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Condé Nast coloca a região dos Vinhos do Alentejo no Top 6 dos destinos vinícolas para 2020

Cinco dos maiores especialistas em vinho nos Estados Unidos foram questionados sobre onde planeavam estar na sua passagem de ano e o Alentejo foi um dos destinos eleitos. O resultado são seis regiões do mundo com muito para explorar, tanto ao nível do enoturismo, como de toda a sua envolvente.

Laura Ginnatempo, autora do artigo, visitou o Alentejo em 2017 e descreve a região como próxima de Lisboa e do Algarve, cuja principal atração é o enoturismo. A especialista destaca a oferta heterogénea de excelentes vinhos, brancos e tintos, produzida com uvas autóctones tais como a touriga nacional, a aragonez e a alicante bouschet.

Michele Gargiulo, sommelier na Jean Georges do Hotel Four Seasons Filadélfia, também referido neste artigo, define locais como a Herdade do Freixo como exemplo das melhores e mais modernizadas adegas da Europa, refere ainda que os vinhos da Herdade do Arrepiado Velho estão entre os seus favoritos, colocando assim o Alentejo no top do ranking mundial. Quanto ao vinho, a sua preferência é a touriga nacional que classifica como um produto de uma complexidade, mineralidade e estrutura deslumbrantes.

A par com a Lombardia e a Sicília em Itália, Western Cape na África do Sul, o Vale Willamette no estado de Oregon (EUA) e a Península do Niágara no Canadá, o Alentejo português foi assim eleito como destino a não perder para os amantes de um vinho de ótima qualidade.

Para Francisco Mateus, Presidente da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana, “É um orgulho este reconhecimento de um meio tão reputado, que confirma que o Alentejo continua a encantar e a marcar quem por cá passa. Esta é mais uma importante menção para o turismo do nosso Alentejo e uma prova que estamos a fazer um excelente trabalho”.

Se já está a planear as férias de 2020, o Alentejo vai ser, sem dúvida, um destino a não perder.

TRINCA BOLOTAS: O porco agora também é branco

Fresco e volumoso, o novo Trinca Bolotas Branco é um excelente e versátil companheiro de mesa, à boa maneira alentejana. Para os fins de tarde de calor ou noites entre amigos com cheiro a verão, o novo branco da Herdade do Peso é a companhia ideal para aperitivos, mariscos, pratos de peixe, ou até carnes brancas e saladas frescas.

Feito a partir das castas Antão Vaz e Arinto, Trinca Bolotas Branco 2018 deve ser servido a uma temperatura entre 9° e 11°C.

A partir de agora, a história de Trinca Bolotas passa, assim, a fazer-se de Branco e Tinto, numa evolução natural depois do grande sucesso que a marca alcançou junto dos consumidores.

PVP (indicativo e não vinculativo): 5,99€

Passará o futuro do vinho pela ciência?

Como podemos aprimorar o nosso vinho através da ciência? Sabemos que a diminuição do uso de agroquímicos permite melhorar a sua qualidade, mas será esta compatível com o controlo das principais doenças da vinha? E conseguimos tornar a viticultura sustentável?

Estas são algumas das questões discutidas na Tertúlia deste ano, e que refletem o trabalho produzido com o intuito de melhorar o processo de fabrico e qualidade do vinho. Vão ser postas à prova as soluções científicas, com a realização de uma prova de vinhos.

O evento conta com a participação de representantes da Herdade Esporão, que irão falar sobre a Quinta dos Murças – uma vinha no Douro do Esporão com práticas de produção biológica e proteção integrada que promovem o equilíbrio do ecossistema, onde o resultado da investigação desenvolvida pelo BioISI tem vindo a ser implementada.

A prova de vinhos biológicos da Quinta dos Murças vai acontecer no Bar do Edifício C6 e a organização convida todos a saborear as descobertas apresentadas.

 

Aqui não precisa de saca-rolhas. Onde beber vinho a copo em Lisboa e no Porto

 

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By The Wine

Rua das Flores, 41-43, Chiado. 21 342 0319

O teto arqueado coberto por três milhares de garrafas vazias fala por si e convida a entrar. As fotografias de outros tempos e as publicidades antigas ajudam a ficar. Já passou mais de um ano desde que o By The Wine abriu as portas, à rua das Flores, mas nem por isso perdeu o fator “uau”. Lá dentro continuam a chegar às mesas — ou aos barris de vinhos já vazios — tábuas de queijos e enchidos que fazem companhia aos vinhos a copo (ou à garrafa) da produtora José Maria da Fonseca. Todo o portfólio da empresa está disponível, bem como pão caseiro algarvio, ostras do Sado, ceviche de salmão e sobremesas que, dizem os senhores da casa, vão bem com os habituais Moscatéis de Setúbal.

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Neste bar é possível provar a copo os muitos vinhos da José Maria da Fonseca. © By The Wine

The Wine Cellar

Rua de São Paulo, 49, Cais do Sodré. 21 347 0098

Pode muito bem ser considerada a adega do Cais do Sodré, com cerca de 250 referências de vinho exclusivamente português a caberem em apenas 30 metros quadrados. O pequeno mas grande espaço é do mesmo proprietário do Grapes & Bites, no Bairro Alto, e abriu a 17 de março deste ano. De lá para cá tem cativado os enófilos desta vida. Certamente que na escolha de entrar e sentar (quando há lugar) está a vasta lista de vinho a copo — dos 3,50€ aos 40€ –, que só não contempla propostas dos Açores. Mas nem todos os vinhos são vendidos neste formato, até porque do alto das prateleiras é possível avistar-se alguns exemplares de Pêra Manca e Barca Velha, dois dos vinhos mais caros do país. E onde se bebe também se come, com os habituais queijos e enchidos a ocuparem a mesas, a par e passo com refeições menos ligeiras.

