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Mais de 650 mil famílias carenciadas sem acesso à tarifa social do gás

Há 657 mil famílias carenciadas, que apesar de preencherem os critérios, não têm acesso à tarifa social do gás. A redução só contempla o gás natural, mas a maioria das famílias pobres usa gás de garrafa.

Apenas 5% das famílias que cumprem os requisitos estão a beneficiar dos preços mais baixos.

Segundo avançou o Diário de Notícias, em agosto de 2016, havia cerca de 692 mil famílias com direito à tarifa social da eletricidade e esse também devia ser o número de beneficiários de apoios para a fatura do gás. Mas não, só perto de 35 mil famílias pagaram menos de gás.

Os critérios de atribuição da tarifa social são os mesmos, mas o tipo de gás utilizado faz a diferença. Ou seja, 95% das famílias carenciadas ficaram de fora, porque não têm gás natural.

De acordo com a Deco, o gás de garrafa serve dois em cada três lares e custa quase o dobro do gás natural. A associação do consumidor defende que este fornecimento deve ser considerado por lei um serviço público.

Os clientes com descontos no gás natural poupam cerca de 20% por mês na fatura, tendo em conta um consumo médio de 1200kw/h num ano.

Rapaz esfaqueia padrasto após discussão entre o homem e a mãe

Cerca das 23 horas, Manuel Vilar decidiu mandar o menor para a cama. “Estava na hora de dormir e disse-lhe para se ir deitar”. “Ao mesmo tempo dei-lhe uma pequena sapatada no pescoço e ele começou a gritar”.

Manuel Vilar diz que “não havia motivo para a gritaria”, mas tal facto terá depois despoletado uma discussão com a mãe do menor.

Enquanto estes discutiam, o rapaz surge repentinamente com uma faca de cozinha. “Chegou-se a mim e espetou-me a faca no braço direito”. “Nunca pensei que fosse capaz de me fazer uma coisa daquelas”, disse o homem ainda incrédulo com o sucedido.

Manuel Vilar acabaria por ser transportado ao Hospital S. Sebastião onde foi suturado com seis pontos ao corte infringido pelo rapaz.

Exibia também arranhões nos braços e no pescoço que diz terem sido provocados pela companheira aquando da discussão. “Não gostou que eu o repreendesse e lhe desse educação”, explicou.

Depois de assistido, Manuel Vilar acabaria por se deslocar a GNR onde apresentou queixa.

Já a mãe e o menor saíram de casa tendo sido instalados numa habitação da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV).

O JN apurou, ainda, que discussões violentas entre o casal ocorreram noutros momentos, garantindo o homem ter já sido ameaçado de morte pela companheira que era também funcionária de escritório no negócio de pneus que este é proprietário.

O conto perdeu para a realidade. Era uma vez a “boadrasta”

Inês é a “boadrasta” de Zé. Aos 20 anos, o rapaz viveu quase metade da sua vida debaixo do mesmo teto que alberga a segunda mulher do pai. Fala dela com gosto, encarando-a como uma figura de autoridade e, ao mesmo tempo, um porto de abrigo, e recusa-se a chamá-la de madrasta. Sempre foi assim e a explicação é simples: “na primária tinha amigos que tinham madrastas, daquelas más. E, depois, havia os bonecos animados”.

Nem de propósito. Uma incursão rápida pelo universo da Disney permite ver que além de donzelas em perigo e de príncipes encantados há também madrastas do piorio. Das que obrigam a enteada a limpar a casa de uma ponta à outra e proíbem-na de ir ao tão aguardado baile, às que contratam um caçador para lhe arrancar, literalmente, o coração.

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De bruxa má a fada madrinha

Não se sabe ao certo o que levou a Disney a querer tramar as madrastas, mas a verdade é que a perceção do papel desempenhado por estas mulheres tem vindo a mudar. Para melhor. Sim, ainda existem vestígios que associam as madrasta a bruxas más — isto sem esquecer que cada caso é um caso –, mas algumas transformações sociais, como o aumento do divórcio nas últimas décadas e o surgimento de diferentes estruturas familiares, vieram abalar o conto de fadas, tal como explica a mediadora familiar Margarida Vieitez.

