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Do quimono pago a prestações à primeira medalha olímpica

“Ela ligou-me e disse “minha mãe, eu sei que estás toda contente; é para ti, fizeste-me uma mulher forte”.” Foi com esta frase que Telma Monteiro agradeceu à mãe uma vida que, embora de sofrimento – ou “superação”, como ela prefere apelidar -, foi também de alegrias, como a medalha de bronze no judo (-57kg) agora conquistada no Rio 2016, aos 30 anos, e depois de uma carreira de 16.

“Não é para menos, é um orgulho muito grande, é a primeira medalha olímpica de uma judoca portuguesa e a segunda de sempre, depois da de Nuno Delgado (Sydney 2000)”, lembra Manuela Monteiro, depois de acabar os almoços no restaurante Farinhas, onde trabalha como cozinheira. Foi a cozinhar que ganhou dinheiro para sair do Bairro Branco, no Monte de Caparica, assim que Telma entrou em alta competição.

A mãe de Telma Monteiro no restaurante onde trabalha

  |  ÁLVARO ISIDORO/GLOBAL IMAGENS

Não saiu pela má fama do bairro social, mas porque queria “dar todas as condições à Telma para ser uma superatleta”, como lhe diziam que ela era. Por isso, decidiu fazer uso das poupanças e dar entrada numa casa no Feijó, para morar a metros do clube onde a filha ia treinar – o CCD, Construções Norte-Sul. “Ela treinava muito cedo, às 07.00, e eu achava que ela não podia andar quilómetros ao frio e à chuva, sozinha, tão cedo, para treinar. Sair do bairro foi uma das minhas melhores conquistas, saber que lutei e consegui apesar de ter quatro filhos e ganhar pouco mais de 600 euros. E é um orgulho muito grande saber que ela tem humildade para reconhecer esse esforço da família”, confessa.

A vida de Manuela sempre foi na cozinha. Gosta do que faz. “Não deixo de ser mãe da Telma por estar numa cozinha, porque foi na cozinha que ganhei o dinheiro com que comprei o primeiro quimono dela e o da irmã, e que paguei o carro para a poder ir buscar ao aeroporto. Foi do meu trabalho e do do meu marido que saiu o dinheiro”, revela, antes de contar que “o primeiro quimono, daqueles reversíveis, custou 16 contos [80 euros]. Era muito dinheiro, tivemos de pagar a prestações”.

Manuela Monteiro já combinou com a patroa ir ao aeroporto buscar a medalhada olímpica, dia 23. E já sabe que vai ter de preparar a comida preferida da filha. “Ela pede sempre bifinhos com cogumelos. Mesmo no Natal. Ela não gosta de bacalhau, por isso a ceia de Natal é sempre bifinhos e mousse de chocolate… que ela diz que é diferente. Mas agora até já diz que a dela é melhor do que a minha”, responde, entre sorrisos orgulhosos.

O futebol perdeu para o judo

Foi graças a um programa de reinserção social no Bairro Branco, liderado pelo mestre Vítor Caetano, que Telma, então com 14 anos, apareceu no judo. A irmã, Ana Monteiro, e as amigas – Sandra Borges, Ana Sofia, e as irmãs Teresa e Sandra Mirrado – andavam no judo. Telma andava no futebol. “Tinha uma enorme paixão pela bola”, conta a mãe, revelando que ela até era boa jogadora e chegou a ter alguns problemas com os treinadores de ambas a modalidades, tal a disputa: “Dei por mim a ter de dizer aos treinadores que ela é que decidia… ia dando confusão.”

Ia, mas não deu porque ela acabaria por desistir dos relvados. “A irmã dizia-lhe para ir para o judo, que era fixe irem todas viajar e assim ela foi experimentar, mas desistiu passado dois dias. Entretanto, não sei porque carga de água ela decidiu voltar. E aí já não deixou mais o judo.” Dos tapetes usados e das aulas numa garagem no bairro social, a judoca passou para o CCD – Construções Norte Sul, onde Vítor Caetano era mestre. Telma foi um dos atletas em quem ele viu qualidades superiores. Pouco depois já dava treino aos meninos do bairro, a pedido do mestre, a troco de 5 euros/hora (a dividir com Sandra Borges). “Ela sempre foi poupada, por isso mesmo 2,5 euros era dinheiro. Mas para ela o mais importante era saber que já era alguém no judo”, acredita a mãe, revelando que o penteado com totó ao lado, que a caracteriza, nasceu de uma necessidade: “Só podem apanhar o cabelo duas ou três vezes, se não são desclassificadas, e ela queixava-se que lhe puxavam o cabelo. Por isso, aquela foi a maneira de minimizar os estragos.”

A ascensão de Telma foi uma “coisa tão rápida” que Manuela não se lembra com exatidão da primeira vez que ela chegou a casa entusiasmada e aos gritos a dizer “mãe, mãe eu ganhei”. Depois chegou a primeira medalha: “Ela é muito competitiva e, como ganhou a primeira medalha, aquilo mexeu com ela e quis ver até onde conseguia ir. E foi nessa altura que ela disse: ” já não dá mais para conciliar, vou deixar o futebol”.” A notícia fez a irmã mais velha, também judoca, feliz. Para a mãe também foi bom. Foi um orgulho ver as duas a ter sucesso juntas no judo em vez de as ver, como tantos outros jovens do bairro, a desperdiçar a vida em assaltos e corridas de carros. “A Ana [irmã mais velha] era uma atleta muito boa e a Telma olhava para ela como inspiração. Por vezes questionavam como a Ana, quase sem treinar, chegava ao tapete e ganhava aquilo tudo. Se não fosse as lesões… A Telma é a imagem do espírito de sacrifício. Treinar, treinar, treinar…”, atira entre suspiros, antes de recordar um torneio, na Alemanha, onde combateram entre elas. Depois do primeiro título nacional, vieram as taças do Mundo e os títulos europeus, até merecer a honra de ser porta-estandarte de Portugal nos Jogos Olímpicos de Londres 2012.

Os maiores desgostos

“Londres 2012 foi o maior desgosto da vida dela”, revela a mãe, lembrando que ser porta-estandarte e sair eliminada no primeiro combate foi “uma frustração muito grande” e deixou marcas: “As pessoas são cruéis na derrota e, quando a Telma ficou sem chão, só a família e o Benfica estavam no aeroporto.”
Regressada de Londres, a judoca começou a pensar no Rio 2016, mas a morte da avó que ela “adorava” voltou a abalar a judoca, que ainda não tinha superado outra morte, a de António Matias, o selecionador nacional, anos antes (2008). Mas Manuela sabe bem a filha que criou e, por isso, acredita que ela reverteu esses momentos tristes em motivação: “Tenho a certeza de que foi ao Matias e à avó que ela foi buscar forças para se erguer de novo, após a operação [no início deste ano]. Foi a avó que nos ensinou que temos de lutar muito para conseguir o que queremos e o Matias também foi muito importante na vida dela. Esta medalha também é para eles.”

Da operação à medalha em meses

Este ano de Jogos Olímpicos não podia começar pior: a 18 de fevereiro, Telma teve de ser operada ao joelho direito. Apesar disso não desanimou. Os amigos e a família “fartaram-se” de lhe dizer ela ia recuperar a tempo dos Jogos. Mas houve uma pessoa em especial que a sensibilizou. “O presidente do COP visitou-a e disse-lhe : “Primeiro a Telma, depois a atleta e só a seguir os Jogos. Se não puderes ir como atleta vais como convidada.” Não foi apenas no papel de presidente, a ver se ela ia ou não conseguir competir e representar o país”, elogiou, sem esquecer o fisioterapeuta do Benfica que a ajudou e o médico que a operou, Pereira de Castro: “Eles sabem como ela estava e como recuperou em tempo recorde, com dois ingredientes fundamentais: o querer e determinação superaram as dores, o choro e o desânimo inicial.”

Foi a mesma crença que a levou a tatuar os cinco anéis olímpicos no braço. E que levou também a mãe a fazer uma promessa a Nossa Senhora de Fátima. Quando Telma conseguiu carimbar a vaga para o Rio, os quartos Jogos consecutivos da carreira, a mãe foi cumprir a promessa e fazer outra: voltar depois dos Jogos, com a Telma e uma vela de 1, 62 metros (altura da filha).

Manuela viu o combate que deu o bronze à filha em casa. Mas o primeiro não foi capaz de ver… e até teve de ir à farmácia medir a tensão: “estava muito ansiosa”. Passado o trauma do primeiro combate, e como já lhe tinha dito que ia trazer uma medalha, viu os restantes e festejou como nunca. Mas só conseguiu descansar depois de falar com Telma, já depois da meia-noite. E “ela estava tão feliz”.
Como “já são muito anos”, Manuela já vai percebendo o judo e a estratégia da filha e das adversárias. Por isso estava com medo que as outras soubessem que ela tinha sido operada e que a massacrassem para tirar vantagem. Não foi no joelho, mas Telma ia ficando sem braço no combate decisivo… “A minha filha é muito forte, e não estou a falar de força física mas sim psicológica. Naquele momento ela não pensou na dor no braço, só pensou “eu tenho de levar a medalha para o meu país””, refere.

O grito de “eu vim para ficar” após ganhar à francesa Pavia apanhou de surpresa a mãe, que desabafa: “A Pavia estava descontrolada, olhava para ela como se lhe quisesse dar uma tareia e não combater. Mas no final ganhou a portuguesinha do totó.” Manuela ainda não sabe o que a filha vai fazer com a medalha, mas terá seguramente um lugar de destaque na sala dos troféus em casa dela. “Tem os troféus por ordem de conquista, que ela é muito organizada”, revela a mãe. “Isto se a Cuca [a irrequieta cadela de Telma] não a apanhar para brincar (risos).”

O bronze olímpico traz associados 17 500 euros, prémio a pagar pelo Estado. Um valor que não chega para pagar tudo o que a família investiu na carreira: “Mesmo se não ganhasse dinheiro nenhum ela continuava no judo, porque a paixão dela foi sempre esta.” A medalhada olímpica só volta dia 23. Até lá fica no Rio para apoiar os outros atletas. Depois, assim que chegar, Manuela acredita que ela vai “logo” começar a pensar em Tóquio 2020 : “Os japoneses adoram-na e ela é amiga da [judoca] Matsumoto. Deu-lhe uma camisola do Benfica autografada e tudo. Foi giro, agora no Rio dividiram o pódio. A Telma vai querer ir lá aos Jogos. E se ela quer… ela consegue!

“Eu vim para ficar”. Na História, Telma, na História

Demorou quatro anos a chegar aos Jogos Olímpicos. Tinha 18, surpreendeu o mundo. Subiu e desceu na corda bamba da vida, qual montanha russa imprevisível. Aprendeu umas coisas, ganhou moral, queria mais. Caiu. Era obsessão. Afinal, não dava, não tem o que é preciso. Bom, agora é que é. Não foi. Se calhar, Telma treme. Mais uma moedinha, mais uma voltinha. Ui, uma lesão. Operação. É para esquecer. Tem 30 anos, vai estar mais tempo a recuperar do que a treinar. Não dá. Deu. Já ganhou. Oops, a mongol enganou-a: repescagem. Terá capacidade para mudar o chip? Deve ser complicado. Se calhar dá, acabou de eliminar a número 1 da Europa. Os olhos já se arregalavam. Será? Olha, está à rasca do ombro. Está cansada. Hmm. A outra é rija. A Telma já está a abrir os braços. Olha, levou uma solha. Vamos ver, vamos ver…

Telma é garota do bairro, fazia asneiras e pisava o risco. Ganhou carapaça. Morde o lábio e range os dentes, se for preciso, embora ouvisse então música pop e lamechas como Backstreet Boys. Tentou o atletismo, mas fartou-se de andar às voltas dos prédios cansados, promessas de esqueletos por abandonar. Não era para ela. Tentou o futebol, mas cedo pendurou as botas porque nunca, nunca, era chamada pelo treinador. Estava farta. Quando brincava com os amigos, seja em que desporto fosse, queriam todos vestir a pele do herói. A glória é irresistível, é gasolina no sangue, que ferve por mais e mais. Um dia meteu na cabeça que ia afundar no cesto de basquetebol ao pé de casa. E arranjou maneira, apesar de a seguir ter-se magoado a sério. Todos querem ser Michael Jordans, certo? É isto que Telma Monteiro lembra no seu livro “Na vida com garra”. Chegar um pouco mais longe, sentir a brisa do céu.

Numa noite de insónias, a irmã Ana sentiu o suspiro e a agitação e perguntou o que se passava. Ouviu a pequena Telma e convenceu-a a ir para o judo com ela. E ela foi. Tinha 14 anos.

“Eu vim para ficar!”, gritou depois de vencer Automne Pavia por ippon

“Eu vim para ficar!” Este grito, após a vitória contra Automne Pavia, foi o ponto de viragem. Para ela, para os portugueses, para os jornalistas e até para os brasileiros na Arena Carioca 2, que demoraram a dar por ela. Telma berrou, com raiva, com o dedo rijo, capaz de furar o tatami. Acabava de eliminar a número 1 da Europa.

O torneio (-57 quilos) de Telma começou com uma vitória contra Darcina Manuel, depois de a portuguesa ter beneficiado de uma folga na primeira ronda (isenta). Começou forte, com dois yukos no primeiro minuto

O torneio (-57 quilos) de Telma começou com uma vitória contra Darcina Manuel, depois de a portuguesa ter beneficiado de uma folga na primeira ronda (isenta). Começou forte, com dois yukos no primeiro minuto. Cerrou os punhos quando acabou. Estava sólida, convicta. O totó no cabelo, uma imagem de marca que preservou conscientemente, teve de ser arranjado mais do que uma vez. O judo da televisão parece mais amigo. Ao vivo ouve-se, sente-se o peso das chapadas que prometiam uma pega. O ritmo é outro, parece estar em fast forward. As marcas na cara vão surgindo. Não há milagres. É duro.

Os televisores na tribuna de imprensa permitem ver mais de perto a ação. Os olhos falam. Telma queria a redenção da menina de 18 anos, de Atenas 2004, que não soube gerir o fracasso. Não soube cair, não soube alterar o chip. Ou tudo ou nada. Ou ouro ou casa. Esse é, aliás, um dos capítulos do seu livro — “Saber cair”. É essa a primeira lição do judo. Defender e evitar quedas que esbanjam pontos para o outro lado ou, na pior das hipóteses, ippons, o KO do judo (projeção e queda de costas). A sedução da ideia é simples, porque é complexa: isto é literal e metafórico. Pode significar cair e levantar.

Mongolia's Sumiya Dorjsuren (white) competes with Portugal's Telma Monteiro during their women's -57kg judo contest quarterfinal match of the Rio 2016 Olympic Games in Rio de Janeiro on August 8, 2016. / AFP / Toshifumi KITAMURA (Photo credit should read TOSHIFUMI KITAMURA/AFP/Getty Images)

Telma Monteiro vs. Sumiya Dorjsuren (Photo credit should read TOSHIFUMI KITAMURA/AFP/Getty Images)

Seguiram-se os quartos-de-final. A rival era a número 1 do mundo, Sumiya Dorjsuren, que tem um olhar avassalador. É da Mongólia, tem 25 anos e em 2012, em Londres, não foi além do 17º lugar. Mas as preocupações dos mais entendidos no assunto, quando a viram colocar-se na possível caminhada de Telma, impunha respeito só por si só. O combate arrastou-se. Havia muito respeito, algumas investidas, mas ninguém dominava. Telma não vergava. Seguiu-se para o “ponto de ouro”. Qualquer ponto ou, em sentido contrário, qualquer penalização pode resolver o duelo. E foi isso que aconteceu: Telma foi penalizada por “falta de combatividade”. Aqueles segundos de impasse, sem se perceber muito bem o que aconteceu, foram angustiantes. Telma estava de pé. Não foi dominada. Perdeu daquela forma. Ingrato. Saberia cair, 12 anos depois da primeira desilusão?

Durante a hora de almoço as conversas multiplicavam-se. A desconfiança também, que lá mudava a cara a cada rabanada de vento, que tem abanado o Rio de Janeiro. Tem de mudar o chip, esquecer o ouro. Vai lutar na repescagem para chegar ao bronze. Portugal só tem uma medalha de ouro em judo, homem. É histórico. Ela já não tem 18 anos. Depois lá voltam aqueles pensamentos que minam qualquer mente onde o sol brilha a toda a hora: ela foi operada a meio ano dos JO. Bom, o café estava bom (tem sido um guerra nesta capítulo, uma espécie de ippon mental). Vamos a isto.

“Eu disse à minha equipa: se passar a francesa, levo a medalha para casa”, diria no fim

Voltámos à Arena Carioca 2 com a cabeça arrumada. Às vezes sente-se a tensão dos atletas. Passa a fazer parte das entranhas de quem escreve. O ambiente no pavilhão ia aliviando a coisa, porque aquilo virava do avesso quando Rafaela Silva combatia ou puxavam pelo Brasil. “Pega ela, Rafa!”, ouviu-se tanta e tanta vez. A brasileira ganharia a medalha de ouro, precisamente contra a atleta mongol que eliminou Telma Monteiro.

A repescagem era contra a francesa Automne Pavia. Voltou a velocidade. Telma tenta muitas pegas e enfiar-se pelas pernas abaixo das rivais, para tentar a projeção. Muitas vezes vê o sinal vermelho, porque aquela gente tem muita força e técnica. Mas a portuguesa tentava. E tentava. Até que, quando o relógio namorava o primeiro dos quatro minutos, Telma faz um ippon à francesa. O tal “Eu vim para ficar!” foi arrepiante, acendeu as bancadas, ligou-lhe a alma. O compromisso, a garra do costume, tinham ganho agora luz. Seria até ao fim — “Eu disse à minha equipa: se passar a francesa, levo a medalha para casa”, diria no fim.

Aconteça o que acontecer, será a melhor prestação de sempre da judoca lisboeta. Segue-se a romena Corina Caprioriu, que tem a mesma idade da portuguesa (30). Era mais um osso duro de roer: medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Londres. O silêncio ganhou terreno no pavilhão. Aqui e ali ouve-se um “Vamos, Telma!”, com os dois sotaques da língua portuguesa de mão dada. Os brasileiros estavam do lado de Portugal. Telma era o país irmão. “Portugal, Portugal!!!”, ouve-se desta vez, já durante o combate, por fugazes segundos.

Muito cedo Telma assinou um yuko, que lhe dava a liderança. Depois foi uma troca de galhardetes: pegas falhadas, os pés a chocar, tentativas de ataque, resistência. Telma mais tarde admitira que a romena queria apanhá-la em falso, aproveitar um erro. O desconforto no ombro esquerdo começou a gritar. A face da judoca não enganava, era dor, era lamento. Limitava. Ajeitou o cabelo e o quimono. Voltou à bulha. A romena bufa, está irritada. Telma já ia gerindo, evitando grandes aventuras. Controlou. Mais tarde, já medalhada, daria toques de Fernando Santos: “não vim aqui para lutar bonito, vim para ganhar”.

Tic-tac, tic-tac! Já está: Telma é medalha de bronze nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. É histórico, senhoras e senhores. O corpo dá sinais contrários à ética jornalística. A pele está como a canja: de galinha. O bom feeling engole aquele pavilhão, que já puxa em uníssono pela portuguesa. Há um alívio, o alívio de não tremermos apenas com o futebol. Aqui e agora, acabou-se de ver uma grande lição de vida. O desporto ensina tudo: a cair, a respeitar o outro, a perceber que há quem seja melhor. E a ganhar. É o horizonte.

RIO DE JANEIRO, BRAZIL - AUGUST 08: Telma Monteiro of Portugal (white) celebrates after defeating Corina Caprioriu of Romania in the Women's -57 kg Contest for Bronze Medal A on Day 3 of the Rio 2016 Olympic Games at Carioca Arena 2 on August 8, 2016 in Rio de Janeiro, Brazil. (Photo by David Ramos/Getty Images)

Já está! É medalha de bronze, Telma (Photo by David Ramos/Getty Images)

Telma abria os braços, sorria. Abraçou o treinador com a força de 1000 mulheres. E depois, a lembrar o Michael Jordan que era na sua infância, saltou a vedação para abraçar os seus. Talvez tenha ganho umas medalhas, daquelas negras, que choram na pele amassada. Mas não interessa. A própria diria algo semelhante na zona mista: “Acho que lixei o ombro. Se fosse para casa de cadeira de rodas com a medalha era indiferente…”

Ainda com emoções de bronze, foi possível navegar na mente de Telma Monteiro, com algumas palavras, recados para a própria, para a menina de 18 anos, e ainda mensagens inspiradoras para quem a segue e que cai todos os dias como o comum dos mortais.

RIO DE JANEIRO, BRAZIL - AUGUST 08: Silver medalist Sumiya Dorjsuren of Mongolia, gold medalist Rafaela Silva of Brazil, bronze medalist Telma Monteiro of Portugal and bronze medalist Kaori Matsumoto of Japan celebrate on the podium after the Women's -57 kg Judo Contest on Day 3 of the Rio 2016 Olympic Games at Carioca Arena 2 on August 8, 2016 in Rio de Janeiro, Brazil. (Photo by David Ramos/Getty Images)

Telma Monteiro com Sumiya Dorjsuren (prata), Rafaela Silva (ouro) e a amiga Kaori Matsumoto (bronze) – David Ramos/Getty Images)

“Provei que vale a pena não desistir dos nossos sonhos”, começou por dizer. “Não interessa a idade, não interessa o tempo que temos de esperar, o mais importante é não desistir. Persigo esta medalha há 12 anos. Costuma dizer-se que à terceira é de vez. À terceira é de vez, à quarta é medalha…”, sorriu, roubando outros tantos sorrisos a quem a rodeava num abraço invisível.

Mostrou que, afinal, sabia gerir e mudar o chip, que não estava cega pelo ouro, que havia mais por conquistar. “As coisas acontecem como tem de ser. O mais importante para mim é ter sabido reagir. Há oito anos, em Pequim, não tive essa maturidade: perdi na repescagem, porque estava obcecada com a medalha de ouro”, reconhece. “Hoje não, hoje sabia que o mais importante era fazer História pelo meu país.”

E a História foi feita.

Telma Monteiro afastada do ouro olímpico

Para chegar aos quartos de final, a judoca do Benfica eliminou a neozelandesa Darcina Manuel, 25.ª do “ranking” mundial, na segunda ronda.

Com esta derrota, Telma Monteiro perdeu a oportunidade de entrar na luta pela medalha de ouro, mas ainda tem hipóteses de lutar pelo bronze, se vencer o combate de repescagem.

No combate de repescagem, Telma Monteiro vai defrontar a francesa Automne Pavia, cerca das 19.30 horas, que perdeu com a japonesa Matsumoto.

O dia de Telma Monteiro, estreia da vela e jornada dupla de João Sousa

Cinco vezes medalhada em Mundiais e 11 em Europeus, Telma Monteiro tenta hoje no Rio2016 o ‘metal’ que lhe falta, o pódio nos Jogos Olímpicos, que falhou em 2004, 2008 e 2012.

Aos 30 anos, a atleta do Benfica é um dos nomes ‘grandes’ da categoria de -57kg, mas tem no Brasil várias adversárias de peso, incluindo a mongol Sumiya Dorjsuren, líder do ‘ranking’ mundial, que pode apanhar no segundo combate.

A russa Irina Zabludina, 23.ª do ‘ranking’, e a neozelandesa Darcina Manuel, 25.ª, são as possíveis adversárias de Telma Monteiro na segunda ronda. Se vencer passa para a sessão vespertina.

Pelas 10:00 locais (14:00 em Lisboa), também Nuno Saraiva, 40.º do ‘ranking’ mundial dos -73 kg, pisa os ‘tatamis’ do Rio2016, defrontando a abrir o húngaro Miklos Ungvari, 19.º, medalha de prata nos -66kg em Londres2012.

Depois de dois jogos e outros tantos triunfos na ronda de domingo, em singulares e, ao lado de Gastão Elias, em pares, o líder português João Sousa volta aos ‘courts’ para nova dose dupla.

O vimaranense, 36.º da tabela mundial, participa no terceiro jogo do ‘court’ central, face ao argentino Juan Martin Del Potro, ‘carrasco’ do sérvio Novak Djokovic, e, em pares, é o quinto a entrar em ação no ‘court’ 5, onde a dupla lusa enfrenta os canadianos Daniel Nestor e Vasek Pospisil.

