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“Quero que a imigração em Portugal seja vista com outros olhos”

Que principais obstáculos/desafios enfrentou quando decidiu lançar-se no mundo do empreendedorismo?

Os principais desafios prenderam-se, sobretudo, com o facto de, inicialmente, as pessoas não perceberem bem o conceito da empresa. Como era algo novo e que ainda não existia em Portugal as pessoas não percebiam, nem mesmo a minha família, o que pretendia quando decidi criar a Ei!.Era necessário explicar que as pessoas que estão em trânsito, que vão ou vêm para um país novo, precisam de um conjunto complexo de serviços que passam pela obtenção de vistos, de autorização de residência, abertura de conta bancária, inscrição no serviço nacional de saúde e/ou escolas ou, simplesmente, de papéis que precisam de ser traduzidos ou autenticados. A ideia era, de facto, criar uma agência especializada nestes serviços. Este é um conceito que já existia e que, inclusive, já está bastante enraizado nos países anglo-saxónicos, sobretudo nos EUA. Por isso mesmo, qualquer americano que pense mudar de país procura, em primeiro lugar, por uma agência migratória para facilitar este processo.

Em Portugal este conceito não existia. No entanto, devido à demanda que estamos a assistir de entrada de estrangeiros no nosso país, a procura por este serviço começou a aumentar significativamente, principalmente por parte de cidadãos brasileiros e norte-americanos.

Eu própria senti essa necessidade de procurar uma empresa que me ajudasse nas questões burocráticas e que tratasse das minhas coisas em Portugal quando estava emigrada em Angola. Coisas tão simples como reencaminhar o meu correio, pagar as minhas contas ou ir às reuniões de condomínio enquanto meu representante. Precisava da prestação de um serviço profissional que na altura não existia.

Teve receio?

Não pensei muito nisso. Pela minha cabeça só passava a ideia de que “agora meti-me nisto e tenho de seguir em frente. Só tenho uma saída: dar certo!”. Vivia num país estrangeiro onde tinha um emprego estável quando decidi criar esta agência migratória. Estava a trocar o certo pelo incerto e a estabilidade que tinha. Por isso mesmo tinha de dar certo. Tinha de me focar e não podia ter tempo para arrependimentos, receios ou olhar para trás.

Se pudesse voltar atrás faria alguma coisa diferente?

Foi a escolha certa, sem dúvida. Não mudaria nada. Estou muito feliz com o rumo que a empresa tomou. Começámos em 2014 com quatro pessoas e neste momento temos 16 pessoas a trabalhar na Ei! e dois escritórios a funcionar, um em Lisboa e outro no Porto.

No início foi difícil e tivemos de trabalhar muito para a introdução do conceito em Portugal e junto das pessoas. Quando a Ei!, nasceu o país estava a passar por uma crise económica que levou a um pico de emigração e era esse o nosso público-alvo: os portugueses que precisavam de ajuda na sua transição para outro país.

Na altura, lembro-me, fiz um estudo e vi que um quarto das pessoas que conhecia através do Facebook estava emigrada em vários países, por isso decidi começar por oferecer serviços às pessoas que conhecia. E resultou. Depois foi uma questão de “passa a palavra” até a aumentar a procura pelos nossos serviços. Hoje, a Ei! é uma empresa que cresce todos os dias.

O que a motiva e inspira diariamente?

Neste momento estamos a viver um boom de imigração como Portugal nunca teve. As conservatórias estão cheias de processos de luso-descendentes a pedir nacionalidade portuguesa, de emigrantes a regressarem ao seu país e o SEF cheio de processos de autorização de residência de estrangeiros sem qualquer vínculo a Portugal, como os norte-americanos, que encontraram no nosso país um paraíso para a sua reforma, com uma qualidade de vida que não conseguem ter no seu país. Por isso, o que me inspira todos os dias é ajudar as pessoas a mudarem de vida e a ser a primeira mão amiga que elas têm em Portugal.

Passámos a ser uma família para cada uma destas pessoas e isso é bastante gratificante. São aqui criados vínculos emocionais com os nossos consultores que se envolvem plenamente nos processos. Os imigrantes, eles próprios, acabam por nos envolver em cada etapa ou em cada passo importante dado na vida delas no seu novo país. São os postais que nos enviam, as mensagens, as fotografias com os elementos da família, os convites para jantares ou convívios ou, simplesmente, para celebrar o seu primeiro aniversário em Portugal. Não conseguimos desligar a vertente profissional da emocional e, por vezes, torna-se difícil conseguir aceitar todos os convites.

E o que a define enquanto líder? Ou que principais características considera que um líder deve assumir?

Falar de mim própria é sempre mais difícil. Já tinha assumido cargos de liderança anteriormente e penso que sempre os encarei com alguma naturalidade.

Mas o que sinto é que a minha liderança não é por imposição, que o meu estilo de liderança passa pelo exemplo e que é através dele que a equipa me quer seguir. Sou a primeira a avançar, a motivar, a abraçar os desafios e atirar-me de cabeça, de tal forma que as coisas acabam por ser feitas de forma natural.

As pessoas que aqui trabalham são pessoas que já trabalharam comigo noutras empresas, penso que isso significa muito. Sou bastante tolerante com a equipa, apesar de ser bastante exigente. Se acontece algum erro sou eu quem dá a cara, quem assume o erro perante o cliente e pede desculpa em nome de toda a equipa.

Acho que existem muitas situações onde as pessoas trabalham sob a cultura do medo e, na Ei!, prezo muito que as pessoas se sintam bem, sejam felizes e tenham liberdade de horário para conseguirem conciliar a sua vida profissional com a vida pessoal. Se hoje alguém precisa de sair mais cedo ou chegar mais tarde, não há problema. No dia seguinte compensa de forma a terminar o seu trabalho. Há liberdade com responsabilidade.

O facto de ser mulher é, de alguma forma, um desafio acrescido no mundo do empreendedorismo e da liderança?

Nunca senti que fosse um entrave para mim. Ao longo do meu percurso profissional fui assumindo cargos de liderança, formei equipas, tive de lidar com a gestão de pessoas, muitas vezes num meio empresarial maioritariamente masculino e acho que as coisas correram bem e fui sempre respeitada.

Mas, sobretudo, adoro trabalhar e acho que isso faz toda a diferença para conseguirmos, de certa forma, superar desafios ou obstáculos. Sempre trabalhei e me dediquei muito, mesmo quando as empresas não eram minhas. Por isso, fazer o mesmo que já fazia antes, mas com a minha empresa, só tornou as coisas mais fáceis porque tenho mais liberdade para fazer as minhas escolhas. Contudo, existe aqui um aspeto essencial e que não posso deixar de o referir: o apoio incondicional da minha família e do meu marido que teve de assumir, muitas vezes, os papéis de pai e mãe. Nunca se coibiu de fazê-lo. É ele quem leva os nossos filhos à escola e quem os vai buscar. É ele quem assegura tudo até eu chegar a casa, por volta da hora do jantar. A partir daí é o momento para a família, tal como os fins de semana que tento que sejam exclusivamente para a família, embora, no início da Ei!, não tenha sido possível ter fins de semana nem feriados, o que me levou a estar muito ausente. No entanto, essa ausência compensou-se com um pai muito presente e, apesar de a sociedade ainda impor muitos limites às mulheres e ao seu papel, é possível conciliar uma carreira profissional de sucesso com a vida familiar e pessoal. Muitas vezes as limitações estão na própria cabeça das mulheres e cabe-nos a nós, mulheres, ultrapassar esses entraves.

Nos primeiros anos de vida desta empresa houve, de facto, muito sacrifício por parte da família, mas também muita compreensão e, hoje, existe tempo para tudo: para a empresa, para a família, para os filhos e para o marido. Penso que hoje todos reconhecem o sacrifício inicial que valeu a pena!

O que mudou na sua vida, para além do óbvio, com a Ei!?

Tornei-me mais poupada, sem dúvida. Hoje tenho famílias inteiras a dependerem de mim e do sucesso desta empresa. Por isso todas as contas têm de ser analisadas ao pormenor. Todos os gastos e todos os ganhos têm de ser ponderados porque o que hoje é garantido, amanhã pode não ser.

Não recorri a financiamento para este projeto, foi tudo feito com as minhas poupanças, com o que arrecadei enquanto trabalhei fora. Hoje sou uma pessoa mais poupada.

