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“Temos de reforçar o ensino da estatística”

Maria Eduarda Silva

Na missão assumida desde o início pela Sociedade Portuguesa de Estatística de promover, cultivar e desenvolver no nosso país o estudo da estatística, as suas aplicações e ciências afins, quais são as limitações que vão encontrando? O que tem impedido uma maior consciencialização acerca da real importância desta disciplina?
É uma questão cultural. As mentalidades demoram a mudar: estatística são números e os números não interessam. O mundo está a mudar rapidamente e a literacia estatística será para a próxima geração o que o saber ler e escrever foi para as gerações passadas. O sistema de ensino é o local privilegiado para passar a mensagem. À semelhança de outros países temos de reforçar o ensino da estatística, em particular o ensino pós-graduado. Aqui deparamo-nos com dificuldades porque mestrados e doutoramentos, em geral trabalhos multidisciplinares, estão dependentes de um sistema de investigação robusto na área. E têm-se observado nos últimos anos cortes gravosos e discriminatórios quer a grupos de investigação, quer em projetos e bolsas de doutoramento em estatística, colocando em causa a formação de especialistas que uma sociedade moderna e desenvolvida requer.

Com a realização do congresso anual, de seminários, a publicação do Boletim Informativo da SPE, não esquecendo o Prémio Estatístico Júnior 2015, entregue numa sessão aberta que decorreu na FNAC de Santa Catarina no Porto, a SPE coloca a estatística na ordem do dia. Importa promover uma maior união entre profissionais da área e não só para que exista um maior interesse por esta área?
Esta é uma questão que nos tem preocupado. Os nossos sócios não são apenas docentes com carreira universitária ou matemáticos pois encontram-se estatísticos em todos os setores e áreas de atividade. É necessário estabelecer pontes duradouras entre todos os interessados. A SPE quer potenciar estas ligações e fazer do congresso um fórum privilegiado para isso.

Num momento em que os portugueses atravessam um período conturbado na procura de emprego, importa estimular nos jovens um maior interesse por esta área, encarando-a como um futuro caminho profissional? Qual tem sido o papel da SPE neste sentido?
Estamos a entrar numa época de um tremendo crescimento na procura de profissionais de estatística, dada a globalização na recolha de dados possibilitada pelas novas tecnologias. A profissão “Cientista de Dados” foi alcunhada de profissão mais sexy do século XXI. Mas também na área governamental se vai sentir fortemente a necessidade de estatísticos uma vez que a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável vai requerer um grande esforço de estatísticos em todo o mundo. Por exemplo, recentemente o INE procedeu ao recrutamento de 20 especialistas…

No passado dia 20 de outubro assinalou-se mais uma vez o Dia Mundial da Estatística. Neste e em todos os dias do ano, que mensagem continua a ser urgente passar?
Em 2013 celebrou-se o Ano Internacional da Estatística e, desde então, multiplicam-se as iniciativas sobre uma ciência que faz parte do quotidiano de todo o cidadão. Mas o poder político reconhece também a importância dos dados estatísticos e da sua fiabilidade como instrumento indispensável à elaboração de políticas com vista ao desenvolvimento sustentável das nações e à erradicação da pobreza. A SPE e outras sociedades congéneres assinaram uma declaração que apela a que: todos os sistemas estatísticos oficiais sejam devidamente financiados; o investimento em investigação e formação em estatística seja reforçado; o apoio à recolha de informação seja complementado com o apoio à sua transformação em informação útil e usável. A mensagem é sintetizada no lema: Melhores Dados, Melhores Vidas.

Para o futuro, qual continuará a ser a estratégia e a linha de atuação da SPE para que a estatística deixe definitivamente de ser vista como uma “ciência invisível” e seja valorizada como parte integrante de todos os quadrantes da sociedade?
A visibilidade da estatística requer um trabalho continuado. Por exemplo, a  iniciativa Explorística, que ganhou o prémio Best Cooperative Project Award in Statistical Literacy 2015, destina-se a promover a literacia estatística junto dos mais jovens. Os Prémios Estatístico Júnior promovem a atração de jovens talentos para a estatística. Mas queremos mais. Queremos que o tecido empresarial entenda o valor acrescentado que a estatística pode ter nas suas decisões de investimentos e que cada vez mais nos procurem. É necessário estabelecer pontes duradouras entre a indústria e a academia. Recentemente, o INE criou a carreira de especialista estatístico. Estamos, pois, a caminhar para que em Portugal a estatística adquira o reconhecimento social que já tem noutros países.