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Abriu em março para dotar o Cais do Sodré de uma garrafeira imperdível. © The Wine Cellar

Lisbon Winery

Rua da Barroca, 13, Bairro Alto. 21 826 0132

Estávamos em dezembro de 2015 quando a Lisbon Winery abriu as portas no coração do Bairro Alto. O objetivo? Dar a conhecer aos transeuntes, portugueses ou turistas, o potencial vinícola do país de Camões num ambiente cuidado, com direito a uma cisterna do século XVI e música ambiente em decibéis comedidos. Na carta de vinhos (mais de 200 referências, a começar nos 4€) estão propostas de pequenos produtores, escolhidas a dedo para chegarem ao copo de pé alto e boca larga. O Lisbon Winery não é (e não quer ser) um restaurante convencional de faca e garfo, pelo que na carta não vai encontrar 20 pratos diferentes, apenas queijos e enchidos a fazerem jus à arte de petiscar.

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O Lisbon Winery quer dar de beber vinho português a quem visita o Bairro Alto. © Lisbon Winery

Chafariz do Vinho

Rua da Mãe de Água, Praça da Alegria. 21 342 2079

Quem desce do Príncipe Real para a Praça da Alegria dá de caras com o Chafariz do Vinho, tido como o primeiro bar de vinhos da capital. Pode ter sido um espaço em tempos dedicado à água, mas hoje é o vinho que o faz pulsar, com uma carta composta por centenas de néctares selecionados pelo jornalista e escritor João Paulo Martins, que há muito nos habituou ao guia anual “Vinhos de Portugal”. O vinho a copo começa nos 2€ e não se limita às fronteiras de Portugal — há propostas francesas, alemãs, australianas, italianas, argentinas e até italianas –, sem esquecer verdadeiras raridades que têm sabido resistir ao tempo.

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É tido como o primeiro “wine bar” da capital. Abriu em 1998 e o sucesso dura até hoje. (Fotografia retirada do Facebook)

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Capela Incomum

Travessa do Carregal, 77, 79 e 81, Cedofeita. 22 201 1849

De um antigo local de culto abandonado nasceu um wine barverdadeiramente incomum. Nesta capela, situada na Baixa do Porto, não é preciso benzer-se à entrada ou rezar de joelhos no chão e dedos entrelaçados. A ideia é antes levar à boca um trago de vinho, seja ele tinto, branco, verde, rosé, espumante ou licoroso, na companhia dos vitrais que decoram o teto e do altar em madeira com relevos de cenas religiosas. O espaço foi inaugurado em fevereiro para converter quem lá entra ao culto do vinho, pelo que na carta estão dezenas de referências de cunho nacional, com copos de vinho a partir dos 3€, e morcelas e chouriços que assam na mesa, à frente dos clientes. E porque ali comete-se o pecado da gula, a proprietária teve o cuidado de enviar uma carta ao Bispo do Porto, na altura ainda D. Manuel Clemente, que em resposta abençoou a ideia. Ámen.

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Este “wine bar” foi abençoado pelo bispo do Porto, então D. Manuel Clemente. © Diogo Oliveira / Observador

Candelabro

Rua da Conceição, 3, Baixa.

Onde há livros também há vinhos. E talvez o Candelabro seja um dos exemplos máximos de um casamento feliz entre letras e castas. A antiga livraria, que funcionou desde 1952 a 2008, cedeu lugar a wine bar, um dos primeiros a servir vinho a copo na Invicta. Quase dez anos depois, o café continua a fazê-lo dentro e fora de portas, por estar virado para uma pequena e sossegada praça e ser pequeno para as muitas pessoas que aparecem. A carta de vinhos com cerca de 30 referências — com o vinho a copo a variar entre os 2€ e os 4€ — é acompanhada por um constante vaivém de livros que tanto podem ser consultados no local como adquiridos e levados para casa. Às muitas capas e páginas acrescentam-se os discos de vinis, os posters (desde a tabela periódica às imagens alusivas ao cinema dos anos 1950), as fotografias e os mapas, também eles para venda. No ambiente intimista, com a luz propositadamente a meio gás, podem ainda provar-se húmus, salada de polvo e bruschettas.

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Aqui, livros e vinhos contam uma mesma história. © Café Candelabro

Churchill’s

Rua da Fonte Nova, Vila Nova de Gaia. 22 370 3641

É um jardim e uma esplanada que servem de complemento às caves Churchill’s, em Vila Nova de Gaia. O espaço agradável — onde até Churchill ia gostar de beber vinho do Porto — só existe desde 2014, altura em que a produtora resgatou-o de uma finalidade menos apetecida (era, até então, um terreno quase abandonado, destinado a criação de patos). Desde o início de verão que a zona sossegada e com vista desafogada sobre o rio cedeu espaço e encanto para a criação do Bar Douro, onde é possível provar mais do que uma referência de vinho do Porto e do Douro da companhia britânica e ainda meter o dedo em propostas de finger food — desde pataniscas a queijos e enchidos –, conceito gastronómico em vigor até ao final do mês de agosto.