E o que quer mudar com esta agência migratória?

Quero que a imigração em Portugal seja vista com outros olhos. Quero que seja olhada com a arte do bem-receber. Portugal sempre foi um país de emigrantes e existem portugueses espalhados pelo mundo. Agora os papéis inverteram-se e é a nossa vez de saber receber pessoas que procuram melhores condições de vida para si e para as suas famílias, tal como os portugueses foram bem recebidos lá fora. Não nos podemos esquecer que a migração é cíclica e que podemos voltar a precisar de sair do nosso país à procura de melhores condições.

Aquilo que vejo e que sinto é que ainda existe muita discriminação por parte dos portugueses em relação aos imigrantes que não entendem as mais-valias que eles representam para o país. A imigração está contribuir com muita mão-de-obra qualificada e necessária para o desenvolvimento do nosso país. Tem dado também um excelente contributo para povoar o interior do país, para combater o envelhecimento e para aumentar a taxa de natalidade.

Deparamo-nos, diariamente, com senhorios que não querem arrendar casas a estrangeiros, negando-lhes uma oportunidade de, muitas vezes, recomeçarem a sua vida no nosso país. Os imigrantes não vêm “tirar” o trabalho a ninguém. Muitos deles vêm criar postos de trabalho ou empreender, contribuindo para o desenvolvimento do país, pois não nos podemos esquecer que quando a crise se instalou em Portugal a massa laboral saiu à procura de trabalho no estrangeiro, ficando apenas as camadas mais jovem e idosa. São os imigrantes que estão a preencher, agora, essa lacuna.

Quero que Portugal seja conhecido como um país que bem recebe e que entenda que esta multiculturalidade é enriquecedora.

Que principais problemas iremos enfrentar com a globalização no que diz respeito à migração? Ou, na sua opinião, ao que iremos assistir?

Em Portugal estamos a assistir a falta de infraestruturas e de organismos públicos para receberem tantas pessoas. Por exemplo, não existem vagas nas escolas e as listas de espera já são bastante extensas. Os centros de saúde não estão a conseguir atribuir mais médicos de família aos imigrantes. Aceitam as inscrições, mas avisam que não existem, de momento, médicos de família disponíveis. As filas de esperas no SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) são enormes, as conservatórias e as finanças estão cheias e carecem de recursos humanos para fazer face ao elevado número de processos. Se o país quer continuar a receber imigrantes tem de se adaptar e essa adaptação passa, em muito, pela reestruturação destas infraestruturas básicas.

De que forma a Ei! se diferencia? Que verdadeiro papel pretende assumir no país e junto às pessoas?

Na vertente humana. Aqui temos um tratamento muito personalizado e muito humano. As pessoas aqui dentro não têm um número, têm nome.

As pessoas que aqui trabalham foram emigrantes, ou são filhos de emigrantes, e são imigrantes. A nossa equipa é constituída por profissionais da Moldávia, do México, do Irão e do Brasil e só temos a ganhar com isso. Passaram pelo processo da emigração/imigração e quem passou por isso só tem muito a acrescentar à nossa empresa, aos processos e ao contacto com o cliente.

Qual é agora a grande aposta da Ei!?

A empresa ganhou um rumo que superou, em muito, as expectativas.

Depois da primeira edição da Web Summit em Portugal e com a transformação do Porto e de Lisboa em polos tecnológicos, as empresas de TI depararam-se com a falta de recursos humanos qualificados nesta área, tendo de optar por procurar e contratar pessoas lá fora.

Começámos, por isso mesmo, a ser procurados por empresas de TI que solicitam os nossos serviços para a obtenção de vistos para contratos de trabalho. Neste momento, este é o maior departamento da Ei! e representa cerca de 50% da nossa faturação.

Futuramente, o percurso da empresa passa por criar um novo departamento de legalização de profissionais para a falta de mão-de-obra que sentimos existir no setor da hotelaria e restauração. Já fomos procurados por grandes cadeias de hotéis e por restaurantes de renome, já temos bastantes solicitações e por isso mesmo vamos agora focar-nos nesse departamento.

Uma vez mais digo que não tive medo, segui em frente e deixei-me levar, mas sempre muito focada.

50 anos de Heliflex: “ser um dos elementos ativos nesta viagem tem sido um privilégio”

No ano em que a Heliflex completa os 50 anos como vê as áreas de Marketing e Recursos humanos na empresa, enquanto responsável pelas mesmas?

A minha história com a Heliflex tem cerca de 20 anos, mas a Heliflex tem outros tantos, completando este ano um número carismático: 50! Falar em responsabilidade na Heliflex é algo maior do que a função descrita pelos cargos. Na Heliflex todos somos responsáveis pela marca, independentemente das funções desempenhadas e do grau de responsabilidade assumida. As duas áreas estratégicas que dirijo são complementares para a gestão interna e externa de uma empresa, e na Heliflex essa complementaridade é praticada.

É usual responder a questões de ‘quantas pessoas trabalham no marketing da Heliflex’, questões essas que me são colocadas em visitas de estudo de alunos universitários (de referir que somos uma empresa de ‘portas abertas’ à partilha e formação de jovens estudantes, como verdadeiras aulas em ‘ambiente industrial’), com o número total de colaboradores que a Heliflex tem. Acresce a este número todos os envolvidos com a marca, mesmo que indiretamente.

Hoje vivemos numa altura em que se fala muito de criação de conteúdos, de engagement e estímulos à proximidade das relações. Contudo, eu sempre defendi que os produtos são facilmente copiáveis, mas as pessoas, as relações e tudo o que envolve o valor da marca são intangíveis valiosíssimos e únicos, impossíveis de replicar! São estes recursos que fazem a diferença numa marca. Chamar a isto espírito de marca interno, team building ou endomarketing é indiferente. O que importa é que se construa diariamente este espírito. Uma história que se vai construindo, sem fim à vista.

Foi-me dada a oportunidade de ajudar a construir este espírito na Heliflex, muito fruto dos cofundadores da Heliflex: Anselmo Santos e Acácio Vieira, admitindo que foram de vital importância na definição da minha postura profissional. 50 anos depois a marca apresenta-se ao mercado de forma irreverente. Fomos pioneiros e criámos história na comunicação das ‘indústrias de tubos’, marcámos a forma de comunicar tubos, com linhas comunicacionais um pouco arrojados reconheço (para a altura e dentro do core business que nos encontramos), mas ‘muito nossas’, quando pela primeira vez (há cerca de 12 anos atrás) recorremos a rostos femininos para dar ‘corpo’ a cada área de negócio: casa-jardim, agro, tecno-indústria e construção. Rostos estes ‘muito nossos’, porque todos eles pertenciam direta ou indiretamente à família Heliflex: sobrinhas, primas, afilhadas, filhas dos nossos colaboradores. Todos sentimos esta linha de comunicação como sendo nossa, envolvendo a casa de cada um na Heliflex e a Heliflex na casa de cada um, numa simbiose saudável. Comunicamos de pessoas para pessoas!

Esta família está agora a ser evocada em nove episódios, um episódio por mês, entre janeiro a setembro, culminando na apresentação do episódio final no aniversário dos 50 anos da Heliflex. Tem sido uma viagem interessantíssima. Conhecer e recordar momentos que constroem uma marca, que marcou e continua a marcar vidas, almas! Ser um dos elementos ativos nesta viagem tem sido um privilégio.

Por isso afirmamos com toda a convicção: tud(b)o que fazemos tem a nossa alma. Por isso o nosso slogan: Heliflex – tubos com alma!

Esta é a forma de ser Heliflex(iano)!

Nestas duas áreas quais são os maiores desafios enfrentados diariamente?

Manter esta never ending story requer que estejamos sempre em permanente redefinição de competências e responsabilidades, procurando dar respostas ao ritmo dos mercados. O nosso capital humano é essencial e valorizamos cada contributo com a mesma importância, trabalhamos para um todo. Gerir uma equipa com diferenças geracionais, culturais, linguísticas e formativas faz com que tenhamos que identificar (muitas vezes despertar) e desenvolver skills em todos os nossos pares. Procurar com equilíbrio e criatividade, mostrar que temos de operacionalizar um plano maior que depende de cada pequena atividade é um desafio constante. Reter e captar cada elemento desta cadeia é garantir a sua felicidade, apoiar nas ambições e valorizar as suas ações, sabendo que na sua diferença cada um requer uma abordagem própria e um plano dedicado. Acredito no trabalho de equipa. Uma equipa alinhada numa estratégia definida é reflexo de eficiência na operacionalização e alcance dos objetivos.

