“Não me foco nos obstáculos, mas sim em como os ultrapassar”

Para Sofia Arantes e Oliveira, Diretora Clínica da Kids and Teens, não existe nenhuma chave para o sucesso, o que acontece é que o caminho para o sucesso é mais simples se “fizermos tudo com muita dedicação”, salienta a nossa interlocutora em entrevista à Revista Pontos de Vista, onde ficámos a conhecer um pouco mais de uma Mulher que não se foca nos obstáculos, mas sim em como os ultrapassar.

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A Sofia Arantes e Oliveira tem um longo percurso profissional ligado à área da Medicina Dentária. Gostaríamos de conhecer um pouco melhor esta paixão. O que nos pode confidenciar?
A Medicina Dentária foi a minha primeira escolha ao sair do secundário. Nunca tive outra intenção, ao contrário de colegas que escolhiam o curso de medicina dentária por ter médias menos altas para depois transitar para medicina. Fiz a licenciatura no Instituto Superior de Ciências da Saúde – Sul, hoje chamado Egas Moniz.  Estive a trabalhar dois anos em Portugal, após acabar o curso, e rapidamente me apercebi de que gostava mesmo era de trabalhar com crianças. No segundo ano como médica dentista já só me dediquei a essa área. Depois mudei-me para São Francisco, onde comecei a fazer investigação, especificamente na School of Dentistry da UCSF (University of California San Francisco). Esse trabalho conduziu à minha tese de Doutoramento em Medicina Dentária Conservadora, que defendi na Universidade do Porto. Durante o tempo que passei na Califórnia, cerca de três anos, tive a oportunidade de ser orientada por grandes referências na área da medicina dentária, para além de ter tido a possibilidade de frequentar inúmeros cursos e formações em odontopediatria. Quando voltei para Portugal fui convidada para trabalhar na Faculdade de Medicina Dentaria da Universidade de Lisboa, onde continuei o meu percurso académico. Atualmente, passados 20 anos, sou Professora Associada nessa faculdade com muito orgulho por poder transmitir a minha paixão a pessoas mais jovens. Tem sido mesmo muito gratificante poder estar em contacto com jovens que nos desafiam e fazem melhorar sempre. Neste momento tenho alunos que foram meus doentes quando crianças. Para além disto, estive ligada durante dez anos à Ordem dos Médicos Dentistas, primeiro no Conselho Científico e no Centro de Formação Continua, e depois também no Conselho Diretivo, o que culminou com a presidência do congresso da Ordem em 2019, em Lisboa, uma experiência intensa e incrível que me marcou muito.  Olhando para trás pode dizer-se que o meu percurso tem sido bastante variado, embora sempre relacionado com a medicina dentária.

Atualmente é Diretora Clínica da Kids and Teens. Fundada em 2016, como surgiu esta marca na sua vida? O caso clínico de crianças foi sempre um campo que a cativou?
O trabalho com crianças é mesmo cativante. É possível fazer muito mais pela sua saúde do que trabalhando com o adulto. Eu sou completamente partidária da prevenção, até porque atualmente muitos dos tratamentos disponíveis ainda não conseguem restabelecer completamente os tecidos dentários. A prevenção é a nossa melhor arma; a única abordagem 100% eficaz em medicina dentária. E a prevenção mais eficaz é quando temos a oportunidade de trabalhar com as crianças, o mais pequenas possível. Poder transmitir logo aos pais todas as informações necessárias para o cuidado da saúde oral é indispensável. A literacia para a saúde oral ainda é muito deficiente e ainda há muito a fazer nesse campo. Por outro lado, é sempre muito mais difícil mudar hábitos quando eles já estão enraizados. Muitas vezes, na minha experiência clínica, mesmo com muitas indicações aos pais, só após as crianças terem autonomia suficiente é que podemos ver o resultado dos nossos esforços no ensino dos cuidados de saúde oral, porque são as crianças que os passam a praticar. A Kids and Teens, é um projeto da Arantes Saúde Lda, empresa que detenho com o meu marido. Lançámos a clínica no final de 2016. A clínica surgiu da necessidade que eu senti de ter perto outras especialidades para onde encaminhar os meus doentes. A cavidade oral não é um sistema isolado. Existe todo um organismo por detrás que tem de trabalhar bem para que a cavidade oral também seja saudável. Assim, especialidades como a terapia da fala e de motricidade orofacial, a otorrinolaringologia, o acompanhamento de aleitamento materno, a fisioterapia e osteopatia, a nutrição e a psicologia fazem todo o sentido num contexto de cuidados de saúde holístico, em que a medicina dentária é “apenas” uma peça numa abordagem mais ampla à saúde da criança. Depois surgiram outras especialidades que também complementavam as já referidas, como a pedopsiquiatria e neuropediatria, e até a pediatria geral. Neste momento colaboram com a Kids and Teens 19 profissionais de saúde em dez especialidades diferentes.

