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Violentos confrontos entre extrema-direita e refugiados na Alemanha

Os incidentes começaram cerca das 21:00 locais (20:00 em Lisboa) numa praça da cidade, quando cerca de 80 homens e mulheres, na maioria “do movimento de extrema-direita”, e duas dezenas de refugiados se confrontaram, primeiro verbalmente e, depois, fisicamente, segundo um comunicado da polícia local.

“Testemunhas relataram que foram atiradas garrafas” e que “viram ferimentos”, precisa o comunicado.

“Quinze a 20 candidatos a asilo, todos menores que chegaram à Alemanha desacompanhados”, começaram por lançar garrafas e pedras contra o grupo de simpatizantes da extrema-direita, disse o chefe da polícia local, Uwe Kilz.

Já na sexta-feira passada, segundo Kilz, o mesmo grupo de refugiados tinha lançado objetos contra apoiantes da extrema-direita.

O grupo atacado, no qual havia várias pessoas embriagadas, respondeu à agressão gritando “Bautzen pertence aos alemães” e lançando pedras e garrafas, prosseguiu o responsável.

Cerca de 100 agentes da polícia intervieram, utilizando gás lacrimogéneo e bastões, e os grupos dispersaram. Os refugiados regressaram ao centro de acolhimento, cuja segurança foi reforçada pela polícia, assim como noutros três locais de acolhimento na cidade.

Bautzen, uma pequena cidade de cerca de 40.000 habitantes a leste de Dresden, na antiga RDA (República Democrática Alemã), tem registado várias situações de violência contra refugiados.

As autoridades locais anunciaram recentemente a intenção de decretar o recolher obrigatório a partir das 19:00 para os cerca de 30 refugiados menores a residir na cidade e proibir o consumo de álcool nos centros de acolhimento.

Em fevereiro, imagens de dezenas de pessoas a assistirem entusiasmadas a um incêndio num centro de acolhimento de refugiados em Bautzen e a tentarem impedir a intervenção dos bombeiros chocaram a opinião pública alemã.

Em março, o presidente alemão, Joachim Gauck, que defende o acolhimento de refugiados e várias vezes apelou aos alemães para que mostrem generosidade no acolhimento, visitou Bautzen e foi recebido com insultos.

A Alemanha acolheu em 2015 mais de um milhão de refugiados e, no mesmo ano, registou, em todo o território, quase 1.000 ataques de natureza xenófoba.

Crise migratória é a ameaça mais séria que a UE já enfrentou

Embora a UE já tenha vivido outros momentos difíceis, nomeadamente a queda do Muro de Berlim ou a crise da dívida da Zona Euro, os políticos ouvidos pela AFP acreditam que o afluxo de refugiados e imigrantes está a criar divergências mais perigosas, que poderão mesmo levar ao fim do bloco.

A única esperança é que esta ameaça ao ideal europeu de solidariedade, nascido das cinzas do pós-guerra, mostre que, antes como hoje, a abordagem cada-um-por-si não funciona.

“Acredito mesmo que é a crise mais grave que a União Europeia enfrenta em muitos anos, provavelmente a mais grave desde o início do processo de integração europeia”, disse o ex-presidente da Comissão Europeia José Manuel Durão Barroso.

Barroso, que liderou a UE entre 2004 e 2014, alertou para os “velhos demónios da xenofobia e da intolerância” na Europa, afirmando que a crise migratória vai para além da economia.

“Tem uma natureza existencial porque é polarizadora”, disse o político português, numa entrevista telefónica desde a universidade norte-americana de Princeton, onde agora dá aulas.

Mais de 1,25 milhões de refugiados entraram na Europa desde o início de 2015, em fuga da guerra e da pobreza na Síria, no Iraque, no Afeganistão e de outros países no Médio Oriente e no Norte de África.

Trata-se da maior crise migratória que o continente enfrenta desde 1945, mas os políticos ouvidos pela AFO acreditam que o verdadeiro perigo reside nas divisões que está a provocar entre os 28 Estados-membros.

O ex-eurodeputado franco-alemão Daniel Cohn-Bendit teme que a Europa não consiga alcançar agora uma solução conjunta como a que foi encontrada recentemente para a crise da dívida da Zona Euro.

“Hoje temos a impressão de que existe uma insensibilidade incrível e que está cada um por si. Isto é muito perigoso para a ideia europeia”, disse Cohn-Bendit.

A chanceler alemã, Angela Merkel, que abriu as fronteiras da Alemanha a mais de um milhão de migrantes no ano passado, foi aplaudida por Durão Barroso, Cohn-Bendit e outros, por dar um exemplo a outros Europeus.

“Só Merkel tem estatura europeia. O resto são anões políticos”, disse Cohn-Bendit.

A recusa de alguns líderes europeus, nomeadamente o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, em cumprir a lei europeia no que diz respeito aos migrantes preocupa os observadores.

Para Alain Lamassoure, eurodeputado francês, esta recusa criou “a crise mais grave” que a UE já enfrentou.

O ex-primeiro-ministro Belga e líder do grupo Liberal no Parlamento Europeu, Guy Verhofstadt, alertou mesmo que esta crise pode “destruir o projeto europeu”.

O espaço Schengen, por exemplo, um pilar da unidade e da livre circulação na Europa, poderá colapsar, à medida que muitos dos 26 Estados-membros reintroduzem temporariamente as fronteias para impedir o afluxo de imigrantes.

Para Verhofstadt, assumidamente federalista, “a única saída é dar um salto em frente no sentido de uma maior integração europeia”.

Assim como o fundador da UE Jean Monnet escreveu nas suas memórias que “a Europa será forjada em crises”, os europeístas têm esperança que o bloco europeu seja mais resiliente do que por vezes se crê.

“No início as posições são por vezes muito distantes, mas com negociação e compromisso, no final haverá uma abordagem comum”, disse Durão Barroso.

Desde que adotaram, em setembro, um plano para recolocar 160 mil refugiados dos Estados-membros mais afetados, a Grécia e a Itália, os países da UE ainda só acolheram 600 pessoas.

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