A Heliflex está inserida num setor bastante concorrencial, no entanto, afirmam que “é um conjunto de elementos que nos identificam em qualquer suporte”. De que fatores diferenciadores falamos?

No core business da Heliflex, bem como em qualquer setor onde uma marca esteja e queira  projetar a sua presença global, a competitividade, diferenciação e o reconhecimento têm que ser sólidos. Procuramos comunicar convenientemente para os diferentes setores, países e especificidades sem nunca deixar interligar essa comunicação à marca Heliflex. Alguns elementos são aspetos gráficos, outros são apenas reflexo da nossa forma de estar, fazer e construir as relações.

O mercado evoluiu e com ele trouxe novos estímulos e tendências como é o caso da tecnologia. Qual foi a estratégia que a Heliflex adotou neste sentido?

A muito em voga temática da indústria 4.0 também o é na Heliflex. Procurámos nestes 50 anos de história acompanhar os avanços tecnológicos e ofertas formativas para produzir com mais competitividade.

Hoje temos controlo em real time da nossa operação e conseguimos analisar e discutir dados de forma mais célere, implementamos diariamente metodologias Lean e fomentamos o espírito critico de melhoria.

Nos nossos planos estratégicos têm vindo a ser contemplados vários investimentos ao nível da investigação e desenvolvimento tecnológicos.

Acompanhamos esses estímulos e tendências também ao nível da comunicação e apostamos cada vez mais no digital.

Enquanto diretora de marketing o que é para si mais interessante na área em que trabalha?

No início da minha carreira profissional na Heliflex fui convidada um certo dia para fazer uma apresentação a alunos de Licenciatura de Marketing. No final da apresentação, um desses alunos perguntou-me se numa empresa de tubos se podia fazer marketing. Sorri! Pois está aqui a resposta à sua questão: o mais interessante é ter tido a oportunidade de aplicar as várias estratégias de marketing a um produto ‘fora do vulgar’. Hoje já é normal produtores de produtos muito técnicos investirem em marketing. Há 20 anos atrás não era assim ‘tão usual’. Muito por convicção e motivação da parte dos cofundadores, com uma visão à frente do seu tempo, desde tenra idade a Heliflex teve dedicado uma parte do seu orçamento anual ao plano estratégico de marketing.

Para a Heliflex, a honestidade é o valor que vem em primeiro lugar. Na sua opinião, este é um valor que tem vindo a perder terreno?

Os nossos valores, refletidos em www.heliflex.pt, podem ser resumidos em quatro pilares: qualidade, saber-fazer, inovação e solidez. Foram definidos na origem da Heliflex pelos seus fundadores. A honestidade encaixa-se na solidez. Desde sempre pautamos por atitudes de honestidade e transparência, de outra forma não teríamos 50 anos de História e não estaríamos convictos que estaremos nos próximos 50! Não se pode estar nos negócios ou na vida de outra forma, simplesmente não resulta… a mentira e desonestidade são a prazo, na Heliflex estamos para a vida! Os valores estão no nosso ADN e por muitas gerações que passem na Heliflex serão transmitidos, porque estão intrínsecos ao nosso comportamento.

Para si, o que significa liderar pessoas?

Eu não gosto do termo ‘liderar’ e muito menos ‘chefiar’ ou pior ainda ‘mandar’, ‘ordenar’. Eu prefiro o termo ‘trabalhar em equipa’ e o ‘nós’ vamos fazer, ‘nós’ atingimos os objetivos, ‘nós’ completámos a tarefa com sucesso ou com insucesso e, nesse caso, perguntamo-nos onde ‘nós’ fizemos menos bem e como ‘nós’ podemos ultrapassar a situação.

Mesmo se uma tarefa foi desempenhada por uma única pessoa, essa tarefa reflete a Heliflex e a Heliflex é uma equipa constituída por mais de 100 pessoas. Por isso, o ‘eu’ não é nada, comparado com o ‘nós’. Cada ‘eu’ representa uma marca maior, que é reflexo de um conjunto de pessoas que desempenham tarefas interligadas, gerando valor e influenciando o processo de construção da marca.

Três características que considere indispensáveis nos colaboradores.

Confesso que não gosto muito de categorizar assim o capital humano. Pela individualidade de cada colaborador não podemos simplesmente nomear três, seria de forma redutora categorizar. Temos que olhar ao todo e ao detalhe e trazer para a nossa cadeia genética mais valias sinérgicas. Se alguns de nós já temos competências neste sentido, outros vão adquirindo-as e é esse todo que procuramos!

“Aprendi que, na vida, o nosso herói somos nós próprios”

Miriam Mateus conta já com um vasto percurso no mundo do empreendedorismo. Queremos conhecê-la melhor. Quem é Miriam Mateus enquanto mulher e enquanto profissional?

Sou uma mulher positiva. Encaro os problemas como desafios e tento sempre ver o lado positivo das coisas. Sou muito trabalhadora, não tenho medo de arregaçar as mangas e lutar. Os meus pais sempre trabalharam muito e aprendi a fazer o mesmo. Nunca paro, nunca baixo os braços, nunca desanimo mesmo quando o desânimo se tenta apoderar de nós. Aprendi que, na vida, o nosso herói somos nós próprios, o nosso eu. Devo igualmente muito ao meu marido, que desde sempre confiou em mim e me ajudou. Ele é uma peça muito importante no meu puzzle, tem sempre muitas ideias. Quando essas são boas avançamos em conjunto, sem medos.

O que a motiva e inspira diariamente?

Sempre me inspiraram as grandes mulheres da história e sempre quis deixar a minha própria marca. Hoje sei que há pessoas que se sentem inspiradas por mim e fico muito feliz e orgulhosa por isso, sei que já faço parto da história de alguém. Atualmente a minha maior motivação é o meu filho, o seu bem-estar e felicidade. E essa é a minha maior marca, a minha sucessão, e nele espero incutir o respeito pelos outros e a determinação para chegar longe na vida.

Que características diria serem fulcrais para se singrar no mundo dos negócios?

É necessária determinação, organização e muita vontade em ter sucesso.

Há quem defenda que os estilos de liderança, feminina e masculina, são diferentes e que a liderança feminina é importante dentro das organizações. Concorda? Homens e mulheres têm, de facto, estilos de diferença diferentes ou o estilo de liderança prende-se apenas com as características da pessoa?

As características da pessoa são fundamentais para ter ou não sucesso mas, mesmo assim, penso que também são diferentes dependendo do género. As mulheres e os homens veem o mundo de forma diferente e resolvem os problemas de forma diferentes. Ainda existem homens que acham que a liderança deve ser sempre exclusivamente masculina mas esquecem-se que as mulheres têm outras experiências. No meu caso, como mãe, aprendi muita coisa com a minha experiência pessoal que me ajudou a vingar no mundo dos negócios: a organização de tempo, a gestão financeira, a relação interpessoal e resolução de conflitos. Como também tive sempre o apoio do meu marido tive a vantagem de saber ambas as perspetivas dos problemas, masculina e feminina.

A igualdade de género continua a ser um tema bastante debatido e o qual merece a nossa devida atenção. Durante o seu percurso profissional enfrentou obstáculos pelo facto de ser mulher?

Sim, nunca é fácil. Parece que nós mulheres temos sempre que provar o nosso valor e que há cargos exclusivos para homens e outros para mulheres. No entanto, penso que isso tem vindo a mudar e cada vez mais as pessoas são avaliadas pelo que são e pelo que fazem e não tanto pelo seu género. Fico feliz por ver tantas mulheres em cargos importantes.

Os desafios são maiores quando é uma mulher que decide enveredar pelo mundo dos negócios ou do empreendedorismo?

Sente-se sempre alguma dificuldade, algum descrédito, mas depois deixamos que os resultados falem por si.

Foi proprietária de uma conceituada padaria em Cabo Verde. Atualmente é sócia do Ginásio LF Gym Body Solutions e consultora na Imobiliária Easy Gest Premium na Av. da República em Lisboa. Porquê o mercado imobiliário e a Easygest Premium?

