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O fenómeno do cyberbullying e a sua incidência em Portugal

INVESTIGADORES DO PROGRAMA DE ESTUDOS DE CYBERBULLYING. SOFIA OLIVEIRA, ANA MARGARIDA VEIGA SIMÃO (INVESTIGADORA RESPONSÁVEL), PAULA PAULINO, NÁDIA PEREIRA, SOFIA FRANCISCO E PAULA COSTA FERREIRA

Apesar dos diversos benefícios associados à utilização das plataformas digitais, nomeadamente o aumento do bem-estar pessoal dos indivíduos, existem também novos tipos de riscos inerentes. Entre os quais o envolvimento em situações de violência entre pares, seja enquanto observador, vítima ou agressor, que tem vindo a ser cada vez mais frequente entre os adolescentes.

O cyberbullying, em particular, corresponde a um destes fenómenos, descrito pela comunidade científica como uma extensão do bullying que é realizado através de meios digitais, correspondendo a um comportamento cruel, intencional e repetido. Algumas especificidades do cyberbullying, tais como a possibilidade de o agressor ser anónimo, a distância física existente entre os intervenientes e o facto de as agressões permanecerem online por tempo indeterminado, contribuem para a complexidade deste fenómeno e ainda para o agravamento dos efeitos negativos nas vítimas.

Quanto à incidência do cyberbullying entre os jovens portugueses, os resultados preliminares de estudos realizados no âmbito dos projetos desenvolvidos pela equipa da Faculdade de Psicologia, Universidade de Lisboa (FP-UL) indicaram que, em 1607 adolescentes portugueses, 82.3% da amostra referiu ter observado este tipo de incidentes, 47.1% indicou ter sido vítima de cyberbullying e 39.9% mencionou ter sido agressor. Verificou-se ainda uma tendência para o aumento da observação de incidentes de cyberbullying a partir dos 13 anos de idade e da totalidade dos comportamentos observados, 63.9% corresponderam a boatos, 68.7% a comportamentos de gozo e 69.4% a insultos.

Fatores de risco e impacto do cyberbullying nas vítimas e sinais de alerta em agressores e vítimas

Existem importantes fatores de risco que têm sido associados ao envolvimento em incidentes de cyberbullying, nomeadamente o envolvimento em experiências anteriores de bullying, problemas comportamentais, isolamento social e a falta de monitorização e de envolvimento por parte dos pais.

O cyberbullying apresenta efeitos negativos na saúde física e psicológica das vítimas, assim como ao nível do seu ajustamento e desempenho escolar. Em particular, a comunidade científica tem identificado sintomas de depressão e de ansiedade, abuso de substâncias, comportamentos autolesivos, queixas físicas e decréscimo no envolvimento e desempenho escolar, bem como absentismo escolar. Em última instância, o cyberbullying pode conduzir ao suicídio por parte das vítimas.

Apesar das diferenças individuais e também das diferenças que podem ser encontradas de caso para caso, existem importantes sinais de alerta que têm sido associados aos agressores e vítimas de cyberbullying.

No caso dos agressores, tem sido identificado um conjunto de comportamentos característicos, tais como evitar falar sobre as atividades que são feitas no computador ou no telemóvel; apresentar agitação quando não é possível ter acesso a estes dispositivos; utilizar os mesmos de forma excessiva; e ter diversas contas ou perfis.

No caso das vítimas, um dos sinais de alerta remete para sentimentos de zanga, tristeza, frustração ou raiva quando utilizam o computador ou o telemóvel. Outros sinais incluem o evitamento do uso de meios tecnológicos, a presença de ansiedade marcada aquando a sua utilização e ainda, a resistência em ir à escola ou em sair de casa.

O papel dos adultos  na convivência online entre  os jovens

É fundamental os adultos orientarem os jovens em relação a conteúdos e comportamentos adequados em contexto online, tanto em casa como nas escolas. Assim, os pais e outros familiares, assim como os professores devem procurar manter-se atualizados relativamente às plataformas e aplicações que são mais utilizadas pelos jovens.

Em família, é essencial promover um diálogo aberto, interessado e positivo sobre a utilização das tecnologias e das redes sociais. Além disso, a família deve manter-se a par das atividades dos adolescentes no computador e no telemóvel. Por exemplo, é importante que os pais conheçam as configurações de privacidade e a rede online da criança ou adolescente. Outro aspeto fundamental é o estabelecimento de regras sobre os comportamentos, conteúdos e aplicações que os pais consideram apropriados, bem como o tempo de utilização dos dispositivos tecnológicos.

Os resultados de um estudo recente, publicado em 2017 na revista Journal of Adolescence por investigadores da equipa da FP-UL, indicaram que, apesar de os adolescentes reportarem mais frequentemente experiências de vitimização de cyberbullying a amigos ou aos pais, quando contam aos professores, tendem a indicar uma perceção mais positiva em relação ao ambiente escolar. Neste sentido, o papel da escola na prevenção e intervenção no cyberbullying é essencial.

Em particular, o desenvolvimento de ações de sensibilização por parte de psicólogos e de outros profissionais com formação na área, pode contribuir não só para informar os pais, mas também os professores sobre formas de prevenir este fenómeno e estratégias de intervenção eficazes.

Existem medidas imediatas que podem ser tomadas numa fase precoce, tais como bloquear o agressor, denunciar na rede social e guardar provas. Além disso, as vítimas devem ser desencorajadas de retaliar de forma agressiva e incentivadas a procurar ajuda junto de adultos de confiança.

