SUSANA OLIVEIRA

No sentido de dar a conhecer um pouco mais do seu percurso ao nosso leitor, quando é que deu início à sua carreira e de que forma é que tem vindo a contribuir para um mercado imobiliário cada vez mais positivo e transparente?

Venho da Psicologia Clínica, passei pelos Recursos Humanos e em 2010 surgiu um convite para o sector imobiliário. É muito gratificante para alguém como eu, que gosta pouco de rotina e muito de pessoas. Não sei o peso do meu contributo, mas posso dizer que rejo o meu trabalho por dois princípios: ser genuína, usando a mesma “bitola” de Ética que sempre usei, e colocar sempre primeiro o cliente. O dinheiro é uma consequência feliz de um trabalho bem feito, aquele que coloca sempre a tónica no cliente, na resolução do seu problema. E quando um cliente sente que o “nosso” interesse é o “seu”, que cumprimos o que prometemos e conseguimos chegar ao fim com sucesso, penso que a isso se pode chamar um verdadeiro Serviço ao Cliente, com transparência.

Que análise perpetua do mercado imobiliário em Portugal e como explica o boom ao qual o mesmo foi remetido nos últimos anos?

A partir de 2014 notou-se uma reviravolta no imobiliário em Lisboa, mais tarde refletido noutras zonas, como o Porto ou Algarve. Uma série de medidas políticas, lançadas no “pós-crise”, alavancaram a economia (impostos diretos, indirectos e criação de postos de trabalho), por intermédio do investimento imobiliário. A revisão do regime jurídico do arrendamento urbano de 2012, a criação de benefícios fiscais na Reabilitação e os programas de captação de investimento estrangeiro, conseguiram criar um clima de confiança que permitiu transformar o panorama decrépito de certas zonas da cidade. Atualmente, a conjuntura é outra e, embora haja indicadores de que a tendência é para o crescimento, no terreno nota-se um ajustamento acentuado em certas zonas de Lisboa, sobretudo nas de contenção do AL, e estabilização dos valores em zonas mais tipicamente residenciais.

Teme que este crescimento e ritmo acelerados sejam apenas uma moda, ou é seguro dizer que o mercado imobiliário em Portugal continuará numa senda evolutiva e de crescimento?

O mercado já se está a ajustar. Há modas – uma “descoberta” de Portugal enquanto destino turístico – mas tem sobretudo a haver com política. Legisla-se para a desaceleração e o mercado responde em consonância. O foco atualmente é mais produto para habitação e estão em marcha mais projetos de construção de habitação nova em várias zonas de Lisboa. Os valores por metro quadrado bateram recordes nas zonas “nobres”, e é natural que continuem elevados, mas não poderão continuar a crescer exponencialmente se não houver absorção.

É legítimo afirmar que hoje existe uma sobrevalorização do imobiliário em Portugal? É possível passar a moderar os valores das mesmas?

Já está a acontecer. A questão é se isso vai ter os efeitos que se pretende. A intenção é a melhor mas não sei que reprecurssões este travão vai ter, a médio prazo, num dos setores que mais estava a contribuir para o crescimento económico. Não discordo dos valores por trás das recentes alterações jurídicas, mas tentando ver mais “à frente”, a contração do investimento imobiliário poderá afetar a economia de uma forma perniciosa, acabando por vir a retirar mais poder de compra ao cidadão comum.

No seu quotidiano, quais as exigências que lhe fazem enquanto profissional desta área e como procura cumprir as mesmas no sentido de satisfazer as exigências e necessidades dos clientes?

Os clientes estão cada vez mais exigentes e ainda bem. Estou constantemente em formação, procurando formas de criar mais Valor. As pessoas sabem que o valor de uma comissão não corresponde necessariamente ao Valor do serviço. Pelo mesmo valor comissional há quem faça tudo e há quem pouco faça. O meu objetivo é que o serviço permita ao cliente só ter de se preocupar no momento da decisão negocial. Para isso conto com o apoio de um assistente que me dá apoio com a estratégia de Marketing específica que estabeleço, um departamento jurídico (solicitadoria e garante da segurança jurídica do negócio), um departamento de apoio ao financiamento, e toda a equipa Maxgroup. Sou consultora Collection, premiada há vários anos consecutivos pelo meu trabalho, mas procuro sempre novas formas de fazer melhor.

O investimento imobiliário para a aquisição de vistos gold vai passar a ser restringido às regiões de interior, de acordo com uma nova proposta do PS. O objetivo é, por esta via, combater a especulação imobiliária e a escalada dos preços nas grandes áreas metropolitanas. Que análise perpetua desta proposta e que impacto poderá ter a mesma, mais concretamente no Porto e em Lisboa?

Este tipo de investidor quer fácil acesso, elevado rendimento e a menor despesa possível de manutenção. Creio que o investimento irá passar a ser residual. O impacto que vai ter é, primeiro, uma sensação de quebra de confiança, e segundo, uma desvalorização considerável no valor dos imóveis, sobretudo quando aliada ao fator zonas de contenção AL. Será muito mais difícil escoar produto que não se ajusta, pelas suas características, ao segmento residencial familiar (por ex. reduzida área útil) e que ainda para mais deixa de proporcionar os yields de rendimento que eram expectáveis antes destas alterações.

Estamos a colocar em causa o investimento estrangeiro em Portugal?

Estamos a dar-lhe uma machadada. Primeiro, pela quebra de confiança que referi, ou seja, os possíveis investidores não sentem garantias de que o seu investimento não venha a sofrer com mais mudanças legislativas, e segundo porque, mesmo para os poucos estrangeiros cujas intenções sejam estar permanentemente em Portugal, o interior infelizmente não oferece rentabilidade suficiente para se tornar apelativo em termos de retorno financeiro (para não falar outros défices a vários níveis), sobretudo se compararmos com ofertas semelhantes, como no caso de Espanha, que requer um investimento menor para obtenção do Visto Gold.

Na sua opinião, quais são as previsões para 2020, no que concerne ao mercado do imobiliário?

Penso que o mercado irá manter a tendência de ajuste. Vai vender e comprar quem necessita, mas haverá menos investimento para efeitos de rentabilidade, não só pelos fatores já mencionados, mas também devido à incerteza mesmo no que concerne o mercado de arrendamento tradicional. Penso que o ambiente de incerteza deixará muita gente em “stand-by”.