Engenharia de Materiais apresenta-se à sociedade

Paula Vilarinho e Manuela Oliveira com Luís Gil, Vice-Presidente da SPM

O objetivo fundamental do evento prende-se com a extrema necessidade de se dar a conhecer esta engenharia, essencial no dia-a-dia de qualquer ser humano. A presidente da SPM considera ser “obrigação” da instituição divulgar esta ciência e “torna-la visível e entendível para o público em geral”. Porque “os materiais são transversais a todas as áreas”. Desde a cadeira onde nos sentamos à roupa que usamos, refere. E sendo uma engenharia que nos acompanha desde a criação do Mundo, mas com papel próprio apenas desde os anos 50, o conhecimento por parte da sociedade civil é mais diminuto. Deste modo, é importante a organização de momentos que permitam transmitir a relevância dos materiais e, nomeadamente, do que tão bom se faz em Portugal. Académicos, profissionais da área e público em geral são convidados a participar num evento que se dedica inteiramente aos Materiais que acompanham o desenvolvimento humano, social, tecnológico e económico.

Por outro lado, o certame pretende também eleger e congratular as melhores teses  de mestrado no âmbito da Engenharia de Materiais desenvolvidas nas instituições universitárias nacionais. Este ano, a SPM atribuiu o prémio a Ana Correia, do Departamento de Ciência dos Materiais da Universidade Nova de Lisboa, pela sua tese “A Second-Order ∑∆ ADC using sputtered IGZO TFTs with multilayer dielectric”  [ver caixa de texto]. Esta e outras teses que estiveram igualmente a concurso pelo seu mérito e qualidade enquanto trabalhos de investigação são apreciadas durante o Encontro por um júri especializado e, de igual modo, por diferentes players da indústria. Isto porque, segundo Paula Vilarinho, esta apresentação de trabalhos permite “mostrar [aos industriais] o que de bom se faz” nas universidades e centros de investigação em Portugal, na área de Ciência e Engenharia de Materiais. Deste modo, académicos poderão conhecer aqueles que serão, provavelmente, os seus futuros empregadores. Manuela Oliveira concorda com a opinião da presidente da SPM e afirma que estes eventos são fundamentais “para transferir o conhecimento para as empresas. A inovação é feita nas empresas, mas é preciso que o conhecimento chegue lá”. Esta é uma preocupação clara da SPM, que tenta aproximar estes dois mundos unidos pela engenharia de materiais. Porque este é, na opinião da presidente da SPM, um casamento perfeito: “a indústria tem um papel muito bem definido, produzir com a melhor qualidade e nas melhores condições”. Por sua vez, “a ciência tem uma função diferente, deve apresentar soluções novas para os problemas” existentes na indústria. E neste sentido um trabalho conjunto seria o ideal, apesar de ser uma missão difícil não apenas em Portugal, mas em todo o mundo. Por este motivo é tão importante que entre a SPM e Ordem se criem parcerias e eventos, como o Dia Mundial dos Materiais e o Encontro Nacional do Colégio de Engenharia de Materiais. E Paula Vilarinho explica porquê: a SPM está mais próxima da investigação e desenvolvimento e a Ordem está mais próxima dos engenheiros”. E uma vez que estes “desenvolvem normalmente a sua profissão na indústria”, o casamento entre as duas entidades torna-se crucial para a evolução da área.

Balanço do Encontro

Manuela Oliveira fez um balanço entusiástico sobre aquele que foi o XV Encontro Nacional do Colégio de Engenharia de Materiais e o Dia Mundial dos Materiais 2015. Além do momento dedicado às teses a concurso, o evento dedicou-se também ao debate sobre a importância na economia nacional dos materiais polímeros, cerâmicos e cortiça.. O debate contou com a presença de profissionais do sector, investigadores, académicos e alunos. A Secretária-Geral da SPM ressalva a interesse destes acontecimentos, pela importante partilha de conhecimentos e experiências entre os vários atores da área.

Um dia que vale por dois

SPM e Ordem dos Engenheiros coligaram-se no sentido de comemorar um dia que vale por dois, porque, desde 2003, o Encontro acontece anualmente numa organização conjunta entre as duas instituições e na data em que se comemora o Dia Mundial dos Materiais. É celebrado na primeira quarta-feira de novembro e resulta de uma ideia avançada pela FEMS – The Federation of the European Materials Societies, que imediatamente teve o apoio incondicional da SPM e do Colégio de Engenharia de Materiais da Ordem dos Engenheiros. A missão deste dia passa por mostrar a nível global a importância desta área e promover uma comemoração alargada às diferentes sociedades e instituições ligadas à engenharia de materiais.

