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Detidos dois suspeitos de tráfico humano de Portugal para o Canadá

Os dois suspeitos, Sónia Fernandes da Cunha, de 40 anos, de Toronto, e Ruben Soza, de 40 anos, de Toronto, foram detidos no dia 19 de outubro.

Ela está indiciada por 10 crimes relacionados com tráfico humano e assalto com uma arma, enquanto ele é suspeito de cinco crimes, relacionados com tráfico humano, anunciaram as autoridades num comunicado.

À Lusa, as autoridades escusaram-se a adiantar a nacionalidade dos suspeitos, dizendo apenas que ambos têm “ligações a Portugal”.

“O Projeto ‘Betrayal’ começou em fevereiro de 2017. Na altura tivemos informações de mulheres traficadas de Portugal para Toronto”, começou por contar à Lusa o detetive Nunziato Tramontozzi, da unidade de Crimes Sexuais e de combate ao Tráfico Humano da polícia de Toronto.

Segundo uma nota da polícia, o caso remonta a maio de 2016, quando uma mulher proveniente de Portugal viajou para Toronto, após ter sido contratada para um trabalho de rececionista.

Na altura, quando se encontrou com os dois suspeitos, foi-lhe oferecido trabalho como massagista numa clínica, porque a vaga para rececionista já teria sido ocupada.

A vítima foi forçada, enquanto fazia massagens, a “vender serviços sexuais”, que foram anunciados no site backpages.com, e foi-lhe “retirado o passaporte”.

As autoridades ainda alegam que os dois acusados conseguiram convencer a vítima a entregar-lhes todo o dinheiro recebido durante esses serviços por questões de “segurança”. Quando a vítima confrontou os suspeitos, foi “violentamente agredida”.

No dia 19 de outubro deste ano, a Unidade de Tráfico Humano, com mandados de busca, conseguiu realizar buscas em várias locais em Toronto, onde deteve os dois suspeitos, obtendo documentos importantes para a investigação, alegadamente o passaporte da vítima.

“Em maio de 2017, uma mulher vítima de tráfico humano relacionada com a atual investigação deu-nos uma declaração sobre o que lhe aconteceu desde que chegou de Portugal. Foi nessa altura que o projeto teve mais intensidade e começou a investigação com outras agências da polícia”, sublinhou.

Além da polícia de Toronto, a operação envolve a agência de Fronteiras do Canadá (CBSA, sigla em inglês), da Polícia Judiciária (Portugal), e da Finch Track, uma agência federal canadiana que investiga transações financeiras em que há a suspeita de ilegalidades.

“O tráfico humano no Canadá já é quase tão lucrativo como o tráfico de droga e de armas. Uma das vantagens é que [os criminosos] podem voltar a utilizar aquelas vítimas. Uma rapariga pode ter sexo com 15 a 20 pessoas por dia e faz 250 mil dólares por ano. É um negócio muito lucrativo que cada vez mais está a aumentar e só através da educação se pode evitar”, concluiu o detetive sargento Nunziato Tramontozzi.

Os suspeitos foram, entretanto, libertados sob fiança e aguardam uma data para julgamento. A polícia de Toronto continua a investigar o caso e está a solicitar a ajuda do público.

Macau cai para lista vigilância de tráfico humano

O Governo da Região Administrativa Especial de Macau não cumpre os critérios mínimos para a eliminação do tráfico; no entanto está a fazer esforços significativos para tal (…) O Governo de Macau iniciou oito investigações de tráfico e duas acusações, mas não obteve qualquer condenação pelo segundo ano consecutivo. (…). Assim, Macau caiu para o ‘Nível 2 Lista de Vigilância'”, indica o relatório divulgado na terça-feira nos Estados Unidos.

O Departamento de Estado dos EUA lista os vários trabalhos do Governo de Macau para combater o tráfico, como a inspeção de agências de trabalho, estaleiros de construção e empresas com licenças de jogo, além de campanhas de sensibilização e apoio às vítimas, mas diz que o Executivo “não demonstrou aumento dos esforços em comparação com o período anterior”.

Por exemplo, “as autoridades nunca identificaram vítimas de tráfico laboral em Macau”.

Por este motivo, Macau foi “despromovido” para o ‘Nível 2 Lista de Vigilância’ onde já tinha estado anteriormente. Neste nível — de um total de quatro a que se somam “casos especiais” — ficam países ou regiões “que não cumprem totalmente os critérios mínimos do Trafficking Victims Protection Act, mas que estão a fazer esforços para cumprir estes padrões”.

O Departamento de Estado dos EUA recomenda que Macau “aumente os esforços de investigação, acusação e condenação” no âmbito do tráfico para exploração laboral e sexual, e tome outras medidas como a definição de um salário mínimo para empregadas domésticas estrangeiras e o melhoramento dos métodos para identificação das vítimas.

Macau deve ainda “conduzir campanhas de sensibilização sobre o tráfico sexual para que os visitantes compreendam que pagar por sexo com crianças é um crime”.

“Os mais de 30 milhões de turistas anuais na RAEM continuam a representar grandes desafios na abordagem aos crimes de tráfico”, diz o relatório.

O Departamento de Estado norte-americano afirma também que as autoridades “diminuíram os esforços para identificar e proteger as vítimas de tráfico”, tendo identificado quatro vítimas de tráfico sexual, incluindo três crianças e um adulto, menos que as seis identificadas em 2015, as cinco em 2014 e 38 em 2013.

No que toca ao perfil de Macau no âmbito do tráfico, o relatório recorda que a cidade é principalmente um destino e, em menor medida, ponto de passagem, para mulheres e crianças sujeitas a tráfico sexual e trabalho forçado.

As vítimas de tráfico sexual vêm essencialmente da China, e muitas “respondem a falsos anúncios de trabalho, incluindo de casinos em Macau, mas à chegada são forçadas a prostituírem-se”.

“Por vezes os traficantes confinam as vítimas a casas de massagens e bordéis ilegais, onde são monitorizadas, ameaçadas com violência, forçadas a trabalhar longas horas, e têm os seus documentos de identificação confiscados. Relatos indicam que menores são sujeitos a tráfico sexual em relação com a indústria de jogo e entretenimento em Macau”, afirma o relatório.

O Governo de Macau reagiu ao documento, rejeitando “com forte indignação”.

Frisando a “grande determinação” dos esforços no combate ao tráfico de pessoas, o Governo afirma que “o relatório dos EUA continua a ignorar os factos objetivos da situação de Macau”.

“Procede a uma má interpretação e retira conclusões não verdadeiras bem como alegações infundadas, especialmente no que diz respeito ao combate de tráfico de pessoas, à exploração laboral, ao turismo sexual envolvendo crianças (…), o que vem sendo recorrente desde há vários anos e que repudiamos pela falta de fundamento e injustiça de tais alegações”, afirma um comunicado do gabinete do secretário para a Segurança.

“Perante a constatação de tanta injustiça, as autoridades de segurança não aceitam o relatório e opõem-lhe a sua forte indignação”, sublinha.

Vítima de tráfico humano salva por hospedeira

Shelia Fedrik contou que instintivamente sentiu que algo de errado se passava, quando viu uma jovem sentada na janela ao lado de um homem mais velho, no voo que seguia de Seattle para São Francisco, nos EUA.

A rapariga “parecia ter passado pelo inferno,” contou a hospedeira, segundo a qual a adolescente deveria ter entre 14 e 15 anos.

Em entrevista à NBC, Shelia contou que tentou conversar com os dois, mas o homem ficava na “defensiva”, impedindo a adolescente de falar. A hospedeira insistiu e conseguiu pedir para a rapariga ir ao à casa de banho. No local, a profissional deixou um bilhete perguntando se estava tudo bem.

“A menina escreveu no espelho que precisava de ajuda”, contou Federick ao jornal.

A hospedeira comunicou ao piloto o sucedido e este, por sua vez, avisou a polícia. No desembarque, as autoridades policiais aguardavam pelo homem. Foi constatado que o suspeito participava de uma rede de tráfico humano.

Nancy Rivard, ex-hospedeira, fundou em 2009 a Airline Ambassadors, precisamente para treinar a tripulação de um avião para identificar alguns sinais de tráfico humano.

O ano passado, as autoridades dos Estados Unidos detiveram dois mil traficantes de pessoas e identificaram 200 vítimas.

Pelo menos 15 mil vítimas de tráfico na UE entre 2013 e 2014

O último relatório da Comissão Europeia sobre os progressos realizados em matéria de luta contra o tráfico de seres humanos conclui que, entre 2013 e 2014, o período mais recente objeto de análise, 15.846 mulheres, homens, meninas e meninos foram vítimas de tráfico na UE, mas apenas 6.324 pessoas tiveram contacto oficial com a polícia ou com o sistema de justiça penal.

