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“Somos todos seres únicos e de exceção”

Cristina trabalha enquanto formadora internacional especializada em comportamento organizacional e desenvolvimento, gestão e administração, liderança e habilidades de comunicação há mais de 20 anos. Fale-nos um pouco sobre o seu trabalho.

Sou consultora internacional em Desenvolvimento Organizacional e Liderança, baseada em Moçambique há seis anos. Trabalho com e para pessoas há mais de 20 anos, e é essa a minha paixão de vida.

Comecei a dar formação no ensino técnico profissional, com 22 anos. Desde então, trabalho na área de desenvolvimento humano. Hoje em dia, faço projetos de Cultura Organizacional e Desenvolvimento de Liderança em organizações nas áreas da Banca, do Oil & gás e outras.

Ao longo da minha carreira, que começou na área de Marketing e Comunicação, investi sempre muito na minha formação académica e profissional. Acredito que a formação contínua é a base de crescimento de qualquer profissional, pelo que, independentemente da nossa idade e estágio de vida, deve fazer sempre parte do nosso percurso. Nunca é tarde para aprender. Tenho como propósito de vida gerar O Efeito Borboleta na sociedade levando a mudança para a sociedade através do meu trabalho nas organizações.

Ao longo desses 20 anos com certeza que houve episódios que a marcaram. Que história lhe ficou na memória e porquê?

A líder que, depois de um workshop de comunicação com a sua equipa, onde se promoveu o feedback aberto e honesto sobre os comportamentos da equipa, usou esse mesmo feedback para penalizar os seus colaboradores nas avaliações intermédias.

Um líder deve saber dar e receber feedback sobre si próprio, como sendo a única forma de melhorar e de trabalhar em equipa.

O que considera que é mais difícil no exercício de liderar pessoas?

O mais complexo é lidar com as emoções das pessoas e ensiná-las a gerir a sua inteligência emocional. As emoções são a base de todos os nossos comportamentos e atitudes. Movem o ser humano no sentido positivo ou negativo e condicionam os nossos resultados em termos de desempenho e eficácia de vida.

Devemos ter sempre presente que “SOMOS TODOS PERFEITOS NA DIMENSÃO DA NOSSA IMPERFEIÇÃO”. Aceitar as nossas imperfeições e abraçar a diversidade, recebendo o que cada um tem de bom para contribuir para os destinos das organizações.

Daquilo que tem vindo a observar ao longo do seu trabalho, quais são as piores práticas que muitas vezes são exercidas nas organizações?

As piores práticas estão muitas vezes ligadas à ausência de comunicação de uma visão clara sobre o que se pretende para a Organização e da partilha dos valores e missão da organização.

A não aplicação da “Teoria em Ação”, que consiste em praticar o que se advoga em teoria. O exercício errado dos cargos de poder, que leva a que se adotem comportamentos com um impacto negativo na eficácia das equipas. Um líder deve ser carismático, humilde, comunicativo, impulsionar o crescimento dos outros. Na prática, isso não acontece. Promove-se a punição e castigo de erros, o que leva a que se criem regras dentro das regras com medo de falhar.

A ausência de feedback positivo e construtivo e incentivo de comportamentos ligados ao exercício do poder. Não se estimula o pensamento crítico e criativo no seio das equipas. A maior parte das vezes, os colaboradores sabem o que a liderança espera deles. Mas os líderes não abrem espaço para saberem o que é esperado de si no exercício desses cargos de liderança.

Em 2013 um estudo comprovou que apenas 25 por cento das mulheres em Moçambique ocupavam posições de liderança nos setores privado e público. Passados seis anos, o panorama mudou?

Não mudou muito, infelizmente.

Na sua opinião, qual é o caminho a percorrer para que se dê uma maior paridade de género?

O caminho passa por gerar novas crenças e perspetivas sobre o papel de cada um dos gêneros na sociedade e na família. Empoderar as jovens e desenvolver as suas capacidades de liderança através de programas de capacitação e muita formação. E em simultâneo, empoderar os homens, para que passem a ter um novo olhar sobre as mulheres e sobre si próprios na sociedade, na família e nas organizações. Passa também por mudar a forma como estamos a educar os nossos filhos no que respeita a estas questões. São eles quem, no futuro, podem mudar o estado das coisas e viver com uma maior consciência sobre a equidade dos géneros.

Antes de sermos homens e mulheres, somos seres humanos. Com tudo o que isso implica no que respeita aos sonhos e expectativas de vida. E acredito que é esta a nova consciência que deve ser criada nas novas gerações. “SOMOS TODOS SERES ÚNICOS E DE EXCEÇÃO”. É essa unicidade e capacidade de fazermos coisas excecionais que nos deve caracterizar, muito para além do género.

“A vida ensina-nos a saber quais são as prioridades”

É professora e investigadora em Informática na Escola Superior de Tecnologia do IPCA. Quem é a Maria Manuela Cruz Cunha?

Estudei Engenharia de Sistemas e Informática na Universidade do Minho (UM) quando um computador ocupava uma sala. No início trabalhei ligada à universidade, mas as empresas e a produção industrial atraíam-me muito, e montei uma empresa informática, fui engenheira numa empresa têxtil, consultora de empresas industriais e gestora de uma organização de interface da UM. O meu doutoramento em Engenharia de Produção e Sistemas foi, por isso, uma escolha natural e fi-lo com um orientador da UM e outro da Universidade de Massachusetts. Era essencial para mim a dimensão internacional (por pouco não fiquei em Boston). Só no final dos anos 90 optei pela vida académica, atraída pela possibilidade de ajudar a construir uma escola de tecnologia numa instituição de ensino superior que se começava a desenhar na região do Cávado e do Ave e por acreditar verdadeiramente no poder das tecnologias para ajudar as pessoas.

Nasci em Luanda e vim para Portugal com 10 anos. Por isso gosto tanto do mar e de música com ritmo para dançar. Diz, quem me conhece bem, que sou distraída, que passo horas intermináveis ao computador, mas acham graça ao meu sentido de humor e ao facto de gostar, ainda e sempre, de Fellini e dos clássicos da literatura.

Autora e editora de mais de 30 livros e 150 artigos, é, ainda, o rosto e a voz de conferências internacionais na área das tecnologias, uma área ainda muito associada ao sexo masculino. Numa sociedade que impõe limites às mulheres, é fácil conciliar a vida pessoal com uma carreira profissional de sucesso?

