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Reabilitação urbana: “Não podemos esquecer que nas cidades vivem pessoas e culturas”

Em primeiro lugar, reabilitar é muito mais do que tornar bonito, correto?

É um facto, reabilitar vai muito para além do aspeto estético. Diria mesmo que reabilitar é na sua essência um ato de intervir de forma inteligente em que a estética é uma parte importante, mas nem sempre a que comanda as decisões. É no integrar das várias vertentes de um projeto de reabilitação e no equilíbrio de todas áreas do conhecimento, quer seja o conhecimento técnico e de materiais, o histórico e arquitetónico, a integração paisagística e outros, que se encontra a chave de uma reabilitação responsável.

Como é que deve ser encarada, portanto, a reabilitação urbana em Portugal?

Tenho olhado para a reabilitação urbana com um misto de contentamento, esperança, mas também muita preocupação. Contentamento por ver finalmente as nossas grandes cidades, que tinham efetivamente edifícios muito degradados, de “cara lavada”. É notória e evidente que as ruas estão mais bonitas, que os edifícios estão ocupados e a vida voltou aos centros urbanos das grandes cidades com uma pujança e vitalidade nunca vista. Esperança pois me parece que o mercado da reabilitação, alavancado pelo crescimento do interesse imobiliário e turístico, se encontra estável e com previsões de crescimento para os próximos anos.

Com muita preocupação,  vejo também que estamos muitas vezes esquecer que reabilitar é essencialmente adotar estratégias de intervenção que levem ao aumento da resiliência dos edifícios.  Não é “fachadismo” ou aumento de áreas uteis e de vãos para usos mais condizentes com os interesses económicos. Estamos muitas vezes a negligenciar a ameaça de uma catástrofe com efeitos devastadores em Lisboa por exemplo, onde pouco ou nada se tem feito de forma estratégica e organizada na reabilitação sísmica dos edifícios. Vejo também com alguma preocupação a desmotivação na reabilitação dos nossos monumentos históricos e edifícios de valor patrimonial, embora se tenham feito algumas intervenções nos últimos anos, existe ainda muito por fazer. Não esquecer já agora, que as nossas infraestruturas também fazem parte do urbanismo, e aqui parece-me claramente que se não se tem investido o suficiente.

Como é que a própria S&P encara a reabilitação?

A S&P desenvolve materiais inovadores para reforço de estruturas, materiais compósitos de elevadas prestações quer mecânicas quer de durabilidade. Nesse ponto de vista vemos a reabilitação urbana como o promover as condições necessárias para a resiliência estrutural e durabilidade dos edifícios e estruturas em geral. Esta área tem que começar a ser olhada como uma impreterível necessidade e não apenas como um negócio imobiliário.

Nos centros das cidades a grande aposta é hoje a reabilitação urbana. Qual tem vindo a ser o papel da S&P nesta demanda?

Temos vindo a ajudar projetistas a especificar soluções mais amigas do ambiente, por exemplo recorrendo a materiais de reforço leves, de alta resistência, pouco intrusivos e praticamente imutáveis,  aproveitando ao máximo as estruturas existentes. Nos edifícios antigos ou de valor patrimonial temos conseguido promover soluções que reabilitam sem desvirtuar, que aumentam a capacidade de carga sem comprometer a resiliência dos edifícios face as ações sísmicas, por exemplo.

De que forma a S&P tem procurado manter a diferença neste mercado? Para além da inovação que outros fatores devem sobressair?

A S&P tem participado em diversas ações técnicas de divulgação e esclarecimento, quer sejam seminários técnicos, formações ou participações em cursos Universitários de pós-graduação. Temos também uma presença assídua na discussão normativa técnica e organizações do setor, como o Gecorpa ou a PTPC, onde estes temas e preocupações são abordados e discutidos

Portugal oferece um dos melhores incentivos fiscais à reabilitação urbana. Mas são suficientes ou adequados para estimular a reabilitação urbana?

Tem vindo a melhorar, mas nunca é suficiente quando olhamos para as necessidades. Como disse, devia já existir um programa sério de incentivos à reabilitação sísmica dos edifícios nas zonas de risco como a grande Lisboa e Algarve.

Depois de muitos anos de construção nova, a reabilitação urbana é agora o setor que está a gerar milhões. Que desafios podem advir deste boom no setor?

O maior desafio é manter este interesse do mercado em conjunto com outros interesses mais nobres, que são os de todos nós. De facto, não consigo dissociar a reabilitação num horizonte mais amplo, histórico, arquitetónico, segurança, paisagísticos e urbanísticos, etc. Não podemos esquecer que nas cidades vivem pessoas e culturas. Parece-me que este é o maior desafio, manter o mercado a funcionar por si, o que é sempre necessário, mas apelar a outros valores de integração de politicas que resolvam efetivamente alguns problemas graves que ainda existem.

Sistema de reforço FRP

Reforço estrutural com compósitos em fibra

 

Reforço de Asfalto

Reforço de pavimentos com grelhas pré revestidas de betume oxidado

 

 

S&P ARMO-System

Solução com malhas de carbono e argamassas especiais para projeção

 

FX-70 System

Sistema de Proteção e Reparação Estrutural

 

 

Reparação e proteção de betão

Soluções de argamassas, resinas e pinturas para a reabilitação de estruturas

 

 

 

Nível de Atividade na Reabilitação Urbana mantém tendência de crescimento

Quanto à evolução do índice respeitante à Carteira de Encomendas observa-se, tal como no mês anterior um forte aumento, 40,7% em termos homólogos, o que deverá permitir às empresas terminar o ano de 2017 com boas perspetivas no segmento da reabilitação.

A produção contratada em meses, ou seja o tempo assegurado de laboração a um ritmo normal de produção, fixou-se em 8,3 meses, o que traduz uma subida de 23% face ao observado no mesmo mês do ano anterior.

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Os índices relativos ao Nível de Atividade e Carteira de Encomendas são calculados a partir do Saldo de Respostas Extremas ponderado. A Produção Contratada corresponde ao valor absoluto apurado, em meses.

 

JPS Group, especialista no mercado imobiliário

Como em todas histórias, que precisam de um princípio, meio e fim, vamos começar pelo início. Quem é João Sousa? Durante o seu percurso, o que ditou a sua chegada à fundação da JPS Group?

