“A capacidade de mediar e chegar a um consenso é uma arte que a maioria das Mulheres consegue executar”

Mónica Cayolla da Veiga, Advogada fundadora da CVSP Advogados, assume que o seu percurso profissional em Direito “se caracteriza não só pela experiência acumulada em diversas áreas”, mas também pela sua “capacidade de resiliência e adaptação”. Na entrevista com a Revista Pontos de Vista, a Advogada também falou da importância do Dia Internacional da Mulher.

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Mónica Cayolla da Veiga tem uma longa carreira pautada por diferentes desafios profissionais no setor bancário e financeiro. Tendo em conta a sua experiência, começo por perguntar como se carateriza enquanto profissional?

Obrigada antes de mais por esta entrevista, e pela possibilidade de partilhar um pouco da minha vida profissional consigo e com todos os leitores da Revista Pontos de Vista. Sim, diria que de facto a minha carreira profissional tem-se pautado ao longo dos já longos 25 anos, por inúmeros desafios que têm aparecido no meu caminho. Por um lado, como jurista, numa carreira junto do regulador dos mercados financeiros, em que a oportunidade surgiu de um contacto espontâneo há 7 anos atrás, e como advogada, que passou tanto por escritório de grandes sociedades, como advogada de empresa, in house, diria que o meu percurso profissional se caracteriza não só pela experiência acumulada, em diversas áreas do direito, sobretudo direito comercial, bancário, financeiro e, mais recentemente, de apoio à imigração e investimentos estrangeiros com a capacidade de resiliência e à adaptação que é imposta pelo próprio mercado, com as suas oportunidades e a clientela, que tem surgido nos últimos anos. A advogada que era quando iniciei a minha carreira em 1999, não é a mesma de hoje passados tantos anos.

Sabemos que ao longo dos últimos sete anos esteve a cumprir funções como jurista na CMVM. Desde janeiro de 2023, regressou ao escritório da CVSP Advogados, empresa que fundou. Em termos gerais, que tipo de mais-valias o caminho que trilhou na CMVM lhe trouxeram para a sua vida profissional? E para este desafio que agora “abraça”?

A CMVM é uma grande escola na área dos mercados financeiros, e a aprendizagem como jurista permitiu o enriquecimento na prática dos conhecimentos adquiridos aquando do LLM realizado em Londres, em 2001-2002 no Queen Mary & Westfield College – University of London. O facto de ter estado ao lado do regulador, durante estes anos, permitiu a aquisição de conhecimentos muito práticos e diretos, numa área tão intensa e com tantas especificidades como o direito financeiro. Acresce a capacidade de aquisição de conhecimentos obtidos diretamente do supervisor e regulador dos mercados financeiros. A bagagem de conhecimentos que adquiri permite oferecer aos clientes uma visão clara, e profundamente conhecedora e esclarecida, no que toca às matérias sob a alçada da CMVM e que digam respeito aos mercados financeiros. A CVSP é um escritório que assentava na área de direito fiscal e acompanhamento aos clientes de societário e com assuntos na área do investimento em imobiliário, agora pode contar com os conhecimentos na área de direito financeiro, por exemplo ao nível da constituição de fundos de investimento mobiliário e imobiliário, do compliance financeiro perante os supervisores, dos deveres de informação dos intermediários financeiros, do report financeiro, etc.

Uma das questões que ainda se discute um pouco por todo o mundo é a igualdade de género. Sobre este tema, quão importante é celebrar o Dia Internacional da Mulher?

Do meu ponto de vista a comemoração do Dia Internacional da Mulher tem um cariz histórico, e a questão da igualdade de género não se coloca, trata-se de dois sexos distintos, o masculino e o feminino. Agora que, evidentemente, a não discriminação da Mulher enquanto tal é relevante, e sim, importa ter esta questão presente sem, contudo, se dar tanta ênfase num único dia do ano. Na verdade, importava trabalhar a questão da não discriminação das Mulheres numa base diria, quase diária, e não haver a necessidade de celebração de um dia internacional. Efetivamente, importa sublinhar que a Mulher deve ter os mesmos direitos que o Homem no mercado de trabalho, sendo discriminatório qualquer diferença salarial, porquanto ambos conseguem desempenhar as mesmas funções e com as mesmas habilitações académicas. Convém dizer que, Mulheres e Homens se complementam em inúmeras matérias, mas no mundo do trabalho não deve existir diferenças. Seria bom que a importância dada ao Dia Internacional da Mulher fosse sendo, cada vez mais, menos necessária. Significaria que, alegadas discriminações, ou diferenças na sociedade já não seriam relevantes.