Sou da geração de engenheiros informáticos com formação de banda larga. Hoje o paradigma é outro. O curriculum dos cursos tecnológicos é muito mais convergente e as outras áreas do conhecimento dependem da informática para o seu desenvolvimento. Temos de pensar de forma integrada com a humildade de aceitar outros conhecimentos que não passaram por nós. O que me atrai no que faço é conhecer diariamente talentos com novas motivações que nunca me tinham ocorrido. Por isso a troca de ideias é tão fundamental! As conferências em cuja organização participo e os livros que produzo surgiram desta necessidade.

Realmente não existem muitas mulheres nesta área. O Fórum Económico Mundial em 2016 salienta o grave problema que isso representa para o crescimento económico sustentável da sociedade, considerando os benefícios que talento, inovação e tecnologia têm como pilares essenciais da Quarta Revolução Industrial. Apenas 30% das mulheres trabalham em tecnologias e a esta escassez acresce o seu persistente desinteresse por esta área. O desafio será mostrar às jovens os novos horizontes da economia digital e o interesse de escolherem carreiras ligadas à ciência, tecnologia engenharia e matemática (STEM) para não ficarem excluídas deste novo modelo económico.

Nunca senti limites por ser mulher, mas sei que existem em outros contextos. Quando passei pela indústria, no final dos anos 80,  conheci a realidade das mulheres em profissões pouco qualificadas e com salários desiguais. Por sinal, no IPCA a representação feminina na gestão é elevada; a presidência é ocupada por uma mulher e a vice-presidência é atribuída a um homem e a uma mulher.

Tenho a sorte de ter uma excelente retaguarda na minha vida pessoal, que me dá liberdade para fazer aquilo que gosto. Os homens com quem trabalho são cheios de qualidades, altamente competentes, e devo-lhes grande parte dos meus resultados. Tento dividir o tempo entre o trabalho, a família e o lazer. No início da minha carreira o trabalho esteve em primeiro plano, chegando mesmo a estar antes de mim… Mas a vida vai-nos ensinando as prioridades.

O IPCA comemora 25 anos de Ensino Superior Público. São 25 anos de…?

Somos a mais jovem instituição pública de ensino superior. Hoje temos mais de 4500 estudantes que se dividem por quatro escolas, em cursos de TeSP, Licenciatura e Mestrado. Em 25 anos o IPCA tornou-se uma referência nacional e tem uma dinâmica importante para o desenvolvimento da região, em grande medida fruto da visão do recém-desaparecido Professor Doutor João Carvalho, que presidiu ao IPCA até 2016. Em particular a Escola Superior de Tecnologia (EST) foi pioneira em cursos como a Engenharia e Desenvolvimento de Jogos Digitais.

Que atividades tem previstas ao nível de temas como a transformação digital, indústria 4.0, cibersegurança?

O grande desafio da EST é, atualmente, o reconhecimento pela FCT do Laboratório de Inteligência Artificial Aplicada – 2Ai, um centro de investigação que vai albergar as atividades nesses temas. Vamos iniciar uma pós-graduação em Cibersegurança e Informática Forense, organizamos a Semana Industry 4.0, coordenamos a edição de 2019 do International Symposium on Digital Forensic and Security e participo na organização da CENTERIS 2019 a ter lugar na Tunísia em outubro próximo.

Ilha de Santiago: das praias e das dunas ao turismo inclusivo e diversificado

Depois de assumir a gerência da PraiaTur – Agência de Viagens e Turismo, há três anos, Marvela Rodrigues começou a trabalhar no sentido de implementar na Ilha de Santiago o que há muito ambicionava e idealizava: um turismo histórico e cultural.

Santiago é a maior ilha de Cabo Verde e é conhecida pelas praias e pela cultura crioula portuguesa/africana. É aqui, na Ilha de Santiago, que Marvela sabe que ainda há muito a fazer no que diz respeito ao turismo e que ainda existem muitas valências por explorar. “Santiago não é só praia. Santiago é muito mais. É história e cultura”, diz-nos Marvela Rodrigues.

Santiago é uma das ilhas com melhores condições para um turismo inclusivo e diversificado. Santiago, a primeira ilha de Cabo Verde a ser descoberta, em 1460, tem praias, uma cultura rica e muita história para contar.

Na IV Edição do Somos Cabo Verde 2018, Marvela Rodrigues foi pré-nomeada na categoria de Turismo pelo trabalho que tem feito no sentido de desenvolver o turismo na Ilha de Santiago, com vários projetos turísticos que têm essa ilha como foco.

Falemos do “Projeto Darwin”, a partir do qual desenvolveu o circuito turístico Charles Darwin, evocando a sua passagem por Cabo Verde em 1844. Esse circuito deu origem a um livro da autoria de António Correia e Silva e Zelinda Cohen, “Cabo Verde, o despertar de DARWIN”, que foi lançado em 2017 no Grémio e na BTL- Feira de Turismo, em Lisboa, com uma boa aceitação. Em Cabo Verde, foi lançado na presidência da República em Abril do mesmo ano.

Este projeto vai ao encontro da forte pesquisa que tem feito para desenvolver um turismo histórico e cultural em Santiago, tendo por base a qualidade e veracidade dos dados.

Em Cabo Verde poucas pessoas têm conhecimento da passagem de Charles Darwin pelo país e é este turismo cultural e histórico que Marvela quer promover e desenvolver, quer para os próprios cabo-verdianos quer para quem visita o arquipélago. “Em Cabo Verde temos muito mais para contar”. Para o ano de 2019/2020 este circuito, que precisa de ser requalificado, estará pronto para receber grupos turísticos.

Neste ponto questionámos Marvela Rodrigues sobre as vantagens da nova medida que visa cidadãos da União Europeia a estarem isentos de visto para Cabo Verde em 2019. Esta é uma medida que acarreta vantagens para o turismo em Cabo Verde? Já se fez sentir os efeitos desta medida? “Para já ainda não, até porque a emissão do visto não exigia uma burocracia demorada, não sendo, por isso mesmo, um entrave para quem quisesse visitar Cabo Verde. Quanto às vantagens desta medida, ainda é cedo para se saber se a isenção de visto trará ou não um aumento do turismo”, diz-nos Marvela Rodrigues.

Mas continuemos a falar dos seus projetos. Outro dos projetos em mãos e pronto para arrancar é de cariz sócio educacional. Direcionado para a camada mais jovem, e sabendo que é em criança que se incute valores, Marvela tem já uma parceria com uma escola de Santiago para desenvolver um projeto sobre o turismo nas escolas, desde a pré-primária. O objetivo é ensinar e mostrar aos mais pequenos as mais-valias e as vantagens do turismo para Santiago e para Cabo Verde, e como se pode receber e acolher turistas.

