“Nós precisamos de internamente demonstrar a nossa Força”

Realizou-se, entre os dias 1 a 4 de junho, a STONE – Feira da Pedra Natural em Portugal, da qual a ASSIMAGRA foi, obviamente, parceira. A Revista Pontos de Vista marcou presença nesta que é uma das convenções mais importantes para o setor, e em entrevista, Miguel Goulão, Presidente da ASSIMAGRA, revelou os maiores desafios desta fileira, bem como qual está a ser o trabalho da entidade que lidera.

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A ASSIMAGRA é a entidade que nasce com o objetivo de apoiar, representar e defender a indústria extrativa e transformadora dos recursos minerais, contribuindo, desta forma, para um desenvolvimento tecnológico, económico e para uma melhoria da sua competitividade. A realidade é que, atualmente, a sociedade e consequentemente os inúmeros setores de atividade, evoluem à velocidade da luz, o que acaba por exigir respostas céleres e eficazes aos desafios. No setor da Pedra Natural, não é diferente. Por esse motivo, a ASSIMAGRA entende que o seu principal foco deve ser nas áreas em que as empresas têm mais necessidades. “O nosso processo de especialização foi sobretudo no acesso ao território e no processo de internacionalização, isto numa primeira fase. Numa segunda, estão inseridas questões ligadas à inovação, formação e recrutamento”, inicia Miguel Goulão. A importância do acesso ao território não deixa dúvidas a ninguém que neste setor trabalha, porque sem o mesmo, a atividade não tem como funcionar. Segundo o entrevistado, “precisamos do território como instrumento de trabalho, éramos um setor que, inicialmente, tinha uma fraca relação com quem geria o território, com quem decidia o território”, e aquele que foi e continua a ser o papel da associação – que é reconhecido por todos – é compatibilizar usos do solo, hoje é possível abrir uma pedreira em Portugal em Rede Natura por exemplo, no passado era impossível. Foi uma aposta clara, e que, aos dias de hoje, já se encontra consolidada, mas esse facto não nos pode demitir de continuar a intervir ativamente pela compatibilização do Setor com outras atividades, pois no dia que isso acontecer, o Setor deixa de ter Voz ativa no processo de decisão. Por outro lado, existe também uma indispensável necessidade das empresas do setor, em algum momento do seu percurso, se internacionalizarem. “Precisam de uma ajuda para abordarem os mercados de uma forma mais consolidada, mais refletida, com uma estratégia adequada a cada um dos mercados e nós damos, nesse sentido, uma ajuda, não só no co-finaciamento das suas iniciativas de internacionalização, mas também de aconselhamento sobre os mercados. Não é ao acaso que o setor tem crescido todos os anos de uma forma sustentada”, garante o Presidente da ASSIMAGRA. Para além disso, existe ainda um fator essencial e que, em muito dita o sucesso de qualquer empresa: a união. Para o interlocutor, “um setor que não esteja unido, não consegue vencer todos os desafios que se lhe colocam”, acrescentando que “no processo de internacionalização, é mais fácil, porque cada um tem a sua estratégia, a sua marca, os seus clientes, e eventualmente estratégias individuais resultam. Mas, no caso do território se não houvesse união por parte do setor, seria impossível atingirmos resultados como os que conseguimos atingir, reconhecidos a nível internacional, a própria comissão europeia reconhece o nosso bom exemplo no e daí também julgo eu, existir um reconhecimento, hoje, maior sobre aquilo que é o papel da ASSIMAGRA, precisamente porque as pessoas perceberam que só estando unidas e com uma só voz, é que conseguimos atingir os objetivos”.

Como se encontra o atual panorama do setor?