De acordo com o relatório, o tráfico de seres humanos para efeitos de exploração sexual continua a ser a forma mais comum (67 por cento das vítimas), seguindo-se o tráfico para exploração laboral (21 por cento).

Mais de três quartos das vítimas registadas eram mulheres, percentagem que sobe para 95 por cento no caso da exploração sexual, “uma das tendências que aumentou mais acentuadamente”, segundo o relatório.

“Estamos particularmente preocupados com as mulheres e crianças, sobretudo para exploração sexual”, reconhece a coordenadora da União Europeia contra o tráfico de seres humanos.

Em entrevista à Lusa, via telefone, a propósito do Dia Mundial Contra o Tráfico, que as Nações Unidas assinalam a 30 de julho, Myria Vassiliadou assinala que, por outro lado, “a maioria dos traficantes e certamente todos os clientes são homens”.

O relatório também destaca as ligações entre o tráfico de seres humanos e outras formas de criminalidade e a exploração dos mais vulneráveis no contexto da atual crise de migração, bem como o aumento da utilização da internet e das novas tecnologias para o recrutamento de vítimas.

De acordo com o mesmo relatório, os países europeus com mais vítimas são Roménia, Bulgária, Holanda, Hungria e Polónia.

Nigéria, China, Albânia, Vietname e Marrocos são os principais países terceiros de nacionalidade das vítimas – vítimas, que, em 65 por cento dos casos, eram cidadãos da União Europeia.

“Não obstante os progressos realizados, os Estados-membros da UE devem intensificar os seus esforços para lutar eficazmente contra o tráfico de seres humanos”, conclui o relatório.

Polícia da Tailândia resgata 19 vítimas de redes de tráfico humano

O grupo foi descoberto, no domingo, pela polícia tailandesa a bordo de uma embarcação com pavilhão indonésio, ao largo da província de Parrani, no sul do país.

Segundo o Global New Light, órgão de comunicação social oficial tailandês, as autoridades de Banguecoque lançaram a operação depois de alertadas pelos familiares e pelos apelos que tinham sido lançados pela Associação de Myanmar na Tailândia.

Kyaw Thaung, diretor da associação, disse à agência noticiosa France Press que as vítimas, entre as quais crianças de 13 anos, tinham sido ludibriadas pela rede de tráfico de seres humanos com promessas de trabalho na capital da Tailândia, mas acabaram presas a bordo do pesqueiro.

“As forças policiais fizeram uma abordagem ao barco da Indonésia e encontraram 19 birmaneses”, afirmou, acrescentado que o grupo estava preso a bordo da embarcação há mais de 10 dias.

O diretor da associação disse ainda que o responsável pela rede de tráfico foi preso no momento da abordagem.

A polícia da Tailândia não respondeu às perguntas dos jornalistas sobre o assunto, mas uma fonte da Divisão Contra o Tráfico Humano da polícia de Myanmar, em Naypyidaw, confirmou à France Press que foram resgatadas as 19 pessoas que se encontravam presas a bordo do barco de pesca.

Milhares de cidadãos de Myanmar tentam conseguir trabalho na Tailândia, onde os salários são mais elevados, em instalações industriais ilegais ou no setor da pescas sendo a maior parte vítimas de exploração e abusos por parte dos empregadores.

Nos últimos anos, a Tailândia implantou uma série de medidas para combater o tráfico de seres humanos, assim como tenta reformar o setor das pescas que tem sido acusado de usar trabalho escravo.

 

Timor-Leste melhora classificação em relatório norte-americano de tráfico humano

Os esforços do Governo timorense para combater e controlar o tráfico humano levaram Timor-Leste a melhorar a sua classificação no relatório anual do Departamento de Estado norte-americano sobre tráfico de pessoas.

O Departamento de Estado saúda os “esforços concertados de Timor-Leste combater o tráfico de pessoas” no último ano, notando que tem vindo a “construir as parcerias e redes necessárias para combater o tráfico humano, proteger as vítimas e julgar os autores”.

Apesar das melhorias, o relatório de 2016 sublinha que Timor-Leste continua a ser “fonte e destino para homens, mulheres e crianças submetidas a trabalho forçado e tráfico sexual”, com o país a ser fonte de mulheres e meninas enviadas para a Indonésia para trabalho doméstico.

“Ocasionalmente, jovens do sexo masculino de áreas rurais são atraídos para a capital com a promessa de melhores perspetivas de emprego ou de educação e são, em alguns casos, vítimas de tráfico sexual ou servidão doméstica”, refere o relatório.