Formei-me em Direito, mas iniciei o meu percurso com o contacto na área empresarial e dos negócios. Tinha 23 anos quando fiz o meu estágio e rapidamente percebi que estava mais vocacionado para os negócios do que propriamente para exercer direito. Sabia que não era essa a área que iria abraçar. Decidi dedicar-me à consultadoria de investimento financeiro e imobiliário e a partir daí tenho vindo a construir o meu percurso ligado a esta área. Tenho 39 anos e já tenho alguns anos de experiência nesta área. Passei um período da minha vida fora do país em negócios em África, na América do Sul e na Ásia. Fiz consultadoria de investimento da Europa para a América do Sul, mas de há quatro anos para cá comecei a montar uma estratégia para implementar no meu país. Portugal vivia uma crise financeira muito grande, em especial no mercado imobiliário, um dos setores mais devastado pela crise financeira. Comecei, portanto, a olhar para o meu regresso a Portugal e a estruturar um negócio pensado, com base no acumular das experiências lá fora que queria trazer para o nosso país. E assim nasce a JPS Group, desenvolvido e implementado em conjunto com um grupo de investidores que acreditavam neste projeto.

Vamos falar de liderança. Queremos destacar os líderes portugueses e deixar o seu testemunho aos nossos leitores. Portugal precisa de mais líderes ou de uma melhor liderança?

Precisamos de melhores líderes. Precisamos de líderes que compreendam que, por vezes, é preciso ir buscar e perceber o que se está a passar noutros países, ir buscar bons exemplos de liderança, modelos de negócios e soluções para levantar projetos. Esses é que são os bons líderes.

Enquanto havia uma maré de sucesso no setor imobiliário, quando tudo corria bem, era fácil as coisas acontecerem e deixarem-se ir na corrente. Quando chegou a crise ao país, nem todas as empresas tiveram capacidade para resistir e manter o negócio de pé. Faltava uma estrutura sólida e capacidade de se reinventarem.

O que é para si ser um bom líder? 

Acima de tudo é preciso capacidade de resistência e de proatividade. É preciso tentar antecipar aquilo que aí vem.

Às vezes não é fácil, como é óbvio, mas é preciso tentar fazer com que as dificuldades façam parte do aprendizado da pessoa, que façam para do seu crescimento e estar atento aos erros cometidos. Mas acima de tudo perceber que isto tudo é feito de relações humanas. As empresas são feitas de números, é verdade, mas quem faz esses números são as pessoas. A boa capacidade de liderança passa por conseguir retirar o melhor de cada pessoa e fazê-las sentir que fazem parte do projeto. É sempre isso que tento transmitir, por onde passei e em todos os projetos onde estive envolvido, tento fazer com que as pessoas sintam que fazem parte do puzzle. As instituições ficam, as pessoas passam, mas se tivermos a capacidade de trazer as pessoas e envolve-las no projeto e dinamizar o que há de melhor nelas isso vai refletir-se na empresa e no seu sucesso.

Estão presentes no mercado apenas há dois anos e querem marcar a diferença no mercado imobiliário português. Que balanço já é possível fazer?

Estamos presentes há quase três anos no mercado e o balanço já é bastante positivo. Todos os projetos que lançamos têm sido bem aceites. É um projeto que ainda está no início, mas que já tem uma carteira de clientes e uma carteira de investimento elevadas. Tem sido um processo árduo, mas estamos a caminhar para que se torne num projeto de grande dimensão.

Lançámos, recentemente, um empreendimento novo e, em termos de estratégia, temos já um caminho bem delineado para os próximos cinco anos que passa pelo que já foi construído até então. Somos um promotor com uma capacidade singular no mercado imobiliário em Portugal. Temos um conjunto de serviços que permitem levantar, internamente, um projeto no seu todo sem a subcontratação de serviços. Desde a arquitetura e engenharia até ao marketing e publicidade ou ainda do jurídico ao financeiro, disponibilizamos serviços que nos dão a capacidade de erguer um projeto imobiliário. Trata-se do projeto empresarial JPS Real Estate Investments que será o nosso foco nos próximos anos. Neste momento existem muitas aquisições feitas por investidores e com o JPS Real Estate Investments vamos posicionar-nos ao lado do investidor para desenvolver os seus projetos imobiliários, oferecendo as nossas valências. Seremos um parceiro para desenvolver projetos e disponibilizar todos os meios para alcançar o sucesso dos investidores.

Iniciaram atividade com a reabilitação, no centro de Lisboa, agora o foco é a construção nova, dirigida às famílias portuguesas. Porque é que o grupo sentiu esta necessidade de apostar na construção nova?

Lisboa é uma cidade que tem um potencial muito forte. Há a sensação de que só nos últimos dois anos é que se descobriu Lisboa, principalmente porque hoje é um destino Europeu bastante procurado, mas também muito falado e procurado a nível mundial. Lisboa tem potencial para continuar a crescer, os serviços estão melhores, há mais procura face a alguns focos de instabilidade existentes na Europa, é uma cidade segura e o nosso país ainda é um dos países com o custo de vida mais baixo. São fatores que fizeram evidenciar Lisboa no mapa.

Apostámos, assim, na JPS Group que optou por dois caminhos: inicialmente a reabilitação urbana, com foco no investimento estrangeiro, e, posteriormente, a construção nova com foco nas famílias da classe média que estão a sair de Lisboa para os arredores e precisam de habitação. Percebemos que havia uma necessidade de construção nova que não existe. O mercado começa a ter uma procura maior e não há oferta para corresponder às necessidades das famílias portuguesas. Este será o nosso caminho.

Quanto à reabilitação urbana, temos procurado projetos diferentes. Não vamos fazer reabilitar edifícios que não acrescente algo mais. A nossa reabilitação pauta-se pela sua maneira diferente de estar no mercado. Tem de ter uma marca diferenciadora e acrescentar valor.

E assim surge o SkyCity. Em que consiste este projeto?

O SkyCity é um projeto que pode ser considerado emblemático pelo facto de termos conseguido colocá-lo na rota do mercado imobiliário com uma presença muito forte. É acreditar que irá existir uma construção nova com todas as potencialidades de ter um baixo custo, qualidade e proximidade do centro de Lisboa a um preço competitivo e acessível. É um projeto único que vai trazer qualidade de vida às famílias portuguesas.

Já começámos a construção e, neste momento, o projeto SkyCity já está a ser comercializado em planta. Queremos criar uma mais-valia na construção, queremos envolver as pessoas na construção e que sintam que estão a construir a sua casa de sonho. Queremos que as pessoas possam escolher e personalizar cada divisão da casa.

Trata-se de um empreendimento, desenvolvido sobre um conceito de excelência, com 49 moradias isoladas, 66 moradias em banda e 255 apartamentos. 

Como analisa o mercado imobiliário português atualmente? Portugal está na moda? Quais são as perspetivas, a médio/longo prazo, para o mercado imobiliário?