Porque é um mercado que continua em franco crescimento e tem muitos desafios e dificuldades. Gosto do contacto com as pessoas e de poder ajudá-las a realizar sonhos. Todos os dias são diferentes, um dia é sempre diferente do outro. Escolhi a Easygest Premium porque é uma empresa 100% nacional e já está no mercado há alguns anos e continua a ter um vasto crescimento. É uma empresa que é virada para as pessoas e não apenas para os números, inclusive pagam acima da média. É uma empresa na qual confio e que me tem apoiado, deixando-me à vontade para novos desafios. É uma área que exige esforço, dedicação e vontade.

Devido aos limites que a sociedade ainda impõe, é fácil para uma mulher conciliar uma carreira profissional de sucesso com a vida pessoal? Ou é necessário abdicar ou descurar de uma em detrimento de outra?

Não é propriamente fácil, apenas temos que definir muito bem as nossas prioridades. Não é necessário abdicar de nada, apenas precisamos ter um grande foco no que queremos e conseguimos arranjar tempo para tudo. No meu caso nunca estive sozinha, sempre trabalhei em equipa com o meu marido e sem ele não teria chegado onde cheguei.

“A indústria passou a ser uma parceira na construção de soluções terapêuticas”

Comecemos pelos três valores pelos quais a Mundipharma se rege: espírito guerreiro, coração prestativo e atitude de diversão. São estes valores que também Sofia Ferreira traz consigo e que faz transparecer.

Quando, em 2016, a multinacional americana decide abrir uma filial em Portugal, é criada uma equipa de raiz, iniciando a sua atividade na linha respiratória com o lançamento de um medicamento para o tratamento da asma. O objetivo, esse, é aumentar a qualidade de vida dos doentes respiratórios e diminuir a despesa pública para o Serviço Nacional de Saúde.

O que começou com uma estrutura pequena rapidamente ganhou dimensão, novos projetos e novos desafios. É então que Sofia Ferreira é convidada para o cargo de direção comercial, assumindo a responsabilidade de toda a equipa comercial, e é lançado um novo produto na área da Diabetes. Tratam-se de dois produtos completamente inovadores e únicos.

Em 2018 a equipa da Mundipharma Portugal abraça um novo desafio para desenvolver e lançar produtos na área hospitalar, uma área em desenvolvimento e onde já foram lançados três produtos para o mercado, na área da dor e na área da toxicodependência, e um medicamento biossimilar. Uma vez mais Sofia Ferreira recebe a proposta para abraçar este projeto.

Paralelamente, é iniciado um processo de seleção para o cargo de Country Manager de Portugal e Sofia Ferreira é indicada para este processo de seleção.

AUTONOMIA E RESPONSABILIZAÇÃO

É em dezembro de 2018 que Sofia Ferreira é selecionada para exercer a função de Country Manager de Portugal da Mundipharma.

“Tem sido um desafio”, afirma. “Mas o meu percurso pela empresa permitiu-me ter um forte conhecimento de negócio e de gestão de equipa apesar de não ter experiência anterior enquanto diretora geral”, diz-nos Sofia Ferreira.

No entanto, não deixa de ser um desafio. Um duplo desafio. “Por um lado, porque já estava nesta empresa enquanto colega de equipa e passei a assumir funções de liderança. Por outro lado, por ainda estar em fase de adaptação e por ter de conseguir deixar a operacionalidade do negócio. Tinha funções muito operacionais e agora tive de aprender a ter uma visão estratégica”, elucida a nossa entrevistada.

Sofia Ferreira sabe que é um processo de aprendizagem, mas afirma que tem tido muita sorte pelo forte suporte que tem recebido por parte da sua equipa. “Tenho de ser uma pessoa diretiva, mas não sou uma pessoa de impor a minha forma de pensar. Tento levar a equipa comigo, ao meu lado, para juntos alcançarmos os objetivos que a Mundipharma se propõe a alcançar. Procuro que exista sempre uma envolvência por parte de todos, levando todos temas a discussão”, explica Sofia Ferreira, tendo em conta a filosofia da empresa que é a total transparência de informação.

Na Mundipharma as pessoas são todas envolvidas nas tomadas de decisões e no pré-lançamento de produtos. “Temos um modelo de gestão que permite que a equipa tenha autonomia para tomar decisões que considerem ser as mais corretas naquele momento. Se errarmos serve para experimentar, aprender e continuar. Este modelo permite-nos ser bastante ágeis”, acrescenta a nossa entrevistada.

A verdade é que, em termos de aprendizagem, a Mundipharma é uma empresa bastante enriquecedora. “Aqui conseguimos facilmente ascender a diferentes funções, cargos e passar por diferentes experiências que nos ajudam a crescer pessoal e profissionalmente”, realça Sofia Ferreira.

Com uma estrutura que tem resultado e que a transformou numa empresa mundialmente conhecida, a Mundipharma é hoje companhia de referência em Portugal na área respiratória, “num mercado que é bastante conservador e com players fortes”. Por outro lado, o lançamento do produto inovador na área da diabetes, veio consolidar a sua posição nos cuidados de saúde primários. O resultado deve-se a este modelo de negócio, uma organização “horizontal e sem burocracia”, características que lhe permitem “agilidade, rapidez de resposta às necessidades do mercado, flexibilidade e capacidade de adaptação à mudança”.

“Sabemos selecionar muito bem aquilo que queremos fazer, onde queremos e como o queremos fazer. Medimos e analisamos os resultados constantemente, o que nos permite saber o que estamos a fazer bem, mas, sobretudo, o que estamos a fazer mal para melhorarmos”, diz-nos, ainda, Sofia Ferreira.

Na Mundipharma não esperam que as coisas melhorem por si. “O nosso sentido de autonomia e responsabilização permite-nos tomar decisões estratégicas, mas também nos obriga a medi-las e a avaliar o trabalho feito para perceber como é que está a correr o nosso negócio e se estamos num bom caminho. Sente-se que a equipa está totalmente envolvida neste projeto e que encaram o negócio como o seu próprio negócio”.

Com um percurso profissional ligado à área da saúde, um setor bastante desafiante, Sofia Ferreira iniciou a sua carreira como delegada de informação médica, uma profissão “que se ama ou se odeia”. “Eu apaixonei-me imediatamente”. Sofia explica que começou a trabalhar na área da psiquiatria, lidando com uma realidade onde percebeu que tinha a possibilidade de contribuir todos os dias para melhorar a qualidade de vida das pessoas e fazer a diferença. “Sabia que os medicamentos faziam, de facto, a diferença na vida das pessoas, que garantiam resultados e traziam felicidade. Trabalhar numa área onde podemos dar soluções às pessoas e melhorar a sua qualidade de vida é bastante gratificante e motivador”, afirma.

Paralelamente, Sofia Ferreira sabe que esta é uma área de constante aprendizagem, “o que é bastante enriquecedor”. “Sendo a Mundipharma uma empresa muito orientada para o negócio e uma «plataforma comercial» onde temos de apresentar resultados e corresponder às exigências da inovação, temos de ter conhecimentos no seu todo do negócio em que estamos envolvidos, isto implica muito conhecimento, aprendizagem e um trabalho de casa constante. É uma área que exige disponibilidade e trabalho diário para alcançar resultados”, realça a nossa entrevistada.

Quanto aos desafios desta área, esses, são bastante claros. “A indústria deixou de ser apenas prestadora de informação. Estamos na era da transformação digital e big data, onde a informação está acessível a todos. Claramente interagir nesta área é apresentarmo-nos como parceiros das instituições e dos profissionais de saúde de forma a apresentar estratégias e produtos inovadores”, alerta Sofia Ferreira.

A indústria tem de estar preparada para as exigências dos profissionais de saúde e para os pacientes que são eles próprios cada vez mais conhecedores e mais informados e que procuram e exigem mais destes profissionais. “Temos de estar envolvidos com os nossos parceiros de uma forma diferenciadora e ajudá-los na construção de ferramentas e de soluções inovadoras”.

Relembrando os valores pelos quais a Mundipharma se rege –  espírito guerreiro, coração prestativo e atitude de diversão – Sofia Ferreira afirma que quer que todas as pessoas se sintam felizes aqui e que consigam alcançar o seu equilíbrio entre a vida pessoal e profissional.