É ainda importante que se tenha consciência sobre o papel dos observadores, uma vez que os mesmos podem alterar o rumo destas situações, ao intervirem de forma pró-social, nomeadamente através de comentários positivos que apoiem a vítima. Em casos mais graves, por exemplo, quando existem ameaças à integridade física das vítimas, a situação deve ser reportada junto das autoridades.

Prevenção e intervenção no cyberbullying em Portugal: Intervenções Com@viver

Com o avanço das tecnologias de informação e de comunicação, a violência entre os jovens tem vindo a assumir novas formas e também uma maior visibilidade, nomeadamente através da partilha de conteúdos nas redes sociais. O desenvolvimento de novos fenómenos de violência entre pares, entre os quais o cyberbullying, tem conduzido à necessidade de maior atuação por parte das autoridades e dos decisores políticos.

Sendo a escola um espaço central de convivência entre os jovens e de aprendizagem de conteúdos académicos e competências socioemocionais, este é um contexto prioritário para desenvolver ações de sensibilização face a este tipo de fenómenos.

As intervenções Com@viver têm em vista a promoção da convivência saudável entre os jovens e referem-se a três tipos de ações primárias e/ou secundárias, em contextos socioeducativos, nas áreas do bullying e do cyberbullying. Estas intervenções foram desenvolvidas no âmbito de projetos de investigação-ação financiados pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) por investigadores do Programa de Estudos de Cyberbullying (PEC) do grupo de investigação ProAdapt do Centro de Investigação em Ciência Psicológica (CICPSI), da FP-UL.

É essencial que o desenvolvimento de comportamentos pró-sociais seja promovido em idades precoces para que as crianças aprendam desde cedo a importância de estabelecerem relações interpessoais positivas no seu meio ambiente. Neste sentido, o programa Com@Viver no 1º ciclo destina-se à formação de professores, tendo em vista a promoção de estratégias de prevenção e de intervenção em relação ao bullying e ao cyberbullying. Esta intervenção tem como objetivo promover comportamentos pró-sociais e competências socioemocionais em alunos do 1º ciclo do ensino básico, considerando o aumento da incidência de fenómenos de violência entre pares que também se tem verificado neste ciclo de ensino.

A formação académica dos professores pode, assim, beneficiar deste tipo de instrução explícita que lhes permita garantir a sua infusão curricular e desenvolvimento de competências nos seus alunos. O programa envolve um total de oito horas de formação para professores, organizadas em quatro sessões, centradas em metodologias ativas, permitindo o envolvimento de todos os formandos e a co-construção de conhecimentos, adaptados às especificidades de cada contexto.

O jogo Com@Viver resulta do projeto O Efeito do Observador no Cyberbullying: a responsabilidade e a tomada de decisão interventiva através da regulação do comportamento (SFRH/BPD/110695/2015), coordenado pela FP-UL, em parceria com o Intelligent Agents and Synthetic Characters Group (GAIPS) do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores (INESC-ID), Instituto Superior Técnico, da Universidade de Lisboa (IST-UL). Este jogo foi desenvolvido para adolescentes do 7º e 8º anos de escolaridade e envolve um ambiente escolar fictício. Os jogadores organizam uma visita de estudo hipotética e durante o jogo convivem com agentes sociais e com os seus colegas de turma numa rede social. E

m cada uma das quatro sessões desta intervenção existe um caso de cyberbullying do qual os jogadores são observadores, podendo comunicar com os seus pares (fictícios e reais), colocando “gosto”, “não gosto” fazendo posts e respondendo a mensagens através de comentários pré-concebidos, com a finalidade de promover a empatia e comportamentos pró-sociais. Num estudo longitudinal do projeto realizado com 221 alunos do 7º e 8º anos de escolaridade verificou-se um aumento dos comportamentos pró-sociais dos alunos que utilizaram este jogo, como também um acréscimo de empatia cognitiva.

Por último, a aplicação Com@Viver Online foi desenvolvida no âmbito do projeto Cyberbullying: A regulação do comportamento através da linguagem (PTDC/MHCPED/3297/2014), em parceria com o Spoken Language Systems Lab, INESC-ID, IST-UL e com a Altice Labs, S.A. Esta intervenção corresponde a uma aplicação de telemóvel que ajuda os adolescentes a regularem o seu comportamento através da linguagem, de forma a prevenir e intervir no cyberbullying.

Esta aplicação permite utilizar a rede social Twitter, ao mesmo tempo que disponibiliza conteúdos psicoeducacionais que promovem o autoconhecimento e a autorreflexão sobre a utilização das redes sociais e o cyberbullying, assim como a autorregulação do comportamento. Estes conteúdos são aleatoriamente apresentados no feed da rede social sob a forma de tweets, podendo também ser consultados pelos utilizadores no menu da aplicação.

Estes conteúdos são conjugados na aplicação com um sistema de deteção automática de potenciais situações de cyberbullying que possam ocorrer entre os utilizadores, baseado na deteção de linguagem agressiva, conflitos e ataques. Nestes casos, os utilizadores recebem um alerta automático com o objetivo de promover a autorreflexão sobre o comportamento, sendo-lhes apresentadas opções para intervir positivamente na situação, por exemplo, reescrever o tweet no caso do emissor e ligar a um contacto de emergência no caso do recetor.

Além disso, sempre que a aplicação identifica estas situações, é aumentada a exposição dos utilizadores envolvidos aos conteúdos psicoeducacionais. Num estudo do projeto realizado com 218 alunos do 9º ano de escolaridade de um agrupamento de escolas da área de Lisboa, verificou-se uma diminuição da agressividade dos alunos que utilizaram a aplicação, o que sugere que a mesma pode contribuir para a diminuição de comportamentos agressivos entre os jovens.

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