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“A floresta portuguesa necessita de intervenção urgente – a regulação do mercado é inadiável”

Na comercialização de madeira, quais são os compromissos assumidos pela BSL? Que preocupações têm em consideração para que nada vá contra os vossos princípios?
Estamos a plantar em Portugal espécies que não devíamos porque estão com pragas, ou seja, quer no pinho como no eucalipto, existem pragas que afetam fortemente a produção e que não se conseguem eliminar. Tal como se faz noutros países como o Brasil, Chile, Tasmânia ou Uruguai, há investigação permanente e plantam-se outros clones ou outras espécies já geneticamente mais evoluídas e mais resistentes às pragas. O grande problema de Portugal é que tem um défice que se agrava todos os anos nas espécies que tem plantadas e os preços são fixados pela indústria. Quanto mais baixos os preços, mais défice tem, mais abandono há e entramos num ciclo vicioso que será fatal para a floresta.

Portugal deveria, por isso, seguir o exemplo desses países que mencionou?
Sim, sem dúvida. Portugal deveria seguir o exemplo do Brasil que diria que é o líder mundial na investigação genética de algumas espécies que temos em Portugal, seguindo também o exemplo do Chile, do Uruguai e da Tasmânia, sendo que este último é o país originário do eucalipto que temos cá e que já se encontra a especializar noutras espécies. Mesmo no norte da Galiza, com terrenos muito semelhantes e condições climáticas muito aproximadas às nossas, já se aposta em espécies diversificadas que dão muito mais rendimento ao proprietário e para as quais a indústria se tem de adaptar.

Nos últimos anos, acredita que tem havido essa consciência da parte dos diferentes agentes económicos ligados à área florestal para seguirem o caminho já trilhado por outros países?
Na área florestal as pessoas têm consciência mas não podem fazer nada porque temos uma estrutura proprietária de minifúndio e essas pessoas, só por elas, não podem alterar o estado das coisas. A regulação do mercado é inadiável. Deveria ser feito esse trabalho através de associações de proprietários ou de cooperativas mas como os preços são unilateralmente impostos pela indústria, as pessoas não têm nenhuma capacidade negocial. A indústria, por sua vez, só baixa os preços com base na quantidade que quer. Só o ano passado importaram-se cerca de 500 mil toneladas de eucalipto e no próximo ano já foram anunciadas 800 mil toneladas.

Dentro deste cenário, quais são as principais prioridades de atuação da BSL no sentido de garantirem o futuro da floresta em Portugal?
Nos seminários e nas conferências onde vamos temos alertado para estas situações mas, de facto, qualquer agente, só por si, não consegue porque a indústria tem um peso desmedido. Hoje o que importa para as empresas é a cotação em bolsa, as ações e o valor dos dividendos que distribuem no final do ano. Não estão, por isso, muito preocupadas com o que pode acontecer no médio e longo prazo, contrariamente ao interesse do proprietário. Também não temos uma mata certificada porque não se trata de plantar uma espécie qualquer num sítio qualquer. Trata-se de certificar e ter planos de gestão que são adaptados para plantar as espécies que têm de ser em sítios que, do ponto de vista ambiental, seja adequado e possibilite que o proprietário tenha a produtividade certa.

De que modo a certificação florestal deve ser encarada como um instrumento essencial para a sobrevivência e competitividade das principais fileiras florestais em Portugal?
É vital porque existe uma relação de causa e efeito. Se tiver uma mata certificada tem a garantia, por definição, de que a plantação que se faz naquela área é adequada e existe um plano de gestão e um planeamento do corte, da fertilização e isso é fundamental. Mas para certificar é necessário ter um cadastro digitalizado e que, infelizmente, não existe. Ao contrário da Galiza, se tiver uma mata qualquer em determinado local, vai ao seu computador e coloca o polígono e a parcela e aparece de imediato a mata com o nome dos proprietários e dos vizinhos inclusivamente. Isso em Portugal não acontece porque temos de ir às Finanças ver quem é o vizinho, entre outros elementos. Há um trabalho enorme a fazer. O país gastou 472 milhões de euros desde 1985 com as florestas e a verdade é que há um abandono crescente da floresta, pelas razões que já mencionei. As espécies que estamos a plantar não são adequadas, não têm produtividade e, por isso, as pessoas não investem porque sabem que quando forem cortar a sua madeira não irá compensar o investimento feito. Depois disso, é muito frequente dizer que nos meses de verão existem muitos incêndios e, como tal, é necessário obrigar os proprietários a limpar as florestas. Mas isso não resulta. Temos sim de ter um sistema organizado que permita tirar rendimento da floresta porque, se assim for, naturalmente que eles irão limpá-la porque terão mais produtividade.