Por outro lado, Marvela Rodrigues também se destaca nos projetos de âmbito social. Tem, igualmente, em carteira, um novo projeto social com mulheres reformadas, visando aproveitar o know-how destas e ajudar jovens mulheres em várias vertentes. Juntamente com outras associações, tem desenvolvido um trabalho junto da comunidade no que diz respeito à inclusão, sobretudo de mulheres. Tem conhecimento que, chegado o momento da reforma ou em casos em que mulheres se ocupam inteiramente das tarefas domésticas, acabam por atravessar situações difíceis ou estados de saúde frágeis. Este projeto, que arranca este ano, servirá para apoiar essas mulheres. Servirá para apoiar as gentes da Ilha de Santiago, não fosse Marvela Rodrigues uma mulher de causas.

“Quanto mais trabalho mais sorte tenho”

E engenheira e desde cedo que está envolvida em projetos de tecnologia e de telecomunicações e hoje dedica-se à consultoria. Que história pode ser contada sobre o seu percurso e quais são as suas motivações?

No nono ano descobri logo qual seria a minha vocação. Um dos resultados de testes psicotécnicos que fiz na época indicava que seria boa enquanto analista de sistemas. Pedi logo ao meu pai que me levasse a ver um computador ao LNEC e assim que vi o primeiro computador apaixonei-me, estávamos na década de 80. Como sempre gostei de coisas diferentes, andei sempre a dizer aos meus amigos que seria analista de sistemas. Quando entrei na faculdade ingressei em matemática aplicada, algo que até preocupou a minha família: “afinal, o que é que ela vai fazer em matemática”?

Tive a sorte de, em 1990, sair do primeiro curso que existiu no Instituto Superior Técnico de Lisboa, o de Matemática Aplicada à Ciência de Computação. Ingressei logo na banca e tive sempre um excelente enquadramento. Comecei em ciência da computação e rapidamente cheguei a chefe de equipas e foi aí que percebi que adorava gerir pessoas.

Quando decidi criar a minha empresa já tinha arrecadado contactos e conhecia bem o mercado. O meu pai já era empresário e quando disse que seria a minha vez não foi algo inesperado, aliás, na área de consultoria é uma evolução normal. Criar a própria empresa é um dos dois caminhos possíveis. Acredito piamente que as coisas se fazem melhor com qualidade e daí a minha paixão pela consultoria na qualidade do software. Se tivermos um bom processo, escalamos de forma diferente e criamos valor aos clientes. Era uma área onde já era reconhecida e por isso abrir a minha empresa foi fácil.

Considero que tive sorte quando comecei ciência da computação, em 1990, quando ninguém sabia o que isso era. A componente da matemática sempre me foi fácil, a abstração e a formalização agradam-me. Fui realizando projetos enquanto gestora de projeto para organizar a entrega e acabei na consultoria porque gosto de organizar/ajudar a reorganizar as empresas dos outros.

Acredito que as metas são importantes e, por isso, liguei a minha consultoria aos standards para haver uma certificação no fim. Deste modo, fui-me dedicando à certificação em qualidade de software, que é a minha área de origem.

Gosto de trabalhar com pessoas e a consultoria de processos implica a gestão de mudança da vida das pessoas que executam ou são afetadas por esses processos.

O que a levou a escolher uma área como a tecnologia para construir uma carreira?

Na minha família “Letras são tretas”, venho de uma família de engenheiros e militares. Pais engenheiros químicos, irmão mais velho químico, irmã agrónoma, lá acabei no IST. Penso que não poderia ser de outra forma…

Como surgiu a Quasinfalível que hoje já conta com nove anos de existência?

A Quasinfalível surge do meu gosto pela engenharia de software e pelo facto de, tendo sido consultora/gestora de projeto ao longo de 20 anos, conhecer bem o mercado e ter boa imagem junto dele.

As grandes empresas na altura não se preocupavam em ter departamentos dedicados à engenharia de software e daí ter querido apostar nisto. No entanto, não me lembro de acordar e de pensar “vou criar a minha empresa”.  foi algo muito natural, quase como um passo que tinha que ser dado. Nunca tive medo porque tinha contactos e até tive a sorte de, logo no início, ter tido um grande projeto para começar.

Qual foi o maior desafio profissional que já enfrentou?

Os projetos trazem-nos sempre desafios. O maior desafio foi enfrentado na Nigéria, em Lagos, que não é uma cidade fácil. Uma mulher em África – sinónimo de vida muito restringida -, nem à rua podia sair sem ser de carro. A falta de respeito no ambiente de trabalho foi das coisas mais difíceis de gerir. Outro episódio que me marcou também, embora de forma diferente, foi no Brasil, onde estive envolvida num projeto de reestruturação de uma equipa de consultoria em que a minha missão era despedir e contratar outras pessoas, e depois ter que deixar tudo a funcionar; foram nove meses repletos de stress.

Na sua opinião, o acesso a cargos de topo ainda são lugares mais vedados às mulheres? 

Sim, pelo menos no meu meio, que é um meio de engenharia, onde os homens são claramente a maioria. Existem programas internacionais como o girlsintech (https://girlsintech.org/) para combater essa tendência, mas que não têm resultado. A pirâmide não é alimentada de baixo, por isso, a probabilidade é baixa mesmo admitindo que não há discriminação. Talvez faltem mais incentivos para que mais mulheres escolham a tecnologia como carreira.

Que características elege como as principais para se alcançar o sucesso?

99% de transpiração, 1% de inspiração. E sobretudo estar atento. Quanto mais treino mais sorte tenho, – este é claramente um lema de vida – o sucesso vem, indubitavelmente, do trabalho. Tudo o que alcancei foi sempre através de muito trabalho e não conheço outra realidade.

Como é que se define enquanto empresária? Sente que é diferente de quando trabalhava noutras empresas?

Obviamente que é muito diferente ser empresária do que ser assalariada. A responsabilidade de ter dinheiro para pagar salários é a grande diferença. Ter de pensar no futuro enquanto se garante o presente não é fácil.

Gosto de pensar que me preocupo com as pessoas com quem trabalho, que tento criar ambientes que são propícios a uma pessoa acordar de manhã e ter vontade de vir trabalhar.

Foi difícil dar este passo? Que conselho gostaria de deixar a quem está a pensar fazer mudanças a nível profissional?

Não foi muito difícil o primeiro, mas há muitos que custam muito mais do que o primeiro. Tudo aquilo que temos de fazer é sair da nossa zona de conforto.

Conselhos… Preparem-se para o pior. Existirão dias que tudo vai ser ainda pior. Construam uma empresa assente em coisas de que gostam realmente de fazer, porque se faltar o dinheiro, pelo menos, divertem-se; aprendam os básicos de contabilidade, vocabulário destas matérias, proficiência com números; trabalhem em rede; troquem serviços com outros consultores e avaliem os vossos valores. Trabalhem com pessoas que partilhem desses valores, senão não vai funcionar bem.

Ei! Assessoria migratória: a primeira agência migratória em Portugal

Toda a sua vida profissional foi em torno da consultoria empresarial e fiscal, na área da internacionalização. Então, em que momento da sua vida surge este projeto, o Ei! Assessoria migratória?

Trabalhava como consultora em Angola, e enquanto emigrante senti na pele todas as dificuldades que uma pessoa nessa condição sofre. Quando fui para Angola, trabalhei não só em consultoria, como também auxiliei expatriados a fixarem-se lá e isso deu-me as bases para o que viria a criar no futuro.

A ideia de criar a empresa surgiu quando comecei a pensar em regressar a Portugal. Procurei saber que negócio poderia criar e, como sempre gostei da área do Direito dedicada aos estrangeiros e do tema das migrações, após uma pesquisa, verifiquei que cá não existia nenhuma agência migratória. Nos países anglo-saxónicos já existiam as chamadas migrations agencies e foi inspirada nesse modelo que criei a Ei!.

Afirma-se uma cidadã do mundo. Como cidadã do mundo o que mais a choca/preocupa nos dias de hoje?

Neste momento existem muitos problemas no mundo que me preocupam, como por exemplo a questão da Síria e dos refugiados.

A tendência é assistirmos a uma maior globalização, por isso mesmo me sinto uma cidadã do mundo mas espero que os meus filhos e as gerações futuras sintam isso ainda de uma forma mais natural. Espero que vivam num mundo com menos barreiras migratórias, que possam estudar e trabalhar onde quiserem, sem grandes problemas. Não deveriam existir tantas barreiras nem tantos preconceitos, tento transpor isso na educação dos meus filhos e aplico esses valores e convicções no meu trabalho.

Na sequência das necessidades geradas pela mobilidade geográfica dos dias de hoje, a Ei! tem como objetivo facilitar a vida a todos os que decidam procurar novos desafios. Com que principais entraves/dificuldades ou obstáculos se deparam mais as pessoas que vos procuram?

Se pertencerem a um país que não faça parte do espaço schengen, as dificuldades começam logo com a obtenção do visto. Existem vários tipos vistos. Mas qualquer um deles tem de ser obtido no consulado português mais próximo da área de residência – isto para um estrangeiro. Depois, as dificuldades começam logo com o tipo de visto deve solicitar, que documentos são necessários. Após a obtenção do visto tudo se torna mais fácil mas até aí é complicado…

Para os cidadãos da EU, a barreira linguistica e o lidar com as burocracias portuguesas são de longe o mais difícil em todo o processo. Desde ir à repartição das finanças para requisitar um NIF, depois obter o certificado de residência de cidadão da EU, inscrição no centro se saúde.

Como nem sempre os vistos são aceites, preferimos trabalhar de uma forma preventiva. Em primeiro lugar, analisamos o perfil da pessoa e vemos se reúne as condições necessárias. No caso de não serem aceites, a deceção é grande mas a nossa lei prevê a possibilidade de recorrer dessa decisão. A nossa lei dos estrangeiros é equilibrada e humana o que torna Portugal um dos países do mundo que mais e melhor recebe os imigrantes.

Receber bem é, por exemplo, permitir que filhos de imigrantes que não estão legalizados ou que estejam em processo de legalização, tenham acesso ao ensino público e que todos possam ter acesso também a cuidados de saúde. Os nossos hospitais públicos não recusam ninguém e isso não acontece em muitos países. Este é um forte motivo que eleva a procura de viver em Portugal…

Neste momento os brasileiros são o maior número de imigrantes em Portugal. A questão da instabilidade económico-social e da dos elevados índices de criminalidade são os principais motivos.

Porquê Portugal?

Portugal reúne algumas condições que são procuradas por diferentes requisitos. No caso dos brasileiros, as preocupações principais são a educação dos filhos e estabilidade social e a segurança. Os norte-americanos procuram, essencialmente, cuidados de saúde a um custo aceitável. Os reformados de países da EU procuram benefícios fiscais, o que lhes permite ter uma vida mais desafogada do que no país de origem.

Os portugueses estão sempre a reclamar e, na minha opinião, não valorizam o país que têm. Uma cliente brasileira contou-me há uns tempos que deixou tudo o que tinha no Brasil – que não era pouco – mas que nada era mais valioso do que poder ir até a um café à noite e caminhar pela rua com a filha tranquilamente sem medo de ser assaltada ou morta. Por isso, penso que está na hora de os portugueses perceberem que aquilo que temos neste pequeno país é grande, bom e não tem preço.

Uma história para partilhar…

É tão difícil escolher uma… são imensas e nem todas podem ser partilhadas.

Mas talvez a de um casal norte-americano que procurou Portugal por motivos de saúde. O senhor sobreviveu a quatro cancros e praticamente foi à falência nos EUA por causa disso, uma vez que lá os cuidados de saúde são pagos a peso de ouro. Decidiram vir para Portugal porque depois de exaustas pesquisas percebeu que se lhe acontecesse alguma coisa sabia que iria ser assistido e que para isso não teria que ficar totalmente sem dinheiro.

“Porquê adaptares-te se nasceste para te destacares?”

A sua empresa é especializada no estudo de perfis de energia, integração de sistemas e gestão de consumos de grandes instalações elétricas. Este projeto surgiu na sua vida num momento em que sentiu a necessidade de dar o próximo passo. “Construí a minha carreira profissional de forma a conseguir obter a experiência e os conhecimentos fundamentais para fundar a minha própria empresa”, começa por nos dizer Helena Patacão.

Nessa altura, relembra, o país atravessava uma crise financeira e económica. Mesmo assim, decidiu arriscar e dar este passo. “A minha filha tinha apenas quatro anos. Sendo eu mãe solteira, este foi, sem dúvida, um grande desafio quer na minha carreira profissional quer na minha vida pessoal”, diz-nos.

Conta com 14 anos de experiência neste mercado, é líder na criação de novas estratégias de negociação focadas no mercado elétrico, e já foi distinguida com 7 prémios de liderança desde 2004. Podemos dizer que a veia empreendedora já nasceu consigo? Questionámo-la. Helena Patacão acredita que sim. Sabe desde pequena que o seu perfil a indicava como líder e lembra-se, ainda na escola primária, de começar a liderar trabalhos e grupos. “Quer o sentido de responsabilidade quer o sentido de independência chegaram muito cedo à minha vida, pois desde sempre ambicionei a liderança. Acredito que é uma capacidade inata, e que um bom líder tem de reunir determinadas características na sua personalidade. O bom carácter, o sentido de responsabilidade e de justiça, e a independência na tomada de ações e decisões são fatores determinantes no meu sucesso como líder e empreendedora”, realça.