Não é uma moda. Estamos a falar de uma conjuntura propícia e que irá revelar o seu potencial. Estão a ser investidos muitos milhões em infraestruturas e serviços e Lisboa tem todas as condições para continuar a ser dinamizada e oferecer boas condições. A par destes fatores temos ainda outros com as viagens low cost que cada vez trazem mais turistas às nossas cidades ou ainda fatores como qualidade de vida, segurança, estabilidade, bom tempo e boa comida que o nosso país oferece. 

Este setor tem sido devidamente apoiado?

Foram criados e bem, no setor da reabilitação urbana, alguns mecanismos legais para dinamizar a reabilitação. Estes mecanismos funcionaram bastante bem. Se olharmos para Lisboa há quatro anos atrás, a baixa estava completamente deserta. Hoje há vida na baixa de Lisboa, há prédios reconstruídos, turismo e movimentação. Podemos dizer que o apoio na reabilitação urbana foi eficaz. No que diz respeito à promoção imobiliária temos de ter atenção que o Estado não pode substituir os particulares. Pode criar mecanismos que permitem dinamizar o setor, mas há aspetos que não dizem respeito ao Estado e que têm de ser melhorados, como é o caso das questões burocráticas. 

Que maiores desafios enfrenta?

Com a saída de Portugal da crise e com o boom no mercado imobiliário verificou-se uma falta de capacidade de resposta por parte das empresas de construção que não têm mão-de-obra qualificada suficiente. A par das questões burocráticas relacionadas com os processos, como já referi, também há dificuldade em lidar com as próprias entidades licenciadoras.

Portugal quer atrair investimento estrangeiro, quer captar investidores, mas é preciso coordenar o sistema burocrático, que se pauta pela morosidade, para fazer jus à entrada de investimento e de investidores no país.

A JPS Group procura assumir um papel que permita coordenar e agilizar todos estes fatores, inclusive com as entidades, e procura encontrar soluções para ultrapassar obstáculos que possam surgir.

Com o Real Real Estate Investments o nosso foco será associar-nos a mais parceiros, investidores e projetos imobiliários, oferecendo os nossos serviços para desenvolver os seus projetos, sempre assentes no sucesso da operação. Queremos abrir o nosso leque de valências e oferecê-las ao mercado. Enquanto empresa conseguimos fazer o acompanhamento total de um projeto, desde o seu planeamento à concretização, através de uma equipa multidisciplinar e qualificada que irá garantir a taxa de sucesso da operação, Success Fee, a custo zero.

Na reabilitação urbana, no Real Estate Investments, a JPS Group reconstrói e co-investe em projetos de requalificação urbana através de serviços 100% integrados para os seus investidores.

A JPS Group pretende, portanto, assumir-se como um parceiro especialista no desenvolvimento de projetos imobiliários.

Reabilitação urbana deve ser “regra e não exceção”

“Queremos que a reabilitação seja entendida como uma regra, por isso, os regulamentos da edificação em Portugal têm que ser pensados essencialmente para a reabilitação urbana”, afirmou à agência Lusa o governante João Matos Fernandes, à margem da apresentação do concurso Europan 13 “A Cidade Adaptável”, que decorreu em Lisboa.

De acordo com o ministro do Ambiente, a regulamentação para a edificação em Portugal está toda pensada para a construção nova e não para a reabilitação.

“O que aconteceu nos últimos anos, é que foram criadas um conjunto de exceções para a reabilitação”, considerou João Matos Fernandes, defendendo que “já não faz sentido que a reabilitação seja entendida como uma exceção”.

Neste sentido, o governante lançou o desafio ao presidente da Ordem dos Arquitetos, João Santa-Rita, que aceitou colaborar na alteração da lei sobre a construção em Portugal.

João Santa-Rita declarou que o desafio proposto pelo governante vai ao encontro das expectativas da Ordem dos Arquitetos (OA), expressando que “é um prazer” colaborar.

“Também sentimos que é necessário rever e pensar muitas das questões que têm a ver com a própria regulamentação sobre o edificado e a reabilitação urbana é justamente um caso desses”, advogou o presidente da OA, referindo que existem muitos regulamentos que não se ajustam à realidade.

Segundo o governante João Matos Fernandes, trata-se de “um processo de alteração legislativa”, que vai envolver várias pessoas.

“Para mudar essas regras, temos que juntar arquitetos, temos que juntar engenheiros, temos que juntar também a indústria da construção, no sentido de definirmos um conjunto de regras claras, regras que permitam a garantia da exigência de qualidade dos projetos”, esclareceu o ministro do Ambiente.

O governante explicou ainda que é preciso reconhecer as especificidades dos projetos de reabilitação urbana perante as regras que são comuns na construção nova.

“Um projeto de reabilitação, naturalmente, tem que poder ter outras regras mais adaptáveis à realidade, mas sem em situação alguma abastardar aquilo que é a necessidade de conforto e as necessidades de eficiência energética”, referiu João Matos Fernandes, adiantando que é esse conjunto de regras que constituirão um código para a reabilitação.

O Governo quer “rapidamente começar” a definir o código para a reabilitação urbana, um trabalho que demorará cerca de um ano e meio e que “será utilizado por todos”, garantiu.

 

Reabilitação: o impacto na cidade e no estilo de vida

Ana Coelho Foto ©Diana Silva

Acreditamos que a reabilitação urbana é o caminho a percorrer para um estilo de vida mais sustentável das populações que, voltando a viver nos centros urbanos, poderão diminuir a sua dependência do automóvel e dos transportes públicos, o que contribui decisivamente para a melhor gestão do tempo e do dinheiro das famílias.
Com a melhoria do ambiente construído e a dinamização das cidades, naturalmente o turismo responde de forma positiva, o que pode representar uma importante atividade económica em certas zonas do país.

A Sustentabilidade na Reabilitação
O processo de reabilitação, por si próprio, assenta num princípio de sustentabilidade: reutiliza uma estrutura existente. A recuperação do edifício significa, na prática, que estes materiais não serão descartados como resíduos, continuando em uso por uma alargada vida útil. Ao mesmo tempo, a reutilização de materiais antigos evita o consumo de novos materiais que, como sabemos, são menos duráveis do que os tradicionalmente utilizados na construção dos séculos passados.
Além da sustentabilidade ambiental obtida através da reutilização de materiais existentes e do prolongamento do seu período de vida útil, podemos ainda destacar aspetos de sustentabilidade económica e social. Do ponto de vista económico, a reabilitação de edifícios afigura-se como um processo frequentemente mais acessível do que a construção de edifícios novos, ao mesmo tempo que se valoriza o ambiente urbano e cultural, potenciando o turismo e valorizando o património de todos e de cada um. Numa perspetiva social, a reabilitação de edifícios antigos contribui para a preservação e valorização dos conhecimentos ancestrais sobre a arte de construir, que foram menosprezados nas décadas de 80 e 90, conduzindo à construção de edifícios de muito baixa qualidade e conforto, característicos destas décadas.

A qualidade do projeto: impacto no sucesso do investimento
A qualidade do projeto é decisiva para o sucesso de qualquer investimento imobiliário. Só através de um cuidado projeto se consegue planear a correta gestão dos recursos económicos, com a máxima valorização de cada elemento isolado e de cada detalhe, para obtenção de um resultado final coerente. O investimento na fase de projeto tem retorno garantido no resultado final.
No nosso trabalho diário, procuramos enriquecer o projeto, seja de reabilitação ou de construção nova, com todos os ensinamentos sobre solidez, durabilidade e intemporalidade, que retiramos do profundo estudo e admiração pelos edifícios antigos. Ao mesmo tempo, somos apaixonados pelo design e encaramos a estética como uma função real que deve ser equacionada e trabalhada desde o primeiro momento, na medida em que contribui irrefutavelmente para a valorização do imóvel.

Ana Coelho é arquiteta pela Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (2008), Mestre em Construção e Reabilitação Sustentáveis, opção “Conservação e Reabilitação de Edifícios”, pela Escola de Engenharia da Universidade do Minho (2012). Entre 2012 e 2014, frequentou o Programa Doutoral em Engenharia Civil, na Universidade do Minho/ISISE (Institute for Sustainability and Innovation in Structural Engineering), com trabalho de investigação sobre a Sustentabilidade da Reabilitação de Edifícios Antigos. Publicou diversos artigos e comunicações no âmbito desta investigação, em Conferências Nacionais e Internacionais.
A equipa dedica-se ao desenvolvimento de projetos transversais, desde a seleção de imóveis, licenciamento, projeto de execução, interiores, acompanhamento e fiscalização de obras, assim como ao fornecimento de serviços “chave na mão”, em todas as áreas e escalas de intervenção.

O renascer de um património chamado Porto

Álvaro Santos

A Porto Vivo – Sociedade de Reabilitação Urbana (SRU) foi constituída em novembro de 2004 com o objetivo de fomentar e promover a reabilitação do Centro Histórico do Porto. De que modo esta missão tem sido concretizada de modo a tornar a cidade invicta uma zona de viabilidade habitacional e comercial e um aliciante ponto turístico?
A criação da Porto Vivo, SRU, em 2004, sustenta-se numa clara opção de política municipal de fazer a cidade voltar ao seu centro – não só Centro Histórico, mas também à sua envolvente tradicional, a Baixa – e decorre também de um alerta realizado junto do Estado Central, da necessidade imperiosa e urgente de intervenção e de reutilização de um património existente, devoluto e muito degradado fruto de um crescimento urbano desmedido.
No processo de reabilitação em curso, tem sido muito importante a capacidade que a Porto Vivo, SRU tem tido de fazer concertar os interesses públicos e privados, motivando o município a atuar previamente num dado território e, assim, dando sinais aos privados para nele atuarem também. Tal está a ser realizado no âmbito do Centro Histórico e Baixa do Porto, revertendo-se a espiral de declínio e abandono, correspondendo ao resultado de uma ação continuada, consistente, coerente e perfeitamente articulada.

Ao longo dos 11 anos de existência, apoiaram e acompanharam projetos distintos de reabilitação urbana. Reabitar o centro da cidade, rejuvenescer o comércio e promover o turismo foram os principais objetivos da Porto Vivo – SRU enquanto mediadora destes projetos. Em pleno início de 2016, como veem o Porto após toda esta época de requalificação? O que mudou?
Passada mais de uma década de atividade, consideramos que estão acionados todos os vetores de desenvolvimento do nosso masterplan, nomeadamente:
– REABITAÇÃO, através de uma nova política de habitação destinada à venda e ao arrendamento de mercado ou social, promovendo-se projetos próprios e criando-se condições de apoio aos proprietários e aos moradores, visando a instalação de mais famílias e evitando a saída de outras;
– DESENVOLVIMENTO E PROMOÇÃO DO NEGÓCIO NA BAIXA DO PORTO, apostando-se no empreendedorismo e criação de novas empresas, na promoção da criatividade, do conhecimento e da inovação;
– REVITALIZAÇÃO DO COMÉRCIO, criando uma estratégia que se apoie na sua identidade e na modernização dos espaços de acolhimento;
– DINAMIZAÇÃO DO TURISMO, CULTURA E LAZER, com base nas características ambientais e da qualidade do edificado, complementadas com a rede de equipamentos culturais e de lazer;
– QUALIFICAÇÃO DO DOMINIO PÚBLICO, atuando na qualificação das infraestruturas, na reabilitação dos espaços públicos existentes e na reorganização da mobilidade, privilegiando o peão e o transporte coletivo relativamente ao privado.
Foram vários os projetos que contribuíram para acionar estes vetores, nomeadamente, no âmbito das Parcerias para a Regeneração Urbana, o Programa de Acção do Morro da Sé, com a sua vertente Programa de Realojamento, e o Programa de Acção do Eixo Mouzinho/Flores, ou ainda o projeto “1.ª Avenida – Dinamização Económica e Social da Baixa do Porto”. Projetos nos quais foram envolvidos vários parceiros públicos (desde logo, a Câmara Municipal do Porto) e privados, incluindo-se ainda organizações sociais.
Em dez anos, o investimento acumulado em reabilitação urbana na área de intervenção da Porto Vivo, SRU ultrapassou os mil e duzentos milhões de euros, valor expressivo da dinâmica instalada e inimaginável há (apenas) uma década. Desse investimento, cerca de 90% foi realizado por promotores privados, sendo o esforço público de apenas 10% do total.