Prémio SPM

Ana Correia
Ana Correia

A edição de 2015 contou com cinco teses a concurso. Contudo, e apesar da qualidade de todos os projetos, apenas um pôde ser congratulado com o primeiro prémio da SPM: “A Second-Order ∑∆ ADC using sputtered IGZO TFTs with multilayer dielectric” [“Um conversor analógico digital de segunda ordem, usando transístores de filme fino de óxido multicamada depositado por pulverização catódica”], da autoria de Ana Correia, do Departamento de Ciência dos Materiais da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.

Ana Correia explica que “este projeto combina Ciência dos Materiais e Engenharia Eletrotécnica para implementar, pela primeira vez, um ∑∆ ADC (conversor analógico-digital) de 2ª ordem, usando TFTs (transístores de filme fino) de óxido”. “Após otimização do circuito, as simulações do ADC demonstraram, em relação aos principais parâmetros de desempenho dinâmicos, valores melhores que os permitidos por outras tecnologias de filme fino, como orgânicos ou mesmo silício policristalino de baixa temperatura (LTPS)”. Assim, refere a autora, este trabalho “implementa, pela primeira vez, TFTs de óxidos num ∑∆ ADC (conversor analógico-digital) de 2ª ordem, representado assim um forte impulso na integração desta tecnologia em circuitos e sistemas com elevado grau de complexidade” e promove “o desenvolvimento de novas arquiteturas adaptadas à tecnologia”.

A SPM atribuiu ainda duas menções honrosas. Bianca Castanheira Caratão, do Departamento de Física da Universidade do Minho, foi gratulada com a primeira menção, pelo trabalho “Desenvolvimento e fabrico de estruturas para aplicações biomédicas por electrospinning”. E Paul Grey, do CENIMAT/i3N da Universidade Nova de Lisboa foi distinguido com a segunda menção honrosa pelo seu projeto “Development of Electrochromic Thin-Film Transistors on Flexible Substrates” [“Desenvolvimento de transístores eletrocrómicos de filme fino em substratos flexíveis”].

Quem é Paula Vilarinho?

Formada em Engenharia Cerâmica e do Vidro e doutorada em Ciência e Engenharia de Materiais, Paula Vilarinho é uma profissional reconhecida na sua área não apenas em Portugal, mas a nível internacional. Encontra-se entre as 100 mulheres cientistas que mais e melhor contribuíram para o desenvolvimento internacional dos Materiais Cerâmicos. Esta nomeação é-lhe atribuída por Lynnette D. Madsen, diretora do programa em Cerâmicos da National Science Foundation (NSF) dos Estados Unidos da América (EUA), no seu livro “Inspirational Profiles of Successful Women: Ceramic and Glass Scientists and Engineers”, editado em 2015.
Além de Presidente da Sociedade Portuguesa de Materiais, Paula Vilarinho acumula ainda funções como Professora Associada da Universidade de Aveiro; Coordenadora do Grupo Eletrocerâmicos do CICECO – Aveiro Institute of Materials; Coordenadora Portuguesa do Programa das Tecnologias Emergentes no âmbito da parceria Fundação para a Ciência e Tecnologia de Portugal (FCT) e Universidade do Texas, em Austin, EUA; Diretora de Curso de Estudos em Engenharia de Materiais da Universidade de Aveiro; Membro do Comité Científico do Programa de Doutoramento em Ciência e Engenharia de Materiais da Universidade de Aveiro.

ASL Associados, uma empresa onde se trabalha com paixão

Equipa ASL

Sempre que seja viável, António Lessa defende “categoricamente” a reabilitação urbana. Porque reabilitar “significa respeitar os edifícios e a sua originalidade, mas dotá-los de condições de conforto, de bom desempenho acústico e térmico, entre outras valências”. Porque reabilitar significa dar uma nova vida aos centros das cidades e às zonas históricas. No Porto, cidade onde se encontra sediada a ASL Associados, houve um “conjunto de fatores” que promoveram a reabilitação em detrimento da construção de raiz. Após lidar com uma situação de desertificação, foi necessário promover o regresso não apenas de habitantes, mas também de turistas. Neste contexto, os voos low-cost tiveram aqui um papel determinante. Por outro lado, a queda dos financiamentos, a crise económica e o empenho por parte dos agentes políticos permitiram um novo olhar sobre a cidade invicta.

Deste modo, a reabilitação tornou-se um conceito cada vez mais procurado e, neste sentido, a ASL Associados apresenta-se como o parceiro ideal. António Lessa assume que, no âmbito da reabilitação urbana, se diferenciam da concorrência pela experiência neste tipo de projetos, pelo “diagnóstico” realizado aos edifícios e pela visão integrada que têm do projeto. Neste contexto, António Lessa adianta que “nos dois últimos anos fomos responsáveis pelos projetos de 50 prédios, só no centro da cidade do Porto”.