O estigma de madrasta, esse, sempre esteve lá — segundo o dicionário Priberam, e além da definição tradicional, o termo madrasta pode ser depreciativo para “mãe que não cuida bem dos filhos” ou pura e simplesmente “mulher má”. Mas há 15 ou 20 anos havia mais estigma, confirma a psicóloga clínica e terapeuta familiar Sofia Nunes da Silva, que fala empiricamente na existência de relações mais próximas e com maior flexibilidade, o que leva a uma maior aceitação de novos modelos relacionais.

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“A ‘madrasta má’ é [agora] substituída pela ‘madrasta amiga e cuidadora’, embora não possamos generalizar”, diz Vieitez, que defende que a palavra “madrasta” está a cair em desuso, com as crianças a tratarem cada vez mais as companheiras dos pais pelo nome próprio. É o caso de Zé que, Inês para cá e Inês para lá, explica a dinâmica familiar em casa: “A Inês sempre foi muito recetiva. Fala connosco e preocupa-se genuinamente com o nosso bem-estar. Foi das poucas pessoas que se sentou comigo a estudar”, conta, salientando quem nem sempre foi um ás na escola.

Zé não olha para a sua “boadrasta” como olha para a mãe, mas reconhece o esforço feito por Inês: nunca se impôs e foi ganhando o seu próprio espaço com o passar do tempo. Elogios semelhantes são feitos à madrasta de Inês Moreira que também não gosta de tratar a companheira do pai por este nome. “Acho que a nossa relação sempre foi fácil, acho que arranjámos um bom equilíbrio. Ela trata-me como se eu fosse sua filha, no sentido em que tenho tantas obrigações como os filhos dela, mas não se mete no lugar da minha mãe“, diz a estudante de 22 anos. Ao contrário de Zé, Inês não vive com a “boadrasta” e visita-a duas vezes por semana.

Um novo conto de fadas

Já antes a professora catedrática no ISCSP Anatália Torres explicara ao Observador que, hoje em dia, tanto os padrastos como as madrastas coexistem com os pais biológicos, quando antes surgiam apenas na viuvez de um pai ou de uma mãe. Além disso, há agora mais padrastos do que madrastas porque são as mães que tendem a ficar com os filhos em caso de separação — segundo o livro“Famílias nos Censos 2011: Diversidade e Mudança”, publicado em 2014 pelo INE, a situação mais comum é aquela em que os filhos não comuns de um casal são apenas filhos da mulher (78% em 2011).

A socióloga Susana Atalaia é uma das autoras do referido estudo e, baseando-se no que diz a literatura, vai mais longe: o papel da madrasta é muito mais difícil do que o do padrasto quando há convivência diária com os enteados. É que além de haver mais exigências num lar, continuamente associadas à mulher, as madrastas acabam por ser mais escrutinadas. “Em família, o que é exigido às mulheres é diferente dos homens. O papel do padrasto acaba por ser secundário, espera-se sempre mais das mulheres.”

Uma coisa é certa: não é fácil ser-se madrasta. “Acho que é uma relação muito difícil, que exige uma grande construção e respeito pelo passado de cada um. Acho que há um discurso facilitista em relação às novas famílias”, atira Sofia Nunes da Silva, fazendo referência às famílias ditas recompostas. Afirma também que a relação madrasta-enteado/a implica tempo e conhecer os limites de cada uma das partes.

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E viveram felizes para sempre?

O papel da madrasta e de padrasto é um papel de suporte e não de decisões ao nível educativo — pressupondo que a criança tem pai e mãe. E quanto mais a relação evoluir pacificamente, mais poder de opinião é dado à madrasta. Caso contrário, a interferência deverá ser significativamente menor.

As maiores dificuldades que uma madrasta enfrenta passa pela construção de afetos, mas também pela gestão de ciúmes. “O facto de ter ou não filhos pode influenciar a referida construção, na medida em que se já for mãe poderá ter uma experiência diferente no que respeita ao relacionamento com os filhos do companheiro”, assegura Margarida Vieitez. O importante é não forçar essa mesma construção, não assumir o papel de mãe e respeitar o tempo exclusivo do companheiro com os filhos.

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E o que dizer da autoridade? Que nenhuma criança reconhece qualquer tipo de autoridade sem primeiro existirem laços de confiança e de afetos. “Ela [a madrasta] tem autoridade, mas nunca se impõe. Nunca diz ‘não te deixo fazer isto’, tem mais uma postura de aconselhar. Ela põe as coisas de maneira a que não tenha uma palavra final”, conta Inês Moreira.

O mesmo defende Zé Simões de Almeida. Quando foi viver com o pai e a nova mulher, o casal deu-lhe um ano e meio para se habituar à nova vida e à nova rotina. Passado esse tempo, começaram a existir outro tipo de exigências, mas da parte da “boadrasta” nunca recebeu ordens, apenas vontades expressas: ao fim de um ano e meio Inês já dizia “por favor, não deixes os ténis no hall de entrada”. “A Inês tem uma regra, isto é, a autoridade não pode ser imposta com autoridade, antes disso é preciso dar afeto”.

Aos 20 anos, Zé sente-se um rapaz com sorte. Não só porque tem dois pais que continuam a dar-se bem e estão presentes na sua vida, mas também porque tem “uma boadrasta magnífica”.

Os meus, os teus e os nossos. Quando as famílias se recompõem

Faz e desfaz a mala. Dá beijinho de despedida a um, abraço no regresso a outro. Faz e desfaz a cama em casas diferentes porque semana sim, semana não, é preciso visitar pai e mãe, que depois da separação voltaram a encontrar o amor na companhia de outras pessoas. O cenário descrito é o ponto de partida de uma comédia francesa, “Mas que família é esta?”, que convida a refletir sobre uma dinâmica familiar que vai ganhando terreno na era dos divórcios. O filme, nos cinemas portugueses desde 11 de agosto, apresenta uma inesperada solução para as agendas habitualmente caóticas das famílias ditas recompostas: e se em vez dos filhos fossem os pais a fazer as rondas semanais, isto é, a visitar à vez uma só casa onde irmãos, meios-irmãos e quase irmãos coabitassem?

Duas famílias, uma forma de viver

A experiência retratada no filme não passa disso, de uma experiência sem provas concretas do seu sucesso. No entanto, Patrícia Motta Veiga chegou a pô-la em prática logo após o divórcio. Depois de um casamento de 14 anos e de três filhos em conjunto, a escritora e o agora ex-marido tomaram a decisão de simplificar a vida dos miúdos, dois rapazes e uma rapariga. Durante uns tempos, era ela quem saía da própria casa aos fins de semana para que o pai pudesse visitar as crianças e, assim, garantir que elas não tinham de andar de um lado para o outro. “Era eu que ia dormir a casa de amigas, igualmente divorciadas”, brinca.

Patrícia Motta Veiga casou-se pela primeira vez com 19 anos e meio. Fê-lo porque no ventre havia vida a crescer a cada dia que passava. A pressão da família ajudou-a a tomar uma decisão que então julgou ser a certa. Com uma barriga já saliente, a jovem subiu ao altar e uniu-se a um homem 15 anos mais velho que ela e com quatro filhos na bagagem. Era durante os três meses de verão — vulgo férias grandes para a pequenada — que quatro crianças rumavam à casa que o casal tinha no Alentejo. O mesmo acontecia por altura da Páscoa e do Natal, e nas habituais visitas de 15 em 15 dias. Patrícia depressa se habituou a uma casa cheia de miúdos, até porque os três filhos nasceram na presença daqueles quase irmãos com quem hoje já não tem tanto contacto.

“No dia em que me separei, na primeira noite em que fiquei sozinha, depois de me deitar, pensei ‘Como é que eu vou aguentar isto sozinha?’.”
Patrícia Motta Veiga

A correria e a azáfama teriam o seu fim em plenos montados alentejanos. Tinha o pequeno António oito meses e a mãe 34 anos quando os pais decidiram separar-se definitivamente. Apesar de uma escolha consciente e, nas palavras da escritora, feliz, os primeiros tempos não foram fáceis. “No dia em que me separei, na primeira noite em que fiquei sozinha, depois de me deitar, pensei ‘Como é que eu vou aguentar isto sozinha?’.” Antes havia dois adultos para três crianças, agora havia muito em que pensar: escolas, supermercados, banhos, refeições, trabalhos de casa… A lista que parecia ser infindável só atenuou com a chegada de João, atual marido, o oitavo de 16 irmãos e técnico alimentar que no currículo tem um feito de alto gabarito — diz que foi ele quem inventou o Chocapic.

Passavam dois anos desde que Patrícia se divorciara quando, por intermédio de amigos, conheceu o companheiro. “Somos pessoas muito idênticas em termos de valores. Lembro-me que a primeira conversa foi fluida em torno da família e isso foi um dos fatores que nos uniu”, relembra. Não demorou muito até estarem os dois na conservatória, a trocar de alianças e juras de amor. E assim, papel assinado e beijo dado, a família cresceu: o Cateano dava os primeiros sinais de vida na barriga da mãe. “Houve um namoro, houve uma interação do João com os meus filhos e, às vezes, até ficávamos todos a dormir em casa dele. Quando falámos aos miúdos do casamento, já um bebé vinha a caminho.”

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Caetano é o filho comum de Patrícia e João.

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Uma aventura para a qual não há receitas

Patrícia (40), João (61), Afonso (20), Matilde (12), António (6) e Caetano (2) vivem todos debaixo do mesmo teto lisboeta, sob a alçada de um mesmo leque de regras. Eles são mãe, pai e padrasto, irmãos e meios-irmãos. Quem não vive lá em casa são os três filhos de João, fruto de um casamento anterior — Rodrigo (41), Vera (37) e Joana (34). O primogénito do atual marido de Patrícia é o pai de Manel (10), sobrinho do pequeno Caetano que, por sua vez, é afilhado de Margarida, a mulher do Rodrigo que, por sinal, é um ano mais velho do que a madrasta. A julgar pelo número de cabeças por metro quadrado e pelas ligações difíceis de explicar, esta é uma família recomposta.

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Por família recomposta entende-se uma família em que há, pelo menos, um filho que não é comum ao casal. Por norma, estas dinâmicas surgem no contexto de divórcios ou separações e, segundo a psicóloga e terapeuta familiar Catarina Mexia, são de louvar, no sentido em que são um permanente desafio. “Muito honestamente, presto sempre homenagem a estes casais. Se pensarmos nos dias de hoje, em que existe tanta pressão para um casal estar bem, e juntarmos a pressão dos filhos de relações anteriores… Estas são relações claramente difíceis de gerir logo à partida.” Não é que este tipo de união não implique o mesmo que outras ligações afetivas — como exigências ao nível da comunicação e da proximidade –, mas tendo em conta o agregado familiar, a necessidade para uma “capacidade de tolerância muito grande” é ainda maior.

Essa tolerância funciona de pais para filhos, padrastos ou madrastas para enteados e de irmãos para meios-irmãos, pelo que à partida é preciso ter três coisas em consideração:

  • “Há os teus filhos e os meus filhos”, diz Catarina Mexia, alegando que, nestes casos, não é possível olhar da mesma maneira para filhos e enteados. “Temos tendência a olhar de forma preferencial para os nossos filhos. É melhor termos consciência disso de modo a evitarmos situações de injustiça. Vamos sempre olhar com corações diferentes”.
  • “Uma atitude fundamental é ter uma curiosidade constante pelo outro”, continua. Quer isto dizer que é preciso deixar no caixote do lixo ideias feitas sobre os novos membros da família e apostar na construção de uma nova relação.
  • “A pessoa que chega vai ter de entrar num processo de negociação”, conclui, referindo-se à negociação de espaços, de regras e de afetos, no sentido em que o padrasto ou madrasta devem estar disponíveis sem se imporem.

Certo que a chegada de um padrasto ou madrasta nem sempre — ou quase nunca — é fácil. Mas há uma variável que joga em favor do novo elemento na família, isto é, a idade dos enteados. Diz a terapeuta quequanto mais novas são as crianças, mais facilmente se deixam conquistar, uma vez que acabam por se sentir mais valorizadas. O mesmo não acontece quando em causa estão adolescentes, com a vinda de uma pessoa extra a representar, na maior parte das vezes, a imposição de novas regras. Catarina Mexia defende, então, que o padrasto ou madrasta deve tratar o enteado adolescente como um igual, uma espécie de companheiro de quarto, e não enquanto um miúdo.