O terceiro dia de competições assinala também a estreia da vela, com as primeiras regatas do porta-estandarte João Rodrigues (RS:X), que cumpre a sétima presença em Jogos, de Gustavo Lima (Laser), na quinta, e Sara Carmo (laser radial), de regresso depois de ter estado em Londres2012.

No ténis de mesa, Marcos Freitas, 11.º jogador mundial, joga por um lugar nos quartos de final com ucraniano de origem chinesa Lei Kou, que ocupa o 42.º lugar do ‘ranking’ mundial.

Antes, Tiago Apolónia estreia-se e tenta juntar-se ao madeirense, precisando para isso de superar o esloveno Bojan Tokic, a partir das 13:00 locais (17:00 em Lisboa).

Por seu lado, a nadadora Victoria KaminsKaya volta à piscina, agora para as eliminatórias dos 200 metros estilos.

Programa dos atletas portugueses para hoje (hora de Lisboa:

  • 14:00 – Nuno Saraiva, Judo -73kg, eliminatórias
  • 14:00 – Telma Monteiro, Judo -57kg, eliminatórias
  • 14:45 – João Sousa, Ténis, Segunda ronda. a)
  • 15:00 – João Sousa/Gastão Elias, Ténis, Segunda ronda pares. b)
  • 17:00 – Tiago Apolónia, Ténis de mesa, Terceira ronda
  • 17:00 – Gustavo Lima, Vela Laser (1.º Dia)
  • 17:00 – João Rodrigues, Vela RS:X (1.º Dia)
  • 17:00 – Sara Carmo, Vela Laser Radial (1.º Dia)
  • 18:50 – Victoria Kaminskaya, Natação 200m estilos (eliminatórias)
  • 19:30 – Nuno Saraiva, Judo -73kg (finais) c)
  • 19:30 – Telma Monteiro, Judo -57kg (finais) c)
  • 21:00 – Marcos Freitas, Ténis de mesa, Quarta ronda
  • 21:00 – Tiago Apolónia, Ténis de mesa, Quarta ronda c) d)
  • 01:30 – Tiago Apolónia, Ténis de mesa, Quarta ronda c) d)
  • 03:35 – Victoria Kaminskaya, Natação 200m estilos (meias-finais) c)
a) Terceiro jogo do ‘court’ central. O segundo nunca começará antes das 12:00 locais (16:00 em Lisboa).
b) Quinto jogo do ‘court’ número 4.
c) Caso se qualifique.
d) Hora por definir.

Telma Monteiro conquista medalha de ouro nos Jogos Europeus

Telma Monteiro conquistou esta quinta-feira a medalha de ouro na categoria de -57 kg dos I Jogos Europeus, após vencer na final a húngara Hedvig Karakas, em Baku, no Azerbaijão.

A judoca portuguesa, que conquistou a nona medalha de Portugal nestes Jogos Europeus, terminou o combate ao minuto 1.49, aplicando um ‘ippon’ à adversária, depois de já ter feito um ‘waza-ari’ à adversaria, que nunca lhe ganhou.
Telma, líder do ‘ranking’ Mundial, venceu a 11ª jogadora, confirmando a tendência frente à rival húngara, a quem venceu em todos os cinco combates.
Na competição de judo dos I Jogos Europeus, que atribuem também os títulos continentais, Telma Monteiro assegurou o seu quinto título, depois das conquistas em -52 kg, em 2006 e 2007, e em -57 kg, a sua categoria atual, em 2009 e 2012. A judoca lusa conta ainda com uma medalha de prata e cinco de bronze, somando 11 medalhas em 11 participações.
Portugal soma agora nove  medalhas nos I Jogos Europeus, após as conquistas de ouro de Telma Monteiro (-57 kg) no judo, Rui Bragança (-58 kg) no taekwondo e no ténis de mesa por equipas (Marcos Freitas, Tiago Apolónia e João Geraldo).
A prata surgiu com João Silva no triatlo, João Costa no tiro e Fernando Pimenta em K1 1.000 e 5.000 metros na canoagem, enquanto Júlio Ferreira (-80 kg) no taekwondo e a dupla Beatriz Martins/Ana Rente nos trampolins sincronizados amealharam bronze.

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