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O Bar Douro só abriu este verão, para felicidade dos portuenses e não só. © Sara Otto Coelho / Observador

Aduela

Rua das Oliveiras, 36, Baixa. 22 208 43 98

Em tempos foi um armazém de máquinas de costura, hoje um bar assumidamente procurado para um copo de vinho ao fim da tarde. O Aduela prolonga-se porta fora, com uma pequena esplanada virada para o Teatro Carlos Alberto, e promete um trio maravilha: vinho e petiscos (conservas incluídas) sobre a mesa e música do mundo no ar. A isso juntam-se o encanto das portadas de madeira, colunas em pedra e mobiliário vintage que ajudam ao ambiente retro do Aduela, à semelhança do que acontece em alguns espaços no centro histórico do Porto.

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No Aduela há vinho a copo e músicas do mundo. © Aduela

Quanto mais velho melhor? Olhe que não. 10 mitos sobre o vinho

Cerca de 40 minutos separam Lisboa de Torres Vedras, onde está sediada a Comissão Vitivinícola de Lisboa (CVR Lisboa), um intervalo de tempo significativamente mais curto do que aquele que separa a verdade do mito — sabe-se lá há quantos anos se crê que quanto mais velho for um vinho, melhor. Ou que o vinho verde é feito da vindima de uvas que ainda não estão maduras.

A pensar em desfazer ideias falsas, que foram ganhando uma espécie de legitimação com a sua repetição e com o passar do tempo, o Observador falou com Vasco D’Avillez, presidente da CVR Lisboa, para apurar a verdade em nome dos enófilos: porque há brancos capazes de envelhecer bem e porque o vinho tinto até faz bem à saúde, se bebido com moderação.

Eis os 10 mitos a que chegámos:

Quanto mais velho for o vinho, melhor

“Não é bem assim. Só vale a pena envelhecer alguns vinhos”, começa por dizer o presidente da CVR Lisboa, admitindo que embora haja vinhos que façam jus a esse ditado — quem nunca comentou um solene “quanto mais velho, melhor”? –, para um vinho ser bom não tem de ter necessariamente muita idade. Vasco D’Avillez atribui a existência do mito à história vitivinícola ao explicar que, até à década de 1950, a falta de tratamento dos néctares fazia com que os vinhos fossem bebidos mais tarde, depois de o tempo fazer uma espécie de curadoria (nos vinhos de melhor qualidade o envelhecimento corrige muitas coisas). Com o avançar do tempo, conta o homem que está no universo vinícola há mais de quatro décadas, a tecnologia permitiu alterar não só a qualidade dos vinhos mas também o hábito de quem os prefere: “hoje em dia apanham-se as uvas em setembro e outubro. O vinho é feito até dezembro e em março já está nas lojas. Toda a gente os quer porque são novos.”

Certo que a maior parte dos vinhos é feita para ser consumida num curto espaço de tempo, e há motivos para isso. Um deles é o facto de as pessoas não terem onde guardar o vinho para envelhecer. “Hoje em dia vivemos todos num segundo esquerdo, não temos onde guardar um vinho, só se o pusermos debaixo da cama. Ninguém tem caves com temperatura mais baixa”, comenta o presidente. “A outra razão é que a maior parte das pessoas não quer investir muito em vinho para beber daqui a 15 anos.”Apesar disso, Vasco D’Avillez destaca alguns tipos de vinho do Porto, do LBV ao Vintage, com os quais devemos “perder tempo”, ao permitir que envelheçam no conforto da pipa ou na praticidade da garrafa.

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Vasco D’Avillez trabalha no setor dos vinhos há mais de 40 anos. © HUGO AMARAL/OBSERVADOR

Um Reserva é sempre melhor do que um vinho normal

Alguém terá tido, um dia, a brilhante ideia de pôr de parte um pouco do vinho que fez e que lhe soube bem no palato — um vinho próprio reservado ao consumo da casa. De uma realidade semelhante terá nascido o conceito Reserva, explica D’Avillez. Atualmente, todas as CVR do país têm uma câmara de provadores, composta por pessoas de olfato e gosto afinado, às quais compete a responsabilidade de determinar quais os vinhos regionais e os Reserva. Mas, às vezes, a diferença não é assim tanta. “Para um vinho ser considerado Reserva [no caso da CVR Lisboa] tem de ter pelo menos mais um ponto. Isto é, para ser regional tem de ter 12 pontos em 20, logo um Reserva terá de ter pelo menos 13”, explica o presidente, salientando ainda que é o próprio produtor que pede para que um vinho seja considerado enquanto Reserva.

O vinho branco não envelhece tão bem como o tinto

“Quando comecei a trabalhar em 1970 na José Maria da Fonseca, que era uma das cinco melhores e mais conceituadas firmas de vinho em Portugal, um dos vinhos que tinha imenso sucesso era um Camarate branco velho [da Quinta de Camarate] — tinha para aí uns dez anos”, recorda D’Avillez. O presidente opta por falar em tendências e pôr de lado o debate sobre a qualidade dos brancos em detrimento dos tintos, explicando que as pessoas, no geral, tomaram gosto ao vinho brancojovem. Hoje em dia assiste-se à produção de vinhos de tom de ouro mais envelhecidos, embora em pouca quantidade. São poucos os vinhos brancos que conseguem envelhecer bem — até porque não são feitos para isso –, mas há castas bem-sucedidas nessa missão, como o Encruzado, no Dão, e a Vital, mais predominante na região vitivinícola de Lisboa e na Península de Setúbal.

O vinho rosé é uma mistura de vinho branco com tinto

Não há cá misturas e, quando a fazer um rosé, o tinto é rei. Isto porque é a película da uva que dá cor ao mosto e, em última análise, ao vinho — as uvas brancas não têm pigmento de cor, mas o mesmo não se pode dizer das tintas. É quase uma regra de três simples: quanto mais tempo o mosto estiver em contacto com a película das uvas tintas, mais cor terá o vinho. “O rosé é um vinho cujo mosto tem menos contacto com as películas das uvas tintas”, explica D’Avillez. “Esse tempo é uma decisão do enólogo, consoante ele queira vinhos com mais ou menos cor”, continua, explicando que atualmente estão na moda os rosé mais claros, que na gíria do vinho são apelidados “olho de perdiz”.