Certo é, que apesar de todas as valências do setor da Pedra Natural e de toda a evolução que o mesmo tem vindo a ter ao longo dos últimos anos, muitos são ainda os desafios por ultrapassar. Questionado acerca de quais as maiores lacunas, Miguel Goulão não hesita: a falta de mão de obra, “não apenas no nosso setor em particular, mas em toda a nossa economia no geral. Portugal tem por isso, que refletir muito sobre aquilo que quer ser no futuro, quer do ponto de vista industrial, mas não só. Mas falando da nossa indústria que é disso que estamos a tratar: a verdade é que a indústria não tem tido um plano para ela em Portugal pelo menos há 20 anos. Nós defendemos claramente uma aposta na Indústria como motor de desenvolvimento económico, e na nossa em particular, pois estamos a falar dos setores com mais valor acrescentado na nossa economia, os nossos salários dobram os salários médios por exemplo do setor do Turismo, duplicamos o rendimento médio declarado de toda a atividade económica em Portugal, e somos o maior Pais exportador do mundo na nossa dimensão territorial, o sétimo em termos globais. Contudo e apesar destes números temos de reconhecer se nada for feito esta trajetória de crescimento será colocada em causa. Hoje em dia é muito difícil fazer recrutamento de mão de obra, porque somos um país que tem uma fraquíssima taxa de natalidade há muitos anos. Se não começarmos a corrigir essa nossa trajetória, o que está a acontecer hoje, vai agravar-se no futuro em proporções que inviabilizarão qualquer setor industrial em Portugal, porque cada vez nascem menos pessoas. Há menos população no ativo e cada vez mais reformados, portanto isto carece de uma reflexão muito mais transversal do que setorial, é obvio que no nosso setor em particular, sofre com isto, e ainda têm a agravante de ter reformas aos 50 anos de idade”, assegura. Assim, de forma a combater esta carência, o fator imigração torna-se fundamental, uma vez que pode ajudar a inverter este processo. Ainda que, nesta realidade, a questão da habitação seja também um problema. “Trazer pessoas de fora e não ter locais onde as pessoas possam viver, torna tudo mais difícil. Isto são várias equações que estão em cima da mesa que não têm propriamente a ver com o nosso setor, mas tocam naquilo que são as nossas necessidades”, sustenta o interlocutor. Já a energia, é outro fator crítico, principalmente porque o setor, continua a pagar o combustível para trabalhar ao mesmo preço que uma pessoa que circula na via pública, e a ótica de Miguel Goulão é que, “há aqui alguma coisa que não tem lógica, principalmente porque os nossos principais concorrentes e também parceiros Europeus, como a Itália e Espanha, usufruem de um combustível diferenciado. Deveria também em Portugal existir um combustível industrial, precisamente para alavancar uma indústria que por essa via fiscal pudesse libertar mais margem para chegarmos mais longe”.
Nos últimos anos, muito se tem falado sobre a importância da inovação no tecido empresarial e no quanto se deve investir em estratégias diferenciadas para se destacar no mercado. No entanto, mais do que novas ideias, existe também a necessidade da aplicação de novos processos tecnológicos. “A inovação é um fator muito importante para que os setores possam ser concorrenciais, sem inovação é muito difícil que um setor possa continuar no futuro a estar no mercado. É fundamental que a inovação continue sempre a existir e é por isso que nós desenvolvemos muitos projetos nessa área. Aqui a questão da inovação não tem apenas que ver com a questão dos equipamentos, mas sim com a introdução de designs, novos padrões, novas maneiras de trabalhar a pedra, novos produtos, dar inteligência artificial à pedra natural porque no futuro é nesta base concorrencial que temos que concorrer”, assegura o Presidente. A guerra de Putin contra a Ucrânia, tem vindo a impactar gravemente a Europa, o que implica que qualquer setor de atividade olhe com alguma desconfiança para a forma como o mundo está a funcionar. Segundo o interlocutor, “a guerra tem dois grandes afetados: a Ucrânia e a Europa. A Ucrânia pela vasta destruição a que tem estado sujeita e a Europa porque do ponto de vista económico todos os dias diminui a sua competitividade. Esta guerra já dura há demasiado tempo e é um tempo que só está a ajudar algumas economias como por exemplo, e exemplificando apenas as maiores, a China e a Índia, passaram a comprar a energia três vezes mais barata do que a Europa comprava antes da guerra. Os Estados Unidos estão a crescer a um ritmo superior à China, o que não acontecia há mais de 46 anos, incrível não é! Alguns estão a conseguir lucrar com esta guerra. Mas a Europa e a Ucrânia não, portanto julgo que precisamos de olhar com muita profundidade para o que vai resultar daqui”.