Certo é que, os desafios de uma consulta médica a uma criança são diferentes de uma consulta a um adulto. Nesta perspetiva, de que forma a Kids and Teens ultrapassa estes desafios e se destaca no mercado?
A consulta médica da criança é muito diferente da do adulto, em variadíssimos aspetos. Não chega embrulhar tudo em bonecada, e às vezes essa abordagem até é prejudicial. Uma criança não tem, naturalmente, a mesma capacidade do que um adulto para interpretar o que lhe é dito. Existe a necessidade de adequar o discurso à sua idade e até às suas experiências anteriores. Percebendo isso, temos também de perceber que não é infantilizando a fala ou o contacto com a criança que vamos ser bem-sucedidos. A criança tem de perceber que a consulta é para ela; os pais ou qualquer outro acompanhante estão lá exatamente para isso, para acompanhar e levá-la ao consultório. A sua presença permite também que tenhamos informação sobre a história clínica da criança, mas nada mais. Não permitimos que interfiram na nossa interação com a criança. Essa mensagem passa para os pais e para a própria criança que nos passa a levar a sério e a comportar-se de forma correta. Isto é muito mais simples de fazer a partir dos seis anos quando a criança já está no primeiro ciclo da escola e já percebe que há ambientes em que se tem de comportar de forma diferente. Entre os três e os seis anos o apoio dos pais é mais ou menos requisitado consoante a criança. Até aos três anos a consulta é feita maioritariamente através dos pais devido à maior dificuldade de interação. Mas mesmo nessas idades, às vezes surpreendemo-nos com crianças a colaborar no tratamento. A minha abordagem ao tratamento dentário é partilhada por todos os membros da equipa. Em outras especialidades, as coisas podem passar-se de outra forma uma vez que pode não ser tão necessária a colaboração da criança, mas em geral o importante é percebermos a criança e darmos-lhe a importância que ela tem. Sem nunca menosprezar os seus receios. Se houver comunicação, os tratamentos são sempre bem-sucedidos. Para casos mais complicados de dificuldade de comunicação por vezes é necessário recorrer à sedação consciente ou mesmo inconsciente e existem vários membros da nossa equipa dentária que tiveram o respetivo treino e o podem fazer.

A Kids and Teens conta com uma equipa multidisciplinar que equilibra juventude com experiências e prestígio científico – e que é dirigida pela Sofia Arantes e Oliveira. Como é, para si, ser líder desta organização? Como se define neste papel?
Tem sido uma experiência muito interessante. De tudo o que fiz até hoje, o mais desafiante continua a ser a gestão das pessoas, área em que já tomei muitas más decisões e cometi erros de julgamento. Digo isto sem o mínimo de reserva porque eventualmente consegui dar a volta e chegar ao caminho certo. Um desafio particularmente difícil é o “casting”. Encontrar uma pessoa que tenha formação suficiente é fácil, basta ver o currículo, mas o resto é sempre mais complicado. Como essa pessoa interage com o resto da equipa, se é capaz de trabalhar em equipa, e se se dedica de facto aos casos clínicos e à clínica. Sei por experiência própria que uma agenda só se constrói se estivermos presentes, mesmo que isso signifique que no princípio temos de ficar na clínica sem termos doentes. Mas o trabalho clínico não é só a consulta, existe “networking” que podemos fazer com os colegas, interação com o “staff”. Tudo ações que no futuro irão colher frutos quando for necessário marcar uma consulta ou encaminhar um doente. Não é tempo perdido. Cheguei a ter colegas que me disseram que não compensava vir à clínica só para atender um doente. Esses são aqueles que já não trabalham para nós. Os que se dedicaram e mantiveram firmes neste momento têm as agendas cheias. E são esses que de facto fazem a nossa clínica atualmente.

Podemos facilmente concluir, tendo em conta o seu percurso profissional, que é uma Mulher que assume a liderança de vários projetos e, por isso, é também um exemplo para tantas outras que ambicionam este caminho. Qual é que tem vindo a ser a sua «chave-mestra» para o sucesso alcançado?
Existe alguma chave?!? Já me podiam ter dito…
Seriamente, não sinto que tenha nenhuma chave. Sinto que tudo é feito com muita dedicação. Nada que valha a pena se faz sem esforço. Claro que é muito mais fácil arranjar motivação quando se gosta do que se faz. Quando se tem objetivos. Sou uma pessoa otimista e acreditar que se consegue é meio caminho andado para se chegar lá. Não me foco nos obstáculos, mas sim em como os ultrapassar.

Sendo uma inspiração na sua área de atividade, que mensagem gostaria de deixar a todas as jovens que estão agora a iniciar as suas carreiras na Medicina Dentária?
A mensagem é mesmo essa. Não ter uma atitude derrotista. Sei que o mercado de trabalho não é fácil, mas se realmente abraçarmos o que gostamos é mais fácil sermos bem-sucedidos. Muito importante é identificarmos a área de que gostamos e mantermo-nos nela. Quanto mais cedo a identificarmos, mais cedo começamos a construir o nosso caminho. Que vai ser complicado é certo, com muitos altos e baixos, mas com determinação e dedicação irão com certeza chegar lá.

A terminar, o que falta ainda concretizar, por parte da Sofia Arantes e Oliveira, no campo profissional, nomeadamente na Kids and Teens? Que passos serão dados no futuro?
Num futuro longínquo não sei, pois raramente faço planos a longo prazo. Mas tivemos recentemente, no dia 1 de junho 2023, um desafio significativo, quando mudámos para a nossa nova morada, no Campo Pequeno. Estamos agora num espaço com mais gabinetes, o que proporcionou uma expansão da equipa. Neste momento é necessário consolidar essa equipa, encontrar procedimentos de encaminhamento e interação entre todos para discutirmos os casos clínicos, e dar o melhor acompanhamento médico às nossas crianças. Esse é o meu maior desafio atual.