Patrícia Motta Veiga ainda se recorda de como teve de explicar ao filho mais velho que estava decidida a entrar num novo casamento. Houve preocupação, cuidado acrescido e uma conversa a sós para mostrar respeito e perceber o que ia na cabeça de um Afonso de 17 anos. O que custou mais ao rapaz, conta a escritora, foi o facto de, num repente, deixar de ser o irmão mais velho — a partir do momento em que a mãe disse “sim” na conservatória, o seio familiar passou a incluir adultos bem mais velhos, independentes e com uma vida própria. Com mais autoridade e experiência de vida do que ele.

“Apesar de nunca me confrontar em relação a isso, sentia que ele não estava disponível para que o meu marido se intrometesse nas suas decisões”, recorda Patrícia. “E o João não se metia. Mas quando havia alguma questão que achava grave, ele falava com o Afonso pessoalmente. Acho que foi assim que conquistaram um com o outro uma relação de respeito. Mas se o Afonso é igualmente próximo como o António é do João? Não. O António já viveu mais tempo da sua vida com o padrasto do que com o pai.”

Se em tempos os filhos mais velhos de Patrícia Motta Veiga poderiam ter desejado que a mãe ficasse sozinha (ou que voltasse para o pai), hoje João assume em pleno as funções de pai. Ajuda a levar os miúdos à escola, a fazer os trabalhos de casa e, se a mãe está a fazer o jantar, ele está a dar banho à pequenada. As rotinas que envolvem quatro crianças e dois adultos parecem funcionar e, apesar de Patrícia garantir que esta realidade familiar não é complicada para as crianças, Caetano ainda tem momentos de uma hilariante confusão. O pai dos filhos de Patrícia vai buscá-los a casa às sextas-feiras, de 15 em 15 dias; quando a campainha toca, o trio corre em direção à porta a chamar ‘Pai, pai!’. O mais pequeno, que ainda não entende porque é que os irmãos têm dois pais, repete os gestos e dá por si a chamar pai ao ex-marido da mãe; depois olha para trás, para o pai biológico, e ri-se. É uma delícia, diz quem vê.

A propósito de confusões, Catarina Mexia argumenta que “o primeiro filho de um casal destes deveria surgir idealmente um ano após a recomposição da família para que os irmãos tenham tempo de ganhar uma dinâmica própria”. Mas quem diz irmãos, também diz o casal, que deve assegurar espaço suficiente para ver como a dinâmica familiar evolui. “Não sendo isso possível”, continua a terapeuta, “estes pais vão ter de navegar à vista. Esta é uma aventura para a qual não há receitas.”

“O fenómeno [das famílias recompostas] já estava a acontecer nos anos 1990, mas expressou-se de forma clara por cá na primeira década do século XXI.” Anatália Torres, socióloga

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Uma família (recomposta) portuguesa, com certeza

As famílias recompostas representam um fenómeno que veio para ficar, palavra de socióloga. A professora catedrática no ISCSP Anália Torresnão hesita em explicar que noutros países ocidentais que não Portugal esta já era uma realidade evidente. “O fenómeno já estava a acontecer nos anos 1990, mas expressou-se de forma clara por cá na primeira década do século XXI.” Em causa — ou a justificar este paradigma que, ao que parece, não é assim tão novo — estão as novas formas de encarar as dinâmicas familiares. “Passámos a dar mais importância à dimensão afetiva e emocional em vez da institucional”, aponta a também coordenadora no CIEG (Centro Interdisciplinar de Estudos de Género). “As pessoas quando se divorciam só estão a dizer que não querem estar mais com aquela pessoa, pelo que voltam à conjugalidade, o que leva ao aumento das famílias recompostas.”

E que aumento. Só em 2011 existiam 105.763 casais recompostos em Portugal, o que corresponde a 3,9% do total de casais e a 6,6% do total de casais com filhos — entre 2001 e 2011 este número mais do que duplicou, segundo revelam os dados apurados e publicados no livro “Famílias nos Censos 2011: Diversidade e Mudança”, de 2014, que resultou de uma parceria entre o Instituto Nacional de Estatística (INE) e o OFAP (Observatório das Famílias e das Políticas de Família) do ICS-ULisboa.