“Somos guerreiros para trabalhar, queremos atingir os nossos objetivos, comemoramos as nossas vitórias e queremos ajudar o próximo, os nossos colegas e ter um espírito de equipa. E são nas pequenas coisas que fazemos diariamente que conseguimos espelhar estes valores”, conclui.

“QUE A ASMA NÃO TE PARE”

Desde 2016 que a Mundipharma juntamente com a Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP), Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clinica (SPAIC), Grupo de estudos Respiratórios da Sociedade Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (GRESP), Associação Portuguesa de Asmáticos (APA) e Fundação Portuguesa do Pulmão (FPP), apoia esta iniciativa.

É uma ação que assinala o Dia Mundial da Asma e a nossa campanha “Que a asma não te pare” tem por objetivo a prevenção e tratamento desta patologia.

“O desafio está em ouvir e perceber como cada um funciona, para então saber como ajudá-los a atingir o seu potencial máximo”

A Grünenthal Financial Services está presente em Portugal há uns anos. Qual é o próximo passo para a empresa?

Estamos a viver tempos muito interessantes, de mudança e crescimento. Temos um novo CFO desde Janeiro deste ano: Fabian Raschke. A nível de GFS, vamos transferir mais serviços para Portugal num futuro próximo. E a médio prazo, a visão e o plano são de crescimento contínuo.

É especialista em finanças mas afirma que em primeiro lugar é uma gestora de pessoas. Porquê?

Acredito que em primeiro lugar gerimos pessoas e não departamentos. As pessoas são quem fazem a equipa e acredito que colaboradores motivados dão mais de si e tornam-se em high performers.

Confio nas pessoas e dou-lhes empowerment e ownership para serem empreendedores e crescerem como profissionais.

Na sua opinião o que é mais difícil no exercício de liderar pessoas? E o mais gratificante?

Gerir pessoas é sem dúvida desafiante e por isso mesmo gratificante. Cada pessoa é única e sui generis, com a sua própria personalidade, opiniões e sensibilidades. O desafio está em ouvir e perceber como cada um funciona, para então saber como ajudá-los a atingir o seu potencial máximo. Não acredito num one size fits all approach.

O mais gratificante é, sem dúvida, ver as pessoas felizes no trabalho. Toda a gente gosta de vir trabalhar e isso deve-se ao sentido familiar que demos à empresa e ao mote que vivemos: Workiness, uma conjugação de work e happiness.

Qual diria que é a sua missão na Grünenthal?

Continuar o bom trabalho que começámos. Construímos uma empresa com uma cultura de liderança e pessoas excecionais. É o que nos distingue e é a nossa força. Quero contribuir para o nosso crescimento enquanto empresa e oferecer mais serviços, ir para além do que fazemos hoje. Mas sempre mantendo o nosso “Workiness” que é o que define na perfeição o Great Place to Work  que construímos.

Fala seis idiomas: holandês, inglês, francês, alemão, português e espanhol. Quais foram as maiores vantagens que o multilinguismo lhe trouxe profissionalmente?

As línguas que falo sempre me abriram várias portas a nível profissional. A maior vantagem é a variedade de trabalhos e profissões que já me permitiram executar.

Atualmente, uma grande vantagem é poder comunicar com vários colegas e parceiros nas suas respetivas línguas. Quebra o gelo, ajuda na comunicação e acima de tudo evita situações de “lost in translation”.

Do seu currículo fazem parte cargos como relações públicas no Rock in Rio ou tradutora e hoje trabalha com números e gere pessoas numa empresa farmacêutica. O que guarda destas diferentes experiências?

Todas essas experiências foram enriquecedoras e fizeram de mim a pessoa e a profissional que sou hoje. Aprendi com todas e com toda a gente com quem trabalhei. Valorizo o facto de ter uma experiência tão diversificada. Permitiu-me viver realidades diferentes e trabalhar com pessoas das mais diversas áreas: desde show business a tradução ou farmacêutica.

Ao longo da sua carreira que história lhe ficou na memória como “uma boa história para partilhar”?

Tenho tantas. Conhecer vários artistas como o Sting e Ivete Sangalo enquanto trabalhei no Rock in Rio sem dúvida ficou na memória.

Mas a melhor história foi quando comecei a trabalhar para a Grünenthal. Aqui tive a oportunidade de montar um Shared Services Center e duas equipas de raiz. Agora a empresa está prestes a dar os próximos passos da sua história. É como criar um bebé, vê-lo crescer e a dar os primeiros passos. Tenho uma ligação muito forte à empresa e sinto-me muito realizada profissionalmente por poder contribuir diretamente para o crescimento e o sucesso deste projeto.

“Um líder é aquele que não precisa de se afirmar como líder”

Em primeiro lugar, parabéns pelo seu excelente percurso. São 25 anos de Toyota Caetano Portugal, são 25 anos de…?

Completo 25 anos de Toyota Caetano Portugal este ano de 2019. São 25 anos de paixão, de relações, de Kaizen (melhoria continua), de batalhas, de dedicação, retorno, satisfação.

A Toyota e o Grupo Salvador Caetano são um exemplo de persistência, de nunca desistir, e de muito trabalho.

Que momentos ou aspetos considere fulcrais para o seu crescimento pessoal e profissional retira deste seu percurso dentro de uma marca de renome como Toyota Caetano Portugal?

Foram vários como deve imaginar, mas o mais recente foi a minha última ida ao Japão (em fevereiro deste ano), onde estive cerca de dez dias a “mergulhar” na cultura japonesa do “omotenashi” (hospitalidade), e no Toyota Way (kaizen).

Aqui consegui, mesmo após quase 25 anos na Marca, trazer para a minha vida profissional e pessoal valor acrescentado de enorme retorno e valor.

É um percurso marcado pela ascensão e aprendizagem e, certamente, marcado por muitos desafios e dificuldades. Consegue referir-nos alguns?

Sim, alguns desafios marcados pelas crises do setor, e principalmente por alguma resistência à mudança que este mercado acarreta. Mas na filosofia da nossa empresa, as dificuldades transformam-se em oportunidades, e é assim que queremos sempre pensar, e agir.

Numa altura em que se debate cada vez mais questões relacionadas com a desigualdade de género, como diria ter sido o seu percurso profissional neste sentido? A desigualdade de género é uma realidade para si?

Sim e não. Sim, porque sendo mulher, e principalmente neste setor, existe sempre desconfiança e eventualmente alguma falta de “tato” para algumas reações, conclusões e decisões. E porque normalmente sou a única mulher, ou das poucas mulheres, por vezes torna difícil ser ouvida, ou pelo menos compreendida.

Não, porque no Grupo Salvador Caetano e na Toyota, não se sente diretamente estas questões, e porque talvez como qualquer mulher em lugares de liderança, marcamos sempre a nossa presença de uma forma muito assertiva e contundente.

É diretora da Toyota Caetano Portugal. O que é mais desafiante para si neste cargo?

Manter o nível de motivação da equipa, gestão de pessoas e conflitos, a criação contínua, e a procura de mais e melhor.

A sociedade ainda impõe bastantes limitações à mulher e ao seu papel na sociedade. Ter uma carreira profissional de sucesso significa abdicar do sucesso na vida pessoal ou vice-versa?

Acho que sim, mas acredito que é possível se houver partilha entre os casais, e mais igualdade. Ainda não estamos lá, mas também cabe aos educadores, mães, pais, sociedade, meios de comunicação, etc., criar seres humanos que não vejam a diferença de género como uma diferença de oportunidades e responsabilidades.

Assim teremos uma sociedade onde todas as mulheres podem ter o seu espaço e usufruir na plenitude do seu potencial e capacidades.

Pode partilhar connosco o seu exemplo? É fácil conciliar uma carreira profissional de sucesso com a vida pessoal e familiar?

Como não tenho filhos, imagino que torna as coisas eventualmente um bocado menos desafiantes, mas a constante necessidade de viajar e estar muito tempo fora de casa, torna as coisas mais complicadas.

Hoje as organizações debatem-se com múltiplos desafios relacionados com a transformação digital, mas também com a liderança, a gestão de pessoas ou a retenção de talento. O que é para si um bom líder? Que características a definem enquanto líder?

Um líder é aquele que não precisa de se afirmar como líder. É aquele que consegue que o acompanhem, e que acrescente sempre valor (quer profissionalmente quer pessoalmente). Que construa. Um líder precisa de agir com paixão e com determinação.

A presença feminina numa indústria onde os homens ainda estão em maior número

A Chassis Brakes International é uma das maiores fabricantes mundiais de soluções de travagem automóvel que com o seu espírito empreendedor e inovador, está presente em 23 localizações e conta com mais de 5.500 colaboradores a nível global. Em 2014, o grupo decidiu criar em Lisboa, um centro de serviços contabilísticos e financeiros para as suas empresas europeias. Olga Baptista aceitou o desafio de construir de raiz toda esta estrutura empresarial representativa do grupo.

BMW, SIEMENS E CHASSIS BRAKES…

Nascida em terras do Mondego, Olga Baptista licenciou-se em Economia pela Universidade de Coimbra. Iniciou a sua vida profissional na BMW na área de marketing, e pouco tempo depois entrou na gigante multinacional Siemens onde se desenvolveu até entrar para a grande fabricante de travões.

“Quando me juntei à Chassis Brakes International, o objetivo era criar uma equipa de 15 pessoas para fazer os serviços financeiros das empresas europeias do grupo. O sucesso do projecto e a competência da equipa que conseguimos criar, levou a uma muito maior aposta e contributo de Lisboa para o grupo. Hoje temos uma empresa com cerca de 70 pessoas que trabalham desde a área financeira e de contabilidade, à de compras a fornecedores, e suporte de vendas a clientes, que para além da Europa trabalham também com as Americas. Recentemente criámos um departamento de IT que, para todas as empresas do grupo a nível mundial, suporta, mantém e desenvolve soluções tanto ao nível de infraestrutura como de software, tais como SAP, Business Intelligence e Workflow Management”.

O nível de responsabilidade tinha aumentado significativamente. Diz ter aceite, pela vontade de se desafiar ainda mais. “Esta oportunidade fez-me questionar se seria altura de mudar. O desafio de criar uma empresa e toda uma equipa do zero, deu-me uma responsabilidade e frio na barriga que na altura achei interessante”, explica.

Questionada acerca daquilo que define a profissional que hoje se tornou, a diretora garante que a educação e formação que teve foi o mais importante: “Penso que a nossa base está bastante lá atrás. O que marca muito daquilo que sou, devo-o à minha família e educação que me deram. A partir daí vem a formação e a experiência. As situações que mais me desenvolveram foram aquelas em que a mudança aconteceu e sempre que me desafiei a sair da minha zona de conforto. Começou quando vim morar para Lisboa, o ter passado largos meses a morar em Bruxelas e na Índia também me marcaram bastante, e por último o ter vindo para a Chassis Brakes. Estas experiências foram altamente enriquecedoras, desafiaram-me bastante e trago delas bons ensinamentos pessoais e profissionais”.

“Acredito mesmo que a evolução está muito associada à mudança”

 

O QUE É INTERESSANTE NA INDÚSTRIA DOS SERVIÇOS

Numa empresa onde impera o bom ambiente de trabalho, as pessoas ajudam-se e trabalham em equipa não só pela necessidade processoal mas para o desenvolvimento delas próprias. Com uma equipa com mais de seis nacionalidades e onde a língua base é o Inglês, no dia a dia é comum falar-se línguas tão diferentes como Italiano, Turco, Polaco ou Francês.

Como nos comenta Olga Baptista: “É muito aliciante representar uma multinacional com esta diversidade e multiculturalidade. Trabalhamos em Portugal mas para o Mundo, o que nos põe diariamente em contacto com outras culturas e ideias. Algo que também me atrai neste tipo de serviços é a busca contínua pela melhoria, levando ao aumento de eficiência e da qualidade pela aprendizagem constante”.

Hoje é responsável por gerir uma equipa de 70 pessoas e afirma que o seu estilo de liderança assenta na adaptação perante as personalidades e necessidades de cada um.

“Gerir e liderar equipas foi algo que me apareceu como desafio sem o procurar, mas que rapidamente se tornou uma das minhas maiores vontades. O meu estilo de liderança depende da pessoa que está à minha frente e da situação concreta que estamos a passar”. 

“Para mim tem de haver uma adaptação às necessidades. Gosto de desenvolver equipas autónomas e dar liberdade de escolha. No entanto, autonomia não é abandono e por isso o apoio é crucial”

Com uma delicadeza assertiva, Olga acredita que só através da superação de desafios se evolui. Afirma que os seus actuais desafios se prendem em duas vertentes: “Por um lado fazer com que a empresa em Lisboa tenha um grande impacto para o grupo Chassis Brakes International e constantemente perceber como podemos contribuir para o seu crescimento. Por outro lado é motivar as pessoas que fazem parte desta grande equipa de especialistas e fazer com que cada uma consiga o seu melhor no dia a dia”.

TRABALHAR NUMA INDÚSTRIA TIPICAMENTE MASCULINA

“A indústria automóvel é super intereressante nos dias de hoje, além de ser um mercado bastante competitivo, está numa mudança constante e é otimo acompanhar e trabalhar neste meio. O futuro da  mobilidade, a eletrificação e redução de emissões, assim como a condução autónoma, são temas da atualidade e que me atraem, e isso não tem nada a ver com o género mas sim com o gosto pelos desafios e por perceber o impacto que as mudanças têm na vida em sociedade. No fundo, é entender como o mundo está a evoluir”.

Apesar de ser um mundo ainda muito dominado por homens, em termos de liderança e de operações, o centro em Lisboa contraria as estatísticas até do proprio grupo Chassis Brakes ao ter mais mulheres do que homens a ocupar funções de gestão, mas Olga esclarece que nada tem a ver com sexismos ou feminismos, “é pura meritocracia”.

E é assim que encara toda a indústria: “Não existe nenhuma dificuldade ou obstáculo por haver mais homens, é apenas um facto”, explica.

“Acredito que o estereótipo de liderança ter de se ser homem, branco, e com mais de 50 anos já passou de moda. Hoje o que se procura é a diversidade a todos os níveis: cultural, de raças e género…Obstáculos de género não tive, até acho ter tido bastantes oportunidades e soube agarrá-las da melhor forma. Situações constrangedoras tive algumas sim mas felizmente já no passado e talvez mais pela idade. Algo que, mal provava a minha capacidade de trabalho, a questão de género deixava de fazer parte da equação”.

“O que as grandes empresas querem são pessoas competentes e com visão”

Enfermeira portuguesa é destaque no Reino Unido. Cá, nunca conseguiu emprego na área

O que a levou a escolher a enfermagem como carreira profissional?

O gosto pela enfermagem surgiu durante a minha experiência nos bombeiros. O contacto com outros enfermeiros e com algumas situações mais delicadas fizeram-me perceber que a enfermagem seria o caminho ideal para mim. Em 2009, decidi fazer o acesso pelos maiores de 23 na Escola Superior de Saúde Vale do Ave, em Vila Nova de Famalicão.

A certa altura tomou a decisão de emigrar para Inglaterra porque em Portugal nunca conseguiu trabalhar na sua área. Esta foi uma decisão fácil?

Deixei Portugal em Agosto de 2014. Vim de carro com a minha cunhada. Foi uma experiência inicial para ver se me adaptava e se conseguiria arranjar trabalho. Assim, que cheguei a Inglaterra comecei a tratar da documentação necessária e a procurar trabalho. Entre setembro e dezembro regressei a Portugal mais duas vezes, para tratar da mudança e também para trazer as minhas gatinhas. Em dezembro o meu marido chegou a Inglaterra. Foi uma adaptação difícil, porque estava fora da minha zona de conforto, mas ao mesmo tempo tive todo o apoio da família do meu marido.

Chegou a Inglaterra sem saber falar inglês, além deste, quais foram os maiores obstáculos que teve que ultrapassar desde que mudou de país?

Além da língua outros obstáculos foi adaptar-me à cultura e à legislação inglesa. A cultura foi relativamente fácil, uma vez que sou curiosa e gosto de saber acerca de outras culturas. E a interação com colegas de trabalho e residentes foi essencial para me adaptar. Mas a legislação foi mais complicada, e tive de fazer um esforço redobrado em compreender a legislação e adaptar a minha forma de trabalhar.

Apesar das dificuldades foi nomeada a melhor enfermeira de cuidados continuados do Reino Unido e melhor enfermeira da região leste de Inglaterra. Qual é o sentimento de ser, finalmente, reconhecida?

Este prémio reconhece o importante papel que os enfermeiros que atuam no setor de cuidados têm na promoção da saúde emocional, física, psicológica e social das pessoas que cuidamos e ser capazes de demonstrar como as habilidades de enfermagem se integram. Como enfermeira devo fazer tudo aquilo que esta ao meu alcance para cuidar do outro. Acima de tudo, devo respeitar a dignidade humana, e cuidar da pessoa como um todo, a nível físico, psicológico e emocional, social e espiritual. Mas para o fazer, devo ser consciente das minhas capacidades e habilidades técnicas e utilizar todo o conhecimento teórico adquirido para este cuidar. Acho que foi tudo isto que originou as nomeações para os prémios.

Estive nomeada para duas competições distintas. Uma foi o National Care Awards, onde não existe fase eliminatória e dos milhares de candidatos, são selecionados os cinco melhores para ir à final, infelizmente não ganhei mas fiquei muito lisonjeada por ter chegado ao Top 5 pelo segundo ano consecutivo. A outra competição são os Great British Care Awards onde se começa por uma fase regional e os vencedores regionais vão a uma final nacional. Como ganhei a fase regional, fui à final e ganhei!

Ter sido nomeada pelos residentes e familiares, colegas e superiores foi uma surpresa enorme, nunca imaginei que isto pudesse acontecer comigo, mas quando realmente ganhei o prémio foi um orgulho enorme. Foi uma alegria chegar ao lar e puder partilhar com todos os residentes, familiares e colegas o prémio. Este prémio, é sem dúvida o reconhecimento de todo um trabalho que tenho vindo a desenvolver como enfermeira, mas especialmente como pessoa, e para mim, significa que estou no caminho certo.

Tem tido uma progressão exponencial desde que chegou a Inglaterra. No primeiro lar onde trabalhou foi promovida a diretora clínica e, entretanto, no lar onde trabalha atualmente, é já subgerente. Sente que em Inglaterra as oportunidades surgem, ao contrário do que se passa em Portugal? Na sua opinião, a que se deverá isso?

Como enfermeira, eu acho que o meu trabalho é respeitado e que as pessoas confiam no que faço. Mas acima de tudo, acho que ser sincera, honesta e calma, facilita bastante. Em Inglaterra o papel do cuidador é muito respeitado pelas pessoas em geral.

Em Inglaterra confiaram e apostaram em mim. Deram-me oportunidade de mostrar as minhas capacidades.

Tive a felicidade de encontrar uma chefe que me apoia diariamente em atingir os meus objetivos e acho que aqui está uma grande diferença. As constantes supervisões com os superiores e uma avaliação contínua foi essencial para que eu pudesse traçar o meu caminho profissional e seguir o meu sonho.

Em Portugal fui considerada uma pessoa sem experiência e que não valia a pena ser dada uma oportunidade, enquanto em Inglaterra deram-me todas as oportunidades e ajudaram-me a evoluir profissionalmente.

Consegui realizar os meus sonhos e muito mais, porque nunca imaginei chegar onde cheguei e ganhar um prémio nacional.

Sobre um possível regresso, existe o desejo de um dia voltar a Portugal?

Gostava muito de um dia poder voltar a Portugal e poder partilhar todo o conhecimento que adquiri, mas neste momento vou continuar por cá. Profissionalmente, eu quero continuar a estudar e a apostar na carreira. Estou atualmente a estudar gestão e liderança de unidades de saúde para que num futuro próximo, possa gerir um lar, e assim continuar a evoluir profissionalmente. Ao mesmo tempo, contínuo a atualizar os meus conhecimentos a nível de enfermagem.

BeFashion: Lutar sempre, vencer talvez e desistir nunca

BeFashion Textile Agency, surgiu no mercado há cerca de cinco anos, sendo que o grande desiderato da mesma passa por promover a inovação e a melhoria de processos de uma forma contínua e regular, criando uma relação sustentada e duradoura com clientes e parceiros, acompanhando sempre as ultimas e novas tendências do mercado global, e mantendo a qualidade como vértice superior da sua dinâmica ao nível de serviços e celeridade na vertente da competitividade dos preços.

Mas quem é Patrícia Ferreira? “Acima de tudo sou mãe e empresária que veio de raízes humildes e que lutou muito para alcançar aquilo que tenho hoje”, afirma a nossa entrevistada, que está no setor do têxtil há quase duas décadas, mais concretamente há 18 anos e que ao longo do seu percurso esteve quase sempre em posições de liderança e chefia, algo que “é muito prestigiante para mim”, assegura, salientando que foi o seu lado curioso e sua capacidade para línguas que permitiu que a mesma continuasse a crescer ao longo de todos estes anos, sempre por conta de outrem e sempre com patrões do sexo masculino, “por quem tenho muito respeito e consideração pela forma respeitosa e valorizada como me trataram e que fizeram um pouco do que sou atualmente”, salienta Patrícia Ferreira, que com o intuito de atingir novos objetivos, novas metas, foi sempre ela a tomar a iniciativa e decidir assumir novos cargos, nunca tendo sido despedida.

BeFashion é Patrícia…

Até que chegou 2014 e o momento e que a nossa entrevistada percebeu que esse era o momento para apostar no seu próprio negócio e projeto. “Estava numa idade e maturidade estável que me permitiram avançar por conta próprio e criei a BeFashion Textile Agency”, refere, salientando que estes cinco anos da marca no mercado têm sido bastante positivos. Com um longo percurso no universo do têxtil, a nossa interlocutora foi reunindo conhecimentos e estofo para ultrapassar qualquer obstáculo e trabalhou sempre com fabricantes, embora o seu objetivo fosse tornar-se uma agente neste mercado, pois reconhecia que os players existentes no mercado tinham um défice elevado de conhecimentos técnicos ao nível dos agentes e “então achei que se conseguisse marcar pela diferença e enveredar por um caminho de agente, tinha todos os conhecimentos técnicos para marcar pela distinção e agora posso dizer que marquei pela diferença”, assevera a nossa entrevistada, referindo algo que a orgulha muito. “Quando edifiquei a marca não fui eu que procurei os clientes, mas eles é que me procuraram. Para muitos clientes não é a BeFashion, mas a Patrícia e isso deixa-me orgulhosa”, salienta, não deixando de afirmar que os agentes no mercado atual são mais do que capazes e revelam enorme profissionalismo e conhecimentos, “mas marco também a diferença pelo conhecimento que adquiri ao longo da minha carreira. Por isso é que apostei numa equipa pequena porque não precisamos de ser muitos para fazer um trabalho de excelência, o mais importante é gostarmos do que fazemos e ter um bom ambiente de trabalho e isso temos”, afirma convicta a nossa entrevistada. Assegurando que na BeFashion ninguém depende do fabricante para dar uma resposta ao cliente, “tudo porque reunimos conhecimentos técnicos que nos permite apresentar ao mesmo propostas e soluções”.

“A balança está equilibrada e existe respeito mútuo”

Num passado recente, o mundo do têxtil era composto, maioritariamente por homens, principalmente em cargos de liderança e chefia, algo que ao longo dos tempos foi mudando e para a qual as mulheres muito contribuíram. “Não tenho a mínima dúvida que as mulheres foram importantes para essa mudança. Isto sem desfazer dos homens que fazem parte deste setor, por quem tenho uma relação de carinho e respeito por tudo o que me ajudaram”, refere a nossa interlocutora. Mas haverá uma liderança feminina e uma masculina ou essa vertente de um líder não passa pela questão de género? “Naturalmente que não. Acredito sinceramente que a balança está equilibrada e existe respeito mútuo. A única coisa que encontro algumas diferenças é na forma de resolver um problema, porque as mulheres têm uma forma de pensar diferente perante um obstáculo e procuram imediatamente por soluções, enquanto que o homem se limita a colocar o problema. No fundo é tudo uma questão de pragmatismo”, afirma a nossa entrevistada.

Mas será que Patrícia Ferreira, ao longo de 18 anos de carreira, alguma vez sentiu alguma barreira em crescer pelo facto de ser mulher? Segundo a nossa entrevistada “as dificuldades de ser jovem mulher em cargo de liderança foram sempre superadas pela capacidade de resolver e decidir assertivamente face a qualquer adversidade. Fazendo uso da capacidade de fazer diversas tarefas ao mesmo tempo, e assumindo-me como mulher profissional muito nova fez-me ganhar o respeito pelos meus pares masculinos”, salienta e reconhecendo que alguns setores da sociedade e do universo empresarial a questão da igualdade salarial ainda seja distinta para homens e mulheres, “algo que acredito que irá mudar no futuro, pois já demos passos enormes e positivas nesse equilíbrio”.

O mercado francês e uma localização estratégica

A BeFashion atua somente no mercado internacional, em mercados como França, Espanha, Alemanha, Dinamarca, Bélgica e outros, sendo que é no mercado gaulês que se materializa o volume superior de negócios por parte da marca, cerca de 70% e porquê o francês? “Porque quando edifiquei a agência a grande procura de clientes foi desse mercado e acabei por conquistar uma parte desse mercado”, assevera Patrícia Ferreira, recordando que os mercados internacionais e nacionais são bastante díspares. “Cá dentro ainda existe uma preocupação muito grande com o que se vai faturar com determinada empresa, enquanto que a nível externo valorizam a presença e isso fazemos diariamente, pois a cada três semanas vou a Paris visitar os meus clientes e perceber quais as motivações, quais as preocupações e consigo dar soluções para isso mesmo”, lembra, assegurando que tem construído relações profissionais no mercado francês que já estão neste momento numa fase de relação de amizade e isso além de ser francamente positivo, permite-nos ter maior confiança por parte do cliente e assegurar novos clientes que nos conhecem pela forma como trabalhamos com os nossos atuais parceiros”.

Localizada no coração do têxtil do norte do país, Guimarães, esta também foi uma estratégia da nossa interlocutora. “Estamos aqui há dois anos e apesar de ser natural de Guimarães, não foi esse o vetor mais importante para estarmos aqui, mas sim pela proximidade que nos permite ter com os melhores fabricantes do têxtil em Portugal, que para mim estão nesta cidade. Aliado a isso, também cumpro um desejo, ou seja, contribuir para o crescimento económica da minha cidade”, revela, lembrando que o desiderato mais próximo é o de crescer no mercado italiano e alemão. “Já trabalhamos com estes mercados, mas o nosso volume ainda é bastante reduzido e queremos inverter isso em 2019, se calhar até ao final desta estação, que é em agosto”, afirma Patrícia Ferreira, lembrando o lema da empresa, “Lutar sempre, vencer talvez e desistir nunca”.

Não pretendemos terminar sem ter a visão de uma empresária/mulher experiente e conhecedora do mercado do têxtil em Portugal que, num passado não muito longínquo, “estava morto. O têxtil morreu por um vasto conjunto de cenários onde se encontra a não aposta na inovação e no fazer diferente. A mudança surgiu quando os criadores das empresas começaram a passar essa pasta aos filhos e filhas que tinham e têm uma visão mais inovadora e mais virada para o futuro e começaram a apostar em novos equipamentos, em novas técnicas de produção e em mercados novos e foi esse o click para que o têxtil regressasse e marcasse um crescimento assinalável e positivo”, revela a CEO da BeFashion.

Hoje em dia o homem dita tendências da moda

Será que a moda é um vetor importante para a afirmação da Mulher? “Sem dúvida”, afirma a nossa entrevistada, lembrando, contudo, que hoje o homem tem uma palavra a dizer neste domínio. “A mulher sempre procurou estar na moda e conhecer as tendências e o homem, num passado recente, estava desligado disso, algo que atualmente mudou, e até me arrisco a afirmar que hoje em dia, em vários casos, é o homem a ditar as tendências da moda, algo que até para mim que conheço a fundo o mercado e tenho uma mente aberta, me surpreendeu e que considero ser bastante positivo e gratificante”, conclui a nossa entrevistada.

“A presença da mulher na advocacia é hoje um dado absolutamente incontornável”

De que forma é que a marca consegue manter este posicionamento e quais são os verdadeiros desafios que enfrentam atualmente as sociedades de advogados?

A Sérvulo tem sabido manter um posicionamento de coerência no mercado jurídico, optando por uma aposta clara pelos serviços jurídicos de alta complexidade e não massificados e, ao mesmo tempo, pela elevada qualificação dos seus advogados em vista da produção de um output de excelência.

O maior desafio das sociedades de advogados hoje é a eficiência, é encontrar um equilíbrio entre a relação meios utilizados/resultados produzidos que dê resposta à crescente pressão dos clientes em matéria de honorários.

E a mulher? Que papel assume atualmente a mulher num setor associado até há bem pouco tempo, maioritariamente, ao sexo masculino?

A presença da mulher na advocacia é hoje um dado absolutamente incontornável. As advogadas são, em geral, muito dedicadas e batalhadoras e isso permitiu-lhes merecer hoje o reconhecimento pelos pares e pelos clientes da qualidade do trabalho jurídico que executam. Mas, infelizmente, ao nível dos lugares de topo e de gestão nas sociedades de advogados e também ao nível da escolha, pelos clientes, do advogado a quem entregar a responsabilidade para tomar conta de um problema/assunto jurídico seu, os resultados ficam aquém, havendo claramente uma preponderância masculina. Este é o passo que falta dar.

Está na SÉRVULO desde 2008, e é sócia do departamento de Público. Olhando para a sua vasta carreira, o que a motiva e inspira diariamente?

Dei-me conta agora que me licenciei há precisamente 20 anos, em 1999. Mas não vejo estes 20 anos como uma vasta carreira. E sinto-me ainda uma aprendiz, no Direito e na vida. Estou numa fase ótima da minha vida profissional também por isso, entre duas gerações de advogados de quem beneficio muito.

O que me motiva diariamente é resolver os problemas do cliente e fazer tudo o que está ao meu alcance para que decidam o melhor possível.

De que forma é que podemos caracterizar Ana Luísa Guimarães enquanto mulher e profissional?

Os últimos anos, desde a aproximação aos 40, têm sido muito enriquecedores, a nível pessoal e, reflexamente, também a nível profissional. É uma profunda tomada de consciência sobre a finitude, as pessoas, o bem e o mal e o mundo à nossa volta. Até então, era tudo uma brincadeira…E, fruto desse processo, a serenidade é hoje um valor que conquistei, tanto a nível pessoal como profissional. Mas continuo a ser muito emotiva, com o que isso tem de bom e de menos bom. Não sou indiferente.

A minha visão do Direito, apesar do grande enfoque nos últimos anos, no Direito Público, nunca foi verdadeiramente afunilada e cada vez menos pretendo que o seja. O Direito, para se realizar, tem de ser poroso. Tem de estar perto da vida real, compreender as pessoas, as organizações e aproximar-se dos centros de decisão. Por isso, decidir fazer um MBA, que estou a concluir na AESE Business School, que me despertou para um conjunto de realidades que me eram muito mais distantes.

A desigualdade de género é uma questão que continua a merecer a devida atenção de todos nós, com as mulheres a continuarem a ser alvo de discriminação económica e social. Esta é, de facto, uma questão que iremos conseguir mudar ou combater?

Há um caminho que está a ser feito há muito tempo e que irá continuar. Acredito que as desigualdades tendem a ser atenuadas. E aceito instrumentos normativos corretivos, mas vejo-os com um mal necessário. Isto é, não me revejo intrinsecamente na sua essência, mas concordo que pragmaticamente são importantes e que sem eles a evolução é muito mais difícil.

Liderança feminina ou masculina? Existe realmente alguma diferença entre ambas ou não é uma questão de género?

As mulheres são, regra geral, mais emotivas, melhores gestoras das suas emoções e mais atentas às emoções alheias. Se tivesse de eleger uma característica diferenciadora na liderança masculina e feminina seria a inteligência emocional a favor das mulheres.

Alguma vez, ao longo da sua carreira, já sentiu essa desigualdade do género?

Se lhe dissesse que não, não estaria a ser sincera.

A terminar, que mensagem deixaria a todas as mulheres?

Que acreditem mais e mais nelas próprias e que sejam livres nas suas escolhas, sem cedência a preconceitos e moralismos de qualquer espécie.

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