Inicio Tags Tradução

Tag: Tradução

“O português é mesmo uma língua do futuro”

Trabalha há 21 anos como tradutora. O que diria que é mais importante no exercício desta profissão?

Para mim, o mais importante é dominar ambas as línguas de trabalho, conhecer bem o assunto em questão e a audiência e, acima de tudo, ter integridade e agir sempre de forma profissional.

É tradutora de inglês – português europeu em várias áreas técnicas e em áreas jurídicas viradas para os negócios. Trabalha para Portugal e para outros PALOP como Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Como descreveria a importância do seu trabalho nas relações empresariais?

Muitos dos projetos em que tenho trabalhado contribuem ativamente para aumentar o PIB desses PALOP, como é o caso, por exemplo, de projetos hidroelétricos e de petróleo e gás em Angola e Moçambique, desenvolvimento turístico em Cabo Verde, e proteção ambiental na Guiné-
Bissau e em São Tomé. Todos esses projetos têm de ser apresentados aos diversos governos e partes interessadas. Assegurar que a tradução é exata em termos de conteúdo e registo linguístico é por isso do interesse dos proponentes dos projetos, já que em projetos internacionais a tradução pode ajudar a fechar negócios ou dificultar negociações. Os tradutores devem ser invisíveis, mas na realidade são uma ponte importantíssima no mundo dos negócios, já que num país estrangeiro a tradução é o rosto da empresa.

Hoje em dia existem plataformas digitais de tradução grátis mas não são o mesmo que o trabalho de um tradutor. Porquê?

Num mundo cada vez mais automatizado, a tradução automática surge como uma consequência normal do desenvolvimento. Porém essa máquina ainda não oferece o serviço acrescentado prestado por um bom tradutor humano.

Um bom tradutor analisa o texto, as circunstâncias e o país em que o mesmo vai ser utilizado e o registo mais adequado e depois produz uma tradução que tem isso em conta, que é fácil de ler e que não é um decalque do original. Por exemplo, atualmente alguns dos PALOP usam oficialmente o antigo acordo ortográfico pelo que o português europeu não é neste momento todo igual, variando consoante o PALOP em questão. Um bom tradutor tem tudo isto em conta e produz uma tradução de qualidade, sempre em contacto com o cliente, para garantir que a mensagem é bem transferida e os resultados empresariais finais são atingidos. Tem também autoconfiança para questionar decisões linguísticas dos autores e aconselhar sobre o que é melhor para o país a que a tradução se destina.

A língua portuguesa está entre as mais faladas no mundo inteiro. Qual é, na sua opinião, o potencial dela no mundo dos negócios?

Em 2016 a língua portuguesa contava com 223 milhões de falantes nativos e 20 milhões de falantes de segunda língua e em 2017 era a 6ª língua mais falada no mundo. Com o desenvolvimento de grandes países, como Angola, Brasil e Moçambique, a língua de Camões tem um enorme potencial empresarial, até porque as empresas querem cada vez mais pessoal nacional mas também pessoal estrangeiro que domine o português. Esta é uma vantagem de crescimento muito importante e que as instituições de ensino fora dos PALOP não deveriam descurar. Para mim, o português é mesmo uma língua do futuro.

Entre todos os países com quem trabalha existem diferenças de índole multicultural evidentes em termos de negociação que possa partilhar connosco?

Penso que as diferenças têm mais a ver com os conhecimentos de cada um a respeito da tradução e do trabalho do tradutor. Muitas vezes é preciso informar os clientes sobre o trabalho e tempo necessários e a minha experiência acumulada permite-me ajudá-los a decidir sobre o que é melhor para os seus projetos. Este serviço acrescentado, com um toque humano e pessoal, é imprescindível, porque num mercado estrangeiro um produto ou serviço dependerá sempre da tradução para ter sucesso e o processo de tradução quando mal gerido poderá ter grandes consequências financeiras e reputacionais.

Além de ser tradutora sente que, por vezes, precisa de ser também uma diplomata? Porquê?

Sem dúvida. Nem sempre se pode traduzir exatamente conforme o original e muitas vezes é preciso contactar o cliente para lhe explicar que aquele termo ou aquela frase em especial pode dificultar determinada negociação ou causar más interpretações. O tradutor acaba por ser um consultor o que é fantástico. É muito gratificante, quando um cliente nos contacta por sermos o elo de que ele precisa para fechar um negócio, retomar uma negociação ou desenvolver uma parceria.

“A ARTE DA TRADUÇÃO NÃO É ASSIM TÃO LINEAR”

No dia internacional do tradutor devemos celebrar principalmente aqueles que trabalham para que a cultura seja difundida em todos os níveis sociais, facilitando a comunicação entre culturas de idiomas diferentes. Quando questionada sobre o facto de a sociedade estar consciencializada para a importância da tradução e de um tradutor com a formação adequada, Teresa Sousa relembra que, hoje em dia, a ideia que prevalece é a de que qualquer pessoa que saiba duas línguas tem capacidade para fazer tradução. Referindo-se ainda às ferramentas oferecidas pela internet, explica que “o processo não é assim tão linear. A nossa grande luta é afirmar que somos profissionais que tiveram formação específica para esse fim.”

A TAGS – Language Solutions trabalha, por isso mesmo, no sentido de sensibilizar as empresas para a necessidade de contratar serviços profissionais. “Muitas vezes, as pessoas só se apercebem da necessidade de um serviço especializado quando as traduções não têm os resultados esperados ou trazem consequências que podem ser mais ou menos graves”, explica a nossa entrevistada.

O caminho até à TAGS

Com formação de base em Tradução e Interpretação, Teresa começou o seu percurso profissional na área do marketing numa empresa onde acumulava, igualmente, a responsabilidade por trabalhos de tradução devido aos seus conhecimentos de alemão e inglês. “Rapidamente me apercebi de que era exigente conciliar os trabalhos de tradução com outras tarefas”. A experiência, que, no entanto, descreve como enriquecedora, permitiu-lhe perceber que “isto é o que acontece em diversas empresas, onde, inocentemente, os administradores pensam que é suficiente contratar pessoas bilingues para exercer funções de tradução”, refere.

Depois dessa experiência, seguiu-se uma década na indústria da tradução e o contacto com diferentes práticas que se usam no mercado que, em conjunto com uma série de fatores pessoais, levaram Teresa a querer criar a própria empresa direcionada para a prestação de serviços linguísticos, consultoria nas áreas da internacionalização e comunicação empresarial, e ações de formação e orientação para profissionais de tradução. Nasceu, assim, a TAGS – Language Solutions.

Teresa Sousa considera que a comunicação é uma das áreas cruciais da globalização e, num mercado cada vez mais competitivo, onde é necessário alargar regularmente a carteira de clientes e encontrar novos espaços de negócio, é um instrumento cada vez mais valorizado. Ao trabalhar com empresas nacionais e internacionais, percebeu que a maior resistência à contratação de serviços profissionais de tradução não se centra tanto nas questões de orçamento ou de confidencialidade, mas na falta de confiança nos conhecimentos técnicos do tradutor sobre as suas indústrias específicas. “Daí a importância de trabalhar fielmente com um prestador de serviços linguísticos e da necessidade de uma relação estreita entre o tradutor e o cliente, de modo a que este possa acompanhar de perto a sua realidade para um bom trabalho final com resultados positivos”, refere a fundadora da TAGS.

A especialização e o desenvolvimento profissional contínuo são também fundamentais. Por isso mesmo, Teresa dedica-se igualmente à formação de profissionais de tradução. Por exemplo, a Associação Portuguesa de Tradutores e Intérpretes, da qual a Teresa é associada, criou um programa de mentoring que visa ajudar os tradutores recém-licenciados (e não só) a enquadrarem-se na profissão, promovendo a sua aproximação a profissionais já estabelecidos.

Porquê TAGS?

TAGS é um jogo de palavras: sendo as iniciais do seu nome, Teresa Alexandra Gonçalves de Sousa, é, ao mesmo tempo, algo muito usado na internet e nas redes sociais, as ditas etiquetas das publicações, ou como códigos de formatação de documentos em programas de processamento de texto. “Como é uma palavra bastante conhecida hoje em dia e, igualmente, muito usada no setor específico da tradução, decidi optar por esse nome para a empresa”, explica a nossa entrevistada.

No entanto, Teresa considerou ser importante acrescentar a denominação Language Solutions para acentuar o foco da empresa: “queremos apresentar soluções junto das empresas e não levantar problemas. Queremos dar-nos a conhecer no mercado junto das empresas com a ideia de que nós existimos para facilitar o trabalho e trazer benefícios”. Para o futuro, diz ainda querer continuar a equilibrar a tradução técnica com o trabalho mais criativo e trabalhar mais de perto com empresas inovadoras e inspiradoras.

“É importante a questão da proximidade. Os clientes querem sentir que estamos a «cuidar» da empresa com o mesmo brio e dedicação com que eles o fazem”, conclui Teresa Sousa.

E ESTA É A TRADUÇÃO NOS DIAS DE HOJE. DESAFIANTE.

Quando regressei, decidi usar toda a bagagem que tinha acumulado e apostei paralelamente em duas áreas: a tradução e a formação de línguas.

Passadas mais de 800 horas de formação ministrada em centros de formação e empresas e já com uma carteira de clientes sólida na área da tradução, acabei por enveredar exclusivamente pela tradução.

Tornei-me membro da APT (Associação Portuguesa de Tradutores), APTRAD (Associação Portuguesa de Tradutores e Intérpretes) e ASETRAD (Asociación Española de Traductores, Correctores e Intérpretes), e sou tradutora certificada pelo CTP Program e pela rede internacional Proz.com, cumprindo a norma EN 15038.

12 anos volvidos, posso dizer que tem sido um percurso de grande aprendizagem. A indústria da tradução tem tido momentos de ascensão, retrocesso, evolução, crise… O progresso tem-nos obrigado a ser dinâmicos, a adaptar-nos a diferentes métodos de trabalho, a permanecer visíveis no mercado e a aprender a usar a inovação a nosso favor. Já não podemos ignorar as novas tecnologias, nem confiar no que antes tomávamos por garantido, nem mesmo achar que virão bater-nos à porta para estabelecer uma relação comercial. Cada vez mais, exige-se rapidez e qualidade – conceitos que raramente andam de mãos dadas.

Além disto, vivemos ainda numa sociedade pouco conhecedora do papel da tradução no mundo. Tudo à nossa volta é tradução. Desde o pacote de cereais que comemos de manhã ao contrato de trabalho que assinamos com aquela multinacional onde tanto queríamos trabalhar. Pensa-se que para se ser tradutor basta “saber línguas”. E isso, ao longo dos anos, não mudou. Infelizmente. Para se ser tradutor (dos bons, entenda-se!), é preciso dominar terminologia especializada, saber pesquisar, dominar ferramentas informáticas específicas para uniformizar e rentabilizar o trabalho, conhecer contextos culturais e linguísticos distintos, frequentar cursos e conferências para nos mantermos atualizados, ser criativos e dedicados. E esta é a Tradução nos dias de hoje. Desafiante.

OPINIÃO DE CARLA ALEXANDRA LOPES, TRADUTORA

 

EMPRESAS