“Ser Mulher é ser muito Orgulhosa de mim mesma”

“As mulheres hoje em dia estão a ocupar todas as áreas, o que muda é a forma como os outros nos veem, somos ser humanos, somos todos iguais, sejam eles de que país, religião, etnia, somos pessoas e é isso que se devem focar, deem oportunidades a todos, sejam justos”, afirma Anabela Marcelino, Administradora da Keta Foods, que, em entrevista à Revista Pontos de Vista nos deu a conhecer um pouco mais da sua carreira, dos obstáculos e desafios ultrapassados e do que significa contribuir ativamente para o crescimento da Keta Foods.

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Sabemos que a Anabela Marcelino é Subsidiária Manager em Portugal da marca Keta Foods. Tendo este cargo, que análise faz sobre a posição da empresa no mercado português, enquanto importadora de produtos asiáticos?
É com muito orgulho que lidero esta marca em que somos líderes de mercado, ser importador é sinónimo de mudança e de importância para com os outros, a nossa posição é trazer produtos asiáticos, que para a maioria da população portuguesa não teria oportunidade de os experimentar, esta procura tem vindo a crescer nos últimos 20 anos, os portugueses gostam de comprar produtos novos, experimentar sabores de culturas diferentes.
Ser importador e fazer crescer um novo mercado, este processo veio colmatar as necessidades da população, além de trazer novos produtos, a importação fez crescer e rodar a economia, a tecnologia, a importação deu a oportunidade de trazer medicamentos, inovação, formação e muito mais.
Este processo tem de nós a responsabilidade de continuar a trazer produtos asiáticos, porque está implementado o modelo de negócio há vários anos, “os restaurantes asiáticos”, isso trouxe as vantagens, dando empregabilidade, riqueza ao estado no pagamento de impostos, melhorando a vida de muitas famílias que neles encontraram a sua dependência financeira, e outras mais. Por isso, sei a importância que tem o meu trabalho, e a dependência que o mercado tem nos nossos produtos.

Ainda sobre a posição que ocupa na Keta Foods, quais foram os momentos mais significativos e desafiantes ao longo da sua carreira? De que forma essas experiências moldaram a sua abordagem no ambiente de negócios em Portugal?
O momento mais desafiante na minha carreira foi a pandemia, da Covid-19, quando de um dia para o outro decretaram fechar a restauração, e de 100 encomendas diárias passamos a cinco, e com uma equipa de 28 pessoas, tudo mudou, o desconhecido apoderou-se, foram dias de decisões novas, difíceis, resoluções importantes, mas sempre com otimismo em manter a equipa a salvo da doença, dar-lhes confiança e motivação para continuar. Como estratégia, tivemos de colocar alguns em casa para ter sempre alguém disponível para trabalhar em caso de outros estarem em quarentena,  saber ouvir os medos, as suas preocupações com a família, foram noites sem dormir, a ansiedade apoderou-se de mim por algumas horas do dia, e noite,  mas eu tive de dar a volta, e o meu lema é nunca cruzar os braços“, se fosse fácil não era para nós”, devemos estar sempre em construção, inovar, mudar a gestão.
Aproveitámos para arrumar a casa, a logística, mudámos o lead time das compras, preparámos e equipa para a mudança. Todos os dias era um novo desafio, entre ter de estar com os filhos em casa, e ter de estar nas instalações a dar suporte a toda a equipa.
Há sempre os mais resistentes, mas todos acreditaram nas minhas decisões e seguiram comigo, claro que muitas delas e por insegurança minha eram tomadas em grupo, porque também tenho outro lema “duas cabeças pensam melhor que uma”, porque sem eles eu não poderia seguir sozinha, e hoje estamos onde estamos porque tenho uma grande equipa comigo. E naquelas horas, alguns deles foram as minhas muletas, não me deixaram sozinha, ajudando em todos os momentos e essas pessoas foram sempre compensadas e reconhecidas.
O que consegui mudar em Portugal, foi não deixar que parassem de trabalhar, incentivei a equipa que poderíamos continuar e aos nossos clientes a fazer outro trabalho, promovi o marketing de todos os produtos ideais para Takeaway, alguns clientes estavam resistentes, mas aos poucos começaram a abrir as cozinhas, a colocar motas na distribuição e a dar volta ao negócio, não ganhavam muito, mas pagavam salários e despesas. Chegámos ao ponto de ter filas de pessoas à porta do armazém para levantar as encomendas, tínhamos o site para fazer compras on-line e poderiam escolher a hora para levantamento dos produtos, foram dias de intenso trabalho.
A minha aprendizagem neste processo foi ter mais força para alcançar desafios e pouco ou nada me mete medo nesta profissão, serviu de aprendizagem, muita mesmo, e ter a consciência que tudo muda de um dia para o outro, nada é estático e temos de estar preparados para a mudança seja ela qual for.
Em relação à logística fiz um estudo no meu Mestrado e pós-graduação durante a Covid-19, e a conclusão é que o empresário português tem pouca tecnologia nas empresas, e muito pouca literacia, muitos deles sem site, sem aplicações para desenvolver o negócio, sem manuais de riscos, na minha opinião e com base na minha investigação, deveriam investir no futuro, em sistemas de controlo de stock, controlo de dados, análises dos seus números, lojas on-line, literacia financeira, estas mudanças trazem um maior controlo na gestão, e o controlo faz crescer a organização e reduz custos.

Considerando o seu percurso profissional, como líder de uma empresa que, também ela, é líder de mercado, como observa a importância do Dia Internacional da Mulher, celebrado anualmente a 8 de março? Qual é a sua visão sobre os progressos alcançados pelas Mulheres e os desafios que ainda persistem?
Ser Mulher é ser muito Orgulhosa de mim mesma.
Estou inserida numa multinacional, onde há poucas mulheres na liderança. em outubro de 2023 fui convidada pela empresa mãe, sediada em Kyoto para ir ao japão receber um prémio de mérito pelos resultados de 2022, e no grupo de diretores de vários países que estavam presentes eu era a única mulher, e senti-me orgulhosa, por ser a única mulher, e ser portuguesa acima de tudo, porque eu, sem querer estava a ajudar a alavancar a mudança, não no meio onde trabalho mas em muitas empresas e mentalidades antigas. Apesar de muitas empresas fazerem esforços em contratar mulheres para a liderança, ainda há muito que escalar e deixar o preconceito.
Eu tenho notado que cada vez mais as pessoas sabem da importância de darem às mulheres cargos importantes, não porque o devem fazer, não porque a sociedade pede, mas porque elas são capazes e eu sei que todas conseguem à sua maneira, apenas não são incentivadas ou não lhes é dado oportunidades. Muitas das vezes pelo simples facto de serem mães, de terem de se ausentar para cuidar dos filhos, mas isso é um processo, e devia haver ajudas do estado a incentivar as empresas a deixar esse problema de parte, com incentivos na contratação de substitutos ou formas de trabalhar meio período nos primeiros anos de vida da criança, afinal um país sem crianças não tem progresso.
Eu deixo um recado às mulheres: façam jus ao vosso conhecimento, lutem pelos vossos objetivos, por aquilo que mais desejam. Estudem, façam formação, façam uma análise SWOT das vossas fraquezas, quais os vossos pontos fortes, os pontos de melhoria, quais os vossos medos (ameaças) e onde podem ganhar (melhorar). Esta análise irá fazer pensar onde podem começar.

A diversidade é um tema central em muitas organizações atualmente. Neste sentido, de que forma a Keta Foods, sob a sua gestão, promove a diversidade e a igualdade de género? Existem iniciativas implementadas para garantir um ambiente de trabalho inclusivo?
As medidas institucionalizadas são: todos são iguais independentemente do género, orientação sexual, idade ou religião. A Takara Shuzo, a empresa mãe, tem a filosofia de igualdade de género e partilha por todos essa sua convicção.
O que tenho feito como responsável pelos recursos humanos é estar atenta a esses problemas e não deixar que haja nem um pequeno lígio sobre esse tema, também gosto de saber as aspirações das pessoas e dar-lhes oportunidades, alguns por opção não querem e eu respeito.
Na empresa temos mais homens, porque na distribuição e armazém não se candidatam mulheres o que é pena, mas promovo a todos quando querem deixar o armazém a trabalhar no escritório, porque no escritório não é só trabalho para mulheres como antigamente, é lugar de todos, e neste momento temos três pessoas que estavam na distribuição, e foram convidados por mim a trabalhar noutras funções, uns por questões de saúde outros porque pretendiam mudar de atividade, homens que tinham pouca ou nenhuma experiência em informática, office, e outras ferramentas necessárias para o desempenho da função, mas eu acredito sempre na mudança e com formação e principalmente vontade própria de cada um, sim porque cada um tem as suas convicções e formas de estar na vida, e é preciso respeitar, eu sou bastante resiliente em esperar pelos resultados depois da aprendizagem. E hoje posso dizer que não tenho errado nas minhas decisões, voltaria a fazer tudo igual, são profissionais muito dedicados, quando querem aprendem tudo e fazem melhor que qualquer outro, porque já trazem outros conhecimentos da empresa vindo de outros departamentos.
Também contratámos pessoas de várias nacionalidades e maiores do que 40 anos, a nossa faixa etária ronda os 45 anos, o mais velho tem 56 anos, mas também temos com 18 anos, as pessoas com mais de 40 anos dão-nos aquela estabilidade necessária, são mais calmos e resistentes ao stress e têm mais conhecimentos.
O recrutamento tem vindo a mudar, principalmente nos últimos três anos, cada vez mais aparecem pessoas estrangeiras para se candidatar, alguns deles são da India, Paquistão, Brasil, Países do Leste, Angola, o que é muito bom aprender com eles os costumes, a forma como viviam, as dificuldades que tiveram e a coragem de sair do país deles.
O jovem de hoje já tem outra forma de ver a sua profissão, não como eu era, além de serem muito otimistas, também marcam a sua posição, e sabem o que querem e principalmente do que não querem, nós eramos muito permissivos, pacientes, contruíamos e lutávamos pelo crescimento, hoje em dia querem resultados imediatos, caso não aconteça mudam muito facilmente para outra empresa, e isso faz com que os recrutadores mudem a estratégia, e as empresas tem de ir atrás desta nova vaga de trabalhadores, ou seja a preocupação de retenção de talento.
Também pretendo contratar pessoas com deficiência, ainda não aconteceu, mas acredito que brevemente irá acontecer. Os salários são pagos mediante a função e antiguidade, e não por género. Gosto muito de trabalhar com mulheres, sempre foi assim em todos as empresas que trabalhei, e nós mulheres no meio dos homens fazemos a equipa perfeita.

Considerando o Tema do Dia Internacional da Mulher, como observa o papel das Mulheres, não apenas no contexto empresarial, mas também como agentes de mudança na sociedade?
As mulheres são resilientes, são mães, são líderes da sua casa, são elas que têm o papel fundamental na educação dos filhos, não porque os homens não saibam, mas porque são elas que agarram o projeto, elas ao liderar a sua habitação, estão a demonstrar que sabem gerir um orçamento, (gestão) gerir pessoas, gerir conflitos, controlo da despensa (a logística), fazer compras (procurement), pagarem contas, organizam eventos de aniversário, casamentos, (gestão de projetos), reparam móveis, torneiras, penduram quadros, e as que não penduram os quadros é porque têm alguém que o faça, porque todas são capazes de o fazer, por experiência própria, eu sei fazer tudo.
A mulher tem a capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo, não quer dizer que os homens não consigam, mas eu acho que não querem, e isso faz-nos a diferença, somos diferentes porque fomos educados de forma diferente, não porque nascemos mulheres, temos características diferentes de pessoas para pessoas, homem para mulher.
A mulher gera vida, amamenta, cuida, ensina, só por isto já há um poder fantástico que difere do homem, e continuamos a trabalhar, estudar, de igual forma, é resistente à dor, são empáticas e despachadas.
As mulheres hoje em dia estão a ocupar todas as áreas, o que muda é a forma como os outros nos veem, somos ser humanos, somos todos iguais, sejam eles de que país, religião, etnia, somos pessoas e é isso que se devem focar, deem oportunidades a todos, sejam justos.

