“Não nos podemos esquecer da parte Humana e Pessoal”

Numa altura onde a diversidade e a liderança feminina são temas cruciais, a ASAE - Autoridade de Segurança Alimentar e Económica destaca-se como um exemplo na sociedade. Em entrevista, Ana Cristina Caldeira, Subinspectora-Geral partilhou a importância desta atividade, realçou os segredos da história que a une à Entidade desde 2013 e descreveu-se enquanto Mulher e líder de uma equipa. Saiba tudo.

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Gostaríamos de começar por conhecer melhor a sua história. Poderia partilhar com os leitores um pouco sobre o seu percurso pessoal e profissional até ao dia de hoje?
Sou licenciada em Engenharia do Ambiente pela NOVA School of Science and Technology | FCT e Mestre em Ambiente, tendo iniciado a minha carreira profissional na administração pública em 1991, como técnica superior e cerca de dez anos depois, ingressei na carreira especial de inspeção na área de ambiente. Trabalhei como inspetora durante alguns anos e entre 2005 e 2013, tive a oportunidade de prestar assessoria num gabinete ministerial e de exercer cargos de dirigente intermédio durante cinco anos, na temática de gestão de resíduos. Em finais de 2013, iniciei funções na Autoridade de Segurança Alimentar e Económica como Inspetora Diretora da Unidade Nacional de Operações e desde novembro de 2023, que assumi funções como Subinspetora-geral da ASAE. Sou natural de Lisboa e tenho uma filha com 23 anos, que é o meu porto de abrigo, o meu apoio incondicional para enfrentar todas as tarefas profissionais e conciliá-las com a vida pessoal.

Certo é que, atualmente, ocupa o cargo de Subinspectora-Geral na ASAE – Autoridade de Segurança Alimentar e Económica. Ao longo da sua carreira nesta entidade, quais foram os momentos mais gratificantes e os que representaram os maiores desafios?
Estou na ASAE desde finais de outubro de 2013, data em que abracei um dos mais desafiantes projetos na minha vida profissional. Foram anos de aprendizagem constante, de evolução e de partilha, sempre com um sentido de missão e de oportunidades de inovação que me conduziram a um patamar de conhecimento bastante diversificado. A ASAE tem uma esfera de competências de fiscalização bastante vasta e, como tal, obriga que sejamos assertivos e coerentes nas prioridades que temos de adotar e estabelecer na área operacional, de fiscalização e de inspeção. E este foi sem dúvida, um dos grandes desafios, conciliar meios, recursos disponíveis e tarefas a executar, de forma a garantir uma intervenção exemplar e eficaz, respeitando os princípios e valores que norteiam a nossa organização.
Por outro lado, a área mais gratificante foi a relação interpessoal e humana. As equipas, as pessoas, aqueles que estão do nosso lado todos os dias, com empenho, dedicação à causa pública e sempre, promovendo a excelência no seu trabalho que se repercutiu na ASAE. Não se consegue enriquecer em termos profissionais, sem o apoio de uma Boa equipa que nos motive e que nos impulsione a sermos melhores.

A Visão da ASAE é projetar-se como Autoridade Administrativa de referência na segurança dos consumidores e da leal concorrência. Assim, qual diria que é a importância desta sua atividade?
A ASAE é uma autoridade nacional responsável pela fiscalização das atividades económicas da área alimentar e não alimentar, e como tal, desempenha um papel fundamental na sociedade e na economia nacional, de extrema relevância. A nossa presença diária no terreno, quer diretamente pelas Unidades Operacionais quer indiretamente por parte das Unidades de suporte e de apoio à fiscalização, são os pilares da nossa atividade e da nossa afirmação como autoridade de inspeção e órgão de polícia criminal.  Em novembro de 2023, a ASAE comemorou os seus 18 anos de atividade afirmando-se como uma Autoridade de ação de excelência, indiscutível e determinante, nos seus domínios de atividade e no âmbito da promoção da segurança alimentar e económica e da sã concorrência entre todos os operadores económicos. E é neste trabalho constante que desempenhamos perante os consumidores e os operadores económicos, que a minha função como dirigente na ASAE deve ser pautada com rigor, equilíbrio e isenção. Não deixa ainda de ser determinante, que persiga e assuma como prioritário a qualidade e competência do capital humano, para uma atuação assertiva de excelência da ASAE.

