Bem-Estar e Saúde Mental: uma parceria importante

Foi a experiência de vida de Cátia Arnaut que a fez despertar para o tema da felicidade e bem-estar. Viveu nos Emirados Árabes Unidos por 1 ano e em Angola 5. Nesse período observou que o rendimento não era um factor determinante para se ser feliz. O que seria então? O clima? A cultura? Teria a religião algum papel de influência? Em 2020 decide dedicar-se à pesquisa sobre o tema dedicando-lhe a tese de doutoramento que se encontra em fase de conclusão. Participante em outras edições da Pontos de Vista, voltamos à conversa com a Cátia Arnaut sobre saúde mental e bem-estar.

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A saúde mental é importante para o nosso bem-estar?
Sim, é fundamental e em vários níveis de análise. Ao nível individual estarmos saudáveis é fundamental para o nosso bem-estar global e a saúde mental é uma componente crítica da saúde e que, felizmente, é crescentemente reconhecida. Ao nível das organizações a saúde mental e o bem-estar dos trabalhadores tem uma relação directa com a produtividade e com os resultados, especialmente com a qualidade dos resultados. A saúde nas organizações também tem um impacto directo nos resultados económicos de um país, seja pelos resultados das organizações, seja pelo impacto nos custos dos sistemas nacionais de saúde. Nas organizações, contudo, há ainda muito trabalho a fazer em particular em dois vectores: o primeiro que se refere ao abandono da noção antiga de que os verdadeiros profissionais devem deixar os problemas à porta das organizações, como se os seres humanos pudessem viver funcionalmente nesta espécie de esquizofrenia. Há que entender que somos todos seres humanos e que esta divisão de facto não existe. Quando entramos nas organizações, e quando saímos pela porta no final do dia, levamos os nossos problemas connosco, sejam eles de cariz pessoal / familiar ou profissionais. O segundo vector é olharmos para as organizações e perceber em que medida elas contribuem, ou não, para a saúde mental dos seus colaboradores. A flexibilização do trabalho, dos horários, e acima de tudo a criação de espaços de segurança psicológica são factores fundamentais para o estabelecimento de um contexto base para a saúde mental. Finalmente, a um nível agregado, nacional, os dados mostram que a saúde mental é de facto estatisticamente relevante para o bem-estar. A análise também demonstra a situação preocupante de Portugal nesta matéria, uma vez que historicamente o nosso país é o campeão no consumo de ansiolíticos e anti-depressivos no conjunto de países da OCDE. Isto não quer dizer naturalmente que estejamos todos a sofrer de ansiedade e depressão, mas demonstra que o recurso a estas terapias medicamentosas tenta colmatar uma falta crónica de profissionais de saúde mental no sistema nacional de saúde, enquanto comprova que o apoio em termos de saúde mental é efectivamente necessário.

Qual é a situação para as gerações mais novas que se preparam para a entrada no mercado de trabalho?
Os dados mais recentes e que foram discutidos no World Happiness Summit (WOHASU) no mês passado revelam um quadro muito preocupante. A introdução de informação estatística de crianças e jovens na construção dos indicadores de satisfação com a vida revela que a relação que se conhecia até aqui pode já não existir. Até agora os cientistas e pesquisadores desta área conheciam a relação tempo / satisfação com a vida através de uma curva em forma de U, que significava que a satisfação com a vida era muito alta nos primeiros anos de vida e que ía decrescendo até ao intervalo entre os 40 e 50 anos, e depois voltava a subir. Porém, os números demonstram que os níveis de satisfação com a vida para as crianças e jovens entre os 5 e os 20 anos são muito baixos, o que levanta perguntas importantes relativamente a como se sentirão aos 30 ou no intervalo entre os 40 e 50 anos. Os dados fazem-nos questionar também o papel das escolas nestes resultados, e naturalmente a influência das redes sociais e do volume de informação que hoje está disponível e que os nossos jovens não têm capacidade ou maturidade para processar, nomeadamente no que concerne a temas como a guerra, a crise climática e outros. No Reino Unido os casos reportados de saúde mental nos jovens é de quase aos 30%, e acredito que em Portugal a realidade não esteja assim tão distante em termos de saúde mental, muito embora, e proporcionalmente ao quadro geral do país, os casos reportados (diagnosticados) sejam bastante inferiores.

O quadro não é animador… O que pode ser feito então?
Individualmente creio que todos temos de estar atentos à nossa saúde mental e adoptar, na medida do possível, estratégias para garantirmos um equilíbrio salutar da nossa saúde mental e isso passa pelo desenvolvimento de happiness skills, a observação dos períodos de descanso, em particular do sono, a prática regular de exercício físico e de uma alimentação saudável. O recurso a profissionais de saúde mental sempre que tal seja necessário e possível, também deveria ser uma prática regular. Se vamos ao médico quando estamos doentes ou dói alguma coisa, assim deveria ser quando nos sentimos deprimidos, apáticos, etc.. Ao nível das organizações a formação de líderes em inteligência emocional, empatia, segurança psicológica, escuta activa, entre outros, são essenciais para criarmos ambientes em que os trabalhadores possam executar as suas funções da melhor forma, sintam segurança em contribuir, e tenham espaço para florescer pessoal e profissionalmente. Temos hoje desafios particulares nas nossas organizações, especialmente quando demograficamente estas se compõem por diferentes gerações, que respondem de forma bastante variada aos estímulos, pelo que precisamos de novos líderes, flexíveis, com capacidade para entender essas diferenças, e adaptarem o seu estilo de gestão a cada contexto e à individualidade das pessoas que o integram, e nem mesmo as melhores universidades de gestão do mundo ensinam isso. A introdução de flexibilidade nos horários e regimes de trabalho, ou mesmo a semana de 4 dias são soluções que, sem afectar a produtividade, contribuem significativamente para o aumento de bem-estar dos colaboradores e, consequentemente, das organizações. Ao nível nacional o desafio é maior, na medida em que precisamos de uma mudança de paradigma, precisamos colocar o bem-estar no centro da decisão política. Falámos das escolas há pouco e este é um bom exemplo das mudanças que são necessárias fazer. As discussões nesta matéria têm tocado no apoio que é necessário dar aos professores, demasiado ocupados com tarefas administrativas e burocráticas, a acusar depressão e burn-out, realidade que não é vivida só em Portugal e que ocorre também, nomeadamente, no Reino Unido, na troca do sistema de ensino demasiado assente nas avaliações e cujos dados estatísticos demonstram que não são os melhores preditores de bem-estar no futuro, no bem-estar dos alunos pela introdução de ferramentas e matérias que os apoiem a desenvolverem e cultivarem o seu bem-estar. Imagine que outras alterações seriam necessárias fazer, e poderiam ser feitas, se colocarmos o bem-estar no centro da decisão para áreas como a economia e a política fiscal, o ambiente, ou mesmo as instituições do Estado. O tema é tão importante que há uma iniciativa para que o bem-estar seja inscrito como o principal objectivo das nações, na próxima Conferência do Futuro das Nações Unidas, a ter lugar em Setembro nos Estados Unidos.

Nota: Artigo escrito sem observar as regras do acordo ortográfico que a autora não subscreve.