” (acabado de traduzir pela Bertrand), com as cartas que o nazi escreveu à mulher desde 1927. Nas entrelinhas de assuntos quotidianos e banais, como a descrição de uma paisagem com uma “vista magnífica” ou a preocupação pela saúde intestinal de Madga, estas vão dando conta de uma guerra com “vitórias admiráveis”. Deixam entrever que ele era muito mais próximo de Hitler do que se pensava e que empreenderam longas e produtivas viagens juntos.

O contrário aconteceu a Hans Frank. Chegou a ser advogado pessoal de Hitler e mais tarde governador-geral da Polónia ocupada, mas nunca fez parte do seu círculo íntimo. “Hitler colocou-o nessa posição porque conhecia a sua lealdade canina e sabia que jamais seria um obstáculo aos seus planos na Polónia. Na verdade, Hitler desprezava-o”, diz Niklas Frank, de 77 anos,filho mais novo do dirigente nazi e o único dos entrevistados com quem o Expresso falou pessoalmente, em Lisboa, no passado mês de março, no âmbito do Festival Judaica. Niklas nasceu em 1939, o ano em que o pai foi destacado para a Polónia, e cresceu com os cinco irmãos entre o Castelo de Wawel, em Cracóvia, e a residência familiar na Baviera. “Desde cedo soube que era filho de um homem muito poderoso e que podia fazer o que quisesse. Com o meu pequeno cat car, acelerava e batia nas pernas dos crescidos. E eles não podiam apanhar-me porque eu era o príncipe do castelo.”

UMA PALAVRA QUE NÃO EXISTE

Das suas memórias faz parte uma ida ao gueto de Cracóvia, onde a mãe costumava comprar artigos como algodão, sedas “e coisas caras”. Ela própria fixava os preços e os judeus aceitavam por acharem que podiam ser salvos. Niklas observava a cena da janela do carro, e a dado momento deitou a língua de fora a um rapaz. “Era mais velho do que eu e foi-se embora tristemente, e eu senti-me triunfante. Dei uma grande gargalhada mas a minha ama, Ilde, mandou-me calar.” Noutra ocasião, lembra-se de ser por ela levado a um campo de concentração e de aí haver um burro a saltar desgovernado. E de se rir muito com a cena, enquanto Ilde se divertia junto a um dos guardas, malgrado a multidão em condições degradantes que se divisava ao longe. Recordações como esta ainda lhe doem, mas ‘dor’ talvez não seja o sentimento que acompanhou Niklas ao longo da vida. O termo exato nem sequer existe, é algo que está “no meio de duas palavras: vergonha e culpa”. “Não há um dia em que não pense nas vítimas. Toda a minha vida tem sido assim.”

O grau de submissão do pai ao Führer ainda o assombra. Em 1942, Hans Frank apaixonou-se por uma amiga de infância e pediu à mãe de Niklas o divórcio, que não só lho negou como escreveu uma carta a Hitler solicitando sua intervenção. Hitler assim fez, proibindo-o de se divorciar até ao fim da guerra. “E o meu pai obedeceu. Podia ter dito que não ou tentado explicar a sua posição, mas era um cobarde.” Era igualmente um “mentiroso compulsivo” e o filho jamais perdoaria que ainda o fosse na última tarde em que se encontraram. “Eu tinha sete anos, sabia o que estava a acontecer em Nuremberga. A minha mãe tinha o rádio sempre ligado e o próprio advogado do pai tinha vindo a casa dizer que seria executado, que as provas eram avassaladoras. A ultima vez que o vi, eu estava sentado ao colo da minha mãe e ele atrás da janela da prisão, com soldados a rodeá-lo. E em vez de se despedir de mim disse: ‘Nikki, daqui a pouco vamos festejar o Natal em casa.’ Foi a minha última desilusão.”

Silência. Niklas Frank, em cima, contrariou-o sempre e escreveu três livros, todos sobre a herança do pai. Em baixo (à esquerda), em criança com os pais. Em baixo (à direita), Hans Frank a participar numa reunião com Hitler

Silência. Niklas Frank, em cima, contrariou-o sempre e escreveu três livros, todos sobre a herança do pai. Em baixo (à esquerda), em criança com os pais. Em baixo (à direita), Hans Frank a participar numa reunião com Hitler

ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

ARQUIVO DE NIKLAS FRANK

Niklas estudou direito, literatura alemã, sociologia, mas acabou por ser jornalista. Trabalhou 22 anos para a revista “Stern” e foi repórter de guerra durante mais dez. “Tive uma vida feliz e divertida, nunca deixei que o meu pai a estragasse. E sou o avô mais ridículo que se possa imaginar”, diz. Porém, no bolso de um dos casacos guarda sempre a foto do pai recém-enforcado, deitado sobre um lençol. Pormenor que pode parecer macabro a quem desconhece a sua ironia agreste e a tendência para o humor negro. Leva essa foto para se lembrar de que está mesmo morto e porque o pai, que só superficialmente confessou arrependimento em Nuremberga, parece estar a sorrir. “Agora deve estar a sorrir imenso com a subida da direita na Alemanha”, remata.

No extremo oposto de todos os exemplos aqui descritos está o de Horst von Wächter. Niklas conhece-o bem — filmaram juntos o documentário “What Our Fathers Did: A Nazi Legacy”, realizado por David Evans em 2015, onde também participa o advogado de direitos humanos Philippe Sands. Quarto dos seis filhos de Otto Wächter, Horst quase não teve contacto com o pai, em 1939 nomeado governador do distrito de Cracóvia e em 1942 da Galícia ucraniana, sob a alçada de Hans Frank. No filme, vemos Niklas repudiar a herança paterna enquanto Horst a engrandece, vendo no pai um herói, um ‘bom nazi’ que não era antissemita nem teve nada que ver com a expulsão de 68 mil judeus de Cracóvia ou com o assassínio de milhares de judeus ucranianos na floresta próxima de Lwiw.

Conseguir o depoimento de Horst, hoje com 77 anos, foi tarefa de meses. Finalmente, aceitou receber uma lista de perguntas do Expresso, cujas respostas mostraram em pleno as suas contradições. Admitiu ter sido criado como uma criança nazi “que enfrentou a derrota”. Contou que passou a maior parte da guerra numa casa da Áustria rural, junto ao lago Zell, onde dava “caminhadas pacíficas” a despeito das bombas dos aliados. Que o fim da guerra significou para ele a perda do lar. Para defender o pai, Horst faz questão de distinguir os dois sistemas de governo estabelecidos por Hitler, o civil e o policial, afirmando que Otto só fazia parte do primeiro — não obstante pertencer às SS. Era sobretudo responsável “pelas áreas da habitação e do trabalho, e não pelo extermínio dos judeus”. Himmler convidou-o a trocar a Ucrânia por Viena mas não aceitou “porque jamais teria abandonado esse povo para salvar a própria pele”. Simon Wiesenthal, que atestou tê-lo visto na estação de comboios de Lwiw a prender judeus, “na realidade confundiu-o com Fritz Kratzmann, que usava o mesmo uniforme”. Se não tivesse fugido para o Vaticano — onde morreu em 1949 — Otto nunca teria tido um julgamento justo. “Teria sido entregue a Estaline à espera, no melhor dos casos, de um julgamento-espetáculo em Lwiw ou mesmo em Moscovo”.