Mas há mais a dizer: as uvas tintas, de tão versáteis que são, conseguem dar menos ou mais cor consoante as castas — as castas tintureiras, que podem ser representadas pela Alicante Bouschet e pelo Souzão, “são capazes de deixar os dentes encarnados durante uma tarde inteira”, brinca o presidente, ao mesmo tempo que sorri e aponta para a boca. A título de exemplo há ainda vinhos brancos feitos a partir de uvas tintas, tal como acontece com a maior parte do champanhe da região francesa Champagne. Em Portugal o exemplo remete para a região da Bairrada, com as Caves Aliança a produzir espumantes com uma formulação que quase parece mágica.

O vinho verde é feito a partir de uvas verdes (e não maduras)

Não, o vinho verde não é feito a partir de uvas verdes, ao contrário do que o nome leva a crer. Sobre isso, já antes o presidente da CVR dos Vinhos Verdes, Manuel Pinheiro, explicou ao Observador que a vindima acontece no momento de perfeita maturação da uva. “A cor verde é sobretudo justificada pela paisagem do Minho [a Região Demarcada dos Vinhos Verdes estende-se pela zona tradicionalmente conhecida como Entre-Douro-e-Minho]. Toda a região é verde por causa da enorme quantidade de humidade”, acrescenta D’Avillez. Mais, existem vinhos verdes brancos, tintos e rosados, tal como espumante de vinho verde, aguardente bagaceira e aguardente vínica.

O vinho branco só pode ser servido com peixe e o tinto com carne

Nem tudo é preto (ou tinto) no branco. Acontece que existem vinhos tintos mais leves que, por exemplo, fazem boa companhia a um linguado grelhado, tal como existem brancos mais pesados capazes de um casamento feliz com diferentes tipos de carne. Os últimos são chamados brancos de inverno e, por norma, estagiam em madeira e têm mais corpo, garante D’Avillez. E se há brancos para carne, também há tintos para peixe, como o Pinot Noir, um vinho menos encorpado e com menos cor — a casta equivalente portuguesa é a trincadeira, embora seja raro os produtores portugueses dedicarem-se a vinhos varietais.

O vinho faz mal à saúde

Já diziam as mães desta vida que comer de tudo um pouco faz bem (além de ser a desculpa ideal para, volta e meia, cometer pecados capitais como devorar uma bola de Berlim em pleno areal algarvio). Serve isto para explicar que o truque está na moderação. O mesmo acontece quando se fala em vinhos: “Se bebido com moderação, o vinho tem benefícios para a saúde. A quantidade é, de facto, muito pequena”, diz Vasco D’Avillez, referindo-se a um copo de vinho tinto por dia (há quem refira dois copos por dia).

O tema não é novo e já antes o tentámos explicar no Observador com a ajuda de Conceição Calhau, professora de Bioquímica e Toxicologia Alimentar na Universidade do Porto e investigadora do CINTESIS. Foi ela quem à data argumentou que o facto de o vinho proveniente de castas tintas ser rico em polifenóis faz com que a bebida tenha efeitos antioxidantes e antiflamatórios, além de permitir a diminuição de células tumorais. A isso pode-se acrescentar, entre outras vantagens, a ideia de que a bebida preferida de Baco possibilita alterações microbióticas, ou seja, estimula o aumento de bactérias boas nos intestinos, órgão onde se encontra a segunda maior concentração de neurónios. Claro que nem tudo é bom, com o álcool a ter sempre peso na saúde de uma pessoa, além de que o vinho tinto pode provocar, em alguns casos, dor de cabeça ao fim de dois copos — o porquê não é de todo consensual.

Vinhos biológicos são melhores do que os outros

A questão é delicada e D’Avillez responde assim: “Os vinhos biológicos têm uma forma de trabalhar diferente, sem uso de pesticidas. Isso tudo é ótimo: tanto a terra como nós agradecemos essa atitude. No entanto, a maior parte das vezes isto só pode ser feito em pequena escala — é preciso haver muito controlo porque as doenças das vinhas existem.”

Em Lisboa não há vindimas

Em causa não estão as Denominações de Origem da Região Vitivinícola de Lisboa, que compreendem áreas como Carcavelos e Colares, mas a existência de vinhas em pleno centro urbano da capital. E há duas a registar: uma na Ajuda, que pertence ao Instituto Superior de Agronomia, e outra junto à Rotunda do Relógio, a caminho do aeroporto. A última consiste num projeto da Câmara Municipal de Lisboa em parceria com a Casa Santos Lima e pretende ter uma função didática, isto é, mostrar como o vinho é produzido. O novo parque vinícola vai abrir as portas à população já em setembro, o mês que a tradição há muito associa às vindimas. “A câmara tem o desejo de constituir corredores verdes em Lisboa”, acrescenta o presidente da CVR de Lisboa, fazendo referências aos terrenos da CM que podem ser reabilitados, muito à imagem e semelhança das hortas urbanas. “Isto é útil porque ajuda ao pulmão de Lisboa.”

Na hora de escolher, quem tem razão é o crítico

É certo que há quem ganhe a vida a pontuar vinhos ou a harmonizá-los com determinados pratos. Um trabalho louvável e, para uns, invejável. Mas no final — como quem diz no momento em que o vinho chega ao copo –, o que interessa é o gosto de quem prova ou bebe um néctar. É como a velha máxima, por vezes discutível, de que o cliente tem sempre razão: neste caso, um bom vinho é aquele que o consumidor quiser e não necessariamente o que é escolhido pelo crítico ou escanção.