Ainda acerca da efeméride, de extrema importância para as Mulheres, que é o Dia Internacional da Mulher. Na sua perspetiva, e tendo em conta a sua experiência profissional, qual é o papel da Mulher na liderança de uma empresa? No seu entender, quais são as características femininas que favorecem uma liderança?

A Mulher tem capacidades inatas que são exclusivas suas, veja-se a capacidade de realizar inúmeras tarefas ao mesmo tempo com a concentração de como se estivesse a realizar apenas uma, a capacidade de escutar e ouvir o outro, a candura no trato com o outro, o sexto sentido na leitura do outro, etc. Estas capacidades inatas permitem às Mulheres, em geral, desenvolver uma série de características fundamentais na liderança. Por exemplo, a capacidade de ouvir e escutar o outro seja numa reunião de equipa, seja numa conversa de um para um. Gostava de realçar que numa equipa é importantíssimo sermos capazes de escutar os outros, ouvindo as suas ideias, opiniões, críticas, sugestões e, tomarmos uma decisão em conjunto com a equipa envolvendo e responsabilizando todos. A capacidade de mediar e chegar a um consenso entre todos é uma arte que a maioria das Mulheres consegue executar, de forma inata. Também importa ter presente, a sensibilidade feminina e o chamado sexto sentido. Estas duas características, essencialmente femininas, são uma força motriz na liderança no feminino, aliadas ao instinto maternal e ao sabermo-nos colocar no lugar dos outros permitem uma liderança pelo exemplo, com segurança e responsabilização inter-alia.

O ramo da Advocacia é liderado maioritariamente por Homens. Face a isto, sentiu algumas dificuldades, ao longo da sua carreira, pelo facto de ser Mulher e desejar construir uma carreira de sucesso neste setor? Se sim, o que mudaria no mundo da advocacia na atualidade?

Infelizmente, é uma área liderada maioritariamente por Homens, mas em que há uma tendência claramente inversa, aliás veja-se que temos uma bastonária, a segunda Mulher bastonária. Esperamos que, venham muitas para invertermos o que tem sido o domínio masculino na liderança dos advogados. Efetivamente, deparei-me com inúmeras advogadas que adiaram casamentos, e/ou a maternidade devido à progressão na carreira, sobretudo dentro dos grandes escritórios de advogados. A conciliação da carreira profissional com a pessoal é extremamente difícil na advocacia, sobretudo se pensarmos nas grandes sociedades de advogados. Aliás, se pensarmos até na carreia de advogada mesmo em prática individual, pois não colhe o argumento de que se trata apenas de uma questão dos grandes escritórios. Penso que, deveria de existir um investimento maior que permita às advogadas Mulheres a progressão na carreira, manutenção de clientes, apoio da caixa de previdência de advogados, que permita a conciliação com a vida pessoal. A tónica deverá ser sempre a de permitir que as advogadas possam constituir família, sem a preocupação da sua carreira ficar estagnada, ou prejudicada pelo nascimento de filhos, ou por outras questões relacionadas com o apoio à família. Porque sim, as Mulheres, enquanto cuidadoras por natureza, muitas vezes abdicam da progressão na carreira para apoiar os familiares que mais precisam.

Sendo advogada fundadora da CVSP Advogados, como é que, internamente, contribui para a igualdade de oportunidades?

O nosso escritório procura apoiar as advogadas e os advogados que têm vindo a colaborar connosco, de uma forma sustentada, apoiando o acompanhamento ao agregado familiar e aos filhos das nossas advogadas e advogados. Ao nível académico e de formação profissional, temos encorajado a formação contínua de cada advogada e advogado, visando a conciliação e equilíbrio, entre a vida profissional e pessoal. Na verdade, a formação contínua é fundamental na nossa profissão, pois permite não só a constante atualização dos nossos advogados, como o permanente crescimento académico e profissional dos nossos advogados.

Ainda no mesmo assunto, considera que o Estado português e as empresas privadas deveriam implementar mais ações de formação em liderança, no sentido de apoiar e impulsionar as Mulheres a enveredarem por altos cargos administrativos, mas também para as incentivar a procurarem postos de trabalho em áreas de atividade, que são, maioritariamente, lideradas por Homens?