Horst define-se como inseguro e instável, e diz que só encontrou sossego ao trabalhar como assistente do artista austríaco — e judeu — Hundertwasser. Depois, fez da limpeza do nome do pai um objetivo de vida, para o qual afirma ter coligido vários documentos que provam a sua inocência, os mais cabais encontrados recentemente nos arquivos do Vaticano, em Roma, pela historiadora polaca Magdalena Ogórek: “Como filho, tenho o dever de retificar as coisas.” A isto somou a “obsessão” pelo estudo das Sagradas Escrituras hebraicas e a escolha de uma existência isolada no castelo que habita junto da mulher — “cuja estrutura reproduz os princípios do Templo de Salomão em Jerusalém”. O devaneio do seu discurso ancora-se, porém, num raciocínio de forte substrato ideológico: “Tudo o que diz respeito à II Guerra Mundial se tornou cada vez mais abusivo e afinal parece que cada austríaco vivo tem pelo menos um antepassado criminoso. Isto tem vindo a ser rejeitado como falso pela maioria da população.”

A CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO

A questão da herança nazi está longe de ser pacífica ou linear. É um chão escorregadio que nem todos querem pisar, com medo de derrapar para sempre no poço sem fundo onde Rainer, Niklas, Bettina e Katrin aprenderam a viver. É uma “conspiração do silêncio”, como a jornalista Alexandra Senfft, ela própria neta do nazi Hanns Ludin, explicou ao Expresso. A escrever sobre esta temática há mais de uma década, para ela a atenção nos descendentes da elite nazi “concentra a responsabilidade nos decisores em vez de analisar a atitude geral das pessoas comuns e perceber porque se tornaram fanáticas ou assassinas”. Muitos líderes nazis, sublinha, voltaram aos seus empregos, calando o seu envolvimento no Holocausto. “A sociedade tolerou-os porque a maioria tinha alguma coisa a esconder e da qual se sentir envergonhada ou culpada. Não houve qualquer conversa sobre o passado e, se houve, a guerra foi descrita de forma a que os alemães fossem vistos como vítimas — que também foram — e não como perpetradores.” Nos anos 60, as tentativas de os jovens quebrarem o silêncio não produziram efeito, “porque de novo os pais se sentiram acusados, defendendo-se com o silêncio ou a negação”.

Vir a público com a própria história é, para Alexandra, “um ato político”. Um ato que, nos anos 80, o psicólogo israelita Dan Bar-On teve de forçar na sua procura de testemunhos para o livro “Legacy of Silence”, pioneiro no assunto. Na introdução à edição de 2003, Bar-On relatou a sua chegada à Alemanha e a sensação de “não haver léxico para nomear esse passado”, tratado como um segredo temido e temível que mais valia não perturbar. Katrin Himmler acrescenta ainda a diferença abissal entre a atitude coletiva e a privada do povo alemão no que toca à II Guerra: “A Alemanha lidou com o seu passado furiosamente. Temos memoriais por toda a parte — eu vivo em Berlim e não posso avançar dois passos sem tropeçar num. As pessoas sabem muito sobre a época nazi mas não fazem ideia de como lidar com ela dentro das suas casas.” Mesmo quando o tema deixa de ser tabu, “ouvem-se as histórias dos bombardeamentos, em que as pessoas perderam tudo ou tiveram de fugir. Não se ouve falar de quem lucrou com o nazismo, de quem teve privilégios, ou se calou ou colaborou.”

Horst von Wächter quer limpar o nome do pai, Otto Wächter, que considera um ‘bom nazi’ e alvo de difamação histórica

Horst von Wächter quer limpar o nome do pai, Otto Wächter, que considera um ‘bom nazi’ e alvo de difamação histórica

FOTO SNIEZKA

“Este é um dos grandes erros do povo alemão”, concorda Niklas. “A grande maioria dos alemães não teve pessoalmente nada que ver com as mortes, mas como alemães deveriam saber, ou querer saber, o que os pais, avós e bisavós fizeram.” Ele, que em 1987 escreveu “In the Shadow of the Reich” para quebrar esse ciclo, contou desde cedo à filha quem foi e o que fez o seu avô Hans Frank. Também Rainer Höss seguiu a mesma via. Os quatro filhos adultos tiveram acesso à pesquisa que ele iniciara aos 20 anos, e que nos últimos 15 se tornou o centro da sua atividade. Ser ativista antinazi e contra o extremismo a tempo inteiro foi uma decisão tomada a quente, no rescaldo de um ataque cardíaco, da qual não se arrependeu. “Senti que era um sinal para eu mudar alguma coisa e fazer algo que realmente me importasse”. Vendeu o seu negócio e hoje organiza atividades e debates em 60 a 80 escolas por ano.

Porquê? “Porque o meu nome é um legado cruel mas pode ser uma arma contra aquilo que um dia representou. Porque hoje há pessoas a serem discriminadas pela religião, pela cor da pele ou pela sexualidade, e uma extrema-direita em ascensão, e isso não podemos permitir. E por uma questão de respeito: tenho de fazer isto pelas pessoas que sofreram às mãos da minha família. É a única coisa que posso fazer enquanto neto do meu avô.” Por isso começou a contactar sobreviventes e se envolveu há um ano no julgamento de Oskar Groening, o contabilista de Auschwitz que acabou condenado a quatro anos de prisão. Rainer juntou-se aos advogados em busca de testemunhas e no caminho encontrou Eva Kor, uma judia romena deportada para Auschwitz que, com a sua irmã gémea, fora alvo das experiências médicas de Josef Mengele. Rainer escreveu-lhe e ela marcou um encontro na cafetaria do campo principal. Só acedeu a começar a conversa depois de o olhar demoradamente e de avaliar as suas intenções. Era apenas o preâmbulo da forte amizade que levou Eva a referir-se a Rainer Höss como o “neto adotivo” e a dizer: “Fiz o que o seu avô nunca pôde fazer, pu-lo do meu lado.” Pela sua parte, Rainer tatuou no peito o número de prisioneiro de Eva, para que ela viva até ao fim dos dias dele, e para nunca esquecer a sua tarefa de “espalhar todas estas histórias”. Provar que nenhum homem, como os morangos, escolhe onde nasce. Mas alguns podem escolher onde, porquê e como querem morrer.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 13 agosto 2016

Pais tranquilos e despedidas curtas facilitam entrada na creche

Setembro traz consigo a ansiedade, com a entrada de Francisco na creche. Após quatro meses de dedicação quase exclusiva ao filho, Ana Botelho, de 35 anos, prepara-se para deixá-lo ao cuidado de outros. “Estou angustiada. Não sei como ele se irá adaptar e, por outro lado, sei que me vai custar muito estar longe dele. Há o sentimento de que os melhores cuidadores somos nós”, diz ao DN a técnica comercial e de marketing. Tal como fez com o primeiro filho, Ana vai optar por uma adaptação progressiva. “Nos primeiros tempos vamos buscá-lo depois de almoço e, aos poucos, vai ficando mais tempo.”