Instituto da Vinha e do Vinho estima queda da produção de vinho em 20%

O Instituto da Vinha e do Vinho (IVV) estima, devido ao clima desfavorável, uma queda de 20% na produção da campanha vitivinícola que terminou em julho, face à anterior, para um volume de 5,6 milhões de hectolitros.

Em comunicado, o instituto explica que o clima foi a “causa principal” desta quebra, em particular no início do ciclo vegetativo da vinha, e que o Algarve foi a única região a manter a produção. Lisboa, Trás-os-Montes, Douro e Açores foram as regiões mais afetadas com uma quebra de produção superior a 25%.

“Se, por um lado, a meteorologia condicionou a produção de forma negativa, por outro está a favorecer a maturação das uvas”, refere o IVV naquele comunicado, acrescentando esperar uma “boa” qualidade dos vinhos na colheita deste ano, apesar da expectativa de quebra nos valores da produção.

As previsões do IVV, de uma redução de 20% na produção deste campanha, revelam uma quebra de 10% da produção quando comparada com a média das cinco últimas campanhas.

A campanha decorre desde o dia 01 de agosto de cada ano até 31 de Julho do ano seguinte.

Alentejo coloca no mercado 55 milhões de litros de vinho no 1.º semestre do ano

Quase 55 milhões de litros de vinho foram colocados no mercado, nos primeiros seis meses deste ano, com o “selo” da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA), mais 1,2% do que em igual período de 2015.

Segundo dados divulgados esta quarta-feira pela CVRA, com sede em Évora, desde o início do ano e até 30 de junho, o organismo certificou 54.923.563 de litros de vinho, produzidos pelos 204 vitivinicultores controlados.

A CVRA adianta que, no primeiro semestre do ano, fez análises de laboratório e exame sensorial a 2.742 lotes de vinho e apreciou 3.519 rotulagens, com o objetivo de garantir a origem e confirmar a qualidade dos néctares.

No balanço do processo, acrescenta o organismo, resultou a reprovação de 2,8% dos lotes avaliados, que não podem ser vendidos com o selo de garantia atribuído pela Comissão Vitivinícola Regional Alentejana.

Realçando que o mercado nacional absorve cerca de metade dos vinhos por si certificados, a CVRA assinala que a exportação “é determinante” e que o número de exportadores aumentou para 140 nos primeiros seis meses deste ano.

“Para a América do Norte, houve um aumento de 10 exportadores, mas a redução na exportação para Angola fez diminuir em sete o número de exportadores para o continente africano. Já para a China, houve mais seis exportadores”, indica.

O organismo explica que a descida das exportações para fora da União Europeia (UE) está relacionada com o facto de, no período de janeiro a junho de 2015, grande parte das vendas ter estado alicerçada no desempenho de Angola, que representou 28% do total, acompanhada pelo Brasil, que pesou 25% do total.

Este ano, segundo a CVRA, estes dois mercados desceram 63% e 27%, respetivamente, empurrando as exportações para fora da UE para uma baixa de 14%, representando menos 745 mil litros face a igual período de 2015.

Em sentido contrário, estão os países asiáticos, nomeadamente China e Japão, com aumentos de 82% e 440%, respetivamente, assim como a Rússia, que também aumentou em cerca de 100% face ao ano passado.

Estes mercados foram os que tiveram maiores crescimentos e, em conjunto, representaram 25 por cento das exportações para fora da UE, mas, nos primeiros seis meses do ano, os EUA e o Brasil assumiram-se como os principais destinos fora da UE, ainda que com variações negativas face a igual período de 2015.

O Alentejo é a região líder no mercado nacional, quer na quota de mercado em volume (47%), quer em valor (46%), de acordo com a comissão vitivinícola, que cita os dados Nielsen na categoria de vinhos engarrafados de qualidade com classificação DOC (Denominação de Origem Controlada) e IG (Indicação Geográfica).

Os vinhos do Alentejo juntam 1.900 produtores de uvas e 235 empresas que comercializam vinhos com a garantia de origem e qualidade atestada pela CVRA.

A área de vinha aprovada para produção de vinhos DOC Alentejo e Regional Alentejano totaliza 22.315 hectares. A área de vinhos DOC Alentejo é de 15.445 hectares.

De Évora para o mundo: esta enoteca vai encher-lhe o copo… e o prato

À sombra de uma videira brava é servido um copo de espumante colheita de 2013 — o tom rosé claro dá-nos as boas vindas ao enoturismo da Cartuxa, porta-estandarte da produção de vinho da Fundação Eugénio de Almeida. O habitual calor abrasador do Alentejo tirou folga e ajuda-nos a ir em frente com o roteiro proposto: depois da visita à adega, a ideia é sentar à mesa na nova Enoteca da marca, no centro histórico de Évora, cidade património da Humanidade há mais de 30 anos.

Vizinho do templo romano e da Sé Catedral, o espaço que antes era explorado pelo Convento do Espinheiro sofreu obras para agora abrir as portas onde antes estava uma janela. Mas não é só de disposição que se fala: na Enoteca da Cartuxa, oficialmente inaugurada esta segunda-feira, a gastronomia alentejana é reinventada e trazida à mesa em bandejas improvisadas, para ser partilhada.