A reabilitação pretende manter os materiais e estruturas existentes recuperando-as e reforçando-as, para se manter os detalhes de época, aliando a introdução de novos elementos capazes de satisfazer e adaptar o edifício às necessidades contemporâneas de habitação.
Por outro lado, assumem ainda o papel de gestores de obras, através do qual executam a fiscalização e o acompanhamento total do projeto. Um terceiro fator que coloca a ASL Associados numa posição de destaque é a realização de “projetos ao nível das várias disciplinas da engenharia”, seja “engenharia civil, eletrotécnica ou mecânica”. Sónia Gomes afirma que a grande mais-valia é a possibilidade de o cliente “falar com um único interlocutor”. E, neste contexto, refere a importância de uma equipa organizada, flexível e com condições para comunicar entre si. António Lessa reitera esta afirmação, explicando que “com a ASL, fala com o coordenador de projeto” e, desta forma, assegura-se a compatibilidade de especialidades, há uma melhor comunicação e a possibilidade de se perder informação é mais reduzida”.
Neste sentido, e para apresentar uma melhor qualidade de serviço, a empresa começou em 2012 a trabalhar com o Revit, um software BIM, direcionado para profissionais das áreas de engenharia. Este programa permite trabalhar com as distintas engenharias e assegurar “total compatibilidade” entre si, explica o engenheiro.

ASL há 10 anos sempre a crescer
A ASL Associados não se concentra apenas na reabilitação urbana, integrando com a mesma idoneidade projetos de construção de raiz, na área hospital, industrial, escolar e em complexos desportivos. Neste sentido, a empresa divide-se em diferentes unidades de negócio: projeto, certificação energética, fiscalização de obras, laboratório de ensaios acústicos e check-up. Pela postura com que olham os projetos a desenvolver, uma postura íntegra, baseada na qualidade e numa aliança entre estética e conforto, entidades públicas e privadas veem já a ASL como parceira de confiança. Recentemente projetaram a nova sede da Santa Casa da Misericórdia do Porto, o Hotel Pestana, na Praça do Comércio, em Lisboa, a ampliação da fábrica da Imperial, em Vila do Conde, o complexo desportivo de Ramalde, a reformulação da Escola dos Castelos, entre outros projetos. Têm ainda projetos em curso em Moçambique, Angola e Brasil, designadamente seis estações de comboio na zona de São Paulo.

Certificar para melhorar
Atualmente, a ASL Associados encontra-se em processo de obtenção da certificação ISO 9001:2015, que permite garantir que todas as metodologias de trabalho estão perfeitamente documentadas”, prestando serviços “de forma consistente e coerente”, cumprindo os requisitos legais aplicáveis, garantindo a satisfação do cliente explica Sónia Gomes. Esta certificação permite ainda “proteger a ASL contra perda de conhecimento e melhorar o desempenho e a eficácia da organização”, garante. Num momento em que a empresa se encontra em fase de consolidação, esta certificação vem promover a identificação de situações a melhorar, algo que, na opinião de António Lessa, é “extremamente gratificante”.

“Reabilitar é ir ao local, conhecer, cheirar, sujar-se”

“O Porto está na moda”. Cláudia Machado, Arquiteta de formação e profissão, não se cansou de recorrer frequentemente a uma expressão que é hoje o cartão-de-visita de uma cidade que fica na memória quer pelo ambiente acolhedor quer pela riqueza do seu património. E é esta riqueza que se pretende preservar. Com a elevação da zona histórica à condição de Património da Humanidade da UNESCO em 1996, pequenos passos começaram a ser dados mas apenas há cerca de oito anos se tem conhecido na íntegra o verdadeiro conceito de reabilitação urbana nesta cidade. Da Sé à Ribeira, hoje, passear por velhas ruas que outrora não eram convidativas tem um sentido diferente e, para tal, muito tem contribuído a atuação da CPPM Arquitectura, um atelier criado em 2006 e que assumiu desde logo como setor estratégico de desenvolvimento a grande temática da reabilitação urbana.

Cláudia Machado
Cláudia Machado

“Arquitetura é uma área bastante abrangente. Temos que conhecer a legislação e saber de construção, o que exige um grande estudo não só do edifício em si mas de todo o processo de construção”

Respeitando sempre, quer seja num projeto de pequena ou maior envergadura, a preexistência e o Património edificado, a CPPM Arquitectura aposta num serviço completo de acompanhamento de todo o processo de licenciamento até à fase de obra, tal como explicou Cláudia Machado, fundadora do gabinete. “Muitas pessoas têm um edifício mas não conhecem o potencial do mesmo e procuram-nos. Fazemos esse estudo prévio e acompanhamos todo o processo, desde licenciamento até à obra”, evidenciou. Mais do que fazer um bom projeto, ir ao local é o fundamental. Não se pode correr o risco de “desenhar sobre incertezas” mas importa “estudar o edifício”. “Para mim é impensável fazer um projeto sem antes realizar um levantamento. Reabilitar é ir ao local, conhecer, cheirar, sujar-se”, defendeu a arquiteta. Só “vestindo a camisola” a CPPM Arquitectura conseguirá prestar um serviço digno a um cliente que muitas vezes desconhece o processo e tem, por isso, que encontrar um parceiro que o ajudará em todas as fases. Isso exige do arquiteto muito mais do que conhecimento de arquitetura. Assim, quer seja para um escritório, um empreendimento turístico, uma moradia ou edifícios de habitação, o processo é sempre o mesmo. “Arquitetura é uma área bastante abrangente. Temos que conhecer a legislação e saber de construção, o que exige um grande estudo não só do edifício em si mas de todo o processo de construção”, definiu Cláudia Machado. Em consonância, em todos os espaços com os quais trabalha há sempre uma preocupação: manter a identidade do edifício. Claro que tudo dependerá do estado de conservação do mesmo mas, sempre que seja possível, a CPPM Arquitectura reaproveita elementos, o que também se traduz numa poupança na construção.

O papel do arquiteto na reabilitação

Inevitavelmente ou não, a verdade é que a reabilitação urbana está hoje na ordem do dia e veio para ficar. Com a crise que se fez sentir no setor da construção civil, este “renascimento dos centros urbanos” trouxe um novo paradigma para a arquitetura portuguesa e, neste novo mundo, qual é o papel assumido pelo arquiteto? “A cidade é feita de arquitetura. O nosso principal desafio prende-se com o método construtivo. Durante muitos anos existiu a construção nova, em altura e em betão. Hoje temos que ter a noção de que não podemos fazer reabilitação nos centros históricos da mesma forma. Deste modo, grande parte dos construtores e arquitetos há mais tempo no ativo tiveram de alterar os seus métodos de trabalho e a sua forma de construir”, partilhou Cláudia Machado em conversa com a Revista Pontos de Vista. E, apesar do boom que se tem feito sentir nos últimos anos, a verdade é que, na perspetiva da arquiteta, tal não se tem traduzido numa diminuição da taxa de desemprego dos jovens licenciados nesta área que, de acordo com algumas estatísticas, é das mais altas da Europa. “Não acredito que a reabilitação tenha trazido mais trabalho, sobretudo aos mais jovens, uma vez que os clientes acabam por procurar arquitetos com mais experiência. Estamos a falar de reabilitação, que exige algum conhecimento construtivo que quando acabamos um curso não possuímos. Falo por mim. Comecei há dez anos e ainda tenho muito para aprender”, defendeu.

“Hoje temos que ter a noção de que não podemos fazer reabilitação nos centros históricos da mesma forma”

E a aprendizagem é constante numa área que ainda tem algumas lacunas ao nível da legislação em vigor. “Grande parte da nossa legislação foi feita para construção nova e nos edifícios a reabilitar nem sempre conseguimos cumprir grande parte das disposições. Já houve alguns progressos com a publicação da lei da reabilitação (DL 53/2014) onde se define um regime excecional para reabilitação de edifícios, mas seria importante haver uma revisão do Regulamento Geral das edificações Urbanas, mais adaptado à reabilitação”, afirmou. Mesmo assim, ao nível do Porto, a arquiteta elogia a atuação da autarquia portuense que muito tem apostado na reabilitação da cidade, não só ao nível da arquitetura, destacando a reabilitação do eixo Mouzinho/Flores, “um exemplo de como o urbanismo pode cativar e atrair as pessoas”.

Saindo do cenário geral da cidade para o universo particular da CPPM Arquitetura, Cláudia Machado não esconde o carinho especial por um projeto com o cunho deste gabinete. Trata-se de uma obra na Praça de Parada Leitão que terminou este ano mas que está a ser estudada desde 2007. “Fica na memória porque começou para ser um hotel e depois acabou por ser algo completamente diferente, sendo agora dois estabelecimentos de restauração e bebidas. O resultado foi bem melhor do que o previsto”, colmatou a arquiteta. É esta “dedicação” e “amor à causa” que Cláudia Machado continuará a abraçar porque só assim será possível afirmar-se num mercado onde todos querem entrar mas só os melhores ficam.

