“A SPCV procura servir de charneira entre os vários atores setoriais: academia, centros tecnológicos e indústria”

A Revista Pontos de Vista esteve à conversa com José Carlos Almeida, Presidente da Sociedade Portuguesa de Cerâmica e Vidro (SPCV), que destacou a história e o papel desta associação para a promoção do setor, a nível nacional e internacional, mas também perspetivou as tendências e desafios do ramo para 2023.

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A Sociedade Portuguesa de Cerâmica e Vidro (SPCV) é uma associação sem fins lucrativos que desde 1980 procura promover o que de melhor se faz no setor da cerâmica e do vidro, ao nível científico, tecnológico, artístico, cultural e didático. Assim sendo, e de modo a contextualizar o nosso leitor, qual tem sido o papel da instituição para a concretização desse objetivo?

Foi no dia 12 de abril de 1980, no anfiteatro do então Departamento de Engenharia Cerâmica e Vidro (DECV) da Universidade de Aveiro (UA), que um grupo de técnicos das indústrias do vidro, do refratário, do barro vermelho e do barro branco, para além de representantes do Laboratório Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial e do DECV, reuniu-se para discutir a criação daquilo que viria a ser a SPCV. Na reunião ficariam definidos os objetivos da mesma, e o compromisso para uma nova reunião, alargada a todos os interessados (industriais, técnicos, acadêmicos), que acabaria por se realizar no dia 14 de maio do mesmo ano. Desde então a SPCV tem estado na organização de várias iniciativas, procurando sempre servir de charneira entre os vários atores setoriais: academia, centros tecnológicos e indústria.

Tendo em conta que a inovação está na génese da SPCV, quais considera ser os contributos da organização para a evolução do setor?

Logo na sua formação toda uma conjuntura propicia um fervilhar de ideias e de iniciativas para a SPCV. Assim seguiu a década de 80 e a seguinte, com workshops sectoriais (e.g., Luso 1988) e Jornadas Técnicas de Cerâmica e Vidro (e.g., Luso 1995), os congressos conjuntos com a SECV Sociedade Espanhola de Cerâmica e Vidro, e o nascimento da Revista da Sociedade Portuguesa de Cerâmica e Vidro em outubro de 1982. A Revista serve de fórum de discussão, de apresentação de temas tecnológicos e científicos, e de trabalhos académicos.

Em maio de 1990, em Vilamoura, realiza-se o 1º Congresso de Cerâmica Portuguesa, que junta, para além da SPCV, as três associações setoriais de então: a Associação Portuguesa de Cerâmica, a Associação Nacional dos Industriais do Barro Vermelho, e a Associação Portuguesa dos Industriais da Cerâmica da Construção. Desse congresso saíram as bases de criação da APICER – Associação Portuguesa das Indústrias de Cerâmica e de Cristalaria (1996).

Em maio de 1987 nasce a European Ceramic Society (ECerS), e em 1988 a SPCV é aceite como membro. Em junho de 1989 é publicado o primeiro número do Journal of the European Ceramic Society, editado pela Elsevier, e cujas receitas darão origem ao Fundo JECS Trust (fundo de apoio às iniciativas da ECerS).

Nos últimos anos podemos destacar a realização em 2017 do Primeiro Encontro de Jovens Investigadores de Cerâmica e Vidro, e a participação da SPCV na XIII Bienal Internacional de Cerâmica de Aveiro. Durante a Bienal tem lugar o seminário sobre Novas Tecnologias de Decoração. Nesse mesmo ano a SPCV participa nas Jornadas Técnicas de Cerâmica.

Em 2018 a SPCV é convidada pela SECV para a organização de outro congresso conjunto, desta vez em Barcelona, contando com a participação de jovens investigadores de várias instituições.

Em 2019, também em Aveiro, a SPCV organiza a VII Conferência Internacional de Conformação de Materiais Cerâmicos (SHAPING 7), uma Summer School sobre Reologia Aplicada à Manufatura Aditiva, ambas em parceria com a ECerS, e um seminário sobre Novas Tecnologias de Conformação em Cerâmica; os três eventos numa única semana, e com a participação de estudantes, técnicos e académicos de vários países. Participa na XIV Bienal Internacional de Cerâmica de Aveiro e nas Jornadas Técnicas de Cerâmica.

