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Trilhar os caminhos do desenvolvimento comunitário

Como surgiu a START.SOCIAL na sua vida e o que é que a motivou a enveredar pelo caminho da ação social? 

A START.SOCIAL, surgiu em 2001 com a designação de CSEPDC – Cooperativa Sócio Educativa Para Desenvolvimento Comunitário, Crl, sediada em Loures.

A START.SOCIAL, nasceu na maior mancha de pobreza e exclusão social às portas de Lisboa, na Quinta do Mocho, Sacavém, Concelho de Loures.

A zona denominada por Quinta do Mocho, era um conjunto de 12 prédios de 10 andares inacabados, só com a estrutura de tijolos e cimento, sem acabamentos, sem instalações sanitárias, sem proteções nas varandas e nas escadas, com caixas abertas onde deveriam constar os elevadores, sem saneamento básico (esgotos a céu aberto), sem eletricidade e água, sem ruas pavimentadas, enfim, abandonados pelo construtor que teve alguns problemas financeiros. Os prédios foram ocupados entre finais dos anos 70 e princípio dos anos 80, por população oriunda dos PALOP´S.

Na década de 90 residiam no “Bairro”, 680 agregados familiares, correspondendo a 3500 a 4000 indivíduos. O “Bairro” apresentava um problema social e habitacional gravíssimo, sem solução à vista, sendo um símbolo de pobreza e exclusão social, durante mais de uma década, ficando esquecidos e entregues a si próprios.

Numa ação concertada entre o poder central e o poder local, foi constituída uma Comissão Interministerial em 1997, para implementação de medidas de melhoria de vida da população. Em 1996 foi implementado o primeiro Programa Nacional da Luta Contra a Pobreza (PNLCP), que terminou em 1999, realizando algumas ações no “Bairro”, mas insuficientes face à dimensão do problema habitacional e social existente.

Em 1999 nasce o 2º PNLCP, Projeto D.A.R. – Desenvolver, Acolher e Recriar, cujo objetivo passava por implementar um Pavilhão Multiusos para organizar uma série de serviços e atividades para dar resposta as necessidades mais básicas e promover a inserção social dos residentes e o apoio às famílias.

Neste Projeto assumi as funções de Coordenadora Pedagógica, com a responsabilidade de implementar 4 salas de creche, dinamizar atividades socioeducativas, culturais e recreativas, promover a animação dos tempos livres do Centro de Animação Infantil Comunitário (CAIC), proporcionar formação a Amas, com vista a qualificar algumas Amas clandestinas já existentes no “Bairro” e selecionar dez para integrarem o pessoal da creche.

A minha paixão pela ação social começou aqui, esta Quinta do Mocho já não existe (apesar de ainda hoje se ouvir o nome de Quinta do Mocho associada à Arte Urbana, existente na nova Urbanização Terraços da Ponte).

Em 2001 termina o projeto e as famílias começam a ser realojadas, iniciando-se a fase do pós-projeto. A motivação e o desejo de acompanhar as famílias para a nova Urbanização, a criação de estruturas de apoio para as crianças, a inversão do processo de abandono e insucesso escolar, eram fatores determinantes para a continuação da intervenção social. As pontes que tinha estabelecido com a população pela dinamização das atividades de animação sócio culturais, entre as quais de ter levado 33 crianças dos 3 aos 5 anos a Cabo Verde, para conheceram o país dos seus pais e avós, marcou definitivamente a minha vida.

A nova Urbanização Terraços da Ponte, acolheu 680 agregados familiares, correspondendo a 3585 indivíduos, população residente no Bairro da Quinta do Mocho, os prédios foram demolidos e no seu local nasceu outra Urbanização.

A START.SOCIAL (CSEPDC), nasce na terceira fase, pós-projeto em parceria com as Associações locais, criando as Respostas Sociais de ATL (Atividades de Tempos Livres) e de Creche, reduzir as desigualdades, criar oportunidades, apostar na criação de Equipamentos Sociais promotores de Emprego e Inserção Profissional.

Quais diria que são os pilares que sustentam a missão da START.SOCIAL?

A START.SOCIAL é uma Organização vocacionada para trilhar os caminhos do Desenvolvimento Comunitário, foi assim que se assumiu em 2001, na Quinta do Mocho em Sacavém, Concelho de Loures.

Tem a noção dos problemas sociais de um determinado território e procura a melhoria das condições de vida dessa população, com respostas assentes na valorização dos recursos disponíveis no local.

Apoiar grupos vulneráveis, em especial crianças, jovens, deficientes e idosos;

Apoiar famílias e comunidades socialmente desfavorecidas com vista à melhoria da sua qualidade de vida e inserção socioeconómica;

Desenvolver programas de apoio direcionados para grupos em situação de risco, doença, velhice e carência económica graves;

Apoiar o desenvolvimento social e comunitário com a criação de Respostas Sociais;

Desenvolver ações de formação que promovam as competências pessoais e sociais de forma a capacitar os indivíduos para a sua autonomização;

Valorizar as capacidades de cada indivíduo canalizando-as para as áreas de formação ou empregabilidade adequadas ao seu perfil;

Sabendo que toda a intervenção social deve ser feita em proximidade, em parceria, e com a participação dos cidadãos, devemos garantir os seus direitos fundamentais e condições de cidadania e contribuir para uma Sociedade mais justa, livre, diversificada e criativa, onde os valores essenciais sejam respeitados, construindo a “paz social” nos territórios mais fragilