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Os distritos com praia e o resto do mundo

Antes de avançar para as referências que escolhi, permitam-me uma declaração de interesses: sou médico, anestesista e trabalho no hospital da Guarda há 25 anos.

Se tomarmos como referência o conjunto de distritos escolhidos em 2004 para receber o Europeu de futebol, percebemos que se estendem de Norte a Sul numa linha que corre descaradamente ao longo do litoral: Braga, Porto, Aveiro, Coimbra, Leiria, Lisboa e Faro. Se lhe juntarmos Setúbal (que não arranjou massa para o estádio) encontramos o modelo no qual quero assentar o meu tendencioso raciocínio. Chamemos-lhes os Distritos com Praia.

Para contraponto seleccionei outros tantos distritos unidos por uma linha que vai correndo, também descaradamente, ao longo da fronteira com Espanha: Viana do Castelo, Vila Real, Bragança, Guarda, Castelo Branco, Portalegre, Évora e Beja onde vivem 1,4 milhões de almas (11% da população) e que ocupam mais de 50% da área do país (fonte: wikipedia). Chamemos-lhes o Resto do Mundo Interior, apesar de Viana e Beja terem as suas praias.

Agora comparemos:

Em 1976, nas 1.as eleições legislativas após o 25 de Abril, os distritos do Euro 2004 (mais Setúbal, claro) faziam eleger 66,5% dos deputados da nação. Os outros, os do “interior” selecionados por mim, elegiam 18,2% dos deputados.

39 anos depois, em 2015 Portugal elegeu 72,6% dos seus deputados nos Distritos com Praia deixando 11,7% para o Resto do Mundo Interior.

Tentemos transportar o raciocínio para a anestesia. Os dados de que disponho dizem-me o seguinte:

Segundo um censo conduzido pela Ordem dos Médicos em 2017 (Lemos, P et al) nos Distritos com Praia trabalhavam 976 anestesistas (85,4%) e 86 nos do Resto do Mundo Interior (7,5%). Uma goleada.

O mais curioso é que os 6 maiores serviços de anestesia do país (dois do Porto, um de Coimbra e três de Lisboa) diziam necessitar de mais 177 anestesistas.

Para lançar as bases do futuro o Ministério da Saúde, aconselhado como sempre pela Ordem dos Médicos, distribuiu as 80 vagas para 2019 destinadas a jovens médicos aprendizes de anestesia pelos diferentes hospitais do país.

E como distribuiu as vagas? Acertaram. Aqui vão mais números:

Distritos com Praia, 71 médicos internos (88,75%) – Resto do Mundo Interior, 3.

Por extenso: três (3,75%). 2 para Évora e 1 para Vila Real.

40 vagas (50%) foram atribuídas aos tais 6 maiores serviços.

Pelo menos no que diz respeito à Guarda, conhecem-se as razões por que não é reconhecida a capacidade de formar internos: falta de quantidade e variedade nas cirurgias das diferentes especialidades cirúrgicas. Ou seja, há poucos serviços cirúrgicos, com poucos médicos e cirurgias pouco variadas. E sem cirurgia não há anestesia.

Hospital em dia de nevão

O que ainda vai florescendo são velhos: velhos anestesistas, velhos torneiros mecânicos, velhos porteiros de discoteca e velhas floristas.

Perguntar-se-á: mas se não há gente, para que são precisos anestesistas? Se não há anestesistas, para que são precisos cirurgiões? E se não há cirurgiões porque se fica por aquelas terras, arriscando a apendicite? E se não se fica por aquelas terras, para que são precisos torneiros mecânicos, discotecas com porteiros ou floristas?

Bom, as floristas sempre vão sendo necessárias para os funerais.

Será o problema de natureza cultural? Será político? Sociológico? Ou simplesmente económico?

A culpa, conceito tão nosso, tão judaico-cristão, é de um provincianismo político já há muito denunciado por Eça, cultivado por Salazar e definitivamente institucionalizado por este regime.

Ouvimos frequentemente vozes autorizadas nas televisões e nas rádios dissertar sobre “interioridade”, “regionalização” e outros palavrões mais ou menos bonitos. Esses espertos – ou experts, como se diria noutra língua – pagam impostos em Lisboa, olhando condescendentemente para uma “província” onde imaginam que se come com as mãos e que as mulheres vestem de preto e usam bigode. Alguns deles ostentam as suas raízes e as suas saudades da casa dos avós, sendo estes os mais sobranceiros e condescendentes. Afinal o problema é cultural.

A causa reside numa visão política centralizadora, arcaica e autista. Afinal o problema é político.

O fenómeno resulta de uma inversão da pirâmide demográfica em que se nasce pouco e se morre tarde. Afinal o problema é sociológico.

Não. Basta fazer contas. Fica muito caro ao país sustentar aquela gente.

Afinal o problema é económico.

Dr. Matos Godinho, Diretor de Anestesiologia da ULS da Guarda

Governo quer legislação até junho para promover fixação de médicos no interior

O ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, defendeu este sábado a necessidade de incentivar os médicos a trabalhar no interior, prevendo que o Governo terá legislação com esse objetivo concluída até junho.”Estamos a preparar legislação que visa dar um impulso maior” à fixação destes profissionais de saúde em concelhos do interior de Portugal, declarou Adalberto Campos Fernandes, questionado pela agência Lusa na Pampilhosa da Serra.

O ministro da Saúde falava aos jornalistas, no final da cerimónia de inauguração do novo Centro de Saúde desta vila do distrito de Coimbra, um equipamento a funcionar desde abril e que custou cerca de um milhão de euros, concebido para prestar cuidados de saúde a quase 4.000 utentes.

Realçando que “é sobretudo na profissão médica que as dificuldades se põem mais”, disse que o Ministério da Saúde está “neste momento a preparar instrumentos legislativos” destinados a “criar condições para que os jovens médicos”, no início da carreira, possam fixar-se nos chamados territórios de baixa demográfica.

“Nós contamos, até ao fim do primeiro semestre, ter esse procedimento legislativo levantado”, o qual abrangerá também “médicos mais velhos, que estejam em atividade”, e que “em regime de mobilidade parcial ou temporária possam durante algum tempo” desenvolver a sua atividade no interior.

O problema, segundo o ministro da Saúde, “não é apenas muitas vezes uma questão de natureza remuneratória, que também conta”, mas antes um problema relacionado com “apoios de condição local, aos filhos e à família”. “No interior, há boas condições de vida e trabalho, há também condições para que os médicos possam considerar essa realidade”, sublinhou Adalberto Campos Fernandes.

Financiada em 85% por fundos europeus, através do programa Mais Centro, a construção do Centro de Saúde foi da responsabilidade da Câmara Municipal da Pampilhosa da Serra, presidida pelo social-democrata José Brito, que disponibilizou o terreno na urbanização da Quinta de São Martinho, junto à Escola Secundária, e assumiu os restantes 15% dos encargos com as obras.

O montante de um milhão de euros investido abrange a empreitada de construção e a aquisição dos novos equipamentos. No âmbito de um protocolo celebrado com a Administração Regional de Saúde (ARS) do Centro, este organismo do Estado presidido pelo médico José Tereso pagou 15% das despesas com equipamento, tendo cabido 85% ao Mais Centro.

O Centro de Saúde da Pampilhosa da Serra, que pertence ao Agrupamento de Centros de Saúde do Pinhal Interior Norte, tem 3.758 utentes, quatro médicos, cinco enfermeiros e sete assistentes técnicos. A unidade integra as extensões de Dornelas do Zêzere e Unhais-o-Velho. Os trabalhos de construção do edifício arrancaram em agosto de 2014 e terminaram em dezembro de 2015.

Incentivos para captar médicos para o interior não convencem

20 médicos. Só. A possibilidade de receber mais mil euros de ordenado, durante seis meses, mais dois dias de férias por cada cinco anos de contrato e a ajuda na colocação dos filhos na escola só convenceu 20 médicos a ir trabalhar para o interior de Portugal, conta o “Diário de Notícias” esta sexta-feira.

Existe falta de especialistas nas especialidades de cardiologia, cirurgia-geral, ginecologia/obstetrícia, medicina interna, ortopedia, pediatria, psiquiatria e urologia. A lista de zonas varia pouco: Alentejo, incluindo o litoral, Algarve, Castelo Branco, Guarda, Caldas da Rainha, Torres Vedras, Abrantes, Tomar, Torres Novas ou Bragança.

Segundo a Administração Central do Sistema da Saúde (ACSS), “cerca de 20 médicos” aderiram aos incentivos para zonas carenciadas, escreve o “DN”. Estes incentivos foram criados ainda pelo Governo de Pedro Passos Coelho, por decreto-lei, e entraram em vigor em Agosto do ano passado.

Os médicos que aderirem à proposta do Estado são obrigados a ficar cinco anos no mesmo local. Após os seis meses iniciais, passam a receber um bónus mensal de 500 euros. No final do primeiro ano, passam a receber mais 250 euros até ao final do período de cinco anos. No total, estes bónus equivalem a 21 mil euros. Contudo, este valor terá de ser devolvido, caso o médico decida sair mais cedo.

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