DARiACORDAR – Uma missão que vai além do combate ao desperdício

Todos sabemos que hoje, mais do que nunca, a sustentabilidade é um tema presente na sociedade e em cada um de nós. É sobre esta convicção que a Revista Pontos de Vista conversou com Paula Policarpo, Presidente da DARiACORDAR – uma Associação que cuida, e ajuda a cuidar, do futuro do planeta.

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A Dariacordar é uma associação sem fins lucrativos, que em 2012 lançou o movimento de cidadania e consciencialização para a temática #ZeroDesperdício, com o intuito de alargamento a outros fluxos e bens, tendo como objetivo último evitar o resíduo onde quer que este esteja. Após 12 anos, como nos pode descrever a evolução desta atividade?
O ZERO DESPERDÍCIO (marca e movimento de cidadania lançado em 2012 pela DariAcordar constituída em 16/11/2011) é parte da visão e missão atual da DARiACORDAR cujo racional da denominação desde 2011 era e é “DAR novas soluções e ACORDAR para uma nova realidade”.
Apareceu em plena crise económica/financeira e pela crescente incapacidade das famílias e pessoas com rendimentos baixos e médios (a maioria nacional) não conseguirem fazer face às despesas básicas, como a alimentação. Curiosamente, com contornos semelhantes aos que hoje vivemos de novo.
Assim, começámos por promover e contribuir para a prevenção, bem como atuar na redução dos excedentes/produção (evitando o resíduo: aterro ou incineração), pela sua manutenção na cadeia de valor, de um modo geral, e inicial e nomeadamente, de sobras alimentares confecionadas, e/ou perecíveis em perfeitas condições de segurança e higiene alimentar, de acordo com procedimentos e regras construídas e validadas com a ASAE e pela DGAV e Comissão Europeia.
A visão era e é de que um resíduo é um recurso e que o caixote de lixo será no futuro um objeto do passado, por não ser mais necessário.
Por outro lado, o que não se produz não será nunca um resíduo.
Diariamente criamos e produzimos bens, pro- dutos e serviços usando recursos do Planeta que depois desperdiçamos e que a natureza não transforma, nem regenera. Por outro lado, esquecemo-nos que todos contamos e que ninguém deve ficar para trás no acesso aos recursos, ao progresso e ao bem-estar.
Assim, ao longo dos últimos anos, a DA tem desenvolvido o seu trabalho e ação em torno da sustentabilidade e da transição para um mundo mais equitativo e duradouro/sustentável. Conseguimos, com a ajuda de todos os envolvidos – doadores do canal HORECA, retalho e outros operadores/distribuidores, Câmaras Municipais direta ou indiretamente envolvidas, Juntas de Freguesia, ONG´s, IPSS, Associações e outras entidades facilitadoras que têm sido cruciais neste caminho.
Fazemo-lo através de um modelo operacional e de uma REDE COLABORATIVA, INCLUSIVA e CIRCULAR nacional.
Foi isso que contruímos e para o qual trabalha- mos todos os dias, para a expandir e reforçar.
Com o foco na sustentabilidade ambiental, a DARiACORDAR procura também e continua- mente aumentar a consciencialização para a mudança de paradigma e comportamentos, alertando para esta necessidade e o seu impacto, sobretudo a médio e longo prazo.
Desenvolve, pois, um conjunto de ações e atividades que visam a sensibilização da comunidade em geral e determinados públicos alvos, em particular junto dos mais novos para que a mudança comportamental aconteça de forma sustentada.
A atividade operacional da DA tem como objetivo o aproveitamento das sobras e excedentes de produção/venda geradas em cada território, que se encontram em perfeitas condições para consumo, junto de quaisquer entidades públicas ou privadas, com a finalidade de complementar necessidades sociais prementes que atingem grupos sociais carenciados naqueles, bem como evitar por essa via o resíduo, por intermédio das organizações.
A rede nacional atual assume-se, assim, como um complemento às respostas eventualmente já existentes nos territórios do âmbito e competência das Câmaras Municipais e outros interlocutores locais e tem ainda como objetivo redistribuir, reduzir e reciclar os excedentes alimentares e têxteis aí existentes, contribuindo assim para a sua sustentabilidade social, ambiental, económica e cívica. Através da celebração de protocolos de colaboração e de acordos de doação de bens, a DA promove e dinamiza a captação e distribuição dos bens excedentes, em benefício de entidades terceiras por intermédio e no âmbito do seu modelo de intervenção no território nacional.
O nosso modelo de intervenção e programa é um verdadeiro modelo de economia colaborativa, inclusiva e circular, testado e implementa- do no país desde 2012, evitando por isso soluções teóricas sem reflexo na realidade.
A DA começou por ter como por finalidade contribuir para a prevenção/redução dos excedentes/produção (evitando o resíduo) e, caso existam, promover a sua manutenção na cadeia de valor, de um modo geral, e com especial foco no fluxo alimentar e, posteriormente, têxtil, como já dissemos.
12 anos depois, essa missão e abordagem é mais premente que nunca, pois, talvez também como nunca, as questões ambientais estão na agenda de todos, à escala mundial, dos consumidores e cidadãos, à gestão das cidades e das empresas.
Exemplo disso é ter sido declarado pelas Nações Unidas, no passado dia 30 março, o 1º Dia Internacional do Desperdício Zero, que tem como meta promover padrões sustentáveis de consumo e produção. O Dia Internacional do Lixo Zero, celebrado neste 30 de março, tem como meta promover padrões sustentáveis de consumo e produção.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, lembrou que, todo ano, dois bilhões de tone- ladas de resíduos sólidos são gerados, mas 33% não recebem tratamento adequado.
Esta quantidade equivale a um camião de lixo cheio de plástico a ser despejado no oceano a cada minuto.
Segundo Guterres, 10% de todas as emissões globais de gases de efeito estufa vêm do cultivo, armazenamento e transporte de alimentos “que nunca são usados”.
Para mudar esse cenário, Guterres quer que o mundo invista maciçamente em sistemas e políticas modernas de gestão de resíduos, que incentivem as pessoas a reutilizar e reciclar tudo, “desde garrafas plásticas, até aparelhos eletrónicos antigos”.
Segundo dados da ONU, o setor de resíduos é parte da tripla crise planetária de mudança climática, perda da biodiversidade e poluição. Os objetivos das iniciativas de desperdício zero são proteger o meio ambiente, aumentar a segurança alimentar e melhorar a saúde e o bem-estar humanos.
É por isso que, atualmente, a atividade da DARiACORDAR vai muito além do combate ao desperdício alimentar. Estamos em outras áreas como o desperdício Têxtil, parcerias com uni- versidades, empresas e centros de investigação, desenvolvimento de instrumentos e ferramen- tas eficazes para as autarquias e para as empre- sas para medição de impactos de sustentabili- dade e desenvolvimento de novos modelos de produção, distribuição e negócio e, ainda, ações contínuas de consciencialização e sensibilização de todos e, em especial, dos mais novos.
Hoje conseguimos, ao fim de 12 anos, presentes em todo o país, impactos que reforçam o alcance da atividade da nossa associação: No setor alimentar, que conta com mais de 900 parceiros doadores e recetores, conseguimos gerar mais de 81 milhões de euros de valor económico, evitar 1.3 milhões de euros em custos com o tratamento dos resíduos alimentares, recuperar mais de 32 milhões de refeições equivalentes que chegaram a mais de 1.6 milhões de beneficiários e mais de 620 mil famílias. Tudo isto vai permitir evitar mais de 68 mil toneladas de emissões de C02.
No setor têxtil, que conta com 70 parceiros doadores e recetores, conseguimos, e somente desde 2021, gerar já mais de 71 mil de euros de valor económico, evitar 50 milhões de litros de água desperdiçada, recuperar mais de 20 mil peças de roupa equivalentes que chegaram a mais de 6.9 mil beneficiários e mais de 2.6 mil famílias. O que vai evitar mais de 165 toneladas de emissões de C02.
Estamos a preparar novas áreas de atividade e medição de impactos, porque acreditamos que é pela demonstração de resultados e pela inovação que podemos encontrar o novo caminho para a sustentabilidade e a chave para a mudança de comportamentos e criação de novos modelos de negócio.
A nova imagem de marca da DARiACORDAR que apresentamos agora, procura dar visibilidade e transmitir esta evolução ao longo de 12 anos e os novos desafios futuros que queremos superar.