Para os pais cujos filhos vão entrar pela primeira vez num infantário, este é um período de muitas dúvidas: será que a criança se vai adaptar bem? Vai alimentar-se? As suas necessidades vão ser satisfeitas? Para aqueles que regressam ao infantário, é tempo de voltar à rotina, depois de um longo período em que se esqueceram de grande parte dos horários e de algumas regras. Em alguns casos, pode fazer sentido aumentar progressivamente o tempo de separação dos pais, dizem os especialistas, mas nunca durante longos períodos. Pais tranquilos e despedidas curtas tornam o processo menos doloroso.

São sobretudo os pais que têm de se adaptar à entrada na creche. “A tranquilidade dos filhos depende da tranquilidade dos pais. Em regra são os mais velhos que se sentem bastante angustiados porque, inconscientemente, acham que estão a abandonar os filhos. Importa que não encarem as coisas desta maneira. A ida para a creche é um processo natural”, destaca Teresa Paula Marques, psicóloga que se dedica à área infantil.

Quando as crianças estão a integrar-se na creche, pode ser importante “ir buscá-las um pouco mais cedo, na primeira semana, mas nas semanas seguintes deve iniciar-se a rotina, tendo o cuidado de dizer à criança que a vai buscar a determinada hora e não se atrasar”. Como os mais pequenos não têm noção do tempo, a psicóloga sugere que os pais digam que os vão buscar depois de determinada atividade, ou do lanche, por exemplo. Desta forma, destaca, “já estarão à espera e não haverá tanta ansiedade”.

Quanto aos que vão regressar ao infantário, Teresa Marques admite que os pais possam ir buscá-los “ligeiramente mais cedo nos primeiros dois ou três dias, mas o desejável é que a criança passe a entrar na rotina, ou seja, que respeite os horários escolares”. Uma semana antes do regresso, os horários de adormecer e acordar devem voltar ao que eram antes das férias.

De manhã, cabe aos adultos não prolongar as despedidas. “Nem colocar na educadora a responsabilidade de ser ela a arrancar a criança dos braços dos pais. Deste modo poderão fazer que a relação com a educadora fique comprometida, ou seja, podem transformá-la em má da fita”, adverte a psicóloga da área infantil.

Para diminuir a ansiedade, os pais devem pensar naquilo que os preocupa e ter uma atitude proativa, sugere Sandra Belo, da Family Coaching. “Devem refletir sobre aquilo que gostavam de dizer à educadora do filho: se o bebé tem determinado ritual para comer ou dormir, por exemplo. E podem escrever isso num bilhete ou num caderno, que servirá para trocar informações com a creche”, propõe a especialista.

Pensar nas razões que o levaram a escolher determinada escola ou naquilo que o trabalho pode trazer de bom à relação com a criança são outras dicas da coach parental. “Também é importante refletir sobre como se vai acolher a criança ao final do dia, o que queremos fazer para aproveitar o tempo.”

Já a entrada direta no pré-escolar exige uma outra preparação. Numa altura em que o conceito de aprendizagem ainda é “distante”, Luís Ribeiro, presidente da Associação de Profissionais de Educação de Infância, diz que as crianças “devem perceber que vão para um sítio divertido, onde vão brincar muito com outras crianças”. Criar expectativas positivas é muito importante, uma vez que será feito um “corte muito significativo, que deixa a criança insegura”. É natural que os pais se sintam angustiados, ressalva, mas têm de perceber que o “salto” é importante para o desenvolvimento.

Irmãos que salvam irmãos

A vida mudou numa noite. Dois antibióticos para combater uma amigdalite que não passava. O corpo de Inês, ano e meio, ardia em febre. Tinha deixado de ser a criança ativa e bem-disposta. Anabela Domingos, mãe pela primeira vez, levou-a às urgências. Inês ficou em observação. Baço inchado, perguntaram-lhe se tinha caído, glóbulos brancos a 120 mil quando o normal é entre 3 a 4 mil, os médicos e enfermeiros de volta dela. E a mãe a começar a sentir o chão a fugir-lhe debaixo dos pés.

As horas de internamento iam passando e não havia respostas. Um médico chegou e disse que as análises estavam complicadas, que era preciso fazer uma punção lombar. O corpo de Inês começava a sucumbir aos primeiros sinais da leucemia mielóide crónica. Doença rara em crianças. Parecia a constatação gradual de um desfecho trágico. Ainda não tinha sido transferida do Hospital de São Francisco Xavier para o Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa e a sentença estava traçada. A doença em fase terminal, não havia tratamento que desse em cura. Uns comprimidos diluídos em água deram-lhe alguns meses pacíficos, mas faltavam soluções. Um médico em Londres voltou a dizer aos pais, Anabela e Paulo, tudo o que lhes tinha sido dito em Lisboa. “Não há nada a fazer.”

Inês sobreviveu três anos com quimioterapia oral e nunca se falou em transplante. Anabela e Paulo suspenderam as suas vidas. Passaram a viver obcecados com a filha. E viam a vida dela a esvair-se todos os dias. Eles ali ao lado, atordoados pelo destino, sem nada poderem fazer. Ela num quarto isolado na pediatria do IPO, “com cheiro a morte”, e todos os que cuidavam dela a sentir que o fim estava próximo. Até que a vida voltou a mudar, mas desta vez numa manhã. As análises pioravam, não valia mais a pena fazer quimioterapia. A medicina lidava com uma doença muito invulgar. “Começaram a preparar-nos para o pior.” Anabela esperava ao lado da filha. “Um dia, eu estava com ela no quarto — meio adormecida, era como se também já não estivesse bem cá — e entra um senhor de bata branca e máscara na cara a perguntar pela mãe da Inês.” O médico, Manuel Abecasis, hematologista, trazia-lhe uma oportunidade, a primeira desde que a vida tinha mudado naquela noite em que os médicos do São Francisco Xavier lhe falaram sobre a batalha que teria de travar. “Perguntou-nos se queríamos partir com ele num projeto para tentar salvar a Inês. Disse-me: ‘Nada se perde, tudo o que fizermos é para ganhar.’ Mas para isso eu teria de engravidar.” O médico propunha-lhe que as células colhidas do cordão umbilical do bebé que nascesse fossem transplantadas para Inês.