Acredito nas capacidades inatas das Mulheres e nas suas habilitações para a progressão até à liderança, sem a necessidade de impor formações. Acredito que, ninguém nasce líder, e, portanto, há todo um conjunto de características que podem ser desenvolvidas e trabalhadas especificamente para permitirem a «criação de um líder». Contudo, também acredito que há líderes naturais. Obviamente que, existem Mulheres mais capacitadas do que outras para desempenharem funções de liderança, assim como há Homens que são líderes inatos e outros que, sendo líderes não o sabem ser. As Mulheres chegam aos cargos pelas competências e habilitações, não acredito que devam chegar por decreto, e tão pouco acredito que dignifique as funções que venham a desempenhar pelo facto de terem sido indicadas por decreto. Evidentemente que, é relevante a existência das cotas, pois provavelmente se não existissem demoraríamos dezenas de anos a chegarmos onde estamos, mas acredito que, inevitavelmente, as Mulheres acabarão por ascender a cargos de liderança pelas suas características, competências, qualificações e habilitações.

A sociedade está cada vez mais consciente do papel da Mulher. Mas, a verdade é que ainda há um longo caminho a percorrer. Solicita-se uma mudança na mentalidade de certos gestores, mas também é necessária mais união entre as Mulheres, concorda?

Acredito que sim. Vem sempre ao de cima a rivalidade natural feminina, é inevitável. E sem dúvida que todas as Mulheres iriam beneficiar se nos mantivéssemos unidas, mas lá está, não por decreto, mas sim porque acredito convictamente que temos aptidões inatas e competências que nos permitem chegar onde os homens não chegam, ou pelo menos tendencialmente demoram mais a chegar. Os gestores, se forem líderes, e capacitados q.b., rapidamente entenderão as vantagens da liderança feminina versus a liderança masculina. Tendencialmente racionais e focados apenas nos resultados, os Homens naturalmente não conseguem escutar e por vezes não têm a humildade e sensibilidade para mudarem e serem permeáveis a opiniões diversas e opostas das suas. As Mulheres têm naturalmente uma maior maleabilidade e capacidade de adaptação às circunstâncias com uma rapidez e resiliência que é impressionante. Veja-se quantas Mulheres advogadas têm filhos, e mantém a sua carreira profissional, muitas vezes, ao fim de uns dois meses de serem mães têm audiências em tribunal, elaboram peças processuais e acompanham clientes com toda a capacidade e brio profissional. Mas lá está, a união entre as Mulheres é fundamental para podermos levar à sociedade e ao mundo do trabalho a doçura, o saber escutar e a sensibilidade feminina, que permitem a uma equipa profissional alcançar objetivos, sentir-se motivada e melhorar, ou ultrapassar as expectativas elaboradas muitas vezes por quem não tem visão de líder.

Estando de regresso à CVSP Advogados, quais são os objetivos que urge colocar em prática, durante este ano? A conjetura atual veio assolar diversos setores, incluindo a advocacia. Pergunto-lhe, como perspetiva o futuro deste setor?

Os objetivos para este ano 2023, são além da continuidade no acompanhamento personalizado dos nossos clientes, numa relação estreita e de confiança, são objetivos de desenvolvimento de novos mercados e perspetivas de angariação de clientela. Sendo um escritório com 90% de clientela internacional, importa face às declarações políticas recentes, e instabilidade na nossa governação, manter a credibilidade no nosso mercado português, no nosso sistema judicial e na captação de investimentos estrangeiros em Portugal. O futuro da advocacia assenta naquilo que cada um de nós, advogados, queira que o mercado seja. Acredito numa advocacia assente na relação pessoal e de proximidade, estreita entre advogado e cliente, numa relação assente na confiança, diligência e lealdade, orientada sobretudo para o resultado pretendido pelo cliente, e vocacionada para uma advocacia preventiva, no sentido de acautelar os interesses dos clientes que nos procuram, evitando quaisquer constrangimentos de litígio.

Por último, que mensagem quer deixar às n0600ossas leitoras, que tal como a Mónica Cayolla da Veiga pretendem construir um trajeto de liderança, no ramo da advocacia?

Gostava de deixar uma mensagem clara, sermos Mulheres no mundo da advocacia é uma vantagem que deve ser encarada com coragem, perseverança, trabalho e audácia. Na verdade, a coragem para encarar os desafios do caminho, aliados a uma atitude de perseverança sem desistir a meio do caminho, com trabalho constante e uma visão audaz do futuro, permitirá a qualquer leitora que me esteja a acompanhar nesta entrevista, alcançar o seu lugar no mundo da advocacia. Evidentemente que, se aliarmos ainda a esperança e a sorte, bem como uma atitude positiva, teremos a receita perfeita para uma carreira de sucesso. Finalmente, gostaria ainda de partilhar que sou mãe de 7 filhos e importa ter presente que seja qual for o caminho que cada uma escolha tudo é possível. Haja coragem, vontade e trabalho!