A missão primordial foi, desde sempre, unir esforços e convocar todos para a promoção de atitudes e comportamentos, atividades, ações e iniciativas estratégicas que garantam o desenvolvimento das boas práticas relativamente ao zero desperdício e à equidade. Quão importante foi ao longo do tempo, e é, a existência de uma Associação como esta?
A DARiACORDAR está totalmente alinhada com os ODS – Objetivos Desenvolvimento Sustentável, a Agenda 2030 e com os Princípios ESG – Investimento e Governance Socialmente Sustentável. A urgência da transição climática demonstra que é hoje determinante ir para além do ZERO. Implica criar impactos positivos, comunidades sustentáveis, resilientes e inclusivas, de economia circular, regenerativa e de partilha.
Tem como missão atual unir esforços e convocar todos para a promoção de atitudes, comportamentos, atividades, ações e iniciativas estratégicas que garantam o desenvolvimento das boas práticas de SUSTENTABILIDADE, bem como gestão de redes de redução, recuperação e reutilização de potenciais resíduos, otimização e justa distribuição dos recursos, e de apoio na definição estratégica da sustentabilidade das organizações em linha com os ODS e ESG, com foco e orientação à medição de impacto e à consciencialização e envolvimento de todos para a urgência da transição climática/energética/digital/social.
Ir para além do ZERO, criar impactos positivos, comunidades sustentáveis, resilientes e inclusivas, de economia circular, regenerativa e de partilha é talvez, hoje, mais importante que nunca. Queremos contribuir para o novo direito humano aprovado em 2021 na ONU, “o acesso a um meio ambiente limpo, saudável e sustentável” para TODOS.
Por isso acreditamos que temos ainda muitos desafios atuais e futuros a superar e os pedidos de colaboração cada vez mais alargada que temos vindo sempre a receber dos nossos parceiros, sejam as autarquias que pretendem posicionar o território e implementar políticas e estratégias cada vez mais sustentáveis, sejam as empresas que procuram ter uma visibilidade cada vez mais crescente das suas estratégias e impactos sociais nas comunidades em que se integram.
O comportamento responsável acima referido será adotado de forma mais célere e terá mais efeitos multiplicadores e duradouros se incluir a colaboração com entidades que tenham como finalidade primacial o objetivo de estudar, organizar e difundir as boas práticas de sustentabilidade (ODS E ESG), de prevenir a geração de resíduo pela adoção de modelos de economia circular no desenho e conceção das suas intervenções e processos de produção, transformação, vendas, marketing, entre outros, by design e não apenas by default.

Certo é, com uma nova imagem de marca, mais vibrante, atenta, consciente e próxima, a Zero Desperdício é agora a DARiACORDAR . De que forma, esta reestruturação de imagem, reforça a visão e o crescimento da Associação, que vai para além do combate ao desperdício?
Sim, a nova imagem de marca da DARiACORDAR, desenvolvida pela agência The Ad Store Portugal, reforça este novo posicionamento “para além do zero” e a criação de um modelo que definimos como “SOCIETAL”, resultante da junção dos pilares da sustentabilidade que devem estar sempre presentes: sociedade, economia e ambiente.
A tal ideia e significado por detrás da denominação social da DARIACORDAR, de encontrar e promover novas soluções (inovação, não necessariamente para resolver novos problemas, mas antes de forma diferente e eficaz) nesta nova realidade/paradigma em que vivemos e em que muitos ainda não acordaram ou não querem acordar… Basta ver os resultados do circularity gap report de 2023: a economia global é medida como 7,2% circular hoje, caindo de 9,1% em 2018, quando a Circle Economy calculou o número pela primeira vez. Isso significa que, dos marcos de 100 mil milhões de toneladas de materiais virgens extraídos da Terra anualmente, apenas 7,2% conseguem voltar para a economia na forma de materiais reciclados. Somente nos últimos seis anos, a economia global extraiu e usou quase tantos materiais quanto ao longo de todo o século 20, segundo o Circularity Gap Report 2023.
A nova imagem de marca integra as diversas dimensões de atividade da DARiACORDAR que vai muito para além do programa Zero Desperdício e que reforçam a visão “para além do zero”.  A nova imagem de marca integra, ainda, áreas tão estruturantes como a consultoria a autarquias e empresas, colaboração em redes de inovação e universidades, realização de eventos de awareness e comunicação junto das comunidades, que complementam a rede operacional presente em todo o país.