Há pelo menos um caso de um chefe de aldeia envolvido neste tipo de tráfico.

O relatório aponta o dedo a crime organizado da Indonésia e da China para tráfico sexual para Timor-Leste.

O Governo, nota o relatório, “não satisfaz plenamente os padrões mínimos para a eliminação do tráfico, no entanto, está a fazer esforços significativos para o conseguir”, relatando casos de condenação de dois traficantes.

Neste âmbito, destaca a criação de um grupo de trabalho interministerial sobre o tráfico humano faltando procedimentos formais para a identificação das vítimas, o que deixa “algumas vítimas vulneráveis à punição por crimes cometidos como resultado direto do tráfico”.

O Departamento de Estado considera que Timor-Leste deve “estabelecer, implementar e treinar os funcionários sobre os procedimentos formais para a identificação de vítimas entre as populações vulneráveis, como os indivíduos na prostituição e trabalho doméstico e os trabalhadores migrantes a bordo dos navios de pesca”.

Por outo lado, considera que deve ainda financiar adequadamente as estruturas policiais de investigação de crimes de tráfico, ser proativo na concretização de processos judiciais para condenar traficantes, incluindo “funcionários que com eles colaborem”, e adotar procedimentos que protejam as vítimas.

Timor-Leste melhora classificação em relatório norte-americano de tráfico humano

Os esforços do Governo timorense para combater e controlar o tráfico humano levaram Timor-Leste a melhorar a sua classificação no relatório anual do Departamento de Estado norte-americano sobre tráfico de pessoas.

O Departamento de Estado saúda os “esforços concertados de Timor-Leste combater o tráfico de pessoas” no último ano, notando que tem vindo a “construir as parcerias e redes necessárias para combater o tráfico humano, proteger as vítimas e julgar os autores”.

Apesar das melhorias, o relatório de 2016 sublinha que Timor-Leste continua a ser “fonte e destino para homens, mulheres e crianças submetidas a trabalho forçado e tráfico sexual”, com o país a ser fonte de mulheres e meninas enviadas para a Indonésia para trabalho doméstico.

“Ocasionalmente, jovens do sexo masculino de áreas rurais são atraídos para a capital com a promessa de melhores perspetivas de emprego ou de educação e são, em alguns casos, vítimas de tráfico sexual ou servidão doméstica”, refere o relatório.

Há pelo menos um caso de um chefe de aldeia envolvido neste tipo de tráfico.

O relatório aponta o dedo a crime organizado da Indonésia e da China para tráfico sexual para Timor-Leste.

O Governo, nota o relatório, “não satisfaz plenamente os padrões mínimos para a eliminação do tráfico, no entanto, está a fazer esforços significativos para o conseguir”, relatando casos de condenação de dois traficantes.

Neste âmbito, destaca a criação de um grupo de trabalho interministerial sobre o tráfico humano faltando procedimentos formais para a identificação das vítimas, o que deixa “algumas vítimas vulneráveis à punição por crimes cometidos como resultado direto do tráfico”.

O Departamento de Estado considera que Timor-Leste deve “estabelecer, implementar e treinar os funcionários sobre os procedimentos formais para a identificação de vítimas entre as populações vulneráveis, como os indivíduos na prostituição e trabalho doméstico e os trabalhadores migrantes a bordo dos navios de pesca”.

Por outo lado, considera que deve ainda financiar adequadamente as estruturas policiais de investigação de crimes de tráfico, ser proativo na concretização de processos judiciais para condenar traficantes, incluindo “funcionários que com eles colaborem”, e adotar procedimentos que protejam as vítimas.

ONG acusa Tailândia de não proteger as vítimas de tráfico humano

A organização Fortify Rights acusou esta sexta-feira o governo da Tailândia de não proteger as vítimas de tráfico humano, apesar de ter melhorado a sua posição no relatório anual dos Estados Unidos.

Em comunicado, a organização não-governamental (ONG) qualificou como “prematura” a decisão do Departamento de Estado de subir a Tailândia do nível 3 para 2 no seu relatório anual sobre tráfico de seres humanos, apresentado na quinta-feira.

“A Tailândia fez melhorias nos últimos meses, mas melhorar a sua posição [no relatório] de 2015 é prematuro e envia uma mensagem errada ao Governo”, disse Matthew Smith, diretor executivo da ONG.

A Tailândia foi promovida — saindo da lista dos piores infratores (“Tier 3”) — para o grupo de países que estão a desenvolver esforços e medidas para combater o tráfico de pessoas, mas que estão sob observação.

