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Livraria Lello fechada para remodelação do interior

A livraria Lello tem efetuado obras dentro das instalações “quase exclusivamente em horário noturno”, de modo a manter portas abertas durante o dia, mas trabalhos específicos de recuperação dos soalhos do rés-do-chão e do primeiro andar impõem que se vede o acesso ao público durante os dois dias.

“O desgaste provocado pelos 111 anos de existência da livraria e pelos milhares de visitantes que recebe diariamente, justifica plenamente esta intervenção de conservação e restauro”, sublinha a Lello num comunicado em que se alude aos trabalhos em curso como sendo de “extrema complexidade”.

A funcionar num edifício neogótico classificado como Monumento de Interesse Público, a Lello reclama ter recebido mais de um milhão de visitantes “só em 2016”. É considerada uma das mais belas livrarias do mundo por vários órgãos da imprensa internacional – como o jornal The Guardian, que a elevou, em 2008, à terceira mais bela do mundo, ou a estação televisiva CNN, em 2014, que a considerou a mais linda do mundo.

As “profundas obras de conservação e restauro” do interior do edifício incluem a recuperação completa de madeiras e estuques, a reformulação da instalação elétrica e da iluminação, bem como a instalação de um novo sistema de aquecimento, ventilação e ar condicionado.

Estas obras, assinala a Lello, seguem-se a uma primeira fase do restauro, terminada em julho do ano passado, que incidiu na reabilitação da cobertura, no restauro da fachada e do vitral de grandes dimensões.

“A reabilitação da cobertura veio pôr cobro a infiltrações, melhorando a sua estanquidade, comportamento térmico e de ventilação. O restauro da fachada visou devolver as cores originais, especialmente às das duas figuras femininas da autoria de José Bielman e das letras ‘Lello e Irmão'”, nota o comunicado.

“Apesar de estas não serem as primeiras obras de conservação do edifício da Livraria Lello são, sem dúvida, as mais profundas e que se pautam por um extremo rigor técnico e científico, sendo acompanhadas por técnicos da Direção-Geral do Património Cultural”, afirmam os responsáveis pela livraria.

Macau: Obra obriga a descarregar águas residuais no mar

“ETAR [Estação de Tratamento de Águas Residuais] já tem 20 ou 30 anos e o coletor [de descarga de efluentes] está completamente danificado e tem de ser substituído. Esta obra tem de ser feita, este coletor se não for substituído hoje, seria substituído no próximo ano. É uma coisa indesejável, mas tem de ser”, afirmou Raimundo do Rosário, Secretário para os Transportes e Obras Públicas de Macau.

“É inevitável, faremos o possível para que seja feito no menor espaço de tempo. [Mas] durante o período de execução da obra, as águas residuais não serão tratadas e serão descarregadas. O que fazemos é descarregar por vários sítios em vez de concentrar tudo num ponto”, disse, à margem de uma reunião da comissão de Acompanhamento para os Assuntos da Administração Pública da Assembleia Legislativa.

O secretário explicou que nesses locais haverá um controlo da qualidade da água, e se for ultrapassado determinado limite, o descarregamento será dividido ainda por mais pontos. “No fundo é dividir o mal pelas aldeias (…) Por muito que a gente minimize, é mau”, admitiu.

Questionado sobre a possibilidade de armazenar as águas residuais durante o período de duração da obra, Raimundo do Rosário indicou que tal não é possível por se tratar de uma quantidade muito elevada.

“Não temos reservatórios para isso. São muitos metros cúbicos, não há possibilidade de armazenar nem uma hora, nem duas horas, é muita quantidade”, afirmou.

Inicialmente planeada para durar três dias, a obra na ETAR deverá estar concluída num prazo menor, tendo sido pedida autorização ao chefe do executivo para que os trabalhos possam ser contínuos e prolongados, numa situação de exceção à lei do ruído, que impede a realização de obras fora do período diurno estipulado.

Ainda assim, o governante não soube dizer quanto tempo será necessário para substituir a conduta. “Quem viver naquela zona fará um sacrifício”, disse, indicando que as Obras Públicas tentarão realizar os trabalhos mais ruidosos durante o dia.

Raimundo do Rosário reafirmou que, salvo esta exceção, as águas residuais de Macau são sempre tratadas, mas admitiu incidentes “pontuais” e tratamentos “menos adequados”.

“Não afasto a possibilidade de pontualmente, numa ocasião ou noutra, haver uma avaria. Mas numa estação normal isso não pode acontecer. O que pode acontecer é ser escoado com um tratamento mais ou menos adequado, mas diretamente para o mar não”, disse.

Palácio da Ajuda vai ser concluído 222 anos depois do início das obras

Não é todos os dias que se conclui uma obra iniciada há mais de duzentos anos. No caso do Palácio Nacional da Ajuda, cuja construção foi lançada em 1796, a obra deverá ficar terminada algures no final de 2018. A conclusão do monumento nacional, com o remate da sua fachada poente — a parte inacabada que dá para a Calçada da Ajuda —, vai finalmente avançar, por acordo entre o Ministério da Cultura, a Câmara Municipal de Lisboa (CML) e a Associação de Turismo de Lisboa (ATL). O Ministério, que não é só o responsável pelo imóvel mas também seu inquilino, avançou com o projeto, da autoria do arquiteto João Carlos Santos, e com cerca de quatro milhões dos 15 milhões de euros em que a obra está orçamentada; a parte de leão do financiamento fica a cargo da CML, através da taxa turística municipal, que é gerida pela ATL.

O protocolo entre as três entidades, assinado esta segunda-feira, tem um prazo de duração de 20 anos e o projeto prevê algo mais do que a sempre adiada conclusão do palácio: na ala renovada irá nascer um novo espaço museológico, onde ficarão em exposição permanente as joias da coroa portuguesa, como aliás já havia sido adiantado pela Revista do Expresso, no início de 2015. Ao todo, são 15 milhões de euros para edificar duas caixas fortes e terminar a fachada, recuperando ainda a Calçada da Ajuda entre a Alameda dos Pinheiros e a Rua das Açucenas.

ALBERTO FRIAS

Os quatro milhões de euros assegurados pelo Ministério da Cultura através da Direção-Geral do Património Cultural (DGPC) vêm, em parte, da indemnização recebida pelo roubo de quatro joias da coroa portuguesa em Roterdão, na Holanda, em 2002. Os restantes 11 milhões correspondem à comparticipação da ATL (€6 milhões oriundos da primeira aplicação prática da taxa turística em Lisboa; €2 milhões de capitais próprios; e €3 milhões de um empréstimo ainda a contratualizar). Segundo João Carlos Santos, o arquiteto responsável pela nova ala do Palácio da Ajuda, o custo do projeto é sobretudo agravado pelos padrões de segurança exigidos para a exposição.

ALBERTO FRIAS

A abertura está prevista para dezembro de 2018. O concurso público e adjudicação da obra devem estar concluídos em julho de 2017. Dezoito meses é o prazo de execução da obra.

Tanto o ministério como a autarquia salientam a “conjugação de vontades”, nas palavras de Fernando Medina, que permite no século XXI concluir uma obra de que vem de finais do século XVIII. “Este projeto é fruto de uma grande vontade política e de uma capacidade de articulação exemplar entre o Ministério da Cultura, a Câmara de Lisboa e a ATL em prol da cultura”, diz ao Expresso o ministro Luís Filipe Castro Mendes.

A coroa e a Insígnia da Ordem do Tosão de Ouro fotografados pelo Expresso

A coroa e a Insígnia da Ordem do Tosão de Ouro fotografados pelo Expresso

CAMPISO ROCHA

“Até agora faltaram ou a audácia ou os recursos financeiros”, comenta Fernando Medina. “Agora, a DGPC queria muito avançar, o facto de ter sido um projeto feito na casa teve grande importância, e os recursos chegam via Turismo de Lisboa, graças à taxa turística. Sempre ficou acordado que a taxa turística, que outros criticaram como ‘taxas e taxinhas’, serviria para dinamizar o sector, e todos os agentes se mostraram muito entusiasmados com a possibilidade de criar uma nova centralidade e um novo polo cultural e patrimonial, aproveitando o palácio e a coleção de joias”, diz o autarca de Lisboa.

FOTO LUIS COELHO

O plano de negócios prevê que o retorno do investimento comece 12 anos após a inauguração do espaço, data em que as despesas do financiamento e os encargos com empréstimos estarão pagos, com as receitas de bilheteira a garantir a sustentabilidade. Numa área de construção de 5450 m2 e de 3100 m2 de espaços exteriores vai nascer uma casa disponível para manter em exposição permanente a coleção de ourivesaria que ronda as 6300 peças, constituída, em grande medida, entre os séculos XIV e XX, e as 900 joias reais, de variadíssimas tipologias e proveniências, elaboradas entre os finais do século XVII e o fim do século XIX.

NÃO PODIA TORNAR-SE “UMA ESPÉCIE DE SANTA ENGRÁCIA”

Pórticos de segurança, dois núcleos expositivos em dois pisos distintos, uma cafetaria com vista para o Tejo e para toda a zona de Belém, uma loja, e todos os serviços administrativos, de funcionamento, de bilheteira (que poderá vir a ser conjunta com a entrada no Museu do Palácio da Ajuda, já existente), de serviços técnicos e de climatização, serão ancorados por uma fachada com referências aos alçados já existentes e de cariz neoclássico, com duas torres laterais à altura dos torreões norte e sul da outra fachada do edifício, e por uma estrutura com lâminas de sombreamento, que lhe dará o seu ar contemporâneo.

Ao longo dos anos, vários estudos estiveram sobre a mesa para a conclusão da fachada poente, desde Raul Lino, nos anos 40, a Gonçalo Byrne, na década de 80. O ministro Castro Mendes assume a escolha do projeto de João Carlos Santos por ser “o melhor”. “Não queríamos reconstruir a fachada poente do palácio, nem pretendíamos fazer um exercício mimético em relação ao resto do edifício. Queríamos o encerramento harmonioso da fachada, com acrescentos leves e com uma linguagem arquitetónica nova.” Foi também a opção mais barata. “O custo também pesou”, assume o governante. João Carlos Santos é quadro da DGPC.

Questionados sobre a necessidade de um concurso de ideias mais amplo ou de debate público sobre esta escolha, tanto Castro Mendes como Fernando Medina desvalorizam. “Todo o debate público que tem havido ao longo dos tempos foi tido em conta e a escolha desta imagem não esqueceu esse diálogo de ideias. Mas não podemos estar sempre a relançar debates. Seria uma espécie de Santa Engrácia e daqui a 200 anos ainda estaríamos à espera”, responde o ministro. O autarca assina por baixo: “Era importante não perder o momento e a oportunidade. Se calhar foi por isso que se perdeu tanto tempo no passado.”

Segunda Circular. Júri do concurso acusa empresa de impor pavimento que passou a vender

O júri do concurso público para as obras na Segunda Circular, em Lisboa, afirma que não pôde escolher um pavimento alternativo àquele que tinha sido proposto pela empresa Consulpav, que depois dessa proposta passou também a vender um dos componentes do pavimento sugerido. Foi esse um dos motivos que levou o júri a propor ao presidente da Câmara Municipal de Lisboa que decretasse a nulidade do concurso, fazendo parar imediatamente todos os trabalhos.

No relatório final do concurso, elaborado a 26 de agosto depois de vários concorrentes terem apresentado reclamações, os membros do júri escrevem “que se verificam fortes indícios para afirmar que existe coincidência entre o projetista do projeto de pavimentação e a fabricação e/ou comercialização do aditivo” que deveria ser utilizado no novo piso da Segunda Circular. Mas o documento, ao qual o Observador teve acesso, vai mais longe, ao acusar a consultora Consulpav de ter impedido a escolha de outro tipo de pavimento:

Ficou expresso no concurso que a possibilidade de substituição do RAR [borracha de pneu] por outro aditivo estava vedada, uma vez que foi sempre respondido pelos projetistas que o procedimento não admitia propostas variantes, nomeadamente em relação a materiais”
Este facto “conduz o júri a acreditar estar na presença de um verdadeiro conflito de interesses”, lê-se no relatório, que esteve na base da decisão tomada na sexta-feira passada por Fernando Medina. “Sempre que foi perguntado se eram admitidas soluções alternativas ao aditivo RAR, sempre foi respondido pelo projetista que não eram admitidas propostas variantes”, o que “vedou por completo a possibilidade de ser considerado um outro material alternativo ao preconizado no projeto de pavimentação”, escrevem os membros do júri.

O júri do concurso sublinha que a utilização deste tipo de pavimento específico era uma “exigência pré-determinada no projeto de pavimentação” e que, por “não serem admitidas propostas variantes”, “todo o resultado do concurso” fica posto em causa.

O facto de esta circunstância ilegal, e como tal inválida, se verificar na base do projeto de execução contamina todas as peças do procedimento, desde logo o respetivo caderno de encargos, implodindo todo o processo subsequente”
Tal como o Observador noticiou esta segunda-feira, a câmara foi aconselhada em março a não usar o pavimento sugerido pela Consulpav numa via tão importante como a Segunda Circular, uma vez que, argumentavam os autores do relatório de revisão do projeto, “este tipo de tecnologia não foi ainda aplicada em Portugal”. A autarquia, no entanto, optou por não seguir o conselho e, em resposta a perguntas do Observador, sublinhou mesmo que o facto de o pavimento ser inovador não podia constituir um entrave à sua utilização.

Segunda Circular. Câmara ignorou relatório que alertava para riscos na obra

A Câmara Municipal de Lisboa foi aconselhada em março deste ano a não usar o pavimento proposto pela empresa (Consulpav) que está no centro do polémico cancelamento das obras da Segunda Circular. Motivos? O pavimento não está suficientemente estudado em Portugal e, além disso, esses estudos podiam atrasar as obras, cuja conclusão estava prevista para o verão do próximo ano. A autarquia, no entanto, optou por ignorar este conselho e deixou o processo seguir. Cerca de cinco meses depois, o executivo camarário decidiu cancelar as obras com base num alegado conflito de interesses que envolve precisamente a Consulpav.

A empresa em causa faz projetos e presta consultoria na área dos pavimentos. É também, desde janeiro, a única empresa portuguesa que fabrica e vende borracha distendida e reagida, um material que se retira de pneus reciclados e que pode ser usado para fazer pavimentos rodoviários. Foi precisamente esse material que a Consulpav aconselhou a câmara a usar nas obras de reabilitação da Segunda Circular. Depois desse aconselhamento, a mesma empresa passou de consultora a vendedora do produto, pelo que a autarquia decidiu, na sexta-feira, anular as obras.

Mas as dúvidas que envolvem esta empresa não eram apenas essas. Já em março, um relatório de avaliação do projeto, feito por uma empresa externa, alertou a câmara para os potenciais riscos da utilização do material aconselhado pela Consulpav. “É importante notar que este tipo de tecnologia não foi ainda aplicada em Portugal, não havendo deste modo experiência acumulada suficiente para atestar do seu bom comportamento e aferir das adequadas condições da sua aplicação”, lê-se no documento, a que o Observador teve acesso. Os autores sublinhavam a importância de fazer estudos adicionais, mas alertavam “para que os prazos de execução destes estudos de formulação” pudessem “não ser compatíveis com os prazos de execução da empreitada, podendo desta forma conduzir a um atraso nos trabalhos.”