Anabela e o marido queriam ter mais filhos, mas aquele não era o momento ideal. A parentalidade mal tinha começado e logo com tantos desafios. Mas, perante a vulnerabilidade da filha, não houve dúvidas. Começaram a fazer testes genéticos para ver se havia algum problema com o casal. Com autorização para conceber, Anabela, que só tinha um ovário, engravidou na semana seguinte. Nove meses depois nasceu um rapaz saudável, com 4 quilos e 100 gramas e 53 centímetros, a quem o casal deu um nome habitual na família. “O João veio curar os bichinhos que a Inês tinha no sangue. É um herói.” Foi assim que Anabela e Paulo explicaram aos filhos como um tinha nascido três anos depois do outro. “Foi um filho muito desejado. Se não tivesse nascido nessa altura, teria nascido noutra”, conta Anabela, hoje mãe de uma jovem educadora de infância e de um estudante de engenharia eletrotécnica e computadores. “Era uma situação dramática. Uma doença que se desenvolvia debaixo dos nossos olhos”, recorda Manuel Abecasis, pioneiro dos transplantes de medula óssea em Portugal. Sentado no seu gabinete, o diretor do Serviço de Transplantação de Progenitores Hematopoiéticos (UTM) do IPO de Lisboa tem bem presente o caso de Inês. A técnica — o transplante de células do cordão umbilical — que usou a 28 de setembro de 1994 tinha sido praticada pela primeira vez em França seis anos antes. Era um campo novo para a medicina.

Um irmão nascia para dar vida a outro, para ser mais do que ele próprio. A potencialidade destas células, mais primitivas e vocacionadas para se diferenciarem em outras células que dão origem ao sangue, foram vida no corpo de Inês. A seguir a ela foram mais cinco vidas salvas da mesma maneira. “Os doentes mantêm uma ligação muito forte connosco e são vistos pelo menos uma vez por ano. Temos muito interesse em estudar os efeitos secundários e em conseguir detetar alterações.” Desde 1994 — e com o entusiasmo que o sucesso de Inês provocou — foram feitos oito transplantes de sangue do cordão umbilical (SCU) entre irmãos e cinco deles estão bem de saúde. “Já são adultos. O mais novo tinha 2 anos quando foi transplantado e o mais velho 8.”

Agora, a história conta-se com alívio e gratidão. “Foi o dr. Abecasis que nos salvou.” Aos quatro. Anabela e Paulo conseguem descrever de cor cada passo que deram na salvação da filha. O ambiente assético em que tiveram de viver, os exames e testes genéticos que fizeram para despistar qualquer problema, os engenheiros que construíram “uma espécie de colete de metal” para ela não queimar os pulmões enquanto lhe destruíam a medula. Os lugares vazios em cada consulta, em cada internamento. As crianças que já não apareciam para o tratamento seguinte. E a ansiedade de nove longos meses. E se João não tivesse chegado a tempo? “Durante esse período, a Inês melhorou. Parece que foi Deus, que tinha de ser… A Inês chegou a ter alta”, lembra Anabela.

Uma junção de medicina e sorte que a manteve bem até ao dia 20 de maio em que o irmão nasceu e que permitiu que o 28 de setembro significasse renascimento. Uma família inteira que se conseguiu organizar em prol do bem comum, os filhos. “As obrigações familiares são de extrema importância e espera-se dos familiares que estes cuidem uns dos outros. Eu diria que este é um caso onde esta norma é levada ao extremo, obrigando a que uma vida seja à partida criada para cuidar de outra”, explica a socióloga Sílvia Portugal, especialista em relações familiares.

UM BEBÉ-ESPERANÇA

Tinha João quatro meses quando foi usado o sangue do seu cordão umbilical na medula da irmã. Às 12 horas daquele dia, Inês tinha a zona entre a boca e o esófago em carne viva e definhava em cima da marquesa quando começou a ganhar vida de novo. Antes do Natal, Inês, com “15 quilos e aspeto de esqueleto”, foi para casa. E nesse dia Anabela foi buscar João a casa da mãe, onde o bebé esteve a viver desde que nasceu. “Ele só queria a avó e a bisavó.” Ao contrário do que fizera com a primeira filha, Anabela deixou João ao cuidado de familiares próximos. Dividia-se entre a filha no IPO e a casa da mãe para dar de mamar ao bebé. João é aquilo a que se chama um bebé-esperança, um bebé-instrumento, foi gerado naturalmente, pela vontade dos pais, para que o seu sangue pudesse salvar a irmã doente. Haveria de ter nascido de qualquer forma.

Ao contrário de João, existem na Europa, pelo menos, três casos de irmãos que nasceram com o mesmo propósito, mas foram gerados em laboratório, recorrendo a técnicas de procriação medicamente assistida (PMA) e envolvendo seleção de embriões. Chamam-se bebés-medicamento, e em maio do ano passado foi autorizado o primeiro em Portugal. Um casal com uma filha com leucemia linfoblástica pediu autorização ao Conselho Nacional de PMA para ter um bebé compatível e assim ser possível proceder ao transplante de medula óssea. Para isso, o casal fez um diagnóstico genético pré-implantação (DGPI), através de fecundação in vitro, de modo a obter embriões geneticamente compatíveis; destes, o escolhido seria transferido para o útero da mãe. Este procedimento tem levantado questões éticas na medicina, com posições contra e a favor. No mesmo ano em que foi autorizado o primeiro bebé-medicamento português, outros dois casos foram rejeitados. O Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV) elaborou um parecer no qual considerou que a utilização do DGPI para selecionar embriões dadores de células estaminais com o fim de tratar uma doença fatal de um familiar configura um complexo dilema ético em que se considera poder sobrelevar-se o princípio da solidariedade.

Semelhanças. Lurdes Pintor não hesitou em ter outro filho para salvar Diogo (ao centro). O bebé nasceu compatível e parecido com o irmão. ”Olho para um e vejo o outro”

Semelhanças. Lurdes Pintor não hesitou em ter outro filho para salvar Diogo (ao centro). O bebé nasceu compatível e parecido com o irmão. ”Olho para um e vejo o outro”

RUI DUATE SILVA

O caso de Inês é diferente. “Não se levanta a questão ética suscitada pela seleção embrionária, mas é esperado que o filho a nascer cumpra objetivos terapêuticos que poderão não ser biologicamente possíveis. Não se duvida do amor dos pais pela criança a nascer nem das circunstâncias que os norteiam — e por vezes condicionam a decisão. No entanto, a consideração do melhor interesse do filho a nascer, também ele vulnerável, suscita cuidado do ponto de vista ético. O filho a nascer pode não só não ter a compatibilidade imunológica como incorrer no risco de nascer com a mesma patologia, pelo que o aconselhamento genético nestas circunstâncias seria recomendado como decorrente de um princípio de precaução”, defende João Lobo Antunes, presidente do CNECV. Há dois valores em conflito: a luta pela vida de um filho que está a morrer e a autodeterminação do bebé que irá nascer. “As relações parentais na sociedade contemporânea são marcadas por duas dimensões fundamentais: o amor pelos filhos e a igualdade entre os filhos. Ter um filho com o objetivo específico de salvar outro é um ato de amor, mas estabelece à partida uma relação de desigualdade entre os filhos”, frisa Sílvia Portugal. Inês e João são iguais no coração dos pais. Ele não se sente um super-herói nem gosta de elogios, ela não vive numa redoma de vidro.

Uma gravidez provocada para salvar um filho na esperança de que a criança que vai nascer seja compatível com o irmão doente não é uma certeza científica. As estatísticas dizem que acontece um em cada quatro casos. Nas pediatrias dos hospitais oncológicos portugueses é comum ver pais com filhos doentes terem um segundo filho. “Não confessam se foi essa a intenção, salvar o que está doente. Lidamos com leucemias agudas que não se compadecem. Muito rapidamente as crianças recaem e não esperam pelas células do irmão”, diz António Campos, diretor do Serviço de Transplantação de Medula Óssea do IPO do Porto.

No desespero da doença, o instinto faz com que se tente tudo e não se perca a esperança. “Nunca temos filhos por razões puramente altruístas. Aliás, podemos ter um filho por motivos puramente egoístas. Não há razão para que ele seja menos amado só porque foi instrumento para a cura de outro”, escreveu Bryn Williams-Jones, especialista em bioética do Departamento de Medicina Social e Preventiva da Universidade de Montreal, no auge do debate sobre a manipulação de embriões.

Quem perante a mesma situação não arriscaria tudo? Uma decisão tomada, por vezes, em momentos de abismo. Como naquele dia em que Carlos viu Pedro, de 5 anos, deitado na marquesa, pálido e imune às tentativas das enfermeiras para lhe administrarem um medicamento. As veias estavam queimadas pela quimioterapia, e o único sítio onde Pedro podia ser injetado era no pé. E ele calado. “O miúdo não gemia.” Foi uma epifania. A partir dali, Carlos estava disposto a fazer tudo, a aceitar tudo. Tinha decidido que o filho ia sobreviver através do irmão. A inversão do ciclo da vida é inaceitável. “É uma marca muito grande. Deixa de se confiar na vida.” Os êxitos que os dois rapazes tiveram ao longo dos anos, as boas notas que os levaram à Universidade de Coimbra, a maneira como conciliaram a escola com o futebol federado não foram suficientes para apagar a memória do casal. “Estamos sempre com medo. Quando vamos às consultas de rotina ficamos nervosos, não falamos uns com os outros, mas consigo ver nas nossas expressões que estamos nervosos”, conta Irene, a mãe. O segundo filho foi uma janela aberta para a esperança.

Irene vê o crescimento dos filhos de maneira diferente que as outras mães. Não tem a nostalgia de gostar de ver sempre os filhos mais pequenos nem a síndrome do ninho vazio quando saíram de casa. Dá outro valor ao envelhecimento. É como se estes últimos anos sejam a mais, uma bênção extra para valorizar. “Foi um milagre ter conseguido aguentar a gravidez até ao fim.” À sua maneira, cada um dos rapazes carrega os anos mais difíceis da vida dentro de si. Pedro não gosta de falar sobre a doença. Gustavo não faz questão de recordar os primeiros anos. “O mais novo sofreu muito com isto e manifestou tudo na gaguez. É um miúdo muito inseguro e mimado.” Houve uma altura em que competiram pela atenção dos pais, em que se digladiaram por um brinquedo, como todos os irmãos costumam fazer. Só agora, que são jovens adultos, conseguem dar mais valor ao sangue que os une. Ao sangue de um que salvou o outro. Levou algum tempo a que ficassem assim.

Inês e João vão este verão passar férias juntos. Já foram ao Super Bock Super Rock e já fizeram uma aula de surf em conjunto. Talvez para o ano, para aflição da mãe, estejam os dois a trabalhar e a estudar no estrangeiro. “É uma relação normal de irmãos. Falamos um com o outro quando algum precisa de desabafar”, diz João. “Na escola, os outros miúdos faziam muitas perguntas. Foi aí que me caiu a ficha e vi que tinha de interiorizar o que havia acontecido”, conta Inês.

A relação entre a biologia e a ligação emocional não é imediata nem igual em todas as famílias. Estes irmãos não têm de ser mais ou menos próximos. “Os efeitos que esta opção poderá ter na vida familiar e nas relações entre pais e filhos e entre irmãos dependerá do modo como os pais souberem conjugar os valores da obrigação, do altruísmo e da solidariedade com os da liberdade e da autonomia individuais”, frisa Sílvia Portugal.
Ligados por um cordão umbilical

Houve sempre um fio invisível que ligou Joana a Miguel. Como se, desde pequena, ela soubesse que tinha sido a sua medula que permitira que ele estivesse ali, de braços abertos, a chamá-la. Até aos 3 anos era para o colo do irmão que preferia ir. Quando a mãe contou a Miguel, com uma linguagem muito própria de criança, que ele estava doente e que era preciso um transplante de medula, disse-lhe também que se houvesse um irmão a probabilidade de ele se salvar era maior. Miguel respondeu-lhe: “Vai ser uma menina, vai ser compatível e vai chamar-se Joana.” Maria acreditou. O marido tentava gerir-lhe as expectativas, mas ela acreditava no que o filho lhe tinha dito. Só no oitavo mês soube que a “luz” que carregava no ventre era uma menina, no entanto, lá no fundo, já tinha a certeza.

A vida desta família da zona de Viseu também mudou numa noite. Em poucos minutos, os médicos explicaram-lhes o que era a leucemia linfoblástica, que primeiro o filho faria tratamentos e que só depois se avançaria para um transplante. A palavra “leucemia” invadia-lhes a vida e, na altura, representava “morte”. Maria lembrava-se de, em pequena, ir com o pai ao cemitério e passar pela campa de um jovem familiar. “Eu perguntava quem era, e o meu pai dizia que tinha morrido com leucemia. Para mim, leucemia era morte.” No hospital de Coimbra, o médico António Brito, que se tornou quase uma pessoa da família, deu-lhes um ânimo novo. O fim não tinha chegado.

