“A Polícia Judiciária é uma polícia inclusiva e respeitadora do direito à diferença”

Como está, atualmente, o contexto da igualdade de género e representatividade no universo da justiça e segurança? Luísa Proença, Diretora Nacional Adjunta da Polícia Judiciária respondeu a esta e a outras questões relacionadas e elucidou-nos, ainda, sobre os desafios futuros desta sua atividade. Saiba tudo.

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Sabemos que a Luísa Proença tem, há muitos anos, uma sólida carreira ligada à área da justiça. Poderia partilhar um pouco sobre a sua caminhada pessoal e profissional até alcançar a posição de Diretora Nacional Adjunta da Polícia Judiciária?
Sou licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, com um mestrado em Administração Pública, na vertente Justiça, e uma Especialização em Inovação, para além de formação e especialização que fui fazendo em diversos momentos, em especial em matéria de gestão pública, alta direção em administração pública e em gestão de fundos europeus.
Entrei na Polícia Judiciária em 1995, como tradutora-Intérprete, tendo acompanhado a Investigação Criminal em muitos processos que envolviam cidadãos estrangeiros. Rapidamente me apercebi da importância dos sistemas de informação de suporte à atividade operacional, tendo iniciado um percurso no domínio da inovação tecnológica e da captação e gestão de fundos europeus, que considero decisivo para ter chegado ao lugar que ocupo.

A escolha pela área da justiça e segurança é, frequentemente, uma decisão que reflete paixões e interesses profundos. O que a motivou a ingressar neste campo específico e o que mais a fascina nele?
A área da justiça acompanha os cidadãos ao longo de todo o ciclo de vida, desde o nascimento até à morte, passando pelos vários eventos que se vão sucedendo, como a mudança de estado civil, o registo de um bem, ou o envolvimento num facto punível por lei, quer do lado de quem comete esse facto punível, quer do lado das vítimas e dos vários elementos que interagem no processo de administração da justiça. Sempre trabalhei na esfera da justiça, tendo desenvolvido a maior parte da minha vida profissional, que já é longa, na Polícia Judiciária, que é um pilar essencial do nosso Estado de Direito democrático. O meu maior objetivo é contribuir para dotar os profissionais desta Instituição com os meios mais adequados e mais inovadores, que lhes facilitem a sua nobre tarefa de resolver os crimes, proteger as vítimas e contribuir para um país mais seguro e mais tranquilo. Assumindo que só com inovação será possível almejar a uma polícia verdadeiramente à frente dos criminosos, é esse o percurso que vou percorrendo, juntamente com as equipas internas, quer operacionais, quer ligadas à inovação, ao desenvolvimento científico e técnico, aos sistemas e tecnologias de informação, sem esquecer as áreas de suporte a tudo isto, em especial a gestão financeira e a contratação pública. Os fundos europeus têm sido decisivos para este percurso e têm permitido colocar a Polícia Judiciária ao nível do que se faz de melhor na Europa, em matéria de Investigação/Inovação & Desenvolvimento.

Atualmente, a Luísa Proença é uma Mulher de destaque na Polícia Judiciária. Como analisa esta sua experiência e, de que forma, a mesma moldou o exercício das suas funções?
Exercer o cargo que ocupo é um enorme privilégio, uma enorme responsabilidade e um desafio constante. Não é possível fazer tudo o que gostaria de fazer, pois os constrangimentos são por vezes enormes, mas foi possível definir uma estratégia sólida de inovação e modernização tecnológica, assente maioritariamente em fundos europeus, que está em fase avançada de implementação e em breve será visível nos meios de combate ao crime.

Considerando o contexto atual de debates sobre igualdade de género e representatividade, como perceciona o papel das Mulheres na área da justiça e segurança, especialmente no que diz respeito às instituições como a Polícia Judiciária?
A Polícia Judiciária é uma Instituição aberta a um equilíbrio entre homens e mulheres. A percentagem de mulheres está muito próxima dos 40% e há muitas mulheres em cargos dirigentes. Considero que, pela sua sensibilidade, razoabilidade e bom senso, as mulheres trazem, em regra, maior serenidade ao espaço profissional onde se integram, com claro benefício para as equipas. Para além disso, conseguem conciliar muito bem o seu papel profissional com a dimensão familiar, rompendo com uma visão mais conservadora de uma certa separação entre a vida profissional e a vida familiar. Há espaço para ambas e ambas ganham com esse equilíbrio.

Em termos de políticas de inclusão e diversidade, quais são as medidas que considera essenciais para promover um ambiente de trabalho mais equitativo e inclusivo neste seu universo?
A Polícia Judiciária é uma Polícia inclusiva e respeitadora do direito à diferença. É essencial que a evolução que vivemos na sociedade a este nível seja acompanhada pela evolução no pensamento interno, para que, acima de tudo, conte o ser humano enquanto tal e não a sua condição ou a sua orientação política, religiosa, sexual ou outra.
É fundamental criar condições para que os jovens, independentemente da sua condição, queiram fazer parte desta Polícia, cujo prestígio vai muito para além do nosso país. É essencial que a PJ seja atrativa e que as equipas operacionais sejam capazes de se organizar de modo a, por exemplo, acautelar os desafios que decorrem das ausências por maternidade e paternidade, com toda a naturalidade, sem pôr em causa a celeridade da resposta que o cidadão espera desta Polícia.

Olhando para o futuro, quais são os principais desafios que visualiza, de uma forma geral, para a Polícia Judiciária e como planeia enfrentá-los enquanto parte da sua liderança?
A digitalização da sociedade coloca enormes desafios às entidades de aplicação da lei, em especial à Polícia Judiciária, pelas competências que lhe estão atribuídas por lei. Uma sociedade cada vez mais digital apresenta uma criminalidade também cada vez mais digital, que requer novas competências, novas abordagens e o uso de tecnologias emergentes, em linha com a criminalidade emergente. A cibersegurança e a ciberresiliência dos sistemas de informação e comunicação são temas de fundo, que exigem um olhar atento e a implementação de medidas em permanência. O uso de tecnologias emergentes, como a Inteligência Artificial, o 5G, a computação quântica, coloca novos desafios a uma Polícia que tem que estar preparada para operar num contexto de enorme vulnerabilidade, complexidade, incerteza e em mudança contínua. O maior desafio, neste momento, é conduzir, com sucesso, a mudança tecnológica que está em curso e que transformará a Polícia Judiciária numa Polícia mais digital e melhor preparada para fazer face à criminalidade do presente, mas também do futuro que hoje somos capazes de antecipar.

Por fim, quais são as suas ambições e metas pessoais e profissionais para os próximos anos, considerando a sua posição na Polícia Judiciária e o seu compromisso com a justiça e a segurança pública?
Estou totalmente comprometida com o processo de transformação digital em curso, com financiamento por conta do PRR, bem como com o apetrechamento tecnológico, com financiamento proveniente de outros programas financeiros europeus, em especial o Fundo de Segurança Interna e o Horizonte Europa. Considero essencial o estreitamento da ligação às Universidades, em matéria de I&D, de modo a potenciar o uso de tecnologias sobre as quais a PJ tem direito de uso, resultante dos muitos projetos de I&D em que participa, em consórcios europeus de larga escala, no âmbito do Horizonte Europa. A participação em projetos verdadeiramente inovadores é essencial para que a Polícia Judiciária esteja melhor capacitada e capaz de enfrentar os desafios do futuro.
Para além desta componente de cariz mais tecnológico, há um enorme trabalho que está a ser realizado ao nível dos edifícios, quer através da reinstalação em novas instalações, quer através da melhoria das condições físicas, por via do recurso a financiamentos europeus destinados à sustentabilidade e à eficiência no uso dos recursos disponíveis – POSEUR e PRR Transição Climática.
Assegurar a transição digital e climática da Polícia Judiciária significa uma maior capacitação tecnológica e melhores condições de trabalho para os seus profissionais e isso reflete-se na capacidade de resposta ao crime e à sociedade. Este é o meu foco e continuará a ser a minha prioridade enquanto fizer parte da Direção Nacional.