Enquanto mediadora entre proprietários e investidores ou arrendatários, a Porto Vivo – SRU, por meio de incentivos, promove a reabilitação dos edifícios de um modo mais célere. De que incentivos falamos concretamente?
Desde a sua criação que a Porto Vivo, SRU, quer diretamente, naquilo que é sua competência, quer induzindo o município e o Governo Central, tem pugnado pela criação de incentivos à reabilitação urbana.
Num primeiro nível, existem incentivos fiscais, que compreendem a isenção ou redução de vários impostos. Em sede de IVA, às empreitadas de reabilitação urbana aplica-se a taxa reduzida de 6%. No IMI, estão isentos os prédios objeto de reabilitação urbana, pelo período de 5 anos, renováveis por igual período, se respeitarem critérios de eficiência energética e diz a lei que estão também isentos os prédios com classificação como Monumento Nacional, o que, sendo o que acontece no CH do Porto, não está a ser aplicado, apesar do veemente protesto do município. Em sede de IMT, estão isentos os prédios destinados a reabilitação urbana e a primeira transmissão de prédios ou frações reabilitadas destinadas a habitação. No IRS, há deduções à coleta dos encargos suportados com a reabilitação e tributação a taxa reduzida dos rendimentos.
Há ainda redução das taxas e licenças municipais, como a taxa de ocupação da via pública, do licenciamento de operações urbanísticas e da publicidade.
Especial referência para o SIM-Porto, que confere créditos de construção em função da reabilitação de prédios na nossa área de atuação e que introduzam medidas de eficiência energética, créditos esses que podem ser utilizados em construção nova noutras áreas da cidade. É um modelo pioneiro e tem vindo a ser adotado por outros municípios.
Existe ainda o Programa VIV’a BAIXA, que permite a aquisição, a custos reduzidos, de serviços, equipamentos, componentes e materiais de construção civil a utilizar na reabilitação de edifícios.
A Porto Vivo, SRU estabeleceu também um protocolo de cooperação com uma entidade bancária, a Caixa Geral de Depósitos, que tem em vista melhorar as condições de financiamento.
De referir também que, no âmbito da iniciativa JESSICA, é disponibilizado o acesso a financiamento em condições muito atrativas para projetos de reabilitação enquadrados em planos integrados de desenvolvimento urbano sustentável.
O recente lançamento do programa Reabilitar para Arrendar também permite o acesso de particulares a financiamento de operações de reabilitação de edifícios com idade igual ou superior a 30 anos, que após reabilitação deverão destinar-se predominantemente a fins habitacionais.
Em suma, a Porto Vivo, SRU está muito empenhada e ativa no papel de orientar os investimentos do setor público e do setor privado, tirando partido ainda dos apoios do novo Portugal 2020, no que se refere à intervenção em espaço público e edificado, incentivando inclusive a aposta na eficiência energética.

ASL Associados, uma empresa onde se trabalha com paixão

Equipa ASL

Sempre que seja viável, António Lessa defende “categoricamente” a reabilitação urbana. Porque reabilitar “significa respeitar os edifícios e a sua originalidade, mas dotá-los de condições de conforto, de bom desempenho acústico e térmico, entre outras valências”. Porque reabilitar significa dar uma nova vida aos centros das cidades e às zonas históricas. No Porto, cidade onde se encontra sediada a ASL Associados, houve um “conjunto de fatores” que promoveram a reabilitação em detrimento da construção de raiz. Após lidar com uma situação de desertificação, foi necessário promover o regresso não apenas de habitantes, mas também de turistas. Neste contexto, os voos low-cost tiveram aqui um papel determinante. Por outro lado, a queda dos financiamentos, a crise económica e o empenho por parte dos agentes políticos permitiram um novo olhar sobre a cidade invicta.

Deste modo, a reabilitação tornou-se um conceito cada vez mais procurado e, neste sentido, a ASL Associados apresenta-se como o parceiro ideal. António Lessa assume que, no âmbito da reabilitação urbana, se diferenciam da concorrência pela experiência neste tipo de projetos, pelo “diagnóstico” realizado aos edifícios e pela visão integrada que têm do projeto. Neste contexto, António Lessa adianta que “nos dois últimos anos fomos responsáveis pelos projetos de 50 prédios, só no centro da cidade do Porto”.

A reabilitação pretende manter os materiais e estruturas existentes recuperando-as e reforçando-as, para se manter os detalhes de época, aliando a introdução de novos elementos capazes de satisfazer e adaptar o edifício às necessidades contemporâneas de habitação.
Por outro lado, assumem ainda o papel de gestores de obras, através do qual executam a fiscalização e o acompanhamento total do projeto. Um terceiro fator que coloca a ASL Associados numa posição de destaque é a realização de “projetos ao nível das várias disciplinas da engenharia”, seja “engenharia civil, eletrotécnica ou mecânica”. Sónia Gomes afirma que a grande mais-valia é a possibilidade de o cliente “falar com um único interlocutor”. E, neste contexto, refere a importância de uma equipa organizada, flexível e com condições para comunicar entre si. António Lessa reitera esta afirmação, explicando que “com a ASL, fala com o coordenador de projeto” e, desta forma, assegura-se a compatibilidade de especialidades, há uma melhor comunicação e a possibilidade de se perder informação é mais reduzida”.
Neste sentido, e para apresentar uma melhor qualidade de serviço, a empresa começou em 2012 a trabalhar com o Revit, um software BIM, direcionado para profissionais das áreas de engenharia. Este programa permite trabalhar com as distintas engenharias e assegurar “total compatibilidade” entre si, explica o engenheiro.

ASL há 10 anos sempre a crescer
A ASL Associados não se concentra apenas na reabilitação urbana, integrando com a mesma idoneidade projetos de construção de raiz, na área hospital, industrial, escolar e em complexos desportivos. Neste sentido, a empresa divide-se em diferentes unidades de negócio: projeto, certificação energética, fiscalização de obras, laboratório de ensaios acústicos e check-up. Pela postura com que olham os projetos a desenvolver, uma postura íntegra, baseada na qualidade e numa aliança entre estética e conforto, entidades públicas e privadas veem já a ASL como parceira de confiança. Recentemente projetaram a nova sede da Santa Casa da Misericórdia do Porto, o Hotel Pestana, na Praça do Comércio, em Lisboa, a ampliação da fábrica da Imperial, em Vila do Conde, o complexo desportivo de Ramalde, a reformulação da Escola dos Castelos, entre outros projetos. Têm ainda projetos em curso em Moçambique, Angola e Brasil, designadamente seis estações de comboio na zona de São Paulo.

Certificar para melhorar
Atualmente, a ASL Associados encontra-se em processo de obtenção da certificação ISO 9001:2015, que permite garantir que todas as metodologias de trabalho estão perfeitamente documentadas”, prestando serviços “de forma consistente e coerente”, cumprindo os requisitos legais aplicáveis, garantindo a satisfação do cliente explica Sónia Gomes. Esta certificação permite ainda “proteger a ASL contra perda de conhecimento e melhorar o desempenho e a eficácia da organização”, garante. Num momento em que a empresa se encontra em fase de consolidação, esta certificação vem promover a identificação de situações a melhorar, algo que, na opinião de António Lessa, é “extremamente gratificante”.

“Reabilitar é ir ao local, conhecer, cheirar, sujar-se”

“O Porto está na moda”. Cláudia Machado, Arquiteta de formação e profissão, não se cansou de recorrer frequentemente a uma expressão que é hoje o cartão-de-visita de uma cidade que fica na memória quer pelo ambiente acolhedor quer pela riqueza do seu património. E é esta riqueza que se pretende preservar. Com a elevação da zona histórica à condição de Património da Humanidade da UNESCO em 1996, pequenos passos começaram a ser dados mas apenas há cerca de oito anos se tem conhecido na íntegra o verdadeiro conceito de reabilitação urbana nesta cidade. Da Sé à Ribeira, hoje, passear por velhas ruas que outrora não eram convidativas tem um sentido diferente e, para tal, muito tem contribuído a atuação da CPPM Arquitectura, um atelier criado em 2006 e que assumiu desde logo como setor estratégico de desenvolvimento a grande temática da reabilitação urbana.

Cláudia Machado
Cláudia Machado

“Arquitetura é uma área bastante abrangente. Temos que conhecer a legislação e saber de construção, o que exige um grande estudo não só do edifício em si mas de todo o processo de construção”

Respeitando sempre, quer seja num projeto de pequena ou maior envergadura, a preexistência e o Património edificado, a CPPM Arquitectura aposta num serviço completo de acompanhamento de todo o processo de licenciamento até à fase de obra, tal como explicou Cláudia Machado, fundadora do gabinete. “Muitas pessoas têm um edifício mas não conhecem o potencial do mesmo e procuram-nos. Fazemos esse estudo prévio e acompanhamos todo o processo, desde licenciamento até à obra”, evidenciou. Mais do que fazer um bom projeto, ir ao local é o fundamental. Não se pode correr o risco de “desenhar sobre incertezas” mas importa “estudar o edifício”. “Para mim é impensável fazer um projeto sem antes realizar um levantamento. Reabilitar é ir ao local, conhecer, cheirar, sujar-se”, defendeu a arquiteta. Só “vestindo a camisola” a CPPM Arquitectura conseguirá prestar um serviço digno a um cliente que muitas vezes desconhece o processo e tem, por isso, que encontrar um parceiro que o ajudará em todas as fases. Isso exige do arquiteto muito mais do que conhecimento de arquitetura. Assim, quer seja para um escritório, um empreendimento turístico, uma moradia ou edifícios de habitação, o processo é sempre o mesmo. “Arquitetura é uma área bastante abrangente. Temos que conhecer a legislação e saber de construção, o que exige um grande estudo não só do edifício em si mas de todo o processo de construção”, definiu Cláudia Machado. Em consonância, em todos os espaços com os quais trabalha há sempre uma preocupação: manter a identidade do edifício. Claro que tudo dependerá do estado de conservação do mesmo mas, sempre que seja possível, a CPPM Arquitectura reaproveita elementos, o que também se traduz numa poupança na construção.

O papel do arquiteto na reabilitação

Inevitavelmente ou não, a verdade é que a reabilitação urbana está hoje na ordem do dia e veio para ficar. Com a crise que se fez sentir no setor da construção civil, este “renascimento dos centros urbanos” trouxe um novo paradigma para a arquitetura portuguesa e, neste novo mundo, qual é o papel assumido pelo arquiteto? “A cidade é feita de arquitetura. O nosso principal desafio prende-se com o método construtivo. Durante muitos anos existiu a construção nova, em altura e em betão. Hoje temos que ter a noção de que não podemos fazer reabilitação nos centros históricos da mesma forma. Deste modo, grande parte dos construtores e arquitetos há mais tempo no ativo tiveram de alterar os seus métodos de trabalho e a sua forma de construir”, partilhou Cláudia Machado em conversa com a Revista Pontos de Vista. E, apesar do boom que se tem feito sentir nos últimos anos, a verdade é que, na perspetiva da arquiteta, tal não se tem traduzido numa diminuição da taxa de desemprego dos jovens licenciados nesta área que, de acordo com algumas estatísticas, é das mais altas da Europa. “Não acredito que a reabilitação tenha trazido mais trabalho, sobretudo aos mais jovens, uma vez que os clientes acabam por procurar arquitetos com mais experiência. Estamos a falar de reabilitação, que exige algum conhecimento construtivo que quando acabamos um curso não possuímos. Falo por mim. Comecei há dez anos e ainda tenho muito para aprender”, defendeu.

“Hoje temos que ter a noção de que não podemos fazer reabilitação nos centros históricos da mesma forma”

E a aprendizagem é constante numa área que ainda tem algumas lacunas ao nível da legislação em vigor. “Grande parte da nossa legislação foi feita para construção nova e nos edifícios a reabilitar nem sempre conseguimos cumprir grande parte das disposições. Já houve alguns progressos com a publicação da lei da reabilitação (DL 53/2014) onde se define um regime excecional para reabilitação de edifícios, mas seria importante haver uma revisão do Regulamento Geral das edificações Urbanas, mais adaptado à reabilitação”, afirmou. Mesmo assim, ao nível do Porto, a arquiteta elogia a atuação da autarquia portuense que muito tem apostado na reabilitação da cidade, não só ao nível da arquitetura, destacando a reabilitação do eixo Mouzinho/Flores, “um exemplo de como o urbanismo pode cativar e atrair as pessoas”.

Saindo do cenário geral da cidade para o universo particular da CPPM Arquitetura, Cláudia Machado não esconde o carinho especial por um projeto com o cunho deste gabinete. Trata-se de uma obra na Praça de Parada Leitão que terminou este ano mas que está a ser estudada desde 2007. “Fica na memória porque começou para ser um hotel e depois acabou por ser algo completamente diferente, sendo agora dois estabelecimentos de restauração e bebidas. O resultado foi bem melhor do que o previsto”, colmatou a arquiteta. É esta “dedicação” e “amor à causa” que Cláudia Machado continuará a abraçar porque só assim será possível afirmar-se num mercado onde todos querem entrar mas só os melhores ficam.

Alguns serviços da CPPM Arquitectura:

– Levantamentos arquitetónicos, tipológicos do edificado e topográficos;
– Pedidos de informação prévia;
– Projetos de licenciamento;
– Projetos de execução (mapa de acabamento, mapa de vãos, medições e cadernos de encargos);
– Consultoria na área da reabilitação e património;
– Fiscalização;
– Acompanhamento de obra e assessoria técnica; entre outros.

 

Qual é o papel do arquiteto?

Cláudia Costa Santos

Inevitavelmente ou não, a verdade é que a reabilitação urbana entrou na ordem do dia em Portugal e veio para ficar. Neste sentido, têm surgido novos paradigmas para a arquitetura portuguesa? Qual é o papel do arquiteto neste “novo mundo”?
A crise imobiliária e financeira que vivemos exigiu uma mudança de paradigmas não só na arquitetura mas em todas as outras áreas, com reflexo nas condições económicas, sociais e políticas. A Reabilitação Urbana é uma consequência da transformação estrutural da economia nacional. As cidades, como centros económicos ativos que sempre foram, para assim continuarem, sofreram as respetivas adaptações. A arquitetura sempre foi e continua a ser, uma componente vital da sociedade civil, sem a qual não é possível perspetivar um modelo de desenvolvimento sustentado. E como tal, o “novo” paradigma para a arquitetura portuguesa é o de contribuir para (re)fazer, para a (re)humanização da cidade e do território. O ato como ser humano integrado numa sociedade e o ato profissional (ético, social e estético) são valores básicos da formação do arquiteto. É impensável o arquiteto dissociar-se de todas as áreas existentes numa sociedade, pois um dos seus principais atributos profissionais advém da dimensão cultural, social e económica ao serviço da sociedade. O espaço como “matéria-prima” do arquiteto é trabalhado com o intuito de criar relações que se estabelecem entre ele, o tempo, a deslocação, o movimento, entre o interior e o exterior desse espaço. Assim, a condição humana, em toda a sua complexidade, é imprescindível para o estabelecimento dessas relações. O que quero dizer é que o papel do arquiteto é, como sempre foi, o de transformação do espaço (com inteligência, racionalidade e sensibilidade) para o desenvolvimento qualitativo das relações sociais. O papel do arquiteto continua a ser o de encontrar respostas para um “mundo em constante mudança” traduzido, formalmente, numa arquitetura de qualidade, forte, potenciadora de uma sociedade ativa, saudável e desenvolvida.

A reabilitação urbana não tem como objeto primordial a economia ou os setores da construção e do imobiliário, nem se limita ao arquiteto ou a outros profissionais. Há cada vez mais a noção de que a reabilitação urbana existe com o simples motivo de melhorar a qualidade de vida das pessoas?
Inevitavelmente, ou não, a verdade é que na prática a execução do que formalmente destacamos como Reabilitação Urbana ainda é muito direcionada para a rentabilidade económica na vertente da construção civil e do imobiliário, não estando disponível a todos os cidadãos, a todos os grupos sociais.
Na prática há que criar condições de organização de profissionais de uma forma pluridisciplinar, promovendo o diálogo direto com as pessoas para que seja concretizado esse propósito (a melhoria da “qualidade de vida das pessoas”). É necessário que a triangulação “capacidade financeira”, “capacidade técnica” e “vontade política” funcione em prol da sociedade. A solução poderia passar pela execução assumida de uma estratégia nacional de reabilitação, trabalhada no sentido da potencialização de políticas públicas e respetiva territorialização (local, regional e nacional), em diferentes domínios do ambiente urbano, que congregasse o ambiente, a educação, saúde, mobilidade, habitação, energia, emprego, a emancipação e integração social e individual, a qualidade de vida e produção de riqueza das populações residentes nas áreas rurais e urbanas. Com preocupação nas várias disciplinas de âmbito social, numa arquitetura qualitativa, na defesa da memória, na valorização do conhecimento, das qualificações profissionais, da cidadania participativa (informada e concertada por compromissos) e da qualidade de vida como garantia prestada aos cidadãos. Como sociedade desejamos a melhor qualidade de vida que envolve o nosso desejo de melhor economia, de cidades atraentes, seguras, interessantes e divertidas. Por isso, a reabilitação urbana tem de proporcionar a continuidade das relações entre os homens, com as coisas, com a sua memória e o seu futuro. Tem de ser encarada, não como um simples ato com foco no edifício, no quarteirão ou numa zona da cidade, não cingida apenas a fachadas, volumes, envolvências a algumas situações de cenários urbanos de qualidade ambiental a manter ou a melhorar, mas também com uma abrangência nacional, com dinâmica e coerência própria relacionada com a vida e as necessidades da sociedade, as suas exigências e espectativas, garantindo a dinamização económica e social, o bem-estar e a melhoria das condições de vida futura da nossa sociedade. Sem esse efeito, há o receio que as áreas de intervenção culminem, futuramente, numa ruína ou em cenários para os turistas verem. E isto também é arquitetura, como disciplina intrinsecamente pluralista e diversificada, com fluxos e sub-fluxos de atividade na política, no ativismo, na história, na educação cívica, na estratégia, na comunidade, ecologia, e mais, tudo a funcionar de forma paralela. A arquitetura é uma síntese de valores cívicos transpostos no ambiente construído, para que eles possam continuar a manifestar-se ao longo do tempo.

Portugal é dos países que apresenta a mais elevada taxa de desemprego de arquitetos, sendo a crise na construção civil um dos principais focos deste problema. De que forma o segmento da reabilitação urbana tem permitido retomar a confiança no setor e reter jovens arquitetos no país?
A crise, também na área da construção civil, desencadeou um elevado aumento de desemprego na classe dos arquitetos, agravada ao facto de a comercialização da arquitetura explorar a independência e a novidade do edifício como objeto, em vez da sua conexão com a sociedade. Infelizmente tem surgido uma corrente dominante que se limita a uma imagem de especulação arquitetónica para “entreter” os pares e para a comercialização, reduzindo a arquitetura a uma prestação de serviços cumpridores das exigências da especulação e do mercado imobiliário. Mas o trabalho de um arquiteto, conforme já referi anteriormente, é muito mais complexo, pluralista e diversificado.
Os contextos político-económicos e as transformações sociais (principalmente no que toca às necessidades de redesenhar a esfera pública) reforçam as ambiguidades e indefinições da profissão, dificultando a afirmação de uma identidade profissional clara nos seus contornos, forte na sua coerência interna e especificamente reconhecida na sua relação externa. A Reabilitação urbana, como instrumento estratégico, apoiado na criação de novas políticas financeiras e de incentivos (onde o programa Portugal 2020 assume-se como crucial) poderá ser um grande apoio para a expansão das fronteiras criadas à prática profissional da arquitetura e assim permitir a confiança no setor económico-profissional. Uma estratégia nacional de reabilitação pode fazer mais do que simplesmente contribuir para uma alavancagem profissional. Pode inclusive ajudar a população no respetivo direito a um enquadramento edificado de uma vida digna e harmoniosa. Compete ao Estado garantir a qualidade desse enquadramento edificado à população. Caberia assim também ao Estado garantir à totalidade da população, independentemente da capacidade económica de cada um, o benefício dos serviços do arquiteto. Uma estratégia nacional de reabilitação definidora de políticas financeiras que promovam a equidade, favorecendo os cidadãos de baixos rendimentos e tornando-os participantes das estratégias globais de reabilitação urbana; de políticas de contabilidade assentes na determinação do valor económico dos bens e serviços que tenham em conta os justos custos da qualidade dos profissionais; políticas que conduzam à simplificação de procedimentos de execução das operações urbanísticas e respetiva celebridade; políticas que conduzam à criação de emprego, da produtividade e da coesão e inclusão social, de proteção e eficiência energética. O arquiteto, em vez de autónomo, terá então que se integrar no sistema, articular e cooperar em redes, em alianças e além do alcance político. Tem de considerar a conceção espacial como uma ferramenta dentro de uma estratégia culturalmente ampla, informada por um amplo conjunto de indicadores sociais, económicos, políticos e materiais, sendo sempre motivado para fazer a diferença.

De acordo com as metas previstas no Compromisso para o Crescimento Verde, em 2030 a reabilitação urbana deverá representar cerca de um quarto do volume de negócios do setor da construção. Acredita que este objetivo será concretizado? Que barreiras continua a ser necessário ultrapassar para que tal seja possível?
O Compromisso para o crescimento verde, pelo volume de financiamento elevado em causa, pode-se tornar num programa de grande importância e bastante ambicioso. Resta saber qual o encaminhamento da discussão para o respetivo uso: se para projetos privados, e em que percentagem, para que tipo de projetos, quais as componentes de operacionalização,… Ainda existem muitas dúvidas de como se irá operacionalizar o pacto. Acresce a instabilidade/indefinição política vivida no nosso país dos últimos dias que adia qualquer decisão económico – financeira. Sem uma definição no campo político, os agentes económicos e os investidores, principalmente os privados, retraem-se e adiam decisões por tempo indeterminado, sendo muito difícil fazer qualquer previsão. Desta mistura entre a indefinição das operacionalizações do compromisso para o crescimento verde, as indefinições políticas, lidas e interpretadas por alguém que foca a reabilitação como uma estratégia política de interesse público, com o objetivo de desenvolvimento das relações entre os vários paradigmas sociais das cidades, do povo e da sua relação com as coisas, resta a esperança para a sensibilização futura das necessidades de uma sociedade civil.
Para além das presentes incertezas, e como em qualquer política, os apoios financeiros e incentivos têm que ser conseguidos em paralelo a todos os conceitos e objetivos, para um resultado prático, eficaz e duradouro. E nestes termos a cobertura prática no que diz respeito à facilitação e simplificação processual, à valorização das qualificações dos profissionais, o direito e fomento da participação dos particulares e a integração social como principio fundador da comunidade, são princípios que devem ser considerados.

Apesar dos avanços lentos, já existe uma maior sensibilização por parte dos agentes para a necessidade de reabilitar o património que se encontra em mau estado. Portugal tem conseguido ombrear a este nível com outros congéneres europeus?
O facto de nosso país existir um foco para a reabilitação urbana do edificado, muito vocacionado para a condição urbana do território, do património e centros históricos, faz com que não consigamos estar ao nível dos nossos congéneres europeus.
O debate de transformação da paisagem construída a partir da participação ativa de quem a usufrui, a comunidade, com introdução das respetivas preocupações culturais, históricas, anseios, é ainda recente no nosso país.
À semelhança do que manifestamente ocorre em alguns países europeus, Portugal tem ainda pouquíssimos casos práticos desenvolvidos a partir de processos abertos e dinâmicos, que procuram responder às exigências e necessidades da população, fomentando a respetiva participação ativa e integrada, no sentido de conseguir um retorno de uma vida social comunitária. Os que há / houve situam-se nos dois maiores municípios portugueses, Lisboa e Porto. Para que a reabilitação funcione e se expanda é necessário, em primeiro lugar, a intervenção dos poderes públicos, com um empenho superior das autoridades locais e da população (esta diretamente beneficiada).
Em paralelo, são necessários incentivos e apoios fiscais e financeiros que promoverão a reabilitação também aos pequenos e novos promotores. Portugal precisa de uma estratégia nacional de reabilitação (ou salvaguarda). No essencial, é necessário alargar o debate da forma e das funções dos seus aglomerados, dos seus usos, das suas gentes, a todo o território nacional. O processo deve ser encarado como uma atitude cultural e como ato de gestão que seja garantia do desenvolvimento económico, o bem-estar e a melhoria das condições de vida dos habitantes.

Tendo em conta que o futuro da profissão passará, como tudo leva a crer, pela reabilitação urbana, o que podemos continuar a esperar da atuação desta entidade?
A Secção Regional Norte da Ordem dos Arquitetos possui uma relevante experiência na aproximação social e cultural, na formação e apoio técnico aos seus membros, de que é exemplo a transmissão de experiências práticas no terreno.
No âmbito das suas competências, de estreita relação com os seus membros, para além da verificação das condições em que a arquitetura é adquirida e praticada e os efeitos significativos que estes têm sobre os resultados construídos, dedicaremos especial atenção à contínua procura de soluções para as questões que se apresentam e refletem no dia a dia profissional dos membros e da sociedade no que toca à intervenção no ambiente construído. E para tal é importante um olhar atento sobre a valorização da profissão, no interesse em manter uma competitividade razoável e sadia, centrada na eficiência em oposição à coação na desqualificação profissional.
É importante reabilitar a dignidade da profissão na sociedade e honrar a melhor tradição de excelência técnica desta entidade, atraindo a participação do público, educando-o, transmitindo que os arquitetos desempenham uma função social relevante. É importante insistir com o poder central e local na condução da facilitação e simplificação procedimental de execução de operações urbanísticas e respetiva celeridade.
Igualmente importante é construir relações de colaboração de outros profissionais fora do âmbito da arquitetura, mas cujos saberes são essenciais para uma formação completa e abrangente do Arquiteto, como profissional e como cidadão. É assim necessário e imprescindível, em toda e qualquer situação em que se discutam interesses com relevância urbanística e arquitetónica, seja qual for o local e a sua natureza, a presença do arquiteto, porque este é detentor de competência técnica para contribuir, de forma elucidativa, na formação esclarecida da qualidade de um futuro humano num ambiente construído. A Secção Regional Norte da Ordem dos Arquitetos, à semelhança da essência da profissão do arquiteto, atuará a partir do que existe hoje, transformando para o que pode ser o amanhã. E para isso muito contribuirão as novas instalações da Secção Regional Norte da Ordem dos Arquitetos, que inaugurará no início do ano de 2016. A programação funcional refletirá a promoção do edifício como um centro de diálogo aberto, de muitas vozes, conversas, muita colaboração e várias ações, com foco nos profissionais e nas relações sociais entre estes e outras profissões.

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