Os petiscos à base dos produtos da terra — desde tábuas de paio do lombo a bochechas de porco, pimentão da horta, cogumelos e farofa — são os príncipes da casa, embora também haja pratos de sustento, de fazer esticar o estômago (tal como a saborosa açorda de camarão, acompanhada de tomate e coentros). E quando chega a hora da sobremesa, uma coisa fica clara: os doces têm menos açúcar do que o habitual. Não, não é erro de medição, antes filosofia da casa que, por enquanto, tem a consultoria do conhecido chef Vítor Sobral.

Mas se os petiscos são os príncipes, por onde andam os reis? Nos copos da marca austríaca Riedel, claro. Por aqui é possível servir oito vinhos a copo, quatro tintos e quatro brancos (Pêra Manca branco incluído, sendo que o tinto apenas é vendido à garrafa). Aos copos de marca juntam-se os talheres da Cutipol, louças da Vista Alegre que pretendem imitar as porcelanas de antigas tabernas e os ténis encarnados All Star nos pés dos empregados.

À zona de refeição somam-se outros espaços, como a loja cujas prateleiras fazem uma ode aos produtos do Alentejo, não estivessem elas repletas de queijos, mel, enchidos, bolachas, chocolates com recheio de vinho, amêndoas ou azeites de produção própria. Logo adiante está uma área de exposição da marca, com os diferentes vinhos da Fundação Eugénio Almeida a piscar os olhos a qualquer enófilo que por ali passe, e ainda uma sala semi-exterior para grupos.

A ideia é apelar a dois públicos diferentes, isto é, convidar os eborenses a saborear o que de melhor a fundação tem e dar a conhecer a comida e os vinhos alentejanos aos turistas que se aventurarem por estas bandas.

A Enoteca da Cartuxa está aberta de segunda a sábado, das 12h00 às 22h00. Rua Vasco da Gama, 15, Évora. Tel.: 266 748 348

O vinho que os monges abençoaram

Mas antes de encher o estômago, importa conhecer os vinhos sob a chancela da fundação. A Adega da Cartuxa, na Quinta de Valbom, fica a poucos minutos de distância da cidade eborense. Está inserida num edifício datado do século XVI que em tempos serviu como casa de repouso dos Jesuítas, expulsos em 1759. Mais tarde foi parar às mãos do Estado, que aí apostou na produção de vinho, e só depois foi adquirida pela família Eugénio de Almeida.

Serve a curta lição de história para contar que, onde antes estava o refeitório dos Jesuítas, encontram-se agora 28 tonéis de carvalho francês, onde estagiam os melhores vinhos da marca — sim, também ali descansa e evolui o tão cobiçado Pêra Manca, ainda que o estágio seja feito por castas e não enquanto produto final. Entre paredes grossas e tetos abobadados — sempre ao som de orações gravadas previamente — dá-se também de caras com depósitos de vinho com capacidade para 32 mil litros. Estão inativos desde a década de 1990, é certo, mas não deixam de encher o olho e de despertar a curiosidade de quem por ali vagueia.

A sala das barricas é, para muitos, os ex-líbris deste enoturismo. Pé direito baixo, tetos igualmente abobadados e 44 barricas novas fazem as vezes de decoração numa divisão que convida a provar as seis marcas de vinhos que a fundação produz. E bem no fundo da sala está uma pequena adega, guardada por grades de metal escuro e por uma fechadura que nem quem faz as visitas guiadas diz ter a chave. O motivo de querer “arrombar” a porta provavelmente centenária prende-se com os Pêra Manca dos anos 1950 que ali repousam, à espera de um certeiro saca-rolhas.

A propriedade descrita é uma das cerca de 10 que fazem parte da Fundação Eugénio de Almeida e que, juntas, totalizam mais de 6 mil hectares de produção — sensivelmente 500 deles destinam-se às vinhas. E entre tanta terra fértil está o Mosteiro da Cartuxa, que inspirou o nome da adega devido à sua proximidade e onde os Monges Cartuxos levam uma vida solitária de oração desde o século XVI.

Provas de vinho a partir dos 5 euros. Quinta de Valbom, Estrada da Soeira, Évora.

Palato feminino premiado: duas engenheiras e uma enóloga criam o Madeira Vintners

Duas engenheiras agrónomas e uma enóloga e criaram o Madeira Vintners, o único vinho da região produzido exclusivamente por mulheres e já premiado a nível internacional.

A somar três anos, este vinho da Cooperativa Agrícola do Funchal (CAF) foi distinguido do Concurso Internacional “Vino y Mujer 2016”, que se realizou a 30 de Março em Madrid, Espanha: na categoria de vinhos generosos ganhou o Prémio Diamante e na classe de meio doce recebeu uma menção honrosa.

05-556t6618As engenheiras agrónomas Micaela Martins e Cristina Nóbrega e a enóloga Lisandra Gonçalves, com idades entre 25 e 27 anos, são as obreiras da marca, que assinala os 65 anos da CAF e teve já 10.000 garradas a entrar no mercado, repartidas, em igual número, por vinho meio seco e meio doce.

“O Madeira Vintners tinha que apostar pela diferença e pela qualidade e uma das hipóteses que nós pensámos foi precisamente criar um vinho feito apenas por mulheres. Não há interferência de homens”, diz à agência Lusa o presidente da cooperativa, Coito Pita.

Essa exclusividade, explica o responsável, reflecte-se no processo de produção: são as três mulheres que fazem a ligação entre a marca e os agricultores, dando-lhes sugestões quanto ao tratamento das uvas, quando devem ser apanhadas e que grau devem ter, entre outras questões.

São também elas que coordenam a apanha e o transporte da uva; a escolha da uva, que é feita manualmente, cacho a cacho; o envio para as cubas e barricas e o tratamento para vinho Madeira. “É manifestamente uma equipa exclusivamente feminina que faz todo esse trabalho”, acentua Coito Pita.