Acreditamos que a nova imagem de marca, mais transversal e vibrante, vai também contribuir para uma clarificação de tudo o que fazemos e do alcance e impactos, que vai “para além do zero”.

Hoje, a DARiACORDAR, acredita que é fundamental ir além do zero impacto. Ou seja, é fundamental a adoção de novas estratégias, modelos de gestão e negócio e novos modelos e comportamentos de consumo geradores de valor. Assim, que objetivos foram agora definidos?
A DARiACORDAR tem atualmente três grandes áreas de atividade que se assumem também como os três grandes objetivos estratégicos afirmados com a nova imagem de marca:
– Operacionalização de um modelo real e local de sustentabilidade que promove continuamente a redução e valorização do desperdício: porque as empresas e organizações são agentes com um papel preliminar e fundamental no ambiente e bem-estar das populações. Por este motivo representam um stakeholder de elevado impacto e relevo para o sucesso da DARiACORDAR a da sua missão e ação. A estratégia global para combate ao desperdício consubstancia-se em múltiplos formatos e interlocutores, setor público, empresas e sociedade civil sob os mais diversos formatos, carecendo de uma visão de conjunto e com visibilidade sobre os impactos. Através do nosso programa já implementado e presente e todo o território nacional, e que pode ser operacionalizado quer junto das autarquias à escala das cidades, quer junto das empresas, a nível nacional e internacional.
– Monitorização, medição e comunicação contínua dos impactos ambientais, sociais e económicos, sustentando de forma clara e objetiva o alcance e consequências reais da adoção de novos comportamentos e modelos de negócio: as novas tecnologias aliadas à economia circular representam uma parte crítica do kit de ferramentas de sustentabilidade e descarbonização do mundo – e o mundo ainda não tem todas as tecnologias de que precisaria para resolver a equação Net Zero, equilibrando emissões e reduções de gases de efeito estufa (GEE). O desafio é que a redução adicional deve vir de tecnologias climáticas que não estão totalmente prontas, incluindo 25 a 30% de tecnologias que foram demonstradas, mas ainda não amadurecidas e outros 10 a 15%, daquelas ainda. Através da nossa aplicação DA.360, apoiada e melhorada tecnologicamente pela Inovamatic Solutions, as organizações em rede autarquias e empresas parceiras podem ter um acesso contínuo em tempo real a todos os indicadores. Esta ferramenta tecnológica de gestão das operações em rede apoia no reporte global de informação, transparência, a rastreabilidade e a medição do impacto gerado com as operações da e em rede, em tempo real.
– Comunicação, Sensibilização e Consciencialização da sociedade em geral e dos decisores da necessidade de criar modelos, políticas, comportamentos e estratégia para um futuro mais sustentável: porque a adoção de comportamentos para a sustentabilidade é uma preocupação emergente e ambiental/ética e socialmente imperiosa e um crucial para atingir os ODS. Com a realização de parcerias, eventos e campanhas nacionais ou locais que aproximam muitas vezes um conceito que é ainda abstrato para muitos como “economia circular” e “regenerativa”.

Além disso, a Associação defende que a inovação é a chave para a sustentabilidade e, por isso, está cada vez mais próxima das universidades, centros de investigação e empreendedores. De que forma esta conetividade de novas ideias e abordagens contribui para a construção de um futuro mais eficiente?
Na DARiACORDAR acreditamos que a verdadeira mudança de comportamentos e modelos de produção, distribuição, consumo e negócios apenas pode ter lugar quando todos os agentes da sociedade estão envolvidos e isso implica compreender o que está em causa.
Só com o envolvimento de todos, nomeadamente os que podem trazer novas ideias e perspetivas como as universidades, centros de investigação e empreendedores, é possível falarmos efetivamente de um futuro mais sustentável.
Acresce que as universidades são entidades que formam e preparam pessoas para o mercado de trabalho e por isso tem um papel e responsabilidade acrescida em dotá-las das competências e ferramentas necessárias que a transição para a sustentabilidade que inevitavelmente temos que fazer.
Por outro lado, são um parceiro de excelência no sentido em que podemos colaborar mutuamente em projetos de ação/investigação.
Cada vez mais, a DARiACORDAR é uma plataforma de encontro, partilha e promoção do estabelecimento de pontes e sinergias entre todos os agentes ao longo da cadeia de produção, distribuição e consumo. Apenas assim, acreditamos ser possível o alcance dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável ambientais, sociais e económicos.

Apesar da renovação de imagem e metas definidas, o compromisso da DARiACORDAR não muda. Em que medida é essencial manter a rede nacional Zero Desperdício e o programa de recolha e redistribuição de excedentes de produção alimentar e têxtil, entre outros?
O programa e a rede Zero Desperdício não muda no modelo operacional, no funcionamento, no alcance ou mesmo nos acessos por parte dos mais de 900 parceiros no setor e alimentar e 70 parceiros no setor têxtil. Apenas tem como ambição estender a sua atuação nos fluxos onde já está a toda a cadeia de valor e de produção, ou seja, da produção ao consumo (no alimentar, “do campo ao garfo”), bem como explorar e atuar em novos fluxos e bens tangíveis e intangíveis.
Em quaisquer bens ou fluxos sempre com a medição e quantificação de impacto presentes. É um programa que tem provas dadas, que foi já reconhecido e premiado nacional e internacionalmente por diversas entidades certificadas e que tem a capacidade de crescer, quer em território – nacional e internacional -, quer em novos setores para além do alimentar ou têxtil que já trabalhamos.

Prova de que esta é, de facto, uma atividade que importa, a DARiACORDAR transformou, até 2022, comportamentos e escolhas do dia a dia das pessoas e da gestão de empresas para a construção de um futuro mais sustentável. Enquanto Presidente da mesma, quão gratificante é conseguir mudar mentalidades?
Acredito e defendo que todas as marcas, organizações, empresas ou entidades, todas elas precisam de um propósito. Este é um tema cada vez mais central na gestão das marcas.
E quando esse propósito é materializado para além de uma promessa e toma forma e realidade em objetivos e impactos reais, então ganha uma dimensão ainda maior. Pois essa é a chave de mudança de mentalidades e comportamentos.
É por isso muito gratificante para mim e para toda a equipa da associação DARiACORDAR, interna e externa como a The Ad Store ou Inovamatic, os nossos colaboradores e toda a nossa rede de Parceiros e todos quantos nos apoiam e apoiaram seja financeiramente, seja com os seus conhecimentos e competências ou voluntariamente. E é também uma força e inspiração para fazer ainda mais, de forma mais inovadora.
Dito isto, com a conjuntura atual do crescente aumento do custo de vida em geral e, principalmente, no setor da alimentação e na habitação, são cada vez mais as pessoas e famílias que a nós recorrem, bem como as IPSS e outras entidades do terceiro setor que estão na nossa rede, pedindo-nos maior número e mais alimentos que recuperamos na nossa rede e no conjunto dos nossos doadores (que têm vindo a aumentar devido à crescente preocupação social e ambiental que os pauta) porque a necessidade é crescente.
Mas por outro lado, a DARiACORDAR, sendo uma associação sem fins lucrativos, tem, também o desafio permanente de manter a sua própria sustentabilidade para conseguir manter as nossas respostas em rede e a expandir, reforçar e muscular como a conjuntura pede. Tal implica desde já, incorporar mais doadores alimentares na sua rede (potenciais produtores de resíduos alimentares) no país por forma a poder distribuir e canalizar mais alimentos diariamente a mais entidades beneficiárias do terceiro setor. Ora para tal é preciso alargar os seus recursos afetos a esta atividade, humanos, tecnológicos e outros inerentes e necessários ao seu exercício já que a sua operacionalização é acompanhada e monitorizada junto dos operadores no terreno pela equipa da DA não se tratando de uma mera aplicação dependente de voluntarismos, mas sim de uma solução Business 2 Business;
No dia a dia atuamos em quatro dimensões:
– CAPACITAÇÃO de instituições para a recuperação de alimentos, têxtil, entre outos fluxos, de acordo com a higiene e segurança de produtos e beneficiários.
– COORDENAÇÃO da Rede Zero Desperdício encontrando e conectando entidades doadoras e recetoras adequados ao fluxo a tratar e necessidades a suprimir.
– ACOMPANHAMENTO E MONITORIZAÇÃO dos impactos ambientais, económicos e sociais do projeto e de cada uma das entidades envolvidas. Dados que podem ser utilizados para comunicação interna e externa das entidades de forma informativa, educativa e motivadora na mudança de comportamentos.
– MOBILIZAÇÃO da sociedade para acabar com o desperdício através de ações de sensibilização e educação, em formato presencial, online e offline.

O que representa, para o mundo, que a Associação tenha conseguido, entre outros feitos, evitar o desperdício de mais de 35 milhões de litros de água e 115 toneladas de emissões de CO2?
Representa sobretudo que é possível, até num dos setores que tem em mãos alguns dos maiores desafios para o alcance de uma produção sustentável por ser altamente consumidor de recursos, poluente e pouco ético/cinzento, em somente dois anos e com apenas 70 parceiros, alcançar impactos muito significativos. Imaginem os resultados que são possíveis de serem alcançados com um alargamento da rede de parceiros para mais de 900, como temos no setor alimentar?
Mas representa também uma realidade da qual nem todos têm conhecimento ou visibilidade: é que este desperdício de 35 milhões de litros de água foi evitado apenas com 20 mil peças de roupa. E dar esta visibilidade e comunicação muito clara e objetivo é também uma das grandes missões da DARiACORDAR.
Mais uma vez, a nossa plataforma colaborativa, visa aqui assegurar a comunicação e partilha de excedentes têxtil, reduzindo o desperdício e aumentando o ciclo de vida das peças de vestuário e/ou têxtil lar, através da revalorização reutilização, recuperação ou reciclagem, de acordo com os princípios da economia circular. Bem como, gerar um movimento de combate ao desperdício têxtil, assegurar a medição de impacto ambiental, económico e social neste fluxo e promover a visibilidade destes impactos na comunidade de forma inovadora e educativa, reforçando a necessidade de apresentar junto das organizações e consumidores informação prática sobre o desperdício têxtil e a necessidade de implementar políticas e ações que promovam a circularidade e o consumo consciente, para que se possa minimizar as pegadas ecológicas e sociais deste tipo de indústria.
É um caminho longo que implica o envolvimento de todos: instituições, empresas, governo e sociedade civil. Enquanto consumidores, estarmos mais informados é meio caminho para fazermos melhores escolhas – mais responsáveis e mais conscientes.
A produção de algodão, por exemplo, que é a principal matéria-prima da produção têxtil mundial, consome 24% do mercado global de inseticidas e 11% das vendas de pesticidas, segundo um estudo da WWF.
Segundo dados da Agência Portuguesa do Ambiente, em 2017, foram recolhidas cerca de 200.756 toneladas de têxteis nos resíduos urbanos, o que representa cerca de 4% do total de resíduos produzidos em Portugal e apenas 1% dos resíduos têxteis produzidos no país são encaminhados para a reciclagem.
No âmbito social, os impactos continuam. De acordo com um estudo da Agência Internacional de Pesquisa do Cancro (IARC), os trabalhadores da indústria de curtume de couro, expostos a uma ampla gama de produtos químicos, têm um risco aumentado de cancro, entre 20 e 50%. Fora isso, há ainda uma desumana realidade nas linhas de produção, pelo mundo fora.
Iniciativas como esta são fundamentais para que se possa minimizar a pegada ecológica deste tipo de indústria.

Mas não fiquemos por aqui, uma vez que o compromisso para 2023 é fazer ainda melhor. Que metas foram traçadas e que espera ver cumpridas nos próximos meses?
Temos sete grandes objetivos estratégicos para 2023 para os quais estamos já a trabalhar e muitos deles estão já em curso de implementação:
– A definição de uma nova imagem de marca da DARiACORDAR transversal a todas as áreas e pilares de atuação;
– O alargamento da rede de parceiros no setor alimentar do campo ao garfo e fornecimento de apoio e suporte adicional às empresas na definição de modelos inovadores de sustentabilidade, à semelhança do que fazemos já com grandes operadores de retalho;
– Replicar a outros locais e fluxos;
– Expandir geograficamente a solução e replicar o conhecimento e experiência a outros fluxos de desperdício;
– O estabelecimento de novas parcerias com autarquias e cidades, nacionais e internacionais, para a definição conjunta e apoio na implementação de modelos de sustentabilidade SOCIETAL, com a definição de programas à medida da realidade de cada comunidade;
– O crescimento da rede de parceiros e incremento de impactos no setor têxtil com base em toda a aprendizagem já alcançada desde 2021, mas agora numa perspetiva de “close the loop”;
– A implementação de novos fluxos de redução e valorização de desperdício, como a água e a energia.

Sabemos que o desperdício é, acima de tudo, uma irresponsabilidade humana. Neste sentido, que mensagem gostaria de deixar à comunidade?
O combate ao desperdício é algo que vai para além das nossas escolhas do dia a dia ou das escolhas das empresas. Vive e precisa dessas escolhas e da adoção de comportamentos e novos modelos de gestão ou formas de pensar, mas vai para além disso.
Tem impactos na nossa qualidade de vida, na sustentabilidade do futuro e no alcance de um direito fundamental da humanidade: o de usufruir dos recursos e do planeta em que vivemos, onde a inovação é a chave para a transformação de comportamentos e criação de novos modelos de negócio e distribuição.
A declaração das Nações Unidas do 1º Dia Internacional do Desperdício Zero reforça a importância da gestão sustentável dos recursos ambientais, sociais e económicos para a construção de um futuro e de uma sociedade que se pretende cada vez mais eficiente, mais resiliente, mais participativa, definindo 11 princípios essenciais para a implementação de modelos e políticas Desperdício Zero:
– Investir em novos recursos e políticas que evitem a geração de resíduos;
– Minimizar os produtos descartáveis e encontrar formas de os substituir por alternativas duradouras e reutilizáveis;
– Substituir as embalagens descartáveis por embalagens compostas de materiais de reutilização fácil e segura ou que sejam 100% recicláveis e reintroduzidas em ciclos biológicos no final da vida útil;
– Transformar o sistema de produção, promovendo o fabrico de produtos que, acima de tudo, sejam necessários, duradouros e reparáveis ou que sejam compostos por materiais biodegradáveis ou passíveis de serem reciclados de forma segura;
– Promover o desenvolvimento de economias locais e encurtar a distância entre os produtores e os consumidores priorizando a utilização de embalagens laváveis, reutilizáveis e a venda de produtos a granel;
– Promover o cultivo sustentável e ajustado às necessidades reais das pessoas, de alimentos saudáveis e isentos de substâncias tóxicas com o objetivo de alimentar as pessoas, evitando a sobreprodução e minimizando o desperdício alimentar e a redistribuição dos excedentes antes de perderem as suas qualidades nutricionais;
– Gerir localmente o lixo reciclável que é produzido e envolver todos os agentes ao longo da cadeia de produção, distribuição e consumo;
– Reconhecer o papel da sociedade em geral para o sistema de desperdício zero;
– Evitar a utilização de fibras sintéticas no vestuário e têxteis, bem como lutar contra o desperdício resultante da fast fashion;
– Evitar a exportação de resíduos, que perpetua a injustiça e a iniquidade;
– Eliminar todas as formas de incineração de resíduos dos programas de gestão de resíduos.
A DARiACORDAR está totalmente alinhada com esta visão e 11 princípios e agradece, neste 1º Dia Internacional do Desperdício Zero a toda a rede de parceiros, voluntários e organizações que ajudam, todos os dias, na construção de um futuro mais sustentável. Porque a mudança tem de começar agora. Com todos.
A nossa visão é a de um mundo mais saudável/sustentável. Para isso é necessário trabalhar com pessoas, para pessoas, e para todo o ecossistema porque também somos natureza e planeta como os demais seres vivos de que precisamos e dependemos. Manter o planeta saudável é mantermo-nos saudáveis. A proteção de um é a sobrevivência do outro.
A SUSTENTABILIDADE IMPLICA VONTADE e MUDANÇA de PARADIGMA para o qual ainda não estamos preparados.
Por último, eu, pessoalmente, começo a ser uma adepta do decrescimento (“menos é mais”), como uma forma de desacelerar o impacto humano no planeta, para que depois possamos implementar uma estratégia à escala global de crescimento sustentado.
Acredito na economia da partilha e sinergética de recursos partilhados, do ser e sentir em vez do ter. Vivemos num mundo que é ainda cerca de 93% linear. Estamos longe do “fim é um novo princípio” e onde o desperdício de muitos é a escassez de outros.
Não precisamos de uma nova Humanidade para a sustentabilidade, mas tão só seguir e caminhar na humanidade que está em nós.