Quimioterapia, radioterapia, procurar dador e preparar para um transplante se fosse preciso. Miguel reagiu bem. Até à primeira recaída, um ano e meio depois. “Foi como se voltasse tudo atrás.” Joana confirmava-se uma semana depois. Os tratamentos arrastaram-se e mantiveram Miguel vivo até ao nascimento da irmã. Três dias depois do nascimento soube-se que eram compatíveis. Foi um alívio. “Não sei qual é a sensação de ganhar um grande prémio, mas não seria uma alegria maior.” Os dados alinhavam-se. “Um dos pedidos que o Miguel fez, quando percebeu que ia para transplante, foi que ficássemos os quatro. Nunca quis deixar a irmã para trás.” A família mudou-se de uma aldeia para Lisboa.

Um pai no quarto 11 do lar da Acreditar — Associação de Pais e Amigos das Crianças com Cancro e outro sempre ao pé de Miguel. Todos os dias, pai e mãe encontravam-se nos jardim do IPO para mudarem de turno. Cada um à cabeceira de cada filho. Ao lado, Joel, uma criança africana, travava uma batalha parecida. Os dois rapazes tornaram-se amigos, tal como as mães. “Chamavam-nos a irmã negra e a irmã branca.” Ao fim de uns meses, a cadeira onde Joel se costumava sentar ficou vazia. Miguel perguntou porquê. Só há poucos anos a mãe lhe contou a verdade. Alguns dos seus melhores amigos não deixaram de aparecer no hospital por terem melhorado. Foi aí que Miguel teve a noção do risco que correu. E, talvez, da sorte que teve. A mãe não se esqueceu de nenhum dia, de nenhum momento. A noite de 25 para 26 de novembro é uma data que comemoram os três. Outra noite em que a vida voltou a mudar. Outro renascimento. Contam já 12 aniversários.

Passaram oito anos desde que Lurdes Pintor olhou para o terceiro filho e viu que era a cara do mais velho. O fim de uma gravidez cheia de ansiedade que lhe deu o filho mais desejado. “São iguaizinhos. Quando olho para o pequenino é como se estivesse a olhar para o mais velho.” Lurdes estava sentada com João Rafael ao colo, de 18 meses, quando o médico lhe explicou a doença de Diogo. A leucemia espalhava-se da medula para a cabeça.

Desesperada, disse ao médico que faria o que fosse preciso. “Eu digo-lhe, mas é um risco. Você é que sabe. E já tem esse bebé…” João Rafael era incompatível, a solução podia passar por outro filho. Podia. Era um tiro no escuro. Lurdes não hesitou: “Eu faço outro bebé.”

Um filho doente, outro a aprender a andar, e ela a atirar-se para uma terceira gravidez sem certeza de que seria suficiente para salvar o filho mais velho. “Chorava muito e pensava se conseguia levar a gravidez até ao fim. Será que o bebé ainda nasce a tempo?” O dilema passava pela cabeça de outras mães no Hospital Pediátrico de Coimbra. Uma delas perdeu o filho doente duas semanas antes de dar à luz. Era o medo que Diogo morresse, o medo que Victor não fosse compatível com o irmão. Uma gravidez ao contrário de todas as outras, a angústia em vez da alegria. O medo do resultado de uma análise de compatibilidade em vez do receio de educar bem um filho. Uma corrida contra o tempo no lugar de tempo para preparar o ninho. Um filho para manter vivo o outro. O cordão umbilical era muito grande, Lurdes achou que era bom sinal. E era. “Foi um risco, mas toda a gente me apoiou.”

Como se diz que não a uma mãe e a um pai que correm o risco de perder um filho? “A ponderação a fazer há de considerar o risco individual para a criança dadora (não é aceitável uma doação com lesão pessoal, como o é a doação de um rim, mas será aceitável a doação de tecido regenerável, como medula, tecido hematopoiético), o benefício individual e o benefício secundário e a possibilidade salvadora de outrem. Há que ponderar ainda se o filho doente tem uma esperança de vida breve ou sofre de uma situação de doença aguda que não permita realizar a transplantação com segurança”, sublinha João Lobo Antunes.

João e Mariana fizeram seguro de casa, seguro de vida, seguro de saúde. Antes de terem sido pais pela primeira vez, Mariana foi ao médico e pediu-lhe todos os exames e análises necessários para ver se podia engravidar. Queria ter o primeiro filho e não correr nenhum risco. Só comprou enxoval aos cinco meses, depois da ecografia morfológica. Não comeu uma única alface fora de casa, nem sushi, que adora, nem carne processada. Fez o curso de preparação para o parto. E só engravidou depois de o período de carência do seguro que cobria o parto entrar em vigor. O primeiro filho foi um momento planeado. Mariana foi para casa descansar com dois meses de antecedência, planeou uma licença de maternidade prolongada para estar presente, praticamente, no primeiro ano de vida do filho. Não estranhou, quando ele nasceu, que não o tivessem posto em cima do seu peito, como é natural fazerem com os recém-nascidos. Ele gemia muito. Hoje sabe que não é normal.

Mal tinha adormecido e os médicos acordaram-na, a ela e ao marido, para dizerem que havia uma complicação com o bebé. Primeiro era um sopro no coração, depois eram dois, depois um problema nos rins. Era quase certo que iria precisar de transplante quando crescesse. Do quarto planeado para os três passaram para um hospital público. Uma cirurgia antes dos seis meses e o diagnóstico em aberto. Sem certezas ou garantias de qualidade de vida. “Quis adiantar-me à sorte. E engravidar de novo, para ter um seguro de vida vitalício para o meu filho. Um irmão que lhe pudesse doar um rim quando fosse mais velho.” A vida complicou-se. Uma data de análises que não consegue explicar ou descrever. Os valores a ultrapassarem todos os limites e o tempo a chegar ao fim. Até ao dia em que acabou, ainda ela estava grávida do segundo filho.

Inês e João Domingos foram um enorme seguro de vida um para o outro, mas nos momentos cruciais foram bafejados pela sorte. Os dois irmãos não são totalmente compatíveis, não fossem as células do cordão umbilical suficientes e não teria sido possível fazer transplante de medula.“Há duas características que marcam a diferença do cordão umbilical para os outros transplantes: as células são de facto mais primitivas e por isso têm maior capacidade proliferativa — os doentes que fazem um transplante de sangue de cordão umbilical [SCU] recebem cerca de 10 vezes menos células do que os que recebem medula e 100 vezes menos do que os que recebem sangue periférico, sendo que esta diferença é compensada pela maior capacidade proliferativa do SCU; a outra diferença diz respeito à imaturidade imunológica do SCU, que o torna menos reativo e por isso permite transplantes com menos compatibilidade”, explica Manuel Abecasis.