“Este vinho estagiou três anos e é de castas tinta negra e complexa, maioritariamente tinta negra e 20% de complexa”, comenta a engenheira Micaela Martins, formada no Instituto Politécnico de Viana do Castelo.

A enóloga Lisandra Gonçalves, com experiência na Nova Zelândia e em França, acrescenta que o vinho “esteve a fermentar em cubas e em barricas e depois, a estufar, foi então feita a junção e obteve-se este vinho”. O objectivo, porém, é fazer vinhos de 5 e 10 anos e, um dia, um vintage.

A CAF compra directamente a uva aos agricultores, garantindo a absorção, a 40 viticultores, de 100 das cerca de quatro mil toneladas de uva produzidas anualmente na região.

A cooperativa foi fundada por agricultores em 1951 e, com várias delegações no arquipélago da Madeira, comercializa todo o tipo de alfaias, adubos e sementes.

Aguardente DOC Lourinhã: a idade fica-lhe bem

João Pedro Catela

Com 62 anos de idade, João Pedro Catela esteve desde sempre ligado profissionalmente à área comercial, nomeadamente ao nível das máquinas agrícolas. Mas a ligação ao setor vitivinícola esteve sempre presente na sua vida não só por toda a envolvência que o rodeou mas também por vocação e paixão. Ao longo desta conversa, João Pedro Catela, quase como em tom de desabafo, não foi incansável ao afirmar: “sou apaixonado por isto”. E não esconde. Não esconde o entusiasmo quando fala da Adega Cooperativa da Lourinhã (ACL), na qual assume o lugar de Presidente da Direção e não esconde a sua determinação quando nos diz que, apesar de não adiantar uma possível recandidatura, não irá deixar que “deitem por terra” todo o trabalho feito até ao momento. E já muito foi feito pela sustentabilidade deste espaço e pela qualidade de um produto que tem levado o nome da Lourinhã bem longe.

Hoje com 98 mil litros de aguardente em stock, a envelhecer, a adega deve aos cooperantes (cerca de 20 que vendem as suas uvas à adega a um valor de 30 cêntimos o quilo) aproximadamente 70 mil euros, que é o valor das uvas que comprou este ano, e não tem um único empréstimo bancário. “Há alguma adega cooperativa atualmente com estas condições?”, questionou, orgulhoso, João Pedro Catela. Além disso, assumindo a linha da frente dos destinos da adega, o responsável levantou outras questões, nomeadamente ao nível da distribuição. Qual seria a melhor solução para chegar ao maior número possível de consumidores? A resposta era apostar nas grandes superfícies. Hoje a aguardente DOC Lourinhã está disponível em quatro principais superfícies comerciais e a verdade é que “de norte, ao centro e ao sul do país, a ‘nossa’ aguardente está em todo o lado”, garantiu João Pedro Catela.

Perante todas estas adversidades, há quem hoje diga que o sucesso até agora conquistado pela adega se deve à resiliência e determinação da sua equipa e dos seus associados. Recuando no tempo, criada em 1957, a Adega estava inicialmente dedicada aos vinhos, tendo sido a principal impulsionadora do vinho leve ou vinho de “baixo grau” mas, perante uma concorrência mais apertada, era importante redirecionar estratégias. Foi então que surgiu a aposta na aguardente, um produto diferenciador ao qual valia a pena dedicar total atenção. Desde então, a adega tem desempenhado um papel dinamizador e ativo na afirmação e promoção da aguardente e, apesar de existirem outros produtores a fazer o engarrafamento com as suas próprias marcas mas que chegam ao mercado sem o selo DOC, são apenas duas as entidades a certificarem este produto na Comissão Vitivinícola da Região de Lisboa, nomeadamente a Quinta do Rol e a Adega Cooperativa da Lourinhã.

Um trabalho de paciência

Saber esperar. “Quem quer lucro imediato, enganou-se no negócio”, dizem alguns. Para muitos este é o segredo da aguardente, um produto que exige um elevado investimento e muita paciência uma vez que, em média, um produtor precisa de dez litros de vinho para obter um litro de aguardente. Mas João Pedro Catela vai mais longe quando se fala em segredos de negócio. “O segredo é a localização das vinhas, o clima e a proximidade ao mar.

Este é um negócio moroso mas também tem as suas vantagens. Se fosse uma peça de roupa, passava de moda. Se fosse um produto alimentar, tem um prazo de validade. A aguardente, pelo contrário, quanto mais velha melhor”, descreveu o responsável de um espaço que só comercializa aguardentes com mais de cinco anos de envelhecimento, produzida sempre com as castas recomendadas ou autorizadas.

E a qualidade deste produto tem merecido o reconhecimento do consumidor que se traduz num aumento gradual das vendas nos últimos anos. “Comparado com o mesmo período do ano passado, de janeiro a novembro aumentamos as vendas em 53%. Isto dá-me um gozo tremendo”, partilhou o Presidente da ACL que, questionado sobre a necessidade de convencer um maior número de vitivinicultores a desviarem uvas para a aguardente, foi perentório na sua resposta. “O número que temos atualmente é satisfatório porque vendemos cerca de cinco mil litros de aguardente por ano, ou seja, aproximadamente dez mil garrafas, e é mais ou menos aquilo que produzimos por ano. Estamos sempre a repor”, esclareceu.

