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Portugal queimou 700 milhões de toneladas de combustíveis fósseis em 125 anos

E se quiser cumprir o seu papel na luta climática, o país tem de se livrar, até ao final do século, das 16 milhões de toneladas de petróleo, carvão e gás natural que ainda queima anualmente para mover os carros, produzir eletricidade, alimentar indústrias e abastecer habitações.

Estes números resultam de uma compilação, feita pelo PÚBLICO, dos balanços energéticos oficiais do país desde 1971 e de um levantamento histórico do uso de carvão e petróleo desde 1890. Uma aproximação simplificada das duas séries sugere que o país utilizou 521 milhões de toneladas de petróleo em si entre aquela data e 2014. A seguir vem o carvão, com 145 milhões de toneladas – também expressa em equivalentes de petróleo. E por fim o gás natural, com 56 milhões.

O uso destes combustíveis fósseis soma, nesse período, 722 milhões de toneladas equivalentes de petróleo. Se essa quantidade de energia fosse necessária agora, de uma só vez, toda a produção mundial de petróleo presente – cerca de 95 milhões de barris diários – teria de ser dirigida para Portugal, e a mais nenhum país, durante quase dois meses.

Portugal começou por utilizar sobretudo o carvão. Em 1890, o país valia-se de 35 vezes mais energia desta origem do que da obtida com o petróleo – segundo dados do livro História da Energia, Portugal 1890-1980.

O petróleo tomou a dianteira apenas em 1951. Com o automóvel, o consumo subiu de forma galopante nas décadas seguintes, atingindo o pico em 2002. Já destronado, o carvão teve um novo impulso com a inauguração da central termoeléctrica de Sines, em 1985. Duas décadas mais tarde, voltou a ser ultrapassado, desta vez pelo gás natural, que começara a ser importado a partir de 1997.

O uso dos produtos de petróleo teve uma queda abrupta a partir de 2005, acentuada com a crise económica. Ainda assim, o país chegou a 2014 com os combustíveis fósseis a representarem quase três quartos de toda a energia primária consumida. Foram 16 milhões de toneladas equivalentes de petróleo – dez milhões para o petróleo em si, 3,5 milhões para o gás natural e 2,7 milhões para o carvão.

O mundo todo terá de abdicar destas fontes de energia nas próximas décadas, para evitar um aumento da temperatura global acima de 2ºC – considerado incomportável. Para tal, as emissões mundiais de CO2 terão de baixar de 40% a 70% até 2050 e chegar a zero até 2100, segundo o IPCC, o painel científico da ONU para as alterações climáticas. Na prática, é o fim anunciado dos combustíveis fósseis, de onde vêm a maior parte das emissões de CO2.

Portugal tem projetos concretos para descarbonizar a sua economia no curto e médio prazo. O novo Plano Nacional para as Alterações Climáticas, aprovado em Junho, quer reduzir as emissões de CO2 do país em 40% até 2030, em relação a 2005. Para tal, será preciso encerrar as centrais termoelétricas de Sines e do Pego, que funcionam a carvão.

Por ora, a EDP diz que não tem data para fechar Sines, que é o maior emissor unitário de CO2 do país. Apesar de ser o mais poluente dos combustíveis fósseis, o preço do carvão está baixo e há 280 centrais térmicas na Europa a utilizá-lo, segundo um relatório das organizações ambientalistas Greenpeace e Rede de Acção Climática.

Neste cenário, só um custo significativo sobre o CO2 que sai das chaminés levaria os operadores a prescindir deste combustível. “O que sempre defendemos é que esta transição tem de ser feita com mecanismos robustos de mercado”, afirma Pedro Neves Ferreira, diretor de planeamento da EDP.

Para o médio prazo, o guião para o país é o Roteiro Nacional de Baixo Carbono, aprovado em 2010. Segundo este plano, é possível chegar a 2050 com 50 a 60% menos emissões do que em 1990 e com uma dependência energética do exterior na ordem dos 50%, contra mais 70% agora.

A incógnita está em como Portugal vai chegar até ao fim do século sem necessitar mais de combustíveis fósseis. “A forma de descarbonizar será pela eficiência energética, pela eletrificação da economia e pelas renováveis”, antecipa Pedro Neves Ferreira. “Em 2100, o mundo vai ser elétrico”, concorda António Sá da Costa, presidente da Apren-Associação de Energias Renováveis.

Um dos maiores desafios está nos automóveis. Os quase seis milhões que estão em circulação no país sorvem atualmente 42% de todo o petróleo que Portugal importa, segundo os dados mais recentes da Direcção-Geral de Energia e Geologia. Outros 35% vão para fora do país, metade sob a forma de gasolina e gasóleo exportados, produzindo CO2 noutros países. O carro elétrico, neste momento, é a solução que parece mais viável para resolver este voraz apetite.

Há setores onde os combustíveis fósseis são imprescindíveis e não têm substituto à vista, como a indústria petroquímica ou os transportes aéreos. Noutros, como a fabricação de cimento, com ou sem combustíveis fósseis há sempre emissões de CO2 que resultam do próprio processo de fabrico e são dificilmente minimizáveis.

Livrar-se dos combustíveis fósseis não será fácil. “É uma coisa tremenda para a humanidade”, afirma Filipe Duarte Santos, especialista da Universidade de Lisboa em alterações climáticas. “O mais difícil será convencer países que têm grandes reservas de petróleo, carvão e gás a não explorarem estes recursos”, completa, questionando: “Suponha que em Portugal, ao largo do Algarve, haja uma grande bolsa de petróleo. Como é que vai ser?”

Como se chegou a este número

O PÚBLICO utilizou os balanços energéticos da Direção-Geral de Energia e Geologia de 1971 a 2014 e as estimativas para 1890 a 1970 do livro História da Energia, Portugal 1890-1980, coordenado pelo historiador Nuno Madureira, do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa. Todos os dados foram convertidos em toneladas equivalentes de petróleo – unidade que representa a energia libertada ao se queimar uma tonelada de crude. Devido a diferenças metodológicas entre as duas séries, o resultado aqui apresentado é uma aproximação, com alguma margem de erro.

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