A sua ânsia pela independência levou-a a querer começar a trabalhar cedo e ir viver sozinha. Queria ser autónoma, e aos 21 anos já tinha a cargo uma equipa de 30 pessoas. Como é que concilia, no seu dia a dia, ser mãe solteira, sem ajuda de familiares, com a sua vida de empresária? “Acima de tudo é necessária muita disciplina, rigor na gestão de tempo, espírito de sacrifício e a capacidade de saber gerir prioridades. Sou guiada pelo sucesso e não me permito falhar como mãe. Ser mãe todos os dias, mimar, dar banho, cozinhar, acompanhar os trabalhos escolares, brincar, e observar a evolução da minha filha, que é o grande amor da minha vida. Sacrifico muitas vezes o tempo que seria necessário para realizar algumas reuniões ou para terminar algum trabalho importante, mas sendo ela a minha prioridade, opto por depois de um dia cansativo, e após ela já estar a dormir, ficar até altas horas da noite a trabalhar para poder cumprir com as metas que estabeleço e as responsabilidades que assumo”.

Praticante e treinadora de Karaté, a nossa entrevistada não tem dúvidas que as artes marciais, as quais fazem parte da sua vida desde os sete anos de idade, também influenciaram na sua maneira de ser e na sua capacidade para liderar. “O espírito de luta e de competição, o espírito de equipa e os desafios associados ao Karaté e às artes marciais vão ao encontro da pessoa que sou. Capacidades desenvolvidas como a perseverança, necessária para nunca desistir, a superação dos limites físicos da dor e cansaço, bem como a capacidade de concentração, tornaram-se um modo intrínseco à minha forma de estar na vida e à minha personalidade. É desta forma que me é possível superar as dificuldades e adversidades da vida sem lamentações e vencer qualquer obstáculo”.

Mas quem é, afinal, Helena Patacão, enquanto mulher e enquanto profissional? “Em qualquer circunstância sou sempre grata e humilde, quer na aprendizagem quer no relacionamento com o próximo. Sou exigente comigo mesma e estou em constante auto análise, auto crítica e melhoria evolutiva, porque acima de tudo é um dever dar o exemplo, como mulher, mãe e profissional”, realça Helena Patacão.

Para a nossa entrevistada, um líder tem de ser uma pessoa humana, com capacidade para perceber que os negócios e as empresas são feitas de pessoas.

Mas que características julga cruciais para alcançar o sucesso? Desde sempre que Helena usa a expressão “o dinheiro é a recompensa do trabalho e o sucesso é a recompensa de um excelente trabalho”.

Partindo desse seu princípio, diz-nos que é importante definir que posição pretendemos ocupar no mercado de trabalho, se queremos ser mais um número ou queremos atingir a excelência. “No entanto, para atingir a excelência é preciso saber identificar o elemento diferenciador e aplicá-lo no meio que nos rodeia, sabendo como utilizar e aproveitar as próprias capacidades”.

E que verdadeiros desafios enfrenta uma mulher líder e empreendedora nos dias de hoje? Para a nossa entrevistada existe uma dificuldade acrescida e os desafios são muito maiores pelo facto de se ser mulher, sobretudo nesta área: uma área técnica e associada, maioritariamente, ao sexo masculino. “Já vemos algumas mulheres com alguma influência em cargos de liderança, no entanto, quando falamos de administração de empresas, esta, ainda é exercida em grande parte por homens. É gratificante ser respeitada, reconhecida e distinguida neste meio, mas precisamos de mais mulheres empreendedoras”, realça.

DE PORTUGAL PARA OS EMIRADOS ÁRABES UNIDOS

Depois de uma restruturação e adaptação da empresa, Helena Patacão irá agora apostar na sua internacionalização e integração em mercados estrangeiros, com grande foco nos Emirados Árabes Unidos, onde terá sede própria, mas sem descurar o trabalho em Portugal.

Especializada em gestão eficiente de energia de edifícios na indústria, Helena Patacão tem trabalhado, em Portugal, para grandes empresas e clientes de renome e alerta para a responsabilidade sócio-económica-ambiental: “é imperativo a construção de sustentabilidade e independência energética, como medida de responsabilidade sócio ambiental e mudança de mentalidades”.

Irá agora aplicar os seus conhecimentos e desenvolver projetos nos Emirados Árabes Unidos.

O Dubai, que será o centro de operações para trabalhar com o médio oriente, foi a escolha natural por reunir as melhores condições dentro da conjuntura atual económica mundial e pelo seu potencial de desenvolvimento e crescimento. “Identifico-me com as suas estratégias, cultura, leis e metas, e admiro as práticas de liderança da família real do Dubai. Reúnem todas as condições que necessito para ser melhor e mais criativa, e acredito que o meu perfil, conhecimentos e experiência, sejam uma mais-valia e que possa fazer a diferença numa sociedade que incentiva e apoia a mulher empreendedora”.

Dentro da evolução do próprio mercado elétrico, e uma vez que a legislação já permite a produção de energia elétrica para autoconsumo, existem cada vez mais empresas no mercado que apresentam propostas e soluções aos clientes. “Torna-se crucial analisar, apurar e estudar o perfil energético, introduzir medidas de alteração de práticas comportamentais, observando as condições técnicas e legais, para que as empresas, face à oferta tão diversificada e disparidade de preços com que se deparam, obtenham as garantias necessárias para a execução dos seus projetos”. É aqui que a Helena Patacão Investments lidera, pois além de viabilizar a negociação, defendendo os interesses do cliente e garantindo o melhor rácio-performance de qualquer medida a ser implementada, viabiliza financeiramente a operação evitando o investimento de capitais próprios por parte do cliente. “Garanto sempre que o cliente está a obter a melhor solução técnica e financeira”, diz-nos.

Para Helena Patacão, as empresas portuguesas sentem cada vez mais as dificuldades financeiras que advêm das exigências da competitividade dos mercados e das imposições fiscais. “Estas dificuldades levam à procura incessante por parte dos gestores a repensarem as suas estratégias por forma a se adaptarem a um ciclo de sobrevivência que estrangula a liquidez financeira”.