A Fortify Rights denunciou que as autoridades tailandesas não ofereceram a proteção adequada às vítimas de tráfico de pessoas e mantêm em centros de detenção refugiados ‘rohingya’ — uma minoria muçulmana apátrida, considerada uma das mais perseguidas do planeta pelas Nações Unidas.

Neste sentido, a ONG manifestou o seu apoio ao facto de a Birmânia — que não reconhece cidadania aos ‘rohingya’ — ter sido colocada na “lista negra”.

Organizações de defesa dos direitos humanos saudaram a despromoção da Birmânia por considerarem que foi, por razões políticas, injustamente protegida da avaliação no relatório do ano passado, mas lamentaram que a Tailândia e a Malásia não tenham sido responsabilizadas.

Os Estados Unidos acrescentaram oito países (Djibuti, Haiti, Birmânia, Papua Nova Guiné, Sudão, Suriname, Turquemenistão e Uzbequistão) à “lista negra” de nações que não estão a combater o tráfico de seres humanos.

A Líbia, a Somália e o Iémen foram considerados casos especiais, cujos governos estão numa situação demasiado caótica para serem analisados.

Tráfico humano: uma menina, a realidade de milhões

Já há uns meses escrevi aqui sobre a hedionda realidade das “Escravas do Poder”, revelada em livro pela escritora, ativista e investigadora mexicana, Lydia Cacho. As ligações tentaculares do tráfico humano parecem estender-se a um sem fim de indústrias, desde o turismo à pornografia, contrabando, venda de órgãos e terrorismo. Um tipo de crime que atravessa o mundo inteiro, totalmente impune, invisível aos cidadãos e ignorado por políticos que fingem não ver. Ou que dependem desta grande rede para manter a sua vida de ostentação. “Sold” conta tudo isso.

Falar deste tema é essencial. Ao contrário do que muitos pensam, a escravatura continua a ser um problema dos nossos tempos. Os números não mentem: mais de vinte milhões de pessoas sofrem atualmente nas malhas do tráfico de seres humanos, sendo que o trabalho forçado e a escravidão sexual são dois dos maiores destinos de quem é raptado. No segundo caso, mais de 2 milhões de crianças fazem parte do rol de vítimas. E em mais de 98% das situações de tráfico sexual, as meninas e as mulheres são os alvos escolhidos.

CERCA DE 500 DÓLARES POR CRIANÇA

Há quase um ano, aquando do terramoto que assolou o Nepal, as autoridades competentes lançaram um alerta global para a necessidade de ação célere para evitar raptos massivos de crianças no país. Estima-se que todos os anos cerca de 15 mil meninas e adolescentes sejam levadas, com destino aos bordéis indianos. No Nepal, por cada criança estima-se que um traficante receba cerca de quinhentos dólares. Um crime abominável transformado em negócio para muitos dos que vivem em países subdesenvolvidos.

Lakshmi não é uma menina real, mas a sua personagem e todas as suas vivências ao longo do filme foram criadas com a ajuda de ONG’s que se dedicam precisamente a esta área de trabalho. Os relatos das inúmeras vítimas resgatadas da teia do tráfico humano serviram de inspiração para o enredo, que conta ainda com a inclusão da história real de Lisa Kristine (interpretada por Gillian Anderson), uma famosa fotógrafa que tem dedicado a sua carreira a abordar temas fraturantes como a escravidão dos tempos modernos

Baseado no livro de Patricia McCormick com o mesmo nome, o filme é realizado por Jeffrey D. Brown e conta com nomes como Emma Thompson – eterna voz ativa na luta pelos direitos das mulheres – na produção. Parte das receitas vão ser direcionadas para organizações que se dedicam a resgatar, reabilitar e devolver à vida vítimas de tráfico humano na Índia e no Nepal.

Já com alguns grandes prémios na bagagem, “Sold” chega às salas de cinema em abril e é um daqueles filmes que todos nós deveríamos ver. Não pela bizarria da história, mas sim pelo alerta que ela transmite focando a realidade vivida por tantas crianças mundo fora. A forma como uma vida pode não ter valor algum e a simplicidade com que se ludibria alguém que vive na pobreza. Factor que – como diria Lydia Cacho – “é não só um campo fértil, como o motor de sementeira de escravas e escravos no mundo.”

