Reforço das competências digitais é um imperativo para a competitividade de Portugal

Sandra Fazenda Almeida, Diretora Executiva da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações (APDC), esteve à conversa com a Revista Pontos de Vista, abordando de uma forma mais abrangente o Ano Europeu das Competências, que se celebra no ano corrente. Fique a saber quão essencial é este impulso das competências a profissionais, empresas e setores.

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A APDC dá palco, desde 1984, aos seus Associados dos setores de Telecomunicações, IT e Media. Que balanço faz destes 39 anos de história?
Nestas quase quatro décadas de vida, a APDC tem desempenhado um papel relevante na promoção e desenvolvimento do setor das comunicações e das tecnologias de informação e media em Portugal. Hoje, uma das apostas centra-se na promoção da inovação e do desenvolvimento de novas tecnologias, apoiando a investigação científica e tecnológica e fomentando a criação de startups e de projetos empreendedores. Nesse sentido, temos desenvolvido iniciativas para dar visibilidade às startups de base tecnológica, como o World Summit Awards ou do Prémio Cidades e Territórios do Futuro. Temos vindo a inovar ao nível da realização de eventos, desde o Congresso das Comunicações, que nos últimos anos se reinventou, transformando-se num evento híbrido em formato de programa de televisão, ao novo EVOLVE – Digital Transformation Summit, criado em 2022, às conferências e webinares. Uma das áreas de aposta é a da literacia digital, desenvolvendo projetos de formação e sensibilização para a importância das TIC. Desde 2020, desenvolvemos uma estratégia de aposta na requalificação para o digital.

Esta Associação é, assim, representativa das TIC e Media em Portugal, setor horizontal e indutor de modernidade e competitividade. De que forma, a mesma, tem contribuído para a aceleração do processo de transformação digital da economia e da sociedade portuguesas?
A APDC tem vindo a assumir um papel crescentemente relevante na promoção e aceleração do processo de transformação digital da economia e da sociedade. Hoje, assumimo-nos como uma plataforma para o digital, reunindo todos os stakeholders em torno desta transformação que está em forte aceleração e cujo sucesso determinará o nosso futuro.
O Digital Business Congress, que realizamos anualmente em maio, exemplifica este papel. A edição deste ano, a 32ª, a realizar a 9 e 10 de maio, online e no Auditório da Faculdade de Medicina Dentária de Lisboa, será dedicada às grandes disrupções tecnológicas. Temas como os ecossistemas e ativos digitais, as alterações no sistema financeiro, o avanço das moedas digitais reguladas, a transformação da Administração Pública ou as mudanças no mercado de trabalho estarão em cima da mesa. Mas em todas as nossas áreas promovemos a colaboração e partilha de conhecimento entre as empresas e um ecossistema cada vez mais robusto em torno de todos os temas impactantes para a nossa economia e sociedade, desde a formação e capacitação aos eventos e networking, passando pelos estudos, análises e outras informações relevantes.

Olhando para a população e para a economia da União Europeia, considera que a transição ecológica e digital está a criar novas oportunidades? Em que medida?
A transição para uma economia mais sustentável e digital tem sido uma das prioridades da UE, sendo impulsionada por políticas e iniciativas ambiciosas, que visam promover a inovação, a competitividade, a criação de emprego, o crescimento económico e o desenvolvimento social. Na componente da transição ecológica, a aposta na redução das emissões de gases de efeito estufa, eficiência energética, energia renovável e redução do consumo de recursos naturais tem criado oportunidades de negócios e emprego em setores como a energia renovável, eficiência energética, gestão de resíduos e mobilidade sustentável. E porque a sustentabilidade é uma prioridade e o digital desempenha aqui um papel central, a APDC foi o parceiro operacional do GeSI – Global Enabling Sustainability Initiative, no 1º Digital with Purpose Global Summit, realizado em Lisboa em 2022. Este ano, voltamos a colaborar na 2ª edição, a decorrer a 27 a 29 setembro, na Altice Arena. Já no que respeita à transição digital, Bruxelas tem promovido e investido em infraestruturas digitais e novas tecnologias disruptivas e incentivado a inovação e o empreendedorismo, criando também aqui mais oportunidades e mais emprego.