Os autores do relatório não tiveram dúvidas:

Considera-se que a experimentação deste tipo de solução inovadora, independente do seu potencial, deveria ser reservada a vias de menor importância e com menor exposição pública e política e com melhores condições de execução.”
Confrontada com a existência desta avaliação, a autarquia respondeu através do departamento de comunicação que “o relatório que o Observador cita não levanta qualquer objeção técnica sobre esta solução, concentrando-se antes num juízo de valor sobre o facto de o material nunca ter sido testado em Portugal numa obra com esta dimensão”. Salientando que o relatório — elaborado pela empresa de engenharia Viaponte — se trata de uma “opinião técnica, consultiva e sem caráter deliberativo”, o município acrescenta:

Não será a primeira, nem a segunda ou terceira vez que a Câmara Municipal de Lisboa recorre a soluções técnicas inovadoras em Portugal. Se todas as soluções inovadoras no nosso país fossem rejeitadas, por esse facto apenas, a CML ainda continuaria a usar soluções técnicas do século passado, desatualizadas e menos confortáveis para os cidadãos.”
Note-se, no entanto, que o relatório não dizia que a referida “solução técnica inovadora” não devia ser aplicada — aconselhava apenas a que isso fosse feito em “vias de menor importância”. A câmara garante ainda que “não está prevista” qualquer revisão ao projeto, embora não garanta, para já, que esta solução técnica para os pavimentos seja mantida nos planos futuros para a Segunda Circular.

No decorrer do processo, a questão da repavimentação da estrada foi sempre referida como um dos pontos prioritários da requalificação do eixo, tanto pelo vereador responsável como pelo presidente da câmara. Em dezembro, no Público, Manuel Salgado, sublinhava “a reabilitação da fundação nos locais mais degradados e reposição do pavimento com soluções altamente resistentes e muito redutoras das emissões de ruído”. E, em abril passado, na SIC Notícias, já tendo nas mãos o relatório que desaconselhava aquele pavimento específico, Fernando Medina também apontava como objetivo do “asfaltamento completo” da Segunda Circular colocar “um pavimento antirruído e com mais capacidade de aderência”. O autarca já se referia à solução que constava no projeto.

Conflito de interesses?

Na sexta-feira passada, na conferência de imprensa em que anunciou a suspensão das obras que já decorrem num pequeno troço da Segunda Circular e a anulação do concurso público para a restante via, Fernando Medina disse que o júri do concurso detetou “indícios de conflito de interesses, pelo facto de o autor do projeto de pavimentos ser também fabricante e comercializador de um dos componentes utilizados”. Segundo o autarca, a câmara não sabia disso “aquando do lançamento do concurso”.

A reabilitação da Segunda Circular está a ser pensada na câmara há vários anos, mas os trabalhos mais constantes começaram em meados do ano passado. A 17 de setembro de 2015, a autarquia contratou uma empresa de engenharia para desenhar o projeto. E foi esta empresa, a Coteprol, que contratou a Consulpav como consultora na área dos pavimentos.

O prazo para a entrega do projeto terminou a 17 de janeiro deste ano. A 26 do mesmo mês, a Consulpav fez uma alteração ao seu contrato de sociedade: além de consultoria, passou também a dedicar-se ao “fabrico e comercialização de borracha distendida e reagida proveniente da valorização de borracha reciclada de pneus de carros ou camiões e de outros óleos e de fillers minerais”.

Em março, dois dias depois de o relatório de avaliação do projeto ter sido escrito, a câmara decidiu dividir a obra em duas partes e lançou o concurso público para uma delas, de pouco mais de um quilómetro de extensão. “Não foi possível afastar as dúvidas” de que esse concurso não tenha sido viciado, disse Medina na sexta-feira. Nas respostas ao Observador esta segunda-feira, a câmara salienta que a decisão de cancelar as obras foi tomada depois de a Coteprol ter sido confrontada com o duplo estatuto da Consulpav.