Como líder, a Anabela Marcelino teve alguma figura feminina que a inspirou ao longo da sua carreira? Além disso, de que forma procura inspirar e orientar outras Mulheres que possam estar a iniciar as suas carreiras na Keta Foods ou no setor em geral?
Há muitas mulheres admiráveis, mas eu nunca comparo mulheres com homens, eu tanto me inspiro em homens como em mulheres, mas algumas destacam-se como a Alemã Úrsula von der Leyen, a presidir a Comissão Europeia, a Oprah Gail Winfreym, apresentadora, Christine La Garde, Ângela Merkel, são mulheres poderosas, têm uma vida comum como todas as outras, têm filhos, fazem compras no supermercado, casadas ou não, mas na vida profissional mas tem de tomar decisões macroeconómicas que impactam na vida dos outros, e isso, além de ser corajoso, é de muita responsabilidade.
Cada vez mais as mulheres chegam ao poder, em Portugal. nunca notei inferioridade por ser mulher, tive momentos que alguns clientes falavam comigo como tivessem poder sobre mim, por vezes ficava incomodada, mas a forma de vencer foi ter conhecimentos e know-how, mostrar-lhes segurança e argumentação para conseguir impor o meu respeito, e assim fui aprendendo a lidar com isso, mas sim, noutros países sim, e na questão salarial, em algumas funções na empresa, a mentalidade tem de mudar, mas para isso temos de lhes dar ferramentas e números que façam mudar a mentalidade.
As mulheres não podem querer a mudança sem mostrar do que são capazes. Façam propostas de ideias que acham que podem ser viáveis para a empresa, para uma relação, façam contas, procurem ser diferentes no grupo que se inserem e vão obter resultados imediatos.
A mensagem que deixo às mulheres, é que mostrem o que são capazes, mudem, saiam da zona de conforto, façam candidaturas a novos cargos, apliquem-se na formação, mostrem o que querem mudar, a mudança dá trabalho, mas sem trabalho nada se consegue.
Não tenham medo das críticas, vai haver sempre, faças bem ou mal, por isso faz, que sejam vocês próprias, não tenham medo de avançar e ser derrotadas, voltem a avançar as vezes que forem precisas.
Na relação amorosa, mudem o que vos incomoda, coloquem na balança o que pesa mais, o sacrifício ou o amor, façam escolhas acertadas. Fiquem ao lado de alguém que vos apoia nas vossas decisões.
Nós somos o que escolhemos, não há fórmulas corretas, porque o ideal para mim não é o mesmo para ti, por isso temos de tomar rumos diferentes, fazermos escolhas diferenciadas.

Olhando para o futuro, quais são as perspetivas que tem para o papel das Mulheres no mundo empresarial, especialmente no setor da importação de produtos asiáticos em Portugal? Quais são as oportunidades e desafios que antevê para as mulheres nesta indústria?
Durante a pandemia da Covid-19 eu estava a fazer uma pós-graduação em Suplly chain management e um mestrado em gestão, e a investigação foi sobre: “As cadeias de Abastecimento Globais no Pós-pandemia”. era um problema que estava a viver no momento pelos atrasos dos contentores, a rotura de produtos e isto devia-se ao encerramento do comércio dos maiores portos do mundo China e Estados unidos de onde vinham muitos dos meus produtos, e senti a necessidade de perceber o que é que estava a acontecer e o que poderia melhorar no futuro, não só para a Keta Foods mas também ser útil e dar o meu contributo para a sociedade atual, e também de procurar alternativas, de ter respostas para o problema que estava a acontecer em Portugal e no mundo, também queria pensar num longo prazo, de minimizar futuras roturas, e prevenir riscos.
E num dos meus estudos constatei que no mundo da logística há muito poucas mulheres, tal como a faixa etária ser mais velha. Mas esta tendência tem vindo a alterar-se nos últimos 50 anos, apesar de ainda sermos poucas.
Por várias razões conforme mencionei acima dediquei-me à área de logística, e fiquei fascinada, tive a real noção de como somos tão importantes, o país vive de importações, nós os importadores fazemos a economia circular, em Portugal vive-se melhor do que há 20 anos atrás e isso deve-se ao crescimento e a todos que para isto trabalharam.
O mundo da logística não é só transportes, vai muito além disto, é preciso um grupo unido para funcionar perfeitamente. Considero um dos setores mais importantes dentro da empresa, porque é onde tudo começa e onde tudo acaba com o last mile. A logística é tudo que consumimos.
As mulheres com tantas revoluções, cada vez conquistam lugares que antes eram feitos maioritariamente por homens, além de sermos muitas, podem trazer-nos outra visão de produtos como alternativas e formas de trabalho, podemos ser o salto na economia.
Às que estão acomodadas em funções que não são de logística, procurem mudar, mesmo que não seja na logística, sim aquelas que estão lá no canto e que ainda nem sequer se deram a conhecer, mudem o mindset, levantem o queixo, mas sempre com humildade.
Vocês conseguem, não são menos que os outros, há nestes grupos, os que querem, outros que não querem, mas porque é que não querem?
Ao mostrarem que querem mudar vão logo trazer como consequência o crescimento a produtividade na empresa, de seguida crescem os resultados, ao empregador ao empregado, ao país e ao mundo, ou seja, isto é uma estratégia de crescimento Macroeconómica Global, daqui a fica aqui o meu desafio, vamos a isto.