Com um peso das exportações nas vendas de somente 5% (com especial enfoque para o mercado macaense), a aguardente encontra nos portugueses e em Portugal o seu mercado de conforto. Os portugueses são, sem dúvida, os principais consumidores e para isto muito se deve o trabalho afincado que esta entidade tem realizado. Como diz habitualmente nas redes sociais: “em vez de comprar um cognac ou um armagnac, pense duas vezes. Opte por um produto nacional, a ‘nossa’ aguardente DOC Lourinhã”.

Mas ainda assim João Pedro Catela acredita que ainda há muito “terreno para explorar” em Portugal. “As pessoas experimentam, gostam e comunicam aos amigos mas a verdade é que a maior parte delas não sabe que existe uma região demarcada de aguardente portuguesa. Tem que se dar mais a conhecer este produto e é o que a adega tem procurado fazer, dentro das suas possibilidades, e com a ajuda de parceiros importantes como a autarquia, a CVR de Lisboa e o Instituto da Vinha e do Vinho”, afirmou João Pedro Catela que não acredita que este seria o momento mais oportuno para a criação de uma Rota da Aguardente, como muito se tem falado nos últimos tempos. Se para muitos a criação de uma rota seria vital para a promoção da competitividade deste produto único em Portugal, para o Presidente da ACL “criar uma rota ainda não se justifica uma vez que estamos perante um mundo relativamente pequeno e muito específico”.

DOC Lourinhã

cvrpsFruto do empenho e da carolice de um grupo de pessoas e claro da qualidade deste produto, em 1992 foi publicado um decreto-lei que estabeleceu a “Região Demarcada de Aguardente Vínica de Qualidade com Denominação de Origem Controlada Lourinhã”. Mas o que significa, afinal, ser um produto de denominação de origem controlada? “Significa que as vinhas têm de estar localizadas dentro da região e todo o processo é feito cá, desde a vinificação, destilação, envelhecimento e engarrafamento. Além disso os vinhos têm de ser de cá”, explicou. Para a obtenção de um produto de extrema qualidade, as práticas culturais utilizadas são as tradicionais na região e as recomendadas pela CVRL. No campo da vinificação, os vinhos a destilar serão elaborados em adegas que estão inscritas na comissão vitivinícola regional, sendo que o seu teor alcoólico em volume natural não pode ser superior a 10%. A destilação do vinho pode ainda ser realizada com recurso ao sistema contínuo em coluna de cobre ou por sistema descontínuo em alambique de cobre. Por fim, o envelhecimento é feito na região, em barris de carvalho português e francês com capacidade máxima de 800 litros.

Criatividade dos produtores locais

Mas não foi só de aguardente que se falou. A qualidade intrínseca deste produto tem despertado a criatividade de produtores locais que, com esta bebida, fazem nascer ideias empreendedoras. Importa defender e promover um produto genuíno, único e tradicional e foi com essa consciência que nasceram, por exemplo, os já famigerados pastéis de aguardente, que misturam o aroma da bebida com o sabor da amêndoa, ou os bombons de chocolate também confecionados com base neste produto, aliado ao café, no caso de um deles. Mais recentemente surgiu ainda a tradicional “pera rocha bêbeda”, mas neste caso particular embebida em aguardente. É também assim, com ideias simples e inovadoras, que a aguardente DOC Lourinhã chega a outros paladares.

Inovação continua a ser o caminho para um negócio baseado num produto tão tradicional. Como tal, João Pedro Catela materializou, no início deste ano, uma ideia que há muito tinha em mente, fruto das suas viagens a Itália, à margem do seu anterior negócio. O vaporizador aguardente DOC Lourinhã tem despertado curiosidade, tal como foi possível verificar na mais recente presença da ACL na segunda edição do evento “Vinhos no Pátio”, que decorreu nos dias 28 e 29 de novembro, no Pátio da Galé, em Lisboa. O tradicional “cheirinho” adquiriu agora uma nova rotulagem. Para uso gastronómico, o vaporizador de aguardente da Lourinhã já está a ser comercializado e pode servir de aroma quer ao prato principal como à sobremesa. A Adega Cooperativa da Lourinhã mais uma vez surpreendeu e é assim que João Pedro Catela quer continuar a trabalhar.

Vaporizador de aguardente Doc Lourinhã
Vaporizador de aguardente Doc Lourinhã

Principais castas:

– Castas Recomendadas Brancas: Alicante, Alvadurão, Boal, Espinho, Marquinhas, Malvasia Rei (Seminário) e Tália;
– Casta Recomendada Tinta: Cabinda;
– Castas Autorizadas Brancas: Cercial, Fernão Pires, Rabo de Ovelha, Siria (Roupeiro), Seara Nova e Vital;
– Castas Autorizadas Tintas: Carignan, Periquita e Tinta Miuda.

O que importa saber acerca das visitas guiadas à Adega?

– Visitas às instalações;
– Prova de aguardente DOC Lourinhã XO (Extra Old);
– Oferta de uma aguardente DOC Lourinhã XO/40º garrafa 0,05Lto., caixa de madeira;
– As visitas guiadas são feitas preferencialmente durante a semana, no período da tarde e com marcação prévia;
– Custo por pessoa: cinco euros (IVA incluído);
– Horário de funcionamento: das 9h às 12h30 e das 14h às 18h.

Freguesias que constituem a Região Demarcada da Aguardente da Lourinhã:

Lourinhã: Lourinhã e Atalaia, Ribamar, Santa Bárbara, Vimeiro, Miragaia e Marteleira, Moita dos Ferreiros, Reguengo Grande, São Bartolomeu dos Galegos e Moledo;
Torres Vedras: Campelos;
Bombarral: Vale Côvo;
Peniche: Atouguia da Baleia e Serra d’El-Rei;
Óbidos: Olho Marinho.

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