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Uma Lágrima na Face da Índia: Um romance que concentra amor, genocídio e infanticídio

Este é o teu primeiro livro mas para te conhecer um pouco melhor fala-nos um pouco sobre ti. Quem é o Daniel Nunes de Sousa?

Sou, talvez, o homem mais distraído que já conheci. Às seis da madrugada, quando os primeiros raios solares incidem sobre os telhados da minha casa, o meu cérebro entra numa torrente de pensamentos e contrapensamentos que me acompanham, sob qualquer situação, até o sol partir para uma nova cidade e o meu corpo, exausto, cair no sofá e saborear, em paz, o prazer de uma narguilé e uma boa conversa. «Ouviste alguma coisa do que eu disse?», perguntam-me, por vezes. E eu respondo, seguro na maioria das vezes de que tudo ouvi: «Mas é claro que sim!» Por isso, sou activo e gosto da ideia de ser, fazer e pensar em múltiplas coisas simultaneamente. Não imagino que um dia seja apenas psicólogo ou escritor ou sommelier, ou até as três coisas juntas. Há em mim, desde há muito, mas agora maior, o desejo do voluntário que larga tudo a troco de nada – nem mesmo uma única esmola! –, mas ainda não encontrei a força e a loucura necessárias para pôr em prática este tão velho desejo. E devia, porque sempre que imagino como seria esta aventura, ecoam na minha cabeça sorrisos felizes e longas conversas, debaixo de um cardume de estrelas reluzentes sob a paz nocturna, em círculo (como sempre imaginei), com um grupo de voluntários de rostos joviais segurando nas mãos a velha guitarra portuguesa e espalhando no ar melodias por mim desconhecidas enquanto o sono não chega. Por isso, também, tenho em mim a bondade para ajudar e estender uma mão amiga, pelo que, não dificilmente, me poderão encontrar a ajudar um idoso a carregar um saco de compras, a devolver uma nota de alguns euros deixada cair sobre o azulejo de um supermercado pelas mãos de um homem igualmente distraído, ou, em raras situações, emocionar-me com o olhar ansioso e apaixonado de uma senhora idosa, reclamando com o marido sobre uma coisa qualquer absolutamente insignificante. Por isso, gosto dos amores verdadeiros, os que nos deixam com espasmos no coração e enchem de amor até à loucura. E, porque acredito em sonhos, e este é possível, sonho um dia casar em Bali, e o amor da minha vida terá uma grinalda de flores alegres na cabeça, e no final da noite, com velas espalhadas por toda a margem do oceano, dançarei desajeitadamente e brindarei com um bom vinho português à alegria de ter concretizado um pequeno grande sonho, porque quando se quer muito uma coisa, todo o Universo conspira para que se realize*, então, a vida, com toda a sua magia, sempre nos põe no caminho da busca por um sonho.

*“O Alquimista”, de Paulo Coelho

 Como surgiu a inspiração para escreveres “Uma lágrima na face da Índia”?

Imagine, o leitor, que todas as noites, ao deitar confortavelmente a cabeça na sua almofada macia, fecha os olhos para um sono profundo e começa a imaginar, em cores fictícias, que está num país longínquo, e que lá, magicamente, conhece e sente uma felicidade nunca antes por si sentida. Nessa terra maravilhosa, conhece lugares que despertam em si muitas emoções e muitos sentimentos; aventuras que nunca pensou ser capaz de experienciar, como saltar do alto de uma montanha e sentir-se, literalmente, voar sob as alturas dos céus. E as pessoas e os lugares nunca são os mesmos, são todas as noites novos, porque o leitor deseja saltar de espaço em espaço para abrir os braços a novas experiências. Todo este parágrafo para dizer, no fundo, que foi assim que surgiu a minha inspiração. Durante vários meses, todas as noites eu deitava a cabeça na minha almofada, fechava os meus olhos vulgares e o meu pensamento, sempre, viajava para longe do meu país. Queria muito viajar, sair e conhecer uma nova língua, um novo horizonte. Como, na altura, ainda estudava e não tinha condições para fazer a minha viagem, decidi pôr no papel tudo aquilo que sempre imaginei. Portanto, a ideia original do livro parte precisamente deste meu pequeno grande sonho. No entanto, assim que o meu personagem literário, o Noah, chega à Índia, e percebe a dimensão da violência sobre as mulheres, tudo o que sempre imaginei e senti deixou de ter importância. A minha missão, a partir dali, converteu-se num desejo profundo e genuíno de ajudar as mulheres indianas, acreditando, vivamente, que a minha função, enquanto escritor, seria mostrar com rigor e respeito o que aquela vasta terra, que apavora e fascina, carrega sobre os seus ombros pesados.

O livro retrata o romance entre um turista e uma indiana e foca aspetos preocupantes que ainda afetam em grande escala a Índia como o genocídio e o infanticídio nas mulheres. Porquê abordagem destas temáticas?

Destino e instinto. Estes são os alicerces de todo o meu processo criativo. O leitor pense agora que todos aqueles sonhos, todas aquelas noites em que me deitava a pensar e a imaginar histórias fictícias maravilhosas, serviram apenas para me levar a um único lugar – amoroso e sangrento – e, depois de lá chegado, já não havia como sair. Por isso, ouso dizer: eu não escolhi este tema, este tema escolheu-me. Agarrou nos meus ombros, sacudiu-os como uma espécie de pedido de ajuda e provocou em mim calafrios nervosos, lágrimas, raiva, e uma vontade louca e incessante de fazer alguma coisa, de seguir instintivamente mais para diante e provocar algum efeito positivo nas mulheres que todos os dias sofrem nas mãos desses machos indianos que acreditam que, “para serem homens, precisam de uma certa violência para provar a sua masculinidade!” E o meu personagem literário principal vem confirmar esta dura realidade. O seu amor genuíno por Sahana agarra-o com força e empurra-o até às tradições de um país onde “a violação sexual dentro do casamento não é considerado crime”. É, por isso, um romance onde a ficção e realidade se enleiam numa história inesperada, onde os casamentos arranjados com homens de uma casta superior permanecem bastante enraizados e as mortes por dote continuam a ser um problema. Noah vê diante de si, no rosto feminino de olhos tristes e suplicantes, a pressão extenuante para ter um menino, ainda que, não raras vezes, se ouça dizer: “Não há problema em ter uma menina, desde que primeiro se tenha um menino”. Mas são as violações sexuais que petrificam Noah, que colocam os seus nervos como cordas tensas e fazem o seu sangue gelar. Conhecida pelas violações em grupo, as estatísticas, enquanto elemento meramente representativo, mostram-nos números assustadores, ainda que longe da realidade de um país onde a mulher é vista como um boneco de castigo e os crimes são sempre, sem qualquer excepção, justificados pelos homens, deixando-os imunes para continuarem a castigar o comportamento inaceitável de uma mulher (incluindo crianças), como, por exemplo, defecar numa zona onde não existem casas de banho, ou, então, pela “má escolha de roupas”. Na boca cruel de um macho indiano, “a culpa é sempre delas”. Se o leitor, por um segundo que seja, se sentiu fragilizado com estas palavras, estou então certo que compreenderá, agora, o porquê de eu ter passado vários anos a estudar e a escrever sobre este tema, que tanto me comoveu. Por isso, se pensar que muito pouco sabia sobre este assunto, e que os becos e as ruelas indianas, inexplicavelmente, não faziam parte dos meus pensamentos em cores fictícias, acredito então que fui escolhido para escrever sobre a violência contra as mulheres indianas.

 

Por que razões devem as pessoas ler o teu livro?

Uma Lágrima na Face da Índia é uma obra bastante completa: ela integra um amor proibido, exótico, através do encontro inesperado entre um turista à procura do seu caminho na vida e uma guia de turismo inexperiente, que enfrenta, diariamente, o peso de um casamento que lhe foi lançado sobre as mãos. Como, então, se libertar deste arranjo de espinhos e ser livre? Com uma narrativa profundamente cuidada, o leitor poderá ver e sentir as loucuras de um amor que chega como uma tempestade, que cai dos céus como um relâmpago e atira o coração para um majestoso e incompreensível mistério. Por outro lado, caminhando lado a lado, o romance entre estas duas pessoas desenrola-se à medida que a realidade da Índia é descortinada por meio de notícias e factos reais, que o autor recorre com alguma frequência, e a cultura do país, com os seus muitos deuses e mitos, surge para embelezar e colorir a narrativa da obra. Em Uma Lágrima na Face da Índia, o leitor poderá estar certo de, no final da mesma, sentir dentro de si uma vontade inexplicável para partir daqui, comentar o que leu, pesquisar, fazer alguma coisa quem sabe, emprestar o livro a um amigo ou recomendá-lo, pensar na Índia e vê-la com outros olhos, nem sempre bons, mas com a certeza de que, apesar da violência exercida sobre as mulheres, é um país com uma cultura fascinante que sempre nos atrai.

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