O desenvolvimento de projetos nos Emirados Árabes Unidos terá os seus desafios, uma vez que cada mercado tem as suas especificidades. No entanto, para Helena Patacão, é necessário adaptar o modelo de negócio às necessidades e realidades de cada mercado, e ganha-se quando se descobre a necessidade em falta e se preenche uma lacuna. “Aplico a minha técnica em que identifico «o que está em falta e o que está errado». É com base na resposta que proporciono a estas duas questões, que assento a base das minhas estratégias e realizo operações de negócio de sucesso”.

Assim, o maior desafio será mesmo ser bem-sucedida no Dubai, emirado que conquista inúmeros prémios de liderança mundial em diversas áreas. “Este é um desafio ambicioso e que exige alguma coragem. Numa das minhas visitas ao Dubai, uma personalidade notável mundialmente reconhecida, que se tornara meu bom amigo, disse-me, utilizando uma frase do conhecido Dr. Seuss… “Porquê adaptares-te se nasceste para te destacares?” (“Why fit in when you were born to stand out?”). “Esta é agora a minha principal diretriz, e, sem dúvida, o maior incentivo para acreditar que esta aposta tem tudo para vencer”, conclui a nossa entrevistada.

Quem é Helena Patacão

Helena Patacão estimula a versatilidade por considerar que enriquece a personalidade e fortalece o carácter.

É Treinadora de Karaté e fundou a classe KAMAE de defesa pessoal para mulheres que ensina a prática de movimentos e técnicas de reação utilizadas para preservar a integridade física e emocional da mulher.

É também adepta participante em diversos eventos de competição do desporto automóvel, onde também já conquistou alguns prémios.

Integridade: o pilar da PahlConsulting

É em abril de 2018 que surge a PahlConsulting, uma ramificação da PahlData, uma empresa que conta já com mais de 30 anos de presença em Portugal nas áreas das tecnologias e das telecomunicações.

Recentemente, a Pahldata, de origem espanhola, sofreu uma profunda reestruturação e foi adquirida por um grupo que viu uma empresa com nome no mercado, com uma base de clientes sólida e um conjunto de certificações que lhe conferem um enorme prestígio.

Direcionada para as grandes empresas e de índole tecnológica, surge a ambição de crescer em termos de valor acrescentado para os seus clientes.

É aqui que surge Cristina Ferreira, Managing Partner da PahlConsulting. Com uma carreira consolidada na área da consultadoria de gestão, e após ter deixado, no final de 2017, a liderança da área de estratégia e de operações de outra empresa, por sentir que a sua missão estava cumprida, surge a proposta a Cristina Ferreira de abraçar o desafio de criar a PahlConsulting. Este projeto surge exatamente num momento da sua vida em que sentia a necessidade de uma mudança.

A PahlConsulting nasce, assim, em abril de 2018, como um braço de consultadoria de gestão da PahlData. Com uma prestação de serviços diversificada, nas áreas de transformação digital, inovação, segurança de informação, incentivos, controlo interno, entre outros, teve um forte crescimento em apenas oito meses. “Começámos com a certeza de que sabíamos o que queríamos e o que não queríamos fazer”, começa por referir Cristina Ferreira.

O objetivo era construir um projeto que fosse para todos e, por isso mesmo, sabia o que não queria numa empresa que iria liderar, bem como queria ter a garantia de que a sua equipa e os acionistas estariam de acordo com a sua visão. “Estava à procura de criar uma empresa com uma visão a médio e longo prazo. É assim que as empresas conseguem alcançar o sucesso”, acrescenta Cristina Ferreira.

Cristina Ferreira explica, ainda, que uma empresa de serviços como a PahlConsulting – que vive das pessoas, das suas competências e know-how -, vende conhecimento, credibilidade e confiança. “Isto significa que não posso olhar apenas para o retorno do acionista. Tenho que ter uma equipa motivada, empenhada e comprometida com o projeto. Tenho de ter clientes que confiam em nós, na nossa capacidade e que é connosco que querem trabalhar”, reforça a nossa entrevistada.

Sendo a PahlConsulting uma empresa que acabou de ser criada e que ainda está a construir o seu caminho e a sua marca, Cristina Ferreira já sabe qual é o seu caminho: criar uma empresa com uma equipa motivada e qualificada, investindo em formações, certificações e com foco em áreas do futuro como a transformação digital e a segurança da informação. “Vivemos num mundo cada vez mais digital. Nunca se produziu tanta informação como agora e nunca as empresas e as pessoas estiveram tão vulneráveis relativamente a questões como a segurança de informação, proteção de dados ou ataques cibernéticos. Estas são, tendencionalmente, áreas de investimento e a PahlConsulting quer estar, claramente, na linha da frente nestas áreas”.

“AQUILO QUE NÃO SERVE PARA MIM TAMBÉM NÃO SERVE PARA OS OUTROS”

A liderança e a gestão feminina nas empresas têm vindo a crescer nos últimos anos em Portugal. No entanto, estudos demonstram que cargos de direção continuam a ser dos homens e que só nas áreas da qualidade e dos recursos humanos é que o comando feminino é mais notado. Relativamente às dificuldades/obstáculos que as mulheres ainda enfrentam durante o seu percurso profissional e tendo em atenção os diferentes estilos de liderança, Cristina Ferreira acredita que o género não faz uma liderança ser melhor ou pior, mas sim os valores e a formação. “Existem pessoas que veem a liderança como um todo e numa perspetiva de conjunto e outras que a encaram como uma projeção pessoal”, diz-nos Cristina Ferreira.

Licenciada em Economia, Cristina Ferreira teve um percurso profissional bastante enriquecedor, contactando com diferentes pessoas que lhe permitiram criar a visão sobre liderança que hoje tem. “Há um princípio que aplico no meu dia a dia: aquilo que não serve para mim também não serve para os outros. A liderança implica tomar decisões difíceis e tomar posições rígidas, mas também implica espírito de equipa e compreensão pelos problemas de cada um e aí talvez o lado maternal que as mulheres detêm, faça alguma diferença. Acima de tudo aquilo que me move do ponto de vista da liderança é a justiça e a construção de algo em equipa”, conclui a nossa entrevistada.

Já não é preciso esperar pelo verão para comer a deliciosa bolacha americana

Ela cresceu e agora é uma senhora, a Dona Bolacha! Devidamente embalada e rotulada”. Como surgiu este projeto na sua vida e que balanço pode ser feito acerca do crescimento da marca de uma das bolachas mais famosas do mundo?      

O projeto Dona Bolacha surgiu em 2015, pela mão de três primas, que tinham vontade de trazer para os dias de hoje uma recordação da sua infância – a bolacha americana.

É um produto incontornável de tradição e recordação dos verões da nossa infância. Cresceu connosco e, por isso, é hoje uma senhora, a “Dona Bolacha”.