A Ana Cristina Caldeira é, ainda, um exemplo na sociedade portuguesa de uma Mulher Líder. Na sua opinião, qual é a importância da presença de Mulheres em cargos de liderança, especialmente em organizações como a ASAE? Quem é a Cristina Caldeira enquanto Subinspectora-Geral?
Sou e sempre serei apenas, Mulher. Com sensibilidade, empatia, força e algum medo à mistura. Mas este receio, conduz a uma determinação que julgo ser um dos pilares na liderança feminina. Somos mais assertivas, mais persuasivas e teimosas, mas igualmente resilientes e empáticas. Considero que uma liderança feminina conduz a mais espírito colaborativo numa organização, mas também, mais inclusivo pela inteligência emocional que detemos de forma natural. Um bom líder, seja mulher ou homem, tem de ser uma boa pessoa, têm de dar o exemplo e promover um ambiente de trabalho agradável e positivo, conseguir manter o foco e a confiança. A comunicação interna, é do meu ponto de vista, um dos fatores essenciais na liderança e que tento incutir nas equipas, como um dos componentes de maior satisfação laboral. Admito que algum do meu sucesso se deve também a algumas características de líder que sempre promovi – apostar no bem-estar, no diálogo, no saber ouvir e impactar positivamente aqueles que nos rodeiam. E ter paixão, gostar muito do que fazemos e abraçar os desafios.

Quais são os benefícios tangíveis que a diversidade de género traz para uma organização e como é que essa abordagem pode influenciar positivamente o desempenho da equipa?
As equipas fazem-se de pessoas, mulheres e homens devendo ser incentivado nas organizações a sua diversidade nos papeis que desempenham, para melhor interação e no desenvolvimento do trabalho. O equilíbrio deve estar presente na promoção de um ambiente de trabalho saudável e corporativo, onde as opiniões e posições devem ser ouvidas e avaliadas. Claro que as perspetivas diferem entre homens e mulheres, mas estas sucedem igualmente, entre pares. Numa organização em que o caráter multidisciplinar é um dos motores do seu desempenho, deve ser promovida uma política interna equitativa apostando na diversidade de género. Considero, contudo, que ainda temos algum caminho a percorrer, devido basicamente à tradição cultural ainda existente, nos diversos papeis que desenvolvemos na sociedade.

Que conselhos daria a Mulheres que estão a começar as suas carreiras e aspiram a cargos de liderança em áreas como a segurança alimentar e económica?
Penso que acima de tudo, é não ter receio de ouvir, ser determinada, de ter bom senso e ambição e não ter medo de falhar. Obviamente que os nossos valores são determinantes para um bom trabalho e com dedicação, não obviando que ampliar conhecimento é ampliar competências. No entanto, não nos podemos esquecer da parte humana e pessoal, de termos tempo de qualidade e de equilíbrio, de sonhar e de fazer o que gostamos.

Por fim, considerando o cenário em constante evolução no campo da segurança alimentar e económica, como visualiza o futuro desta área?
As duas áreas de segurança alimentar e de atividades económicas, revelam-se essenciais na promoção de uma sociedade global garantindo alimentos e bens seguros, com qualidade, bem como, na garantia de uma economia sustentável e saudavelmente concorrencial. Para que tal suceda, o papel do Estado na fiscalização destas atividades é determinante e crucial que se imponha concretizar e executar, papel que a ASAE desempenha. A sua missão fundamental ao garantir e conferir confiança a todos os envolvidos, é de continuidade, mas com mais recursos e meios tecnológicos para melhorar a sua eficácia. Atualmente, assistimos à aplicação de mecanismos tecnológicos e de avanços técnicos nas mais diversas áreas económicas e que determinam que as organizações equacionem e promovam a mudança. E o futuro terá de passar por aqui. Saber acompanhar as tendências, colocar o foco nas exigências dos consumidores, dos operadores e capacitar as equipas para reforçar a confiança que em nós depositam.