O cordão umbilical de Joana não foi suficiente para Pedro. O próximo passo era ela dar-lhe medula. Ao contrário da ‘fácil’ decisão de voltar a ser mãe, Maria teve mais receio em autorizar a colheita de medula da sua bebé. “Foi a assinatura mais complicada da minha vida. O médico garantiu-me que não haveria risco, porque se houvesse ele não ia colocar em risco uma criança por outra que não sabia se sobreviveria.” O objetivo era esperar pelos dez meses de Joana, mas a saúde de Miguel piorava e foi preciso antecipar e fazer a recolha logo aos nove meses. Hoje, na escola, costuma contar com orgulho que a mãe é dadora e ela já salvou o irmão. Durante os 30 dias de isolamento do irmão, procedimento necessário para o transplante, os pais fizeram desenhos de uma quinta com balões. “Era uma maneira de contar o tempo.” Aqueles dias de limite, afinal, são também memórias de momentos felizes.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 20 agosto 2016

Mão que cuida, mão que bate?

Quem alguma vez não recebeu uma palmada? E quem não a deu ou quis dar? Uma simples prospeção pelas respostas possíveis mostra que, sobre a palmada, existe uma enciclopédia de vários volumes ainda por escrever. Em muitos deles entraria certamente o rol interminável de argumentos que os pais esgrimem para justificar o seu uso. Noutros, as não menos relevantes razões que defendem o seu banimento total. Noutros ainda, as diferentes etapas de uma história tão velha quanto o mundo — a da criança birrenta que não faz tenções de parar ou a do adolescente desafiador que concentra nisso toda a sua energia e a dos pais confrontados com a tarefa ingrata de os limitar e corrigir. Se a história da palmada se confunde com a da disciplina, e se durante anos ambas foram consideradas elementos inseparáveis do ato corretivo, a investigação feita nas últimas décadas veio provar que a sua união é não só abusiva como contraproducente. Numa palavra, que o recurso ao castigo físico em pouco contribui para a disciplina, acentuando o tipo de comportamento que supõe travar.

A esta conclusão chegou Elizabeth Gershoff num estudo publicado em abril deste ano no “Journal of Family Psychology”, que reduz a zero as dúvidas sobre as contraindicações da vulgar palmada. A investigadora da Universidade do Texas analisou 75 estudos realizados ao longo de cinco décadas em 13 países diferentes, abrangendo mais de 160 mil crianças. Focando-se naquilo que a maioria dos pais reconhece como castigo — a palmada de mão aberta no traseiro ou nas extremidades — e não nas variantes mais violentas, Gershoff identificou que esse tipo de experiência na infância está ligado a “mais agressão, a um incremento das atitudes antissociais e a problemas cognitivos e de saúde mental”, além de acarretar o risco de abusos mais graves. “A palmada não ensina as crianças a comportar-se apropriadamente, mas a fazerem-no só quando os pais estão por perto”, diz Elizabeth Gershoff ao Expresso, salientando que a maioria dos pais continua a bater nos filhos porque eles próprios tiveram essa experiência enquanto crianças.

Nos Estados Unidos vive-se, aliás, uma situação no mínimo contraditória. Num inquérito levado a cabo em 2015 pela Child Trends DataBank, 94% dos pais de menores entre os 3 e os 4 anos admitiram ter-lhes batido ao longo do ano anterior, enquanto 76% dos pais e 65% das mães concordaram com a premissa segundo a qual, por vezes, é necessário recorrer “a uma boa palmada”. Porém, como apontou um outro inquérito da organização de educação parental Zero to Three, a maioria dos pais que dão palmadas considera igualmente que bater não é uma forma eficaz de disciplinar. “Acredito que os adultos que receberam palmadas e acabaram por dar-se bem na vida tiveram pais que também usaram outras formas de os disciplinar, como falar com eles e explicar-lhes os ‘como’ e os ‘porquês’. A maioria de nós tornou-se o que é hoje apesar dos castigos corporais e não graças a eles”, defende Gershoff, cujo estudo desmonta a crença comum que distingue a palmada do abuso físico como o dia da noite. “A linha é sempre arbitrária e depende das variáveis que rodeiam a agressão, como a frequência, o contexto, a força utilizada e a sensibilidade da criança. E a pesquisa provou que a palmada tem as mesmas consequências prejudiciais que o abuso, apenas num grau ligeiramente mais baixo.”

PRÁTICA SUBTERRÂNEA

Segundo a UNICEF, vivemos num mundo onde 80% dos pais batem nos filhos. E numa Europa onde, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, essa prática permanece um bastião da herança educacional de outros tempos. Basta um relance pelo “Relatório Europeu sobre a Prevenção dos Maus-Tratos Infantis” para perceber que o problema é maior do que parece: com o homicídio infantil a não ultrapassar os 850 casos por ano, diz o documento que “as mortes são a ponta do icebergue” — por cada morte estima-se que existam entre 150 e 2400 casos de abuso físico. “Os maus-tratos infantis são, em geral, uma forma escondida de violência que podem não ser detetados por cuidadores e profissionais durante anos”, lê-se logo no início. E mesmo os países com melhores sistemas de deteção deixam “90% das crianças maltratadas de fora”. Entre os 40 países europeus considerados, Portugal está nos de menor incidência de homicídio de crianças com menos de 15 anos, com 0,22 mortes em cada 100 mil. Mas a fasquia sobe quando se analisam as mortes que derivam de maus-tratos e negligência, chegando aos 0,51 e situando o país acima do meio da tabela.

“Em Portugal, o castigo corporal é ainda muito frequente”, corrobora Manuel Coutinho. O secretário-geral do Instituto de Apoio à Criança, que é também coordenador da linha SOS Criança, reconhece que este modelo educativo está “muito enraizado” na sociedade portuguesa, sendo “aceite por uma grande parte das pessoas”. Isto apesar de o castigo físico ser ilegal desde 2007 e punido pelo Código Penal. “Há dois ditados populares ainda muito presentes: ‘Quem dá o pão dá a educação’ e ‘Um pão na mão, um pau na outra’. O seu cruzamento significa que o pai ou a mãe têm o poder de aplicar o castigo físico se assim o entenderem. E se hoje quase não o fazem em público, porque é malvisto, isso não quer dizer que não o façam de todo. É um comportamento subterrâneo”, explica o psicólogo. Em 2015, a linha SOS Criança recebeu 1857 apelos, dos quais 1349 envolveram diretamente menores. Em 903 casos, o infrator era um familiar, preponderantemente as mães, seguidas dos pais, dos padrastos e das avós.

