SOBRIEDADE E HARMONIA

É neste mês de abril que Filipa Borges Nascimento regressa a Coimbra, a sua cidade natal, para se estabelecer com o seu projeto de Arquitetura e Design de Interiores. É a Quinta de São Jerónimo que tem o privilégio de receber este atelier onde faz a magia acontecer. A própria, esteve à conversa com a Revista Pontos de Vista, onde abordou os motivos desta mudança assim como outros temas pertinentes e adjacentes à sua profissão.

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Começamos por questionar Filipa Borges Nascimento o que a levou a escolher Arquitetura como profissão e, se aquilo que ambicionava antes de o ser, se reflete no presente. Desde cedo que a nossa entrevistada demonstrou ter um especial interesse pelas artes, nomeadamente pela Arquitetura, mas não só. A organização do espaço e tudo o que isso envolve, como a escala e a proporção, é algo que lhe diz bastante. “Sempre tive grande foco na casa – os espaços onde vivemos são muito importantes para o nosso bem-estar. A casa é uma extensão de nós, o nosso porto de abrigo. Por isso, espaços cativantes, nos quais apetece estar foram, desde sempre, algo que me atraiu, assim como a parte da estética, as peças que neles habitam, a luz que entra, a história de quem lá vive. Ter o poder de aliar todos estes fatores e criar espaços para serem vivenciados diariamente é extraordinário”, afirma.
Com o componente de estética e o seu gosto geral em Arquitetura, a Arquiteta assume-se apaixonada por viajar, conhecer novos espaços, visitar feiras internacionais, no fundo, de consumir o máximo de informação relevante para o seu papel enquanto profissional. “No meu trabalho consigo colocar em prática a minha fascinação por espaços bonitos, coerentes e harmoniosos”, acrescenta.
Com um desvio claro da Arquitetura «pura e dura», é o Design de Interiores que faz, atualmente, brilhar os olhos da nossa interlocutora. No percurso da sua empresa Filipa Borges Nascimento – Arquitectura e Interiores, conta com uma vasta concretização de projetos residenciais, de alojamentos locais e até alguns comerciais, mas é sobretudo nos residenciais que a mesma acaba por entrar no íntimo das pessoas, na sua casa, nos seus desejos e receios. É, nestes projetos, que se concretizam sonhos. Haverá algo mais gratificante do que isso?
“Se pudesse escolher um tipo de projeto escolhia sem dúvida os residenciais, por tudo o que isso envolve. A ligação com o cliente e o resultado final extremamente personalizado, agrada-me muito”, reconhece a nossa entrevistada.
Certo é, em todos eles existem características em comum: a sobriedade e a harmonia. Ao olharmos para estes espaços recriados, percebemos que são sobretudo coerentes e tranquilos. Um apontamento de cor ou uma peça especial transformam-nos na imagem de cada cliente, num resultado com estilo e elegância.
Todos sabemos que o processo criativo pode ser complexo ou, pelo contrário, acessível e simples. Para a Arquiteta a sua inspiração não tem uma rotina. “Há espaços em que, o layout, ou seja, a distribuição das peças é intuitiva. Outros nem tanto, e dão luta. Para a proposta criativa há inúmeros fatores em jogo: o gosto do cliente, o budget disponível, e um sem fim de opções por onde se pode começar. Aí entra a experiência, um intenso trabalho de pesquisa, bem como o conhecimento de marcas e fornecedores. Além disso, consumo milhares de imagens diariamente. É importante estar a par das tendências e novidades. Depois é misturar tudo isto com outras referências e começar a criar. Muitas vezes, é ao fim de semana, ou mesmo no final do dia que me surgem ideias que os clientes possam gostar. Outras estou a trabalhar num projeto e surge-me a solução para outro. A experiência é um grande aliado mas pode também tornar-se num inimigo. Envolvo-me intensamente em todos os projetos, que começam a ser bastantes em simultâneo, o que chega a ser desgastante”, confessa a nossa entrevistada.
Nesta profissão e especialmente neste caso, podemos afirmar que é difícil “desligar” do trabalho, quando existem sempre, à distância de um «click», novas ideias disponíveis.

OS DESAFIOS DA PROFISSÃO
Afinal, onde começa e termina o trabalho de Filipa Borges Nascimento? Com as duas vertentes (Arquitetura e Design de Interiores), muitas vezes a mesma entra num projeto numa fase ainda embrionária – quando o cliente está a pensar numa construção de raiz ou ainda à procura do terreno. “É super importante o acompanhamento do Arquiteto durante a obra e a confirmação de que tudo está a ser construído de acordo com os desenhos técnicos. No meu caso, como também faço Design de Interiores, consigo chegar ao detalhe do vivo da almofada, ou ao padrão da colcha. Levo o projeto de A a Z, desde a fase da construção/remodelação até à parte mais decorativa: mobiliário, papéis de parede, tecidos, tapetes, iluminação”, explica a nossa interlocutora.
Durante este processo, o mais importante a ser tido em conta, é a leitura do cliente – perceber o que deseja para a sua casa. Aqui, a Arquiteta garante que embora sinta que concretiza sonhos e coloca em prática a expetativa do cliente, esta expetativa nem sempre é fácil de garantir.
Um dos grandes desafios da profissão vai ao encontro de, ainda nos dias de hoje, as pessoas questionarem os honorários cobrados para desenvolver o trabalho, o que cria alguma deceção na nossa entrevistada. “É um trabalho que envolve imensa pesquisa e ainda é muito desvalorizado. Na verdade, qualquer pessoa pode executá-lo (falando do design de interiores), desde que tenha bom gosto. Por isso as pessoas ainda me abordam muitas vezes para “dar uma ajuda” ou “dar ideias”. Costumo brincar: eu não dou ideias, eu vendo ideias!”.
Assim sendo, interessa compreender o que difere então realmente um profissional da área dos restantes. “Tantos detalhes”, começa por explicar, acrescentando que “a nossa formação permite-nos pensar o projeto como um todo, criar soluções personalizadas, propor peças com a dimensão adequada ao espaço, respeitar proporções, coordenar cores e materiais para que o resultado faça sentido. E toda a parte técnica envolvida. Além disso, o know-how e a experiência fazem com que o cliente ganhe tempo e perca preocupações ao atribuir este trabalho a um profissional. Quando inicio um projeto pela Arquitetura, na fase inicial já estou a pensar no design do interior. Os pormenores começam a ser pensados de raiz: os materiais a utilizar, onde devem ser as tomadas e os pontos de luz de acordo com a localização do mobiliário. Há, de facto, uma série de detalhes que fazem toda a diferença”.
Ainda assim, sabemos que a sociedade está em constante mudança e que todas estas adversidades acabarão por se tornar indiferentes. Prova de que tudo começa a mudar é que, mesmo em plena pandemia e com os atrasos normais em todos os serviços, Filipa Borges Nascimento não parou o seu trabalho. “Muitas pessoas, pelo facto de estarem a passar mais tempo em casa, têm também mais vontade de tornar o espaço mais confortável e mais bonito. Tenho tido muitos contactos nesse sentido”, afirma.
Certo é, estes projetos, maioritariamente na sua cidade natal, levaram a nossa entrevistada a deixar o atelier do Porto e abri-lo em Coimbra. “Apesar de continuar a realizar projetos em todo país, a mudança faz sentido nesta fase. É gratificante saber que estou a trabalhar na minha região e, voltar a casa”.
Assim, é a partir de abril que pode encontrar a marca Filipa Borges Nascimento – Arquictetura e Interiores, na Quinta de São Jerónimo, em Coimbra.