Alguns serviços da CPPM Arquitectura:

– Levantamentos arquitetónicos, tipológicos do edificado e topográficos;
– Pedidos de informação prévia;
– Projetos de licenciamento;
– Projetos de execução (mapa de acabamento, mapa de vãos, medições e cadernos de encargos);
– Consultoria na área da reabilitação e património;
– Fiscalização;
– Acompanhamento de obra e assessoria técnica; entre outros.

 

Qual é o papel do arquiteto?

Cláudia Costa Santos

Inevitavelmente ou não, a verdade é que a reabilitação urbana entrou na ordem do dia em Portugal e veio para ficar. Neste sentido, têm surgido novos paradigmas para a arquitetura portuguesa? Qual é o papel do arquiteto neste “novo mundo”?
A crise imobiliária e financeira que vivemos exigiu uma mudança de paradigmas não só na arquitetura mas em todas as outras áreas, com reflexo nas condições económicas, sociais e políticas. A Reabilitação Urbana é uma consequência da transformação estrutural da economia nacional. As cidades, como centros económicos ativos que sempre foram, para assim continuarem, sofreram as respetivas adaptações. A arquitetura sempre foi e continua a ser, uma componente vital da sociedade civil, sem a qual não é possível perspetivar um modelo de desenvolvimento sustentado. E como tal, o “novo” paradigma para a arquitetura portuguesa é o de contribuir para (re)fazer, para a (re)humanização da cidade e do território. O ato como ser humano integrado numa sociedade e o ato profissional (ético, social e estético) são valores básicos da formação do arquiteto. É impensável o arquiteto dissociar-se de todas as áreas existentes numa sociedade, pois um dos seus principais atributos profissionais advém da dimensão cultural, social e económica ao serviço da sociedade. O espaço como “matéria-prima” do arquiteto é trabalhado com o intuito de criar relações que se estabelecem entre ele, o tempo, a deslocação, o movimento, entre o interior e o exterior desse espaço. Assim, a condição humana, em toda a sua complexidade, é imprescindível para o estabelecimento dessas relações. O que quero dizer é que o papel do arquiteto é, como sempre foi, o de transformação do espaço (com inteligência, racionalidade e sensibilidade) para o desenvolvimento qualitativo das relações sociais. O papel do arquiteto continua a ser o de encontrar respostas para um “mundo em constante mudança” traduzido, formalmente, numa arquitetura de qualidade, forte, potenciadora de uma sociedade ativa, saudável e desenvolvida.

A reabilitação urbana não tem como objeto primordial a economia ou os setores da construção e do imobiliário, nem se limita ao arquiteto ou a outros profissionais. Há cada vez mais a noção de que a reabilitação urbana existe com o simples motivo de melhorar a qualidade de vida das pessoas?
Inevitavelmente, ou não, a verdade é que na prática a execução do que formalmente destacamos como Reabilitação Urbana ainda é muito direcionada para a rentabilidade económica na vertente da construção civil e do imobiliário, não estando disponível a todos os cidadãos, a todos os grupos sociais.
Na prática há que criar condições de organização de profissionais de uma forma pluridisciplinar, promovendo o diálogo direto com as pessoas para que seja concretizado esse propósito (a melhoria da “qualidade de vida das pessoas”). É necessário que a triangulação “capacidade financeira”, “capacidade técnica” e “vontade política” funcione em prol da sociedade. A solução poderia passar pela execução assumida de uma estratégia nacional de reabilitação, trabalhada no sentido da potencialização de políticas públicas e respetiva territorialização (local, regional e nacional), em diferentes domínios do ambiente urbano, que congregasse o ambiente, a educação, saúde, mobilidade, habitação, energia, emprego, a emancipação e integração social e individual, a qualidade de vida e produção de riqueza das populações residentes nas áreas rurais e urbanas. Com preocupação nas várias disciplinas de âmbito social, numa arquitetura qualitativa, na defesa da memória, na valorização do conhecimento, das qualificações profissionais, da cidadania participativa (informada e concertada por compromissos) e da qualidade de vida como garantia prestada aos cidadãos. Como sociedade desejamos a melhor qualidade de vida que envolve o nosso desejo de melhor economia, de cidades atraentes, seguras, interessantes e divertidas. Por isso, a reabilitação urbana tem de proporcionar a continuidade das relações entre os homens, com as coisas, com a sua memória e o seu futuro. Tem de ser encarada, não como um simples ato com foco no edifício, no quarteirão ou numa zona da cidade, não cingida apenas a fachadas, volumes, envolvências a algumas situações de cenários urbanos de qualidade ambiental a manter ou a melhorar, mas também com uma abrangência nacional, com dinâmica e coerência própria relacionada com a vida e as necessidades da sociedade, as suas exigências e espectativas, garantindo a dinamização económica e social, o bem-estar e a melhoria das condições de vida futura da nossa sociedade. Sem esse efeito, há o receio que as áreas de intervenção culminem, futuramente, numa ruína ou em cenários para os turistas verem. E isto também é arquitetura, como disciplina intrinsecamente pluralista e diversificada, com fluxos e sub-fluxos de atividade na política, no ativismo, na história, na educação cívica, na estratégia, na comunidade, ecologia, e mais, tudo a funcionar de forma paralela. A arquitetura é uma síntese de valores cívicos transpostos no ambiente construído, para que eles possam continuar a manifestar-se ao longo do tempo.