A Consulpav pertence a Jorge Barreira de Sousa, um engenheiro e especialista mundial em soluções de asfalto com borracha. É igualmente membro da direção da Rubberized Asphalt Foundation (RAF), uma fundação que se dedica a estudar formas de usar borracha em pavimentos rodoviários. No site da organização, Jorge Sousa é apresentado como a pessoa que introduziu essa inovação em Portugal. Atualmente, o presidente da RAF, o americano George Way, é o diretor-geral da Consulpav International.

Contactado pelo Observador, Jorge Sousa disse que não tem comentários a fazer. Também não foi possível obter esclarecimentos da Coteprol.

Oposição surfa a onda

Para Fernando Nunes da Silva, ex-vereador da Mobilidade do executivo camarário de António Costa, “carece de uma explicação muito cabal porque é que se põe em causa” todo o projeto quando apenas há dúvidas no que diz respeito ao pavimento. Para Nunes da Silva, a câmara poderia “deixar correr as obras nas outras vertentes” e negociar diretamente com o empreiteiro uma solução que não envolvesse um potencial conflito de interesses. “Houve mais que tempo para isto ser esclarecido anteriormente”, argumenta o ex-vereador.

O vice-presidente da autarquia, Duarte Cordeiro, garante ao Observador que a CML agiu nesta altura porque “só agora o júri emitiu o relatório final” do concurso público — que não se conhece publicamente. Duarte Cordeiro atira mesmo a Nunes da Silva, ainda que não o nomeie: “Há pessoas que ou estão a falar sem saber ou estão a ser irresponsáveis”. “Não havia alternativa, era impensável prosseguir uma obra quando o júri diz que há um conflito de interesses”.

As obras de requalificação da Segunda Circular foram anunciadas no fim de dezembro e tinham um custo estimado inicial de 10 milhões de euros. Depois de um grande debate público que durou perto de dois meses, a câmara apresentou uma proposta de trabalhos para apenas uma parte da via e que, além disso, era cerca de três milhões de euros mais cara do que o inicialmente previsto. As obras no restante percurso foram adjudicadas sem discussão pública ou entre vereadores.

Na câmara, a oposição alinha sobretudo pela acusação de “precipitação” do executivo neste processo. No PSD, o vereador António Prôa diz que este processo “foi mal planeado e deficientemente projetado”, mas ainda assim aponta vantagens: “O cancelamento vai poupar os lisboetas a uma overdose insuportável de obras na cidade”. E o CDS já pediu formalmente a Medina “o envio urgente do relatório do júri, bem como as respetivas reclamações, denúncias e quaisquer outros elementos que constem do processo”.

Ao Observador, o vereador do CDS João Gonçalves Pereira diz que existe um “défice de prestação de informação por parte do presidente da câmara” e desafia-o a marcar uma reunião extraordinária: “Afinal, há em média uma reunião de urgência de dois em dois meses”. Enquanto aguarda pela primeira reunião pós-férias (na próxima semana), o democrata-cristão vai acusando Medina de “falta de bom senso”, num processo em que o “número de obras em simultâneo só podia correr mal”. Por isso, o CDS quer saber se existe um parecer jurídico do departamento competente da Câmara que sustente a decisão tomada na sexta-feira passada, em que outros concursos da Câmara participou a Consulpav e quais as consequências financeiras e jurídicas da anulação do concurso público.

A proposta de Fernando Medina tem de ser votada numa reunião de câmara e a questão dos custos que possa vir a acarretar não preocupa apenas o CDS, também o PCP fala neles. O vereador João Ferreira levanta a questão: “Esperemos que os custos [financeiros] não recaiam também sobre os lisboetas”. O comunista também considera que há informação em falta e aguarda que seja disponibilizada pelo presidente da câmara. Entretanto, vai apontando o dedo: “Terá havido alguma falta de cuidado em todo o procedimento concursal, que terá levado a que a questão não tivesse sido detetada antes”. “Se tivesse havido outro rigor em todo o procedimento, teria sido possível detetar mais cedo este conflito de interesses”, considera João Ferreira em declarações ao Observador. No entanto, o comunista lamenta a paragem da requalificação, apontando esse como o primeiro “prejuízo claro” desta decisão de Fernando Medina.