De referir que o aumento em causa faz desta “uma prática comum e transversal aos diferentes meios sociais, transformando a forma como se organiza e vive a vida familiar”, lê-se no respetivo documento. Não é por acaso que, tal como é possível ver no gráfico abaixo, em 2015 celebraram-se quase 8.500 casamentos entre pessoas do sexo oposto, num total de 32.043, com filhos de casamentos anteriores. Isto num país em que a taxa de divórcio aumentou significativamente desde 1960,de 1,1% para 70,4% em 2013 — Portugal era, até 2013, o país na Europa com a maior taxa de divórcio.

Mas como são as famílias recompostas portuguesas? As respostas têm por base o livro já referido, que cita dados de 2011:

  • A situação mais comum é aquela em que os filhos não comuns de um casal são apenas filhos da mulher (78% em 2011) — por outras palavras, em Portugal as famílias de padrasto são mais frequentes;
  • a grande maioria dos casais recompostos não tem filhos (59%), e os que têm, apenas têm um (79,8%) — ou seja, 4 em cada 10 casais recompostos têm filhos em comum;
  • os casais em questão estão a envelhecer, tendo aumentado o números de relações em que as mulheres têm 40 anos ou mais;
  • as mulheres na relação recomposta estão mais escolarizadas — em 2001 mais de metade das mulheres tinham no máximo o 2º ciclo do ensino básico (57,6%), enquanto em 2011 mais de metade tinha no máximo o 3º ciclo (64,7%);
  • por último, mais de metade (53%) dos casais recompostos estão empregados.

De referir que, talvez por culpa destes e doutros modelos familiares, o estigma em tempos associado ao padrasto ou à madrasta alterou drasticamente. Desta vez tanto padrastos como madrastas coexistem com os pais biológicos, quando antes surgiam apenas na viuvez de um pai ou de uma mãe. Além disso, reitera a socióloga, há mais padrastos do que madrastas porque, tal como confirmam os dados, são as mães que tendem a ficar com os filhos em caso de separação. “Se fosse há 10 anos as pessoas achavam isto tudo muito confuso. Agora é frequente, mas isso não quer dizer que seja menos problemático.”

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“Estamos a preparar futuros nómadas”

Por estes dias a família de Patrícia Motta Veiga passa férias na praia de São Martinho do Porto, onde diz ocupar várias das tradicionais barracas às riscas coloridas para aí caberem filhos de um e de outro, tios, tias, primos e primas. “Os miúdos andam em bando na praia. Durante as férias são imensos. Fico descansada porque, onde quer que eles vão, há sempre um tio ou uma tia à espreita”, conta a escritora que, também ela, é filha de pais separados e com filhos próprios (meios-irmãos de Patrícia). E como são as outras interrupções no calendário laboral, sobretudo o Natal? “Os natais da família do meu marido levam 140 pessoas, pelo que é sempre num hotel”, diz Patrícia depois de uma conversa longa ao telefone. “Na verdade, não perdemos muito tempo a explicar [como é e como funciona a grande família]. É que as pessoas acabam por perder o fio à meada.”

Voltemos ao início. No filme francês, assinado pelo realizador Gabriel Julien-Laferrière, a experiência de serem os pais divorciados a visitar os filhos, e não vice-versa, segue adiante e — sem querer adiantar spoilers— tem momentos que nos levam a acreditar que tal modelo possa mesmo funcionar (ainda que esta seja, como o género indica, uma comédia). Sobre isso a terapeuta e psicóloga Catarina Mexia não sabe dar uma resposta definitiva, ainda que argumente que essa seria “uma boa vingança” por parte dos filhos de casais separados. E porquê? “Isto de andarem sempre com as malas às costas… Estamos a preparar futuros nómadas. Desde os anos 1960 que as nossas crianças não fazem outra coisa senão fazer as malas. Andamos a preparar uma população nómada”, repete.

Um texto de Ana Cristina Marques

Deco recebeu 17.300 pedidos de ajuda de famílias sobre-endividadas este ano

O Gabinete de Apoio ao Sobre-endividado da Deco recebeu, no primeiro semestre do ano, 17.300 pedidos de ajuda, mais 70 face a igual período de 2015, o que mostra que a situação das famílias não melhorou, anunciou a associação.