Portugal é dos países que apresenta a mais elevada taxa de desemprego de arquitetos, sendo a crise na construção civil um dos principais focos deste problema. De que forma o segmento da reabilitação urbana tem permitido retomar a confiança no setor e reter jovens arquitetos no país?
A crise, também na área da construção civil, desencadeou um elevado aumento de desemprego na classe dos arquitetos, agravada ao facto de a comercialização da arquitetura explorar a independência e a novidade do edifício como objeto, em vez da sua conexão com a sociedade. Infelizmente tem surgido uma corrente dominante que se limita a uma imagem de especulação arquitetónica para “entreter” os pares e para a comercialização, reduzindo a arquitetura a uma prestação de serviços cumpridores das exigências da especulação e do mercado imobiliário. Mas o trabalho de um arquiteto, conforme já referi anteriormente, é muito mais complexo, pluralista e diversificado.
Os contextos político-económicos e as transformações sociais (principalmente no que toca às necessidades de redesenhar a esfera pública) reforçam as ambiguidades e indefinições da profissão, dificultando a afirmação de uma identidade profissional clara nos seus contornos, forte na sua coerência interna e especificamente reconhecida na sua relação externa. A Reabilitação urbana, como instrumento estratégico, apoiado na criação de novas políticas financeiras e de incentivos (onde o programa Portugal 2020 assume-se como crucial) poderá ser um grande apoio para a expansão das fronteiras criadas à prática profissional da arquitetura e assim permitir a confiança no setor económico-profissional. Uma estratégia nacional de reabilitação pode fazer mais do que simplesmente contribuir para uma alavancagem profissional. Pode inclusive ajudar a população no respetivo direito a um enquadramento edificado de uma vida digna e harmoniosa. Compete ao Estado garantir a qualidade desse enquadramento edificado à população. Caberia assim também ao Estado garantir à totalidade da população, independentemente da capacidade económica de cada um, o benefício dos serviços do arquiteto. Uma estratégia nacional de reabilitação definidora de políticas financeiras que promovam a equidade, favorecendo os cidadãos de baixos rendimentos e tornando-os participantes das estratégias globais de reabilitação urbana; de políticas de contabilidade assentes na determinação do valor económico dos bens e serviços que tenham em conta os justos custos da qualidade dos profissionais; políticas que conduzam à simplificação de procedimentos de execução das operações urbanísticas e respetiva celebridade; políticas que conduzam à criação de emprego, da produtividade e da coesão e inclusão social, de proteção e eficiência energética. O arquiteto, em vez de autónomo, terá então que se integrar no sistema, articular e cooperar em redes, em alianças e além do alcance político. Tem de considerar a conceção espacial como uma ferramenta dentro de uma estratégia culturalmente ampla, informada por um amplo conjunto de indicadores sociais, económicos, políticos e materiais, sendo sempre motivado para fazer a diferença.

De acordo com as metas previstas no Compromisso para o Crescimento Verde, em 2030 a reabilitação urbana deverá representar cerca de um quarto do volume de negócios do setor da construção. Acredita que este objetivo será concretizado? Que barreiras continua a ser necessário ultrapassar para que tal seja possível?
O Compromisso para o crescimento verde, pelo volume de financiamento elevado em causa, pode-se tornar num programa de grande importância e bastante ambicioso. Resta saber qual o encaminhamento da discussão para o respetivo uso: se para projetos privados, e em que percentagem, para que tipo de projetos, quais as componentes de operacionalização,… Ainda existem muitas dúvidas de como se irá operacionalizar o pacto. Acresce a instabilidade/indefinição política vivida no nosso país dos últimos dias que adia qualquer decisão económico – financeira. Sem uma definição no campo político, os agentes económicos e os investidores, principalmente os privados, retraem-se e adiam decisões por tempo indeterminado, sendo muito difícil fazer qualquer previsão. Desta mistura entre a indefinição das operacionalizações do compromisso para o crescimento verde, as indefinições políticas, lidas e interpretadas por alguém que foca a reabilitação como uma estratégia política de interesse público, com o objetivo de desenvolvimento das relações entre os vários paradigmas sociais das cidades, do povo e da sua relação com as coisas, resta a esperança para a sensibilização futura das necessidades de uma sociedade civil.
Para além das presentes incertezas, e como em qualquer política, os apoios financeiros e incentivos têm que ser conseguidos em paralelo a todos os conceitos e objetivos, para um resultado prático, eficaz e duradouro. E nestes termos a cobertura prática no que diz respeito à facilitação e simplificação processual, à valorização das qualificações dos profissionais, o direito e fomento da participação dos particulares e a integração social como principio fundador da comunidade, são princípios que devem ser considerados.

