“DIGITAL CONSTRUCTION & BIM”, UM MODELO QUE REVOLUCIONOU O SETOR DA CONSTRUÇÃO

“Modelação digital” partilhada em plataformas com arquitetos e engenheiros a trabalhar em sintonia, minimizando desvios entre projeto e construção.

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POR DANIEL MOUTINHO, ARQUITETO E BIM SPECIALIST DO DEPARTAMENTO DE ESTUDOS E PROJETOS E LUÍS RIBEIRINHO, ENGENHEIRO E GESTOR DO CENTRO DE INOVAÇÃO E TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO

TPF – CONSULTORES DE ENGENHARIA E ARQUITETURA S.A.

PASSADO E PRESENTE
O setor da construção civil não tem conseguido acompanhar outros setores industriais, no sentido de tirar partido da tecnologia para otimizar a gestão dos seus recursos e tornar-se mais produtivo.
Derrapagem dos custos, atrasos sobre as datas de entrega previstas, problemas de planeamento, de organização, e até da própria qualidade, eram habituais nesta indústria em todos os países do mundo. Entre os problemas enunciados, todos de extrema relevância, destacamos os que decorrem de falhas de comunicação. As barreiras à comunicação e à correta interpretação da informação entre os diversos intervenientes no empreendimento são inúmeras, originando, por exemplo, a correção e reentrega da documentação do projeto, sejam desenhos ou medições, ou reuniões longas e pouco produtivas. O tempo dedicado a retrabalhar as questões decorrentes dos problemas de comunicação exige um grande esforço de todos os intervenientes e uma grande mobilização de meios num projeto desenvolvido com base em workflows assentes exclusivamente nas tradicionais ferramentas CAD.
O recurso à metodologia BIM mudou este paradigma. A existência de um modelo tridimensional, que permite a centralização e gestão de toda a informação do empreendimento ao longo das suas diferentes fases, transformou o modo como esta é transferida entre as equipas de projeto, o cliente e o construtor, dinamizando o seu diálogo, tornando a sua comunicação mais eficiente. A metodologia BIM revela-se também vantajosa na coordenação dos projetos e no processo de quantificação e orçamentação, por permitir a sua automatização. Deste modo, consegue-se um refinamento de quantidades e custo dos materiais de modo mais próximo da realidade, em fases embrionárias de projeto, garantindo que este se confina ao limite orçamental do Dono da Obra.

NA TPF CONSULTORES, O BIM É A METODOLOGIA DO PRESENTE
No Departamento de Estudos e Projetos da TPF – CONSULTORES DE ENGENHARIA E ARQUITETURA S.A., a metodologia BIM foi implementada com o objetivo de, por um lado, melhorar a eficiência dos processos de comunicação interdisciplinar, por outro, melhorar a comunicação com o cliente, mais dinâmica, envolvendo-o de uma forma mais direta no desenvolvimento do seu projeto, para o apoiar no seu processo de decisão.
A comunicação entre as disciplinas envolvidas no projeto desenvolvido em BIM assenta no uso de plataformas de Common Data Environment (CDE). Estas plataformas permitem a partilha de modelos e a colaboração em tempo real, aproximando as equipas geograficamente dispersas. Este fluxo de trabalho permite que os projetistas colaborem de modo mais sincronizado, reduzindo erros e a necessidade de retrabalho.
Esta metodologia permite ainda automatizar o processo de identificação de colisões e melhorar a forma como são comunicadas e resolvidas. O BIM Coordinator no decorrer da sua análise, identifica as colisões ou dúvidas a esclarecer, emitindo um issue às especialidades envolvidas. Cada issue implica uma reação ou alteração da parte dos responsáveis. Este ciclo de revisão é repetido até a ocorrência ser encerrada pelo BIM Coordinator. Esta coordenação mais eficiente contribui para o controlo dos custos e do planeamento em obra ao reduzir os imprevistos.
A viabilização destes processos resulta da colaboração estreita entre os papeis de BIM Manager e BIM Coordinator, pois enquanto o primeiro se envolve com a criação da infraestrutura de colaboração (CDE) e suporte ao projeto BIM, o segundo utiliza essa infraestrutura para coordenar o projeto de modo eficiente.
O Cliente acompanha o desenvolvimento do projeto com base nos outputs que vai recebendo. As suas decisões são tanto mais consequentes e informadas, quanto melhor for o seu entendimento do projeto.
As plataformas de modelação atualmente ao dispor da indústria satisfazem, de modo expedito, as necessidades de representação da documentação desenhada do projeto, automatizando a sua produção. Contudo, para o cliente entender o projeto, nem sempre os desenhos são suficientes. É necessário realizar imagens e animações foto realistas e maquetes para que o cliente se imagine no edifício e perceba o que se está a conceber. Ao contrário do processo tradicional, não é necessário gerar um modelo tridimensional de propósito para o efeito, pois com a metodologia BIM, o modelo já existe.
A existência de um modelo que permite gerar automaticamente desenhos e imagens/animações foto realistas permite que qualquer alteração ao projeto se reflita de imediato nestes elementos, reduzindo o tempo despendido nos ciclos de revisão. Para além disso, o modelo pode ser usado para a criação de maquetes, usando impressoras 3D.
Com recurso a plataformas e equipamentos de Realidade Virtual, é possível navegar no interior do edifício, usando o modelo como se fosse real, verificando-se aspetos que, de outra forma, seriam ignorados. O próprio cliente pode ajudar a clarificar determinados detalhes e ao mesmo tempo compreender as intenções do projetista.
Estas ferramentas, suportadas em processos BIM, permitem aos projetistas, ao cliente e ao construtor, uma abordagem dinâmica e imersiva, explorando todas as características do edifício antes da sua construção começar. Assim, é possível antecipar para a fase de projeto problemas que, de outra forma, só seriam identificados em obra.
Na TPF, esta metodologia não se restringe ao projeto. De facto, a metodologia BIM implementou-se também no Departamento de Gestão e Fiscalização, onde teve como principal objetivo melhorar o controlo do planeamento, dos custos e das quantidades. Esta metodologia permite que os fiscais tenham tablets na obra com acesso à informação de projeto, nomeadamente os modelos, onde podem assinalar os elementos executados diariamente. Esta informação permite gerar automaticamente os autos mensais e visualizar de forma gráfica os desvios ao planeamento. Esta representação permite identificar de forma mais clara as ações necessárias para corrigir esses desvios.

A IMPORTÂNCIA DO BIM MANAGER ENQUANTO FIGURA AGREGADORA DO PROJETO
O conjunto de especialidades que intervém no projeto e na obra, está relacionado com o tipo de informação necessária, de acordo com o enquadramento normativo vigente, o que resulta frequentemente num conjunto alargado de intervenientes. Assim, surge a necessidade de uma coordenação eficaz entre eles, a que os processos integrados, a colaboração e a interoperabilidade BIM vieram dar resposta.
Contudo, se por um lado se entende que o uso de ferramentas BIM é um fator facilitador nos processos de trocas de informação, por outro, a complexidade da sua natureza, associada à variedade de plataformas utilizadas, introduz nos processos de projeto um grande desafio: efetivar a interoperabilidade interdisciplinar, ou seja, garantir que a informação flui entre as plataformas utilizadas pelos inúmeros especialistas que intervêm no projeto e na construção. Esta responsabilidade é do BIM Manager e nesse sentido ele desempenha um papel preponderante no sucesso da aplicação da metodologia.