“Os dados permitem concluir que não há uma melhoria significativa da situação financeira das famílias portuguesas”, porque os pedidos de ajuda são muito semelhantes aos verificados nos períodos homólogos de 2014 e 2015, disse à agência Lusa a coordenadora do Gabinete de Apoio ao Sobre-endividado (GAS), Natália Nunes.

Outra situação que a Deco verificou este ano, e que já tinha acontecido em 2014 e 2015, foi que “a situação financeira destas famílias é muito débil e não lhes permite ainda proceder” à sua restruturação de forma a equilibrá-la.

“Daí o facto de termos 17.300 pedidos de ajuda e apenas estarmos a acompanhar 1.235 famílias”, adiantou Natália Nunes à Lusa, explicando que apenas estas famílias tinham “alguma capacidade financeira” para tentar reestruturar a sua situação.

Infelizmente, as restantes famílias, “se ainda não foram, irão ser confrontadas com ações de execução em tribunal, de execução das suas dívidas” ou irão avançar para tribunal a pedir a sua declaração de insolvência”, disse, rematando: “Não é por acaso que continuamos a ver o aumento de situações de insolvência de particulares e de famílias nos últimos tempos”.

Segundo Natália Nunes, o desemprego (29%), a deterioração das condições laborais (22%) e a penhora dos rendimentos (14%) são as principais causas de sobre-endividamento das famílias que pediram ajuda, problemas que se agravaram durante a crise.

As penhoras decorrentes das dívidas relativamente a créditos e serviços já têm “um peso significativo” nos pedidos de ajuda, das quais 10% dizem respeito a execuções de crédito e 4% a execuções fiscais, sublinhou.

Segundo os dados do GAS, 53% dos processos iniciados este ano já apresentavam créditos em incumprimento, sendo que, em 2015, as famílias tinham em média cinco créditos em renegociação, número que se manteve este ano.

“Criou-se, nos últimos tempos, alguma ideia de que a crise estava ultrapassada e que, de certa forma, podíamos voltar a ter os comportamentos que tivemos” antes da crise, mas “a verdade é que não podemos”, disse Natália Nunes à Lusa.

Para a coordenadora do GAS, os portugueses têm de ser “cada vez mais rigorosos”, na forma como lidam com o dinheiro, e as instituições de crédito têm de “privilegiar a concessão de crédito cada vez mais responsável”.

“Este é um papel que tem de ser assumido, de uma vez por todas, por parte da banca e das instituições de crédito”, defendeu.

Os dados da Deco/GAS adiantam que 60% das famílias que pediram apoio estavam a trabalhar, 26% estavam desempregadas e 14% na reforma.

Das que estavam a trabalhar, 39% estavam no setor privado, 15% no setor público e 6% trabalhavam por conta própria.

Apesar de haver pessoas que já conseguiram voltar ao mercado laboral, estão a fazê-lo “numa situação muito precária, com rendimentos muito baixos, muitas vezes iguais ou até inferiores ao salário mínimo nacional”, disse Natália Nunes.

Traçando a evolução do número de processos acompanhados pelo GAS, a Deco refere 2.712, em 2011, 2.768, em 2012, 4.034, em 2013, 2.768, em 2014, e 2.712 em 2015.

Abono: Famílias vão receber mais

A promessa deixada por António Costa chegará agora a crianças e jovens inseridos em famílias monoparentais e em famílias numerosas, que verão os montantes atualizados dependendo das idades e dos escalões em que estão inseridos. Esta medida irá beneficiar mais de 1,1 milhões de crianças e jovens.

De acordo com informações disponibilizadas ao “Notícias ao Minuto”, as crianças inseridas no 1.º escalão com idade igual ou inferior a 12 meses receberão 145,69 euros, enquanto as restantes ficarão a receber 36,42 euros.

No segundo escalão, os menores até aos 12 meses ficam com um valor mensal de 119,66 euros e as outras idades receberão 29,92 euros. No último escalão a sofrer alterações, as famílias dos menores até aos 12 meses vão receber 94,14 euros e as restantes crianças 27,07 euros.

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