“Suspender o Visto Gold não ajuda a criar novas habitações. Portugal precisa de imigração qualificada e investimento do estrangeiro”

Um dos temas mais falados nos últimos tempos concerne aos Vistos Gold, realidade que tem provocado bastante celeuma. Numa medida inserida no pacote de habitação, o Primeiro Ministro António Costa, aprovou, o fim dos denominados Vistos Gold. A questão que se coloca, é: que impacto terá esta tomada de decisão? Frederik Pohl, CEO & Founder da Pearls of Portugal LDA, em entrevista à Revista Pontos de Vista, deixou a sua visão sobre o assunto.

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Desde 2017, a Pearls of Portugal é líder no seu setor, ao fornecer pacotes de serviços únicos e exclusivos para clientes internacionais. Passado seis anos de atividade, como define o percurso da marca até à data?

Tudo remonta a 2010 quando comprei o meu primeiro imóvel em Portugal. Embora fale português e a minha mulher seja portuguesa, o processo foi complicado e moroso, sendo necessário investir imenso tempo a encontrar a propriedade certa. A partir desta experiência nasceu a ideia da Pearls of Portugal. Ajudamos clientes internacionais a mudarem-se para Portugal, assegurando uma migração sustentável e qualificada para Portugal. Para tal, oferecemos serviços próprios complementando com parcerias que temos vindo a estabelecer ao longo dos anos e que são da nossa confiança. Começámos com clientes de língua alemã e, entretanto, fomos expandindo a nossa área de atuação e neste momento trabalhamos com uma carteira mundial de clientes dos setores privado e comercial. Para além dos serviços, disponibilizamos também muita informação sobre o país e naturalmente sobre temas atuais e termos técnicos, que são também muito populares entre os portugueses. Já somos a principal plataforma para compradores internacionais em Portugal. No entanto, a nossa visão é muito mais ampla. O nosso objetivo é tornarmo-nos o líder de mercado para todos os serviços relacionados com mudanças e compras em Portugal. Apesar de alguns desafios dos últimos anos, como a Covid-19 e a guerra na Ucrânia, estamos a crescer significativamente todos os anos e iremos de novo alcançar marcos importantes ao longo do caminho este ano.

A mudança para Portugal não é, na maioria dos casos, uma mera transação financeira. É um sonho que se torna realidade, uma nova fase na vida ou uma segunda casa – e a missão da Pearls of Portugal é tornar estes passos o mais transparentes e eficazes possíveis. Para melhor entender, de que forma o faz?

É precisamente isso. Desde a primeira semana “de vida” da Pearls que temos um cartaz pendurado no nosso escritório que diz: “Não vendemos imóveis, ajudamos os nossos clientes a realizar os seus sonhos”. Esta atitude tornou-nos relevantes e bastante diferenciadores desde o início porque colocamos o cliente em primeiro lugar e não o produto. Não queremos encaixar os nossos clientes num esquema-padrão, mas sim tratar cada situação de forma casuística. A ideia em si é de colocar o cliente no foco da atividade, não sendo naturalmente uma nova visão de mercado, irá encontrar este conceito na missão de muitos especialistas, em diferentes setores de atividade. No entanto, da teoria à prática há um longo caminho a percorrer. Neste sentido a Pearls of Portugal diferencia-se do mercado porque este conceito é realmente o nosso ADN, que está presente no dia a dia e em tudo o que fazemos. Os nossos clientes são apoiados por um consultor exclusivo ao longo de todo o processo. Com uma visão clara dos desejos do cliente assume o compromisso de concretizar essa visão. Este elevado nível de proximidade ao cliente, juntamente com os muitos anos de experiência de mercado que a minha equipa possui, bem como o nível de competência digital de que dispomos, fizeram de nós o líder de mercado dos chamados “Agentes Compradores”. Sabemos, no entanto, que só podemos continuar a ser uma referência no mercado se permanentemente nos questionarmos o que podemos fazer mais e melhor para continuarmos a servir os nossos clientes da melhor forma possível. É simultaneamente empolgante e assustador o quanto a empresa tem mudado de ano para ano. As excelentes críticas dos clientes dão-nos o sinal de que estamos no caminho certo e, apesar do nível que já atingimos, continuamos permanentemente a tentar adaptar-nos às novas necessidades dos nossos clientes.

Além dos fatores inerentes à mudança de vida de cada pessoa, existem muitas outras razões que fazem com que Portugal seja a opção mais vantajosa nessa jornada. Na sua perspetiva, quais são os principais motivos dos clientes para escolherem o nosso país para viver e investir?

Uma das primeiras expressões que aprendi em Portugal é “cada caso é um caso”. Na minha opinião, os motivos para emigrar para Portugal ou investir no país tornaram-se cada vez mais diversos. Quando começámos havia muito mais clientes que procuravam Portugal como um complemento. A maioria dos clientes eram europeus e estavam à procura de uma casa de férias, uma casa para a reforma ou uma propriedade como forma de investimento no presente e uso pessoal no futuro. De há alguns anos para hoje em dia, sentimos a crescente globalização no nosso trabalho. Os clientes vêm para Portugal por diversas razões: políticas, ideológicas ou até mesmo de segurança. Portugal oferece um amplo e moderno programa de vistos para não europeus, o que está a atrair muito interesse em todo o mundo. Temos também muitos casais do mesmo sexo ou “inter-raciais” que procuram uma sociedade mais tolerante e aberta. Muitos clientes também elogiam o elevado nível de segurança em Portugal, que nós europeus consideramos como um dado adquirido. Muitos estão também à procura de um futuro para os seus filhos, pois no seu país de origem, como nos EUA, a educação e a saúde são severamente limitadas pelos meios económicos dos pais.

Até à data, têm vindo a existir vários programas em Portugal que ajudam nesta mudança, nomeadamente os Vistos Gold. Que vantagens este Programa tem proporcionado não só aos investidores estrangeiros, como ao próprio mercado português?

Essencialmente, trata-se da questão de como nós, em Portugal e na Europa, asseguramos a imigração urgentemente necessária. Em Portugal, não precisamos apenas de migrantes que queiram melhorar a sua situação económica, mudando-se para Portugal. Precisamos também de migrantes que invistam no país, criem empregos, partilhem os nossos valores democráticos e possuam boas qualificações profissionais. O chamado Visto Gold é uma possibilidade. As partes interessadas têm de investir em Portugal e pagar impostos (bastante elevados até) ao Estado. Desta forma, os investimentos não beneficiam apenas o Estado, mas também a sociedade em geral. Quando os nossos clientes do Visto Gold investiram em bens imobiliários, os vendedores eram todos portugueses. A maioria das propriedades foi amplamente renovada após aquisição e posteriormente arrendada.

Certo é, o Primeiro Ministro António Costa aprovou, recentemente, o fim dos Vistos Gold – uma medida inserida no pacote de habitação, cujo objetivo é que mais casas possam entrar no mercado com preços mais acessíveis. Face à sua experiência, que impacto esta decisão terá em Portugal?

Em toda a discussão sobre o pacote de medidas, há que reconhecer, antes de mais, que existem problemas no mercado de arrendamento nas grandes cidades, o que se tornou um desafio para muitos portugueses e esta questão tem de ser tratada devidamente. Portugal não está sozinho neste problema. Em quase todas as sociedades ocidentais o preço das propriedades subiu acentuadamente e a habitação tornou-se escassa. O Visto Gold tem sido repetidamente utilizado como bode expiatório para estes problemas. Analisando os dados em concreto nos últimos anos, cerca de 970 pessoas por ano apresentaram uma candidatura ao Visto Gold. Isto representa aproximadamente de 0,2-0,3% das vendas de imóveis em Portugal por ano. Perante estes números, temos de reconhecer que os requerentes do Visto Gold não podem ser responsabilizados pela falta de habitação e pelo aumento dos preços em Portugal, com especial atenção que nem todos os requerentes do Visto Gold investiram em imóveis. Os estrangeiros, representam apenas cerca de 6% das compras imobiliárias, também têm sido responsabilizados pelos problemas do passado recente. Em termos simples, tem havido muito pouca construção nova em Portugal e as baixas taxas de juro têm motivado muitos nacionais a comprar propriedades existentes, o que tem causado a subida dos preços. Suspender o Visto Gold é, portanto, populista e de forma alguma ajuda a criar novas habitações. Pensar em medidas em que os investidores do Visto Gold podiam ser direcionados a investir só em habitação acessível ligados a renovações de edifícios antigos e vazios que são ainda muito comuns no Porto ou em Lisboa, seria talvez, mais importante para o financiamento necessário. O excesso de regulamentação e ameaças, na minha opinião, conduzirá exatamente ao contrário e porá em perigo a coesão social em Portugal. As classes média e alta vão se identificar ainda menos com o Estado. Sendo que nesta altura seria fulcral incentivar o setor privado e criar confiança. Ao mesmo tempo, as medidas irão manifestar uma classe crescente em Portugal que se tornará dependente dos benefícios do Estado.

Importa relembrar que o (bom) nome de Portugal tem vindo a crescer exponencialmente, nos últimos anos, no estrangeiro. Considera que o fim dos Vistos Gold poderá prejudicar a imagem do país e direcionar o investimento para outros mercados? O que mudaria, se pudesse?

Muitas das medidas do governo não têm certamente ajudado a aumentar a confiança no país. Haver este tipo de instabilidade não ajuda Portugal, nem em termos de investimento estrangeiro nem em investimento nacional. Portugal tem vindo a receber muita atenção nos últimos anos. Ouvi com muita frequência a frase “Portugal está na moda”. A popularidade de Portugal tem sido ajudada por outros fatores como a guerra da Ucrânia, Covid-19, Donald Trump, opressão do povo em Hong Kong, entre outros, para além das muitas vantagens deste fantástico país. A sensação que tenho é que o governo não tem sabido aproveitar os benefícios desta espécie de encantamento por Portugal para efetivamente melhorar a situação do país e as condições de vida da população. O objetivo deveria ser usar a popularidade de Portugal para promover mudanças na sociedade e na indústria para melhorar a prosperidade do país. Isto requer imigração qualificada e investimento do estrangeiro.

Neste processo de adaptação a um mercado sem um programa que o tem vindo a potenciar, de que forma a Pearls of Portugal vislumbra o seu setor a médio e longo prazo? Face aos desafios impostos, em que medida, a marca, continuará a ser uma parceira forte e justa para investidores imobiliários em Portugal?

Há um provérbio alemão que diz que “quando há tempestades, alguns constroem muros, outros moinhos”. Estamos numa excelente posição, mesmo sem o Visto Gold, pois este mercado sempre foi um nicho para nós e começamos a diversificar a empresa anos atrás. Por exemplo, este ano relançamos o nosso Marketplace para listagens de propriedades dos nossos parceiros, que tem grande interesse por parte dos agentes locais. Oferecemos uma nova plataforma de colaboração aos nossos clientes, onde todas as atividades são mapeadas. Expandimos grandemente os nossos serviços e concluímos numerosas novas parcerias. Desde março, oferecemos também todos os serviços em italiano, contando agora no total com sete línguas. Estamos muito bem posicionados nos rankings do Google em muitos países graças a uma ofensiva de SEO no ano passado. Por conseguinte, vemos as mudanças atuais mais como uma oportunidade de melhorar a nossa posição no mercado e estamos diligentemente a construir mais “moinhos”. Estamos progressivamente a avançar com o nosso crescimento e visão como fornecedor líder de serviços relacionados com o setor imobiliário e estamos felizes por poder trabalhar neste grande país.