“Os Desejos dos Outros”: tráfico, escravatura, prostituição, libertação

Tal como Kajol, acabou por ser vendida e obrigada a trabalhar num bordel. Num país onde a prostituição é legal, as malhas do tráfico humano arrastam milhares de meninas e mulheres para os bordéis, onde são obrigadas a trabalhar gratuitamente como prostitutas até conseguirem pagar o preço que as levará, em alguns casos, ao trabalho remunerado. Um processo que para estas mulheres demorou entre 2 a 5 anos. Mas entre cenários de profunda violência familiar e de pobreza extrema, ironicamente, é nessa atividade que muitas encontram a libertação para vidas de sofrimento. Mesmo que para isso tenham de perder a sua liberdade pessoal durante alguns anos, a dignidade dos seus corpos e a oportunidade de constituírem um família dentro dos moldes aceites pela sociedade do Bangladesh.

Kajol, Meghla e Asma são apenas três das jovens mulheres retratadas no inquietante e controverso ensaio fotográfico “Os Desejos dos Outros”, que retrata a vida dentro de um dos mais famosos e antigos bordéis da Tangail. O sítio chama-se Kandapara, é protegido por ONG’s e alberga mais de 700 trabalhadoras de sexo, com os seus filhos. Para muitas destas crianças, este é o cenário onde nascem, crescem e aprendem a tratar a prostituição por tu. Como algo normal, um simples meio de subsistência e de fuga à miséria e violência extrema que muitas das suas mães tiveram de suportar dentro dos seus seios familiares.

A fotógrafa alemã Sandra Hoyn passou uma temporada dentro de Kandapara e o resultado é uma série de fotografias e histórias de mulheres marcadas pela dureza da vida. O sexo forçado, depois das primeiras vezes, tornou-se apenas num pormenor. Dos que não se esquecem, que doem, mas que se suportam. A verdade é que mesmo tendo sido traficadas e forçadas à atividade, uma vez trabalhadoras sexuais, nunca mais se livram do estigma e o regresso à vida dita normal dentro da sua sociedade torna-se uma miragem. Mesmo quando são vítimas de abuso sexual, são desacreditadas pela justiça. Em Kandapara encontram compreensão e sentido de camaradagem das outras mulheres. Uma comunidade de centenas de mulheres com percursos semelhantes que se aceitam mutuamente.

LEGALIDADE VS TRÁFICO HUMANO

Esta é a realidade de Kandapara, mas nem sempre é assim. Embora a prostituição apenas seja legal a partir dos 18 anos, são muitas as meninas que começam a trabalhar em bordéis com apenas 12 anos, em ambientes inenarráveis onde são sujeitas a todo o tipo de violência. Muitas nunca chegam a ser remuneradas e tornam-se escravas vida fora (estima-se que cerca de 15 mil mulheres e meninas sejam traficadas anualmente para trabalho forçado fora do país). A legalidade da prostituição torna as inspeções a estes espaços diminutas e infrutíferas, até porque entre os clientes estão muitos políticos e polícias. Todos eles querem desfrutar do que lá encontram, das liberdades com o sexo feminino que fora daquelas quatro paredes lhes é culturalmente vedado, mesmo que para isso seja preciso fechar os olhos a crimes como o tráfico humano e o trabalho escravo.

Para esta mulher, o melhor sítio onde já esteve foi na prisão porque lá ninguém lhe batia. A prostituição foi a solução que encontrou para ser independente

Para esta mulher, o melhor sítio onde já esteve foi na prisão porque lá ninguém lhe batia. A prostituição foi a solução que encontrou para ser independente

THE LONGINGS OF THE OTHERS / SANDRA HOYN

Em Kandapara, muitos procuram sexo, mas há também quem – garante Sandra Hoyn – procure apenas companhia para um chá. Outros procuram amor. Se isto nos pode parecer a nós uma solução óbvia para a vida de muitas destas mulheres, para elas não é bem assim. As que recebem propostas de casamento tendem a recusá-las: depois de passado o martírio inicial do trabalho escravo às mãos das “madames” que gerem este bordel, a partir do momento em que podem ter voz ativa quanto aos clientes que recebem e se tornam autónomas economicamente, nunca mais querem deixar de o ser. Não podemos esquecer que foi precisamente graças à dependência financeira de outrora que grande parte destas mulheres ali foram parar. A sociedade fortemente patriarcal a isso incita, com as ‘mulheres de família’ eternamente afastadas do mercado de trabalho e da independência financeira. Se o preço a pagar por essa independência é o corpo, que assim seja. Por mais atroz que possa ser, é o único caminho para a liberdade que muitas encontraram num país onde uma mulher ainda pode ser vendida como um saca de batatas.

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