O Prémio Faria Frasco, com um valor monetário de 2.000€, pretende incentivar a produção de projetos originais de jovens investigadores na área da cerâmica e do vidro. Qual é a importância deste tipo de iniciativas para os estudantes e investigadores do campus da Universidade de Aveiro, mas também para a valorização do setor em Portugal?

Nestes últimos cinco anos verificou-se um novo incremento de atividade do setor, com valores históricos ao nível da exportação, e do posicionamento do país no panorama internacional. Entretanto, novos desafios tecnológicos são colocados com as normas REACH e com o European Green Deal. Existe uma necessidade crescente de inovação que coloca novos desafios à academia. Os prémios, como o Faria Frasco, servem para incentivar os melhores alunos a se juntarem aos desafios. O resultado é sempre um acréscimo de valor ao setor.

Ainda no mesmo tópico de conversa, que projetos têm sido colocados em prática, nos domínios da cerâmica e do vidro, através desse incentivo monetário?

São vários, em áreas tão distintas como a dos novos materiais para aplicações biomédicas, mas também em áreas tradicionais como a do grés para hotelaria, onde já se aplica a decoração digital e procura-se aplicar a radiação laser para auxiliar do processo de cozedura da decoração.

Atualmente, a SPCV está localizada no Departamento de Engenharia de Materiais e Cerâmica da Universidade de Aveiro. Na sua opinião, em que medida o trabalho que diariamente desenvolvem contribui para o desenvolvimento da região de Aveiro?

Apenas quatro anos antes do nascimento da SPCV acontece o nascimento, na ainda jovem Universidade de Aveiro, do Departamento de Engenharia Cerâmica e Vidro, com o intuito de fornecer técnicos a uma indústria que estava em grande expansão. A SPCV é uma consequência. Na minha humilde opinião, foram as várias dezenas de engenheiros, mestra e doutores formados ao longo destes mais de 40 anos que tem servido para auxiliar este desenvolvimento. A região centro contribui em mais de 80% para o setor.

Nos dias de hoje, a grande maioria das empresas portuguesas dedicadas à área da cerâmica e do vidro estão mais conscientes da implementação da economia circular nas soluções e serviços que prestam. Todavia, ainda existem alguns casos que fogem a esta transição. Face a esta realidade, que papel tem tido a SPCV, de modo a sensibilizar a comunidade para a concretização desta prática?

O papel é o de sempre: servir de elo de ligação aos vários atores. Um exemplo atual é a nossa contribuição para a realização do “Workshop on Energy and Decarbonization of the Ceramic Industry” que terá lugar na Universidade de Aveiro neste mês de novembro.

A Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou a comemoração do Ano Internacional do Vidro durante este ano, 2022. Este material tem enriquecido a qualidade de vida de milhões de pessoas. Na sua opinião, porquê que é importante dar ênfase e celebrar esta efeméride?

O vidro foi e será um material fundamental para a nossa civilização. As suas aplicações estão presentes em áreas tão diversas, desde a medicina às telecomunicações.

O aumento do preço do gás é um dos graves problemas que o setor vive, nos dias de hoje. Sendo este um combustível essencial para esta indústria, e estando nós na reta final do presente ano, pergunto-lhe como perspetiva as tendências deste ramo para o ano 2023?

Não faço a mínima ideia, e não sei mesmo se alguém se atreve a fazer alguma previsão. O que sei é que vamos ter de encontrar tecnologias disruptivas. Estão a surgir várias. E outras surgirão.

Face ao cenário que se vive atualmente, como perspetiva o futuro da SPCV?

Depende das novas gerações e do seu interesse pelo associativismo. Trabalhamos de forma altruísta. Já fizemos 42 anos de existência, com altos e baixos como a indústria cerâmica. Sou otimista o suficiente para acreditar no futuro.