Lisboa entrou em obras. Os condutores vão sofrer com isso

As empreitadas decorrerão a par de projetos de grande dimensão de requalificação do espaço público, como os do Cais do Sodré, Corpo Santo e Campo das Cebolas, já em execução, o do eixo rodoviário Entrecampos-Saldanha-Marquês de Pombal, a iniciar em meados do próximo mês, e a remodelação da 2.ª Circular, que começará a sair do papel no verão.

Os trabalhos implicarão condicionamentos no trânsito até ao final deste ano e preocupam a União de Associações do Comércio e Serviços (UACS), que preferia que as empreitadas não decorressem em simultâneo. Já os moradores ouvidos pelo DN preferem destacar o facto de o resultado final ser positivo.

Os dados constam do mapa de ação, disponível no site da câmara municipal, do programa Pavimentar Lisboa 2015-2020, lançado em julho do ano passado para responder de forma estrutural ao problema dos buracos na estrada: este ano, está previsto o lançamento de 118 empreitadas, a acrescentar às 29 já em curso. Entre as freguesias abrangidas, está a dos Olivais.

É ali que mora Gonçalo Maggessi, membro de uma associação cívica local e que, enquanto residente, não esconde a satisfação por ver ruas que há décadas não eram alvo de qualquer intervenção serem “finalmente” repavimentadas. Os constrangimentos à circulação existem, reconhece o lisboeta, mas nem por isso o incomodam. “Acho que é mais difícil para quem atravessa os Olivais”, sublinha o DN.

Dificuldades são, de resto, o que espera encontrar quando, em junho ou julho – data já avançada pelo presidente da autarquia, Fernando Medina -, começar a ser concretizada a remodelação da 2.ª Circular. O projeto, atualmente em fase de aperfeiçoamento, inclui o alargamento e a arborização do separador central e a repavimentação da via. A garantia do município é de que os trabalhos decorrerão durante a noite e a previsão é de que se prolonguem por 11 meses.

Feitas as contas, as obras estarão concluídas em maio ou junho de 2017. Por essa altura, já deverá estar terminada a requalificação do eixo Entrecampos-Saldanha-Marquês de Pombal e, na frente ribeirinha, do Cais do Sodré, do Corpo Santo e do Campo das Cebolas, com conclusão prevista para o primeiro trimestre do próximo ano. A autarquia já admitiu que a primeira, a iniciar dentro de um mês, causará constrangimentos na circulação, algo que tem vindo a ocorrer à beira-rio, devido às restantes.

Nesta semana, a CML informou, em comunicado, que, durante três meses, a Rua dos Arameiros está encerrada à circulação e que a Rua da Alfândega e a Avenida Infante D. Henrique “estarão sujeitas a condicionamentos”. A circulação no Cais do Sodré tem estado igualmente limitada, estando a ser coordenada por agentes presentes no local.

Comerciantes preocupados

António de Campos Rosado, presidente da Associação de Moradores da Baixa Pombalina, elogia a finalidade das intervenções, mas critica o facto de a divulgação dos desvios de tráfego nem sempre ser a melhor. “É muito fraca”, avalia, precisando que, muitas vezes, os residentes se confrontam no momento com as restrições. Ainda assim, defende que o “incómodo” causado pelos trabalhos “vale a pena”.

“Tudo o que seja obras para requalificar o espaço público é positivo”, concorda a presidente da UACS. Carla Salsinha teme, porém, que as obras se atrasem e, por isso, preferia que não decorressem em simultâneo. Até porque, lembra, os trabalhos vão decorrer durante o verão – a época alta do turismo.

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