O risco de incêndio acaba por ainda ser a principal ameaça com que a floresta portuguesa se depara atualmente?
Os fogos são uma consequência da situação existente. Há fogos em todos os países naturalmente e por diversas razões mas se tivéssemos uma mata que fosse rentável as pessoas preocupavam-se mais. Na Galiza as associações de proprietários fazem vigilância 24 horas por dia, durante o período de verão e a taxa de incidência de fogos é muito inferior à nossa. Não podemos deixar as matas abandonadas. Com vigilância não evitaríamos todos os fogos mas, sendo a maior parte dos casos fogo posto, certamente que muitos poderiam ser evitados.

Com o início de um novo ciclo político, quais são as suas expectativas? Acredita que este assunto passará a estar mais presente na agenda política nacional?
Pensaria que sim mas hoje há um Ministério do Mar e um Ministério da Agricultura e não se ouve falar em florestas. No anterior governo, não existia um secretário de estado das florestas e não havia ninguém com essa responsabilidade. Na minha opinião deveria existir um Ministério de Recursos Naturais, que englobasse a agricultura, o mar e a floresta, e que permitisse ter alguém que efetivamente olhasse para a floresta de uma forma mais aprofundada. Não vi o perfil do novo governo mas não podemos estar à espera do executivo para isto. Tem de ser a sociedade civil. Por exemplo, o Uruguai, um país com 3,5 milhões de habitantes, está a fornecer a maior parte da madeira que vem para a indústria portuguesa e nós não somos capazes de dialogar e de nos juntarmos à mesa para dividir tarefas.

Para o futuro, estando a BSL fortemente dedicada à certificação e desenvolvimento da floresta, que objetivos querem ver concretizados?
A BLS está a procurar diversificar a atividade, ainda que dentro do setor florestal. A nossa atividade é a comercialização de produtos florestais e já ficaríamos satisfeitos se fossem lançadas as bases e fosse acordado um plano nacional para a plantação das árvores que devem ser plantadas nos sítios certos. Com isso, em dez anos teríamos madeira para exportar. Não havendo uma intervenção forte e não se colocando as pessoas à mesa a falar sobre a floresta e a tomar medidas de planeamento sem limitar a liberdade, não vamos a lado nenhum.

Alguns factos:
1- Congresso da AIFF de outubro de 2014: conclusão de que a floresta tem uma rentabilidade negativa para o proprietário. Estudo da Universidade Católica.
2- Em Aveiro, a plataforma florestal representante da indústria referiu uma preocupação perante o abandono crescente das terras. Os diâmetros cada vez maiores da madeira entrada em fábrica.
3- No seminário da Feira Nacional de Agricultura foi referido que, desde 1985, foram gastos 472 milhões de euros e existe menos área florestada, havendo um decréscimo desde 1995, segundo representante do ICNF.

O ciclo vicioso da floresta:
– Rentabilidade negativa para os proprietários;
– Baixas produtividades;
– Espécies erradas;
– Défice para a indústria;
– Importação muito cara;
– Baixa de preços no mercado ibérico para não aumentar a média do preço de compra;
– Mais abandono e mais défice.

Utilizações:
– Importamos carvão;
– Reciclamos para indústria de aglomerado, do mercado nacional e importamos;
– Subsidiamos a queima de madeira;
– Exportamos para queimar a madeira que o país precisa para a indústria;
– Subsídios dados para a construção de fábricas sem se exigir uma garantia de abastecimento.

Floresta ferida e maltratada:
– Biologicamente temos nemátodo e gonípteros;
– Estruturalmente:
1. A indústria tem de se adaptar à floresta no seu próprio interesse, de longo prazo;
2. Temos de plantar o que maior produção der, vulgo casos do Brasil, Chile e Uruguai;
3. Aposta na investigação de espécies com melhor produção, resistentes e de maior rendimento, casos de empresas que venderam as propriedades aos fundos e abandonaram a investigação;
4. Estado/Universidades como grandes investigadores;
5. Necessidade de regulação do mercado. Oferta atomizada, procura concentrada;
6. Proprietário receberá mais vendendo madeira para queimar, exportar, do que para a indústria. Caso do navio de eucalipto da África do Sul para França.

Ações:
– Urgentes e inadiáveis:
1. Novas espécies/híbridos;
2. Espécies rentáveis pinho marítimo vs taeda;
3. Empresas intermédia rendáveis e sustentáveis.
– Digitalização do cadastro;
– Certificação integral em todo o território;
– Mais ação, mais debate;
– Risco de perda de grande riqueza e setor com milhares de empregos.

Conclusões:
– Como potencial de enormes recursos não explorados;
– Como gerador de dezenas de milhares de postos de trabalho;
– A montante, na propriedade e sua gestão e na indústria intermédia e final de produção de pasta e de papel;
– A floresta portuguesa necessita de intervenção urgente;
– Sem a participação dos proprietários, associações e cooperativas, operadores florestais, associações ambientais e indústria na discussão urgente da floresta, ela continuará a arder e, em breve, estará no abismo.

CAIXAS DE TEXTO REDIGIDAS POR JOSÉ ESTIMA REIS

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