STONE – Feira de referência no Setor da Pedra Natural

A Batalha acolheu compradores e fornecedores de Pedra Natural vindos de todo o mundo. Depois de dois anos de paragem, este ano, o certame surge como uma alavanca ao setor. A verdade é que, a geografia onde a feira se realiza, não é a mais habitual, isto porque, normalmente eventos desta dimensão, acontecem no Porto ou Lisboa. No entanto, “essa realidade é contrariada sobretudo porque tem havido aqui muita resiliência por parte das empresas que entendem que têm que ter uma expressão mais perto da sua realidade local para poder demonstrar ao poder político e aos seus clientes as suas potencialidades, mas aqui ainda estamos longe do que o Setor precisa, necessitamos de conseguir envolver mais empresas, faltam aqui muitos e importantes players do setor, se queremos um setor forte a afirmar-se temos obrigatoriamente de em conjunto vencer este desafio de mobilizarmos mais para a próxima feira Stone, que acontecerá em 2024, a organização da feira também tem de fazer mais pelas empresas que aqui investem muitos dos seus recursos, é necessário trazer mais visitantes internacionais ao certame, é necessário focar mais a promoção do evento junto dos prescritores, nós precisamos de demonstrar a nossa força, reconheço que este evento que ocorre de dois em dois anos pode ser esse sinal de demonstração da vitalidade do setor”, garante Miguel Goulão. Esta é já a 5ª edição da STONE, na qual o contributo da ASSIMAGRA é, desde sempre, fundamental. A entidade procura dinamizar iniciativas paralelas de forma a tornar este certame mais interessante e apelativo, trazendo debates que potenciem os empresários na sua participação com temas que os inquietem, com o intuito de prosperar por um futuro cada vez mais enriquecido para o setor. O Presidente da ASSIMAGRA acredita bastante nesta fileira, “se souber fazer bem as coisas”, porque a verdade é que, como referido, muitas são ainda as lacunas por colmatar. “Temos desafios tremendos. Sabemos que normalmente, a indústria extrativa está presente em países menos desenvolvidos, é normal assim no mundo inteiro. Em Portugal, temos sido uma exceção que queremos continuar a manter no panorama Mundial, mas há questões que nos inquietam, o combate por exemplo que hoje se faz à exploração de lítio em Portugal, mas identificamos com clareza a necessidade de efetuarmos uma transição energética, esta mesma discussão se passa nos países ditos desenvolvidos, que têm uma afirmação perante o mundo de um egoísmo tremendo e que dizem que os recursos para serem explorados têm que sê-lo em África ou em locais longe das nossa portas, onde se calhar praticamente nada é respeitado, onde o trabalho infantil existe, onde não há responsabilidade nenhuma ambiental… é urgente dizer: Basta! nós não podemos olhar para o mundo com este egoísmo, como temos olhado”, garante. Por isso, é importante que o setor extrativo saiba realizar bem o seu trabalho no mundo desenvolvido. Fundamentalmente criar condições de convivência sã e de compatibilidades com outros usos, de forma a que as pessoas não combatam a industria extrativa. Isto porque, “cada vez mais em Portugal, vemos a existência de manifestações contra a indústria extrativa, e isso existe porque as pessoas não estão para suportar uma indústria que não consegue cumprir com o seu papel. O desafio que temos pela frente é muito exigente porque não alberga só o setor, pois temos de conseguir mobilizar também os decisores e as pessoas de uma forma geral, diria que temos de mobilizar Portugal para a importância deste setor que está mais presente na nossa vida do que todos imaginamos. Estou certo que vamos conseguir vencê-lo e, por isso, acredito que o setor vai ter um futuro muito positivo”.

Projeto Primeira Pedra

Acerca do futuro, a ASSIMAGRA está a desenhá-lo ao pormenor. Já dia 23 deste mês, às 22 horas, inaugura no Museu Nacional dos Coches, em Lisboa, a exposição “Primeira Pedra”. Miguel Goulão confessa, “este projeto no Museu dos Coches é o culminar de todo um trabalho que foi feito de muitos anos. Na altura quando nos propusemos fazer algo arrojado, o desafio era de saber se o setor conseguia cumprir com a missão de realizar os projetos de quem nunca tinha pensado a pedra. Tivemos arquitetos e designers que nunca tinham feito nada na sua vida profissional com a pedra. O mais incrível é que não houve nada que ficasse por fazer, e isso revela que o setor consegue fazer tudo o que lhe propõem. Tivemos projetos muito difíceis, em que nos colocaram claramente à prova”.  Portanto, no dia 23, irão ser visualizados documentários que revelam o desenvolvimento de criações artísticas que estarão expostas. “Somos o único setor em Portugal, em que a tecnologia é fabricada em Portugal e que simultaneamente a mesma é de nível mundial. Conseguimos simultaneamente aliar neste projeto a tecnologia ao design e à capacidade de estarmos junto de quem pensa – arquitetos e designers – foi fundamental no processo, são eles que pensam e planeiam mas são as nossas empresas que fizeram tudo acontecer, tenho um orgulho enorme nas empresas”, termina o Presidente da ASSIMAGRA.