Também a APAV fornece dados inquietantes, como as estatísticas de 2014, em que 11,3% do total das situações de violência doméstica referenciadas incidiam sobre crianças e jovens até os 18 anos, perfazendo 823 casos. Da mesma forma, apurou-se que 979 dos perpetradores eram pai ou mãe das vítimas — e o facto de o número de perpetradores ser superior ao das situações registadas demonstra que não é raro haver mais do que um agressor por criança. “No limite, os adultos sabem que não deveriam bater. Sabem, ou têm de saber, o que um adulto de 1,70 m desorientado pode provocar numa criança de um metro”, opina Manuel Coutinho.

PARAR PARA PENSAR

Mas entre pensar e fazer nem sempre há o intervalo certo. “No auge de um conflito é mais importante parar do que dar uma resposta. Até porque os miúdos, nesta fase, também não vão ouvir. Parar é uma forma de proteger a família e de os pais não se transformarem em agressores permanentes”, aconselha Sofia Nunes da Silva, acrescentando que, após a paragem, “o adulto regressa mais tranquilo e seguro de si”, mais capaz de dialogar e de dar à criança o castigo adequado. Para esta psicóloga clínica e terapeuta familiar do Hospital de Santa Maria, a tendência para repetir padrões de comportamento não esgota os motivos por que os pais continuam a punir corporalmente. “Há pais que são muito exigentes e atentos em relação às falhas dos filhos. Que olham para comportamentos naturais para a idade como formas de ludibriar a sua autoridade e como se fossem patológicos, quando na verdade não o são”, explica. E, por vezes, o conflito exacerba-se a partir de “problemas simples”, que requerem simplicidade para serem resolvidos.

À exigência dos pais não é alheia a da sociedade em que se inserem. “Hoje em dia, as famílias têm vidas de uma exigência desumana, com existências limitadas aos horários excessivos de trabalho e às obrigações escolares excessivas dos filhos. E a disponibilidade para ouvir é escassa”, comenta Sofia Nunes da Silva. E se neste quadro há pais com índices de tolerância menores, há também crianças mais opositoras do que outras. “Não é verdade que não há crianças difíceis. Há. Mas é preciso os pais perceberem quando não conseguem lidar com elas e pedirem ajuda.” Afinal, a parentalidade aprende-se, e “os pais precisam de apoio na adoção de novas estratégias”.

Esse apoio não deve ser episódico. Tem de envolver os profissionais de saúde, que nem sempre abordam o tema da disciplina, partindo também eles do princípio de que essa é matéria exclusiva dos progenitores. “Os pediatras demitem-se de falar disto e não apostam na prevenção”, diz Ana Teresa Brito, formadora da Fundação Brazelton/Gomes-Pedro e doutorada em Estudos da Criança. Em causa está o desconhecimento dos pais perante as diferentes fases de crescimento dos filhos: “A criança precisa de se desorganizar para se organizar, por isso o adulto não pode desorganizar-se com ela. Bater-lhe não a ensina a controlar-se, porque é em si um ato de descontrolo. No fundo, estamos a dizer-lhe que aquilo nos ultrapassa, por meio de uma ação que invade o seu espaço físico e psicológico.” Sendo o objetivo último da disciplina que a criança aprenda a autodisciplinar-se, a palmada pode ter o efeito contrário ao que procura. “Às tantas, a criança também fica dependente desse estímulo negativo para parar e, como não encontra dentro de si própria os limites para o fazer, procura-os externamente, provocando os pais”, esclarece Ana Teresa Brito, que não considera a aceitação cultural da palmada um dado inultrapassável: “Não o é, senão continuaríamos a agir como nos século anteriores. Se é cultural e faz parte das rotinas, tem de ser trazido ao discurso para o ver e repensar.”

Castigar faz sentido?

Nenhum pai gosta de pôr um filho de castigo, mas muitos desconhecem outra forma de impor limites. O neuropsicólogo espanhol Álvaro Bilbao, que lançou agora o livro “O Cérebro das Crianças Explicado aos Pais” (tradução em português prevista para setembro), oferece alternativas — e explica porque as suas propostas funcionam melhor no comportamento infantil. Álvaro tem uma longa experiência no currículo profissional — é neuropsicólogo no Hospital Johns Hopkins, em Baltimore (EUA), doutorado em Psicologia da Saúde pela Universidade de Deusto (Bilbau), já colaborou com a OMS e trabalha atualmente no Centro Estatal de Referência de Atenção ao Dano Cerebral, onde ajuda pessoas com danos cerebrais a recuperar a memória.

Também tem currículo pessoal: tem três filhos, de 6, 4 e 2 anos — ou seja, não fala de cor. “Em seis anos de paternidade, castiguei os meus filhos duas vezes. A mim, os meus pais castigaram-me algumas mais. Não tenho dúvidas de que o ‘meu’ método produz melhores resultados. Os castigos demonstraram ser menos eficazes em várias investigações. O cérebro não aprende assim”, garante.

A tese de Bilbao é simples: “Quando castigada, a criança ativa a região cerebral do medo, e isso faz com que não preste atenção e não aprenda. Além disso, os castigos geram culpabilidade e danificam a relação entre pais e filhos. A melhor maneira de ensinar é reconhecer e reforçar quando a criança age bem.” Resumindo: a recompensa é mais eficaz do que o castigo. “Se uma criança se levanta sempre da mesa e a põe de castigo, espere que ela passe 10 minutos sem se levantar e diga-lhe: ‘Muito bem! A mamã/o papá está muito contente contigo!’”

O neuropsicólogo escreveu este livro para munir os pais de ferramentas para educarem melhor. “Educar é muito mais simples a partir do momento em que se percebe como funciona o cérebro de uma criança. Este precisa de equilíbrio entre amor e regras, entre proteger e deixar que uma criança seja independente.” Mas como fixar limites? “O limite põe-se antes que a criança se porte mal”, explica Bilbao. “Prevenir é melhor do que corrigir. O difícil na questão dos limites é saber como pô-los e estar atento ao comportamento da criança, para o prevenir.” Esta é uma das opções que Álvaro Bilbao propõe para aplicar limites sem castigar. “Se sabemos que um menino costuma morder a irmã, devemos dizer-lhe: ‘Agora vão brincar, mas é proibido morder ou bater.’ Depois, os pais devem estar atentos aos momentos em que a criança esteja cansada ou frustrada”, para que não ceda ao hábito.

Dá outro exemplo: “Alguns amigos do meu filho de 5 anos tendem a bater ou a insultar. Quando os convidamos, digo-lhes: ‘Aqui não se bate nem se insulta.’ Explico-lhes que se não respeitarem essa regra regressarão a casa deles. Nunca tivemos de mandar ninguém embora. Se não cumprirem, sofrerão a consequência — mas isso é diferente de um castigo.”

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