“O BIM encerra em si a formação dos utilizadores, a dimensão dos mercados e a legislação aplicável”

“O BIM está a revolucionar o setor AEC, pelas grandes melhorias que permite obter ao longo do processo construtivo de um empreendimento, e durante a sua exploração”, quem o afirma é Fernando Pinho, Professor e Investigador, Responsável pela Pós-Graduação em Construção e Reabilitação Sustentável da NOVA SCHOOL OF SCIENCE AND TECHNOLOGY | FCT NOVA.

307

Na qualidade de Professor e Investigador e Responsável pela Pós-Graduação em Construção e Reabilitação Sustentável da NOVA SCHOOL OF SCIENCE AND TECHNOLOGY | FCT NOVA, como nos pode descrever a evolução deste setor em Portugal?|
O setor sofreu um forte impacto resultante da crise financeira e económica de 2008. Porém, principalmente a partir de 2011, sobretudo devido ao aumento da atividade ligada ao setor do turismo que então se começava a observar, a reabilitação urbana sofreu um importante incremento, também impulsionado pelo Decreto-Lei n.º 53/2014, criticado por vários especialistas do setor, por incluir constrangimentos ao nível da reabilitação sísmica. Esta situação foi, entretanto, ultrapassada com a publicação do DL 95/2019, que estabelece o novo regime aplicável à reabilitação de edifícios ou frações autónomas. A par das obras de reabilitação de edifícios, a construção nova tem mantido também um forte dinamismo após a crise de 2008.
Em 2020, com o surgimento da pandemia COVID-19, a economia mundial, e, por conseguinte, a economia portuguesa sofreram uma retração histórica. Porém, o setor da Arquitetura, Engenharia e Construção (AEC) foi um dos poucos que se manteve em atividade, contribuindo desta forma para atenuar as dificuldades sociais e económicas de uma grande parte dos seus intervenientes, e da sociedade portuguesa em geral.

 O BIM (Building Information Modelling) surge na indústria como uma solução de modernização e de reestruturação, estimulando a colaboração entre os seus agentes, incentivando a desmaterialização e elevando a importância de se obterem melhores desempenhos e processos mais eficientes. Trata-se de um novo paradigma na digitalização, tanto na Reabilitação Urbana como na Construção e na Engenharia?
Sim. O BIM está a revolucionar o setor AEC, pelas grandes melhorias que permite obter ao longo do processo construtivo de um empreendimento, e durante a sua exploração. Essas melhorias refletem-se, para além das referidas na formulação da questão, na qualidade global de todo o processo, por exemplo, ao permitir prever e antecipar possíveis incompatibilidades entre projetos de especialidades, simular diferentes soluções para um mesmo objetivo/função (analisando os correspondentes custos e impactos ambientais) e apresentar ao promotor o aspeto final da obra, muito antes do início da sua construção.

A que desafios vem responder esta abordagem e, sobretudo, porque se tornou crucial nos setores anteriormente mencionados?
Como referido, a metodologia BIM, que se materializa na utilização de softwares compatíveis entre si, ainda que de diferentes marcas/fabricantes, permite antecipar e ajudar a resolver todos os “conflitos” entre projetos existentes em obra (ex. cruzamentos entre tubagens e estrutura), frequentes no projeto tradicional. Além disso, permite otimizar o processo de cálculo e de pormenorização (desenho), fornece importantes elementos de gestão e planeamento e facilita a interação entre os intervenientes/responsáveis e a construção em obra.

Desde que o conceito BIM surgiu, que o debate se prende em torno do seu valor e aplicação, mas, além disso, o que se deve saber para ser implementado com sucesso e desbloquear o verdadeiro valor que aporta aos utilizadores?
O BIM encerra em si a formação dos utilizadores, a dimensão dos mercados e a legislação aplicável. De facto, os custos dos softwares, o tempo de formação e aprendizagem na modelação e o dinamismo do mercado são fatores que nesta fase ainda pesam da decisão de alguns Gabinetes de Arquitetura, mas sobretudo de Engenharia, adotarem já, ou mais tarde, este novo procedimento de projeto. Claro que o processo de normalização atualmente em curso em Portugal, e a própria legislação, que surgirá no futuro, ajudarão a ultrapassar todas estas dificuldades. Facto que, aliás, já acontece em muitos Gabinetes de projeto portugueses.

Afirma-se que o BIM foi um ponto de viragem no setor da Construção, tornando-o mais sustentável. Na sua opinião, o que fomenta esta ideia?
Julgo que existem várias razões, das quais destaco: por um lado, as novas gerações de projetistas (Arquitetos e Engenheiros, das diferentes especialidades), e de forma crescente de construtores, têm já uma grande preocupação com as questões ambientais e a preservação dos recursos naturais, e uma elevada competência na utilização das ferramentas digitais. Isto facilita claramente o espírito de curiosidade e a adoção do BIM como metodologia de trabalho. Por outro lado, o BIM permite a desmaterialização do projeto, a minimização de resíduos durante a obra, a minimização dos custos globais, e, talvez o mais importante, a comunicação digital entre os diversos intervenientes, mesmo que sediados em diferentes Continentes (impulsionada de forma exponencial durante a atual pandemia). Todos estes fatores permitem acreditar que esta abordagem do projeto vem proporcionar um novo ponto de viragem no setor AEC, tal como aconteceu há poucas décadas na implementação do desenho assistido por computador (CAD) em substituição dos métodos manuais de desenho dos projetos.

Quais serão as novas tendências para o futuro destas indústrias?
O setor é muito vasto. Mas, claramente, a preocupação com a preservação dos recursos naturais, a reciclagem e a implementação de novos materiais estarão incluídas nessas tendências. Concretizando um pouco: a utilização de produtos de construção multifuncionais (ex. vidros com auto-limpeza ou betões e argamassas auto-regeneráveis, que conseguem colmatar a fendilhação que ocorra), o interesse  pela utilização de produtos de construção que contribuem para a saúde humana (ex. revestimentos de paredes interiores que captam poluentes), a utilização de resíduos de construção de demolição (RCD) no fabrico de produtos de construção em substituição parcial de matérias-primas virgens ou a opção, quando possível, pela reabilitação das construções antigas (minimizando assim o consumo de recursos naturais e mantendo a memória histórica dos locais) em detrimento da sua demolição e construção nova, serão certamente novas tendências e desafios para o futuro do setor AEC.
Talvez por estas razões, muitos técnicos portugueses estão a procurar cursos de formação ao longo da vida, como é o caso da Pós-Graduação em Construção e Reabilitação Sustentável da FCT NOVA, onde muitas destas matérias são abordadas.