A União Europeia elegeu 2023 como Ano Europeu das Competências, elevando a prioridade máxima a necessidade do desenvolvimento de competências. Face às constantes mudanças do mercado de trabalho, quão importante é este impulso das competências a profissionais, empresas e setores, nomeadamente naqueles que a APDC reforça?
A aquisição de novas competências é absolutamente crítica para os profissionais, empresas e setores de atividade, num Mundo em constante e profunda transformação. Como aliás vimos nos anos mais recentes, com a pandemia e a guerra na Europa, que nos tem trazido desafios sem paralelo. Bruxelas elegeu este como o ano das competências exatamente para destacar a importância das qualificações num contexto de enormes disrupções. Mudou a forma de trabalhar e de fazer os negócios, surgiram novas áreas, enquanto outras estão a desaparecer, há grandes oportunidades que estão a surgir com o digital e as novas tecnologias… O que obriga as pessoas a atualizarem em permanência as suas competências e as empresas a garantirem a sua competitividade e inovação. É preciso investir na formação e desenvolvimento dos colaboradores e a realidade do mercado mostra que o talento tecnológico está cada vez mais escasso.
É a esta necessidade que tentamos responder com o Programa UPskill, que já vai na sua 3ª edição, e se assume como uma grande e diferenciadora aposta de requalificação. Este modelo poderá e deverá ser explorado, no sentido de se alargar a oferta de formação e criar uma iniciativa ainda mais robusta. Aliás, a APDC já tem MoU com o IEFP para a criação de um Centro Protocolar de Formação Profissional Especializada na área do digital, no âmbito dos investimentos previstos no PRR. Adicionalmente, a APDC gere ainda o Programa de Certificados Profissionais da Google, que conta em 2023 com 6000 licenças para o nosso país. O projeto abrange cinco cursos ministrados online, através da plataforma Coursera, recebendo os formandos um certificado profissional que lhes permite uma remuneração acima da média.

As empresas representam aqui um papel fundamental neste esforço conjunto das competências dos trabalhadores. De que forma, a APDC, encara o Ano Europeu das Competências e o promove junto dos seus Associados, como um “investimento” que irá potenciar a criatividade, a inovação, a produtividade e a competitividade?
O Ano Europeu das Competências ajudará as empresas, em especial as PME, a apostarem cada vez mais na qualificação. Preparar os jovens para os empregos e a sociedade do futuro é um desafio importante, dado o ritmo acelerado de mudança tecnológica e social, tal como assegurar a qualificação dos profissionais no ativo e os desempregados ao longo da vida. As empresas têm de se consciencializar que a formação contínua é essencial para aumentar a criatividade, a inovação, a produtividade e a competitividade. E as pessoas de que a formação contínua é a garantia do seu sucesso num mercado de trabalho que está em mudança acelerada.

Uma das metas da União Europeia é que exista uma taxa de emprego de pelo menos 78% até ao ano de 2030. Na sua perspetiva, olhando para o momento atual, diria que esta é uma meta realista? Qual é o caminho mais rápido para a concretizar e que a APDC já incrementa?
É uma meta ambiciosa, mas não é impossível de alcançar. Embora persistam muitos fatores que a podem afetar, desde a evolução da economia global e europeia à política fiscal dos estados-membros, passando pela capacidade de resposta da economia e da sociedade às mudanças tecnológicas e ambientais, entre outros. A pandemia da Covid-19 teve um impacto forte nas perdas de emprego, já que muitos negócios se reduziram ou desapareceram, mas esteve na base de outros negócios, mais ligados ao digital. A invasão da Ucrânia pela Rússia e uma guerra que já dura há um ano voltou a impactar negativamente as economias, quando estas começaram a recuperar.  A UE tem adotado medidas para enfrentar estes desafios, mas o cenário é ainda muito instável. Certo é que o caminho terá de passar pelo investimento em competências, o estímulo à inovação e ao empreendedorismo, a adoção de políticas de inclusão social e pela cooperação internacional.

Nesta fase transitória e de profunda transformação do mercado, como perspetiva o futuro da APDC e das TIC e Media em Portugal? Que desafios e oportunidades irão surgir?
A digitalização está a transformar profundamente a economia e a sociedade portuguesas e as TIC assumem-se como críticas nesse processo, pelo que as perspetivas são boas. O que não significa que o setor não tenha, também ele, grandes desafios de mudança. Há muitas oportunidades que estão a surgir e desde que as empresas das TIC e Media lhes saibam dar a resposta adequada, saberão certamente capitalizar estas mudanças e criar valor. A APDC é um parceiro das empresas nesta trajetória, criando e desenvolvendo iniciativas à medida dos desafios comuns. Portugal já deu provas de ser inovador e, com os necessários incentivos, saberá certamente estar à altura dos desafios e perfilar-se como um player relevante no cenário europeu e até mundial.