Apesar dos avanços lentos, já existe uma maior sensibilização por parte dos agentes para a necessidade de reabilitar o património que se encontra em mau estado. Portugal tem conseguido ombrear a este nível com outros congéneres europeus?
O facto de nosso país existir um foco para a reabilitação urbana do edificado, muito vocacionado para a condição urbana do território, do património e centros históricos, faz com que não consigamos estar ao nível dos nossos congéneres europeus.
O debate de transformação da paisagem construída a partir da participação ativa de quem a usufrui, a comunidade, com introdução das respetivas preocupações culturais, históricas, anseios, é ainda recente no nosso país.
À semelhança do que manifestamente ocorre em alguns países europeus, Portugal tem ainda pouquíssimos casos práticos desenvolvidos a partir de processos abertos e dinâmicos, que procuram responder às exigências e necessidades da população, fomentando a respetiva participação ativa e integrada, no sentido de conseguir um retorno de uma vida social comunitária. Os que há / houve situam-se nos dois maiores municípios portugueses, Lisboa e Porto. Para que a reabilitação funcione e se expanda é necessário, em primeiro lugar, a intervenção dos poderes públicos, com um empenho superior das autoridades locais e da população (esta diretamente beneficiada).
Em paralelo, são necessários incentivos e apoios fiscais e financeiros que promoverão a reabilitação também aos pequenos e novos promotores. Portugal precisa de uma estratégia nacional de reabilitação (ou salvaguarda). No essencial, é necessário alargar o debate da forma e das funções dos seus aglomerados, dos seus usos, das suas gentes, a todo o território nacional. O processo deve ser encarado como uma atitude cultural e como ato de gestão que seja garantia do desenvolvimento económico, o bem-estar e a melhoria das condições de vida dos habitantes.

Tendo em conta que o futuro da profissão passará, como tudo leva a crer, pela reabilitação urbana, o que podemos continuar a esperar da atuação desta entidade?
A Secção Regional Norte da Ordem dos Arquitetos possui uma relevante experiência na aproximação social e cultural, na formação e apoio técnico aos seus membros, de que é exemplo a transmissão de experiências práticas no terreno.
No âmbito das suas competências, de estreita relação com os seus membros, para além da verificação das condições em que a arquitetura é adquirida e praticada e os efeitos significativos que estes têm sobre os resultados construídos, dedicaremos especial atenção à contínua procura de soluções para as questões que se apresentam e refletem no dia a dia profissional dos membros e da sociedade no que toca à intervenção no ambiente construído. E para tal é importante um olhar atento sobre a valorização da profissão, no interesse em manter uma competitividade razoável e sadia, centrada na eficiência em oposição à coação na desqualificação profissional.
É importante reabilitar a dignidade da profissão na sociedade e honrar a melhor tradição de excelência técnica desta entidade, atraindo a participação do público, educando-o, transmitindo que os arquitetos desempenham uma função social relevante. É importante insistir com o poder central e local na condução da facilitação e simplificação procedimental de execução de operações urbanísticas e respetiva celeridade.
Igualmente importante é construir relações de colaboração de outros profissionais fora do âmbito da arquitetura, mas cujos saberes são essenciais para uma formação completa e abrangente do Arquiteto, como profissional e como cidadão. É assim necessário e imprescindível, em toda e qualquer situação em que se discutam interesses com relevância urbanística e arquitetónica, seja qual for o local e a sua natureza, a presença do arquiteto, porque este é detentor de competência técnica para contribuir, de forma elucidativa, na formação esclarecida da qualidade de um futuro humano num ambiente construído. A Secção Regional Norte da Ordem dos Arquitetos, à semelhança da essência da profissão do arquiteto, atuará a partir do que existe hoje, transformando para o que pode ser o amanhã. E para isso muito contribuirão as novas instalações da Secção Regional Norte da Ordem dos Arquitetos, que inaugurará no início do ano de 2016. A programação funcional refletirá a promoção do edifício como um centro de diálogo aberto, de muitas vozes, conversas, muita colaboração e várias ações, com foco nos profissionais e nas relações sociais entre estes e outras profissões.

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