Ao longo dos quatro anos de atividade, tem-se revelado um projeto inspirador e desafiante. Inspirador, uma vez que as novas gerações parecem ter o mesmo olhar que nós tivemos enquanto crianças para a Bolacha Americana. Desafiante, dado que procurámos inovar, criando novos sabores para a tradicional Bolacha Americana.

O projeto teve uma excelente aceitação desde o início. O carinho dos clientes pela Dona Bolacha é evidente e enche-nos de orgulho. A marca tem crescido na sua oferta e em volume de negócios.

Quais foram as suas principais preocupações na hora de criar um negócio em que o produto é tão tradicional e conhecido de todos?  

A nossa principal preocupação foi fazer a bolacha da nossa infância sem a desvirtuar. Fazer a bolacha que nos estava na memória. Mas fazê-la com o máximo de qualidade possível e adaptá-la ao conceito que pretendíamos criar. Para isso houve necessidade de rever e afinar receitas. Houve também necessidade de selar e rotular a bolacha para ser vendida em diversos pontos de venda e durante todo o ano.

Em 2016 lançaram a bolacha americana salgada. Como foi introduzir esta gama ao mercado? Foi uma espécie de “primeiro estranha-se e depois entranha-se”?

Pretendíamos fazer algo de novo e diferente. Algo que não existisse. Então surgiu a ideia de criar uma bolacha americana salgada, um produto inovador.

Tentámos dissociar a bolacha americana dos momentos de praia, com sol,  mar e calor. Tentámos associar esta nova bolacha a outros ambientes. Eventualmente a um jantar, a acompanhar um queijo, ou mesmo um copo de vinho.

Quisemos antes de mais criar algo novo, mas também chegar a outro tipo de público e a outra posição no mercado. E foi isso mesmo que aconteceu. Hoje a Dona Bolacha Salgada é um sucesso.

Estão pensados, como forma de estratégia empresarial, eventos de marketing e parcerias comerciais. Pode falar-nos um pouco sobre isto?

A Dona Bolacha tem realizado a sua atividade comercial através de vários canais de distribuição. A empresa vende a revendedores selecionados e também diretamente ao cliente final (particular e empresarial). Em simultâneo, participa também com frequência em mercados e mercaditos, feiras e eventos. Estas participações têm um propósito duplo: a promoção da marca e realização de vendas.

Desde 2015 que a Dona Bolacha está no mercado e que nos habituou a formatos e sabores diferentes da tão tradicional bolacha americana. Vem aí uma nova receita, o que podemos saber?

Desde que o projeto iniciou a Dona Bolacha lançou três Bolachas de diferentes tamanhos e seis sabores. Atualmente estão em comercialização duas gamas de bolacha. Uma gama doce, com os sabores original, canela, cacau e alfarroba. E uma gama salgada, com sabor de queijo de cabra e de água e sal.

Quanto a novidades, podemos desde já adiantar que o dia dos namorados vai servir para apresentar a bolacha especial em forma de coração.

Qual é o maior segredo da Dona Bolacha?

O segredo para o sucesso da Dona Bolacha, reside na verdade num conjunto alargado de fatores. O facto de termos conseguido criar uma receita própria e diferenciada de Bolacha Americana, sem perder ou desvirtuar a bolacha da nossa infância, a da memória coletiva, revelou-se fundamental para o sucesso do projeto. A Dona Bolacha criou um novo conceito, a Bolacha Americana selada e embalada com um prazo para consumo um pouco mais alargado, o que permitiu retirar a bolacha das praias e trazê-la para o consumo do dia-a-dia. Uma novidade!

Também a dedicação e a atenção prestadas levam a que a Dona Bolacha seja muito acarinhada não só pelos nossos clientes, mas por todos.

Com tudo isto, conseguimos de alguma forma associar tradição a inovação e revitalizar a bolacha Americana, transformando-a num produto Gourmet, mas acima de tudo num produto querido e desejado pelas pessoas.

Dizer «eu não quero isto para mim» é um ato de coragem

O que faço? Como o faço? E porque o faço? Estas são algumas das questões às quais Ligia Ramos nos responde. Mas tudo se resume a uma maneira de ser e de estar: Ligia Ramos treina pessoas e equipas para serem a melhor versão delas mesmas.

A trabalhar entre Portugal e Holanda durante algum tempo, Ligia Ramos fixou-se em Amesterdão há cinco anos, o lugar onde encontrou o seu verdadeiro “eu” e onde se sente completamente realizada. Mãe de três filhos e quando chegou a altura de escolher onde é que os seus filhos iriam crescer, a decisão da família foi que seria na Holanda que queriam viver.

A In2motivation já existia na sua vida, mais precisamente há 12 anos quando o seu marido, Peter Koijen, decide fundar a empresa com a intenção de “criar momentos que deem às empresas e aos indivíduos mais liberdade e formas de criar mudanças, escolhas e motivações positivas, num mundo em mudança”.

Na In2motivation, coragem é a palavra de ordem e o foco é o desenvolvimento pessoal e profissional.

Desde 2006 que a In2motivation trabalha em contexto internacional tendo como princípios básicos a experiência, a liberdade e a simplicidade. O foco é criar experiências que promovam em cada pessoa ou equipa a oportunidade de escolher. A In2motivation tem a ambição de que as pessoas sejam autónomas e independentes, e que usem todas as ferramentas entregues e experimentadas durante as sessões de formação para aumentar a escolha individual. “Queremos que sejam elas a escolherem por onde e como querem fazer o seu caminho. Queremos criar autonomia. Este é, para nós, o ponto principal do desenvolvimento pessoal. Queremos que tomem consciência das suas próprias decisões e do que é melhor para si, sem estarem dependentes de algo ou alguém”, afirma Ligia Ramos, salientando que tudo aquilo que fazem, bem como todo o conteúdo que entregam, é sempre transformado numa ferramenta que pode ser utilizada no dia a dia de adultos, jovens ou crianças.

“UM BOM COACH SERÁ BOM EM QUALQUER SITUAÇÃO”

Até há bem pouco tempo o coaching era um conceito pouco falado em Portugal. O que é, para que serve, que transformação provoca nas pessoas, eram as questões mais colocadas. Só agora é que se tem verificado um aumento na procura de sessões individuais e/ou formações em coaching em Portugal.

Contudo, e talvez devido ao seu crescimento significativo, ainda existe alguma confusão ou desconhecimento sobre o que é, efetivamente, coaching. “Às vezes tenho a sensação que ainda se confunde muito o coach com o mentor, ou o psicólogo ou mesmo com o amigo com quem vamos desabafar. O Coaching é a facilitação de um processo, coaching é autonomia”, explica Ligia Ramos.

No entanto, na Holanda esta realidade é um pouco diferente. O coaching é algo ao qual as pessoas recorrem, não só quando têm um problema, mas, muitas vezes, quando querem criar para si próprias uma outra perspetiva, em geral.

Um bom coach não tem uma área onde esteja mais apto para auxiliar do que outras. Um bom coach pode ser eficaz em qualquer área, seja ela profissional, familiar ou pessoal. O coach está focado em reconhecer padrões e em promover alterações de padrões que possam facilitar o coachee a ir do ponto A para o ponto B, levar a pessoa de onde ela está para onde ela quer ir. “Um bom coach será bom em qualquer área na vida de um individuo ou equipa”, afirma a nossa entrevistada.

O “BICHINHO” PELAS PESSOAS

Esta forma de estar e de ser, esta vontade de ajudar os outros é algo que tomou o seu rumo naturalmente. Sendo licenciada em Filosofia e tendo exercido a carreira de docente, Ligia Ramos desde cedo que conseguia ver para além da pessoa que estava à sua frente, conseguia ver o seu potencial. “O «bichinho» pelas pessoas e a vontade de as querer conhecer e perceber já cá está há muito tempo. As áreas de psicologia e de filosofia sempre despertaram o interesse em mim e, mais tarde, quando trabalhei na área dos recursos humanos, a motivação pelos processos de desenvolvimento aumentou”, explica a nossa entrevistada.

Ligia queria saber qual era o talento de cada uma das pessoas com quem trabalhava e desenvolver o seu potencial. “Quero acreditar que posso contribuir para melhorar e auxiliar o percurso das pessoas. Isso é o que me faz feliz”, diz-nos. “Toda a gente tem um talento, muitas vezes temos que facilitar a descoberta desse talento e como ele pode ser vivido todos os dias. Existe duas perguntas essenciais e que exigem muita coragem: Estou a fazer o que quero estar a fazer? E, o que quero estar a fazer? Não deixando, claro, de também ser capaz de dizer, com a mesma firmeza e sem culpas: “isto eu não quero”, conclui Ligia Ramos.

“As dificuldades devem impelir-nos à ação”

A Associação Ser Contigo é muito recente. No entanto, já captou muito interesse por parte da comunidade, talvez pelo seu propósito…

A Ser Contigo é uma associação de intervenção socioeducativa que se propõe a desconstruir preconceitos e combater o estigma relativamente à questão da Saúde Mental. Não vai ser fácil, mas as dificuldades devem impelir-nos à ação. Não podemos tolerar que as pessoas com experiência de doença mental sejam consideradas fracas, inúteis ou incapazes. Porque não o são! É preciso mudar mentalidades!

Dora Valério é Fundadora e Vice-Presidente não executiva da Ser Contigo. Em que momento da sua vida surge este desafio?

Este desafio surge numa altura de reflexão sobre a minha identidade e o meu papel na sociedade, bem como sobre os nossos ambientes sociais que são, tantas vezes, promotores da doença mental.

Dora Valério é também Diretora Técnica do Centro Comunitário de Estoi, uma IPSS com 20 anos de existência. O que significa para si estar ao serviço de uma IPSS com duas décadas de trabalho comunitário e numa associação recém-criada?

No que toca ao Centro Comunitário de Estoi, sinto diariamente a responsabilidade de desempenhar um trabalho que faça a diferença na vida dos utentes. Trata-se de um trabalho que só se pode fazer com amor, apesar de o amor ter em cima de si um estigma quase tão grande como a doença mental. Ninguém fala de amor no trabalho, parece anti profissional. É uma conceção triste do profissionalismo! Fala-se de competitividade, competência, currículos profissionais, mas não se fala de amor. Como se, no currículo da profissão e da vida, o amor pudesse estar ausente…

No que concerne à Ser Contigo, a dimensão da minha representatividade é outra, porque tenho uma palavra a dizer na filosofia da associação. Isso faz com que sinta uma responsabilidade acrescida relativamente à maneira como tocamos nas fragilidades do ser humano. Na nossa cultura não estamos habituados a expor as nossas fragilidades. Somos incentivados a escondê-las. Há rostos que, nas redes sociais, se apresentam numa gargalhada permanente. Como se fosse possível e obrigatório estar sempre feliz. Não existem gargalhadas permanentes. E qual é o problema? Nenhum… é preciso apenas deixar cair a aparência de super-heróis e assumirmos a essência humana!

Quem é Dora Valério, líder, profissional e mulher?

Sou uma mulher determinada, a quem a vida deu alguma sabedoria para conseguir transformar problemas em oportunidades. Uma mulher com muitas ideias. Tenho a responsabilidade de ser mãe, mas não me esforço por ser a melhor mãe do mundo! Educo de forma muito persistente as minhas filhas e o meu filho para não tolerarem injustiças e para lutarem pelos seus sonhos. Sou uma líder democrática, próxima das pessoas, gosto de partilhar responsabilidades e de dar abraços.

O número de mulheres em cargos de liderança está a aumentar. No entanto, ainda não é suficiente. Para si, que obstáculos são colocados às mulheres durante o seu percurso profissional? Esta é uma realidade para si?

A questão da desigualdade de género preocupa-me, pois ainda que esta realidade injusta tenha vindo a ser alterada, existe um caminho por fazer. Um exemplo: há dias ouvi uma conversa em que um pai tentava convencer o seu filho a não se divorciar, porque “se te separares, quem é que te vai passar a roupa e fazer a comida?”. Fiquei sem saber se havia de lamentar mais o facto de o filho ser rotulado como incapaz para as lides domésticas, se o facto de as lides domésticas serem as únicas competências reconhecidas à nora!

Ao fazer uma retrospetiva, encontro situações em que senti essa discriminação, curiosamente nunca em contexto profissional. Recordo-me de na minha infância me tentarem dissuadir de jogar à bola, pois não era coisa de meninas. Na adolescência, lembro-me de só poder sair à noite se o meu irmão também saísse. Na idade adulta, lembro-me de um evento no qual estive com o meu marido e no qual ele foi apresentado de acordo com o seu grau académico e eu como a “esposa de…”. Nunca aceitei essas prisões! Talvez por isso, nas minhas histórias, as protagonistas sejam sempre mulheres!

O facto de haver cada vez mais mulheres a ocupar cargos de prestígio é um bom indicador! Não obstante, continuar a educar os mais novos para a igualdade (leia-se equidade) é essencial e, nesse aspeto, temos um grande poder, pois ainda somos nós, mulheres, as principais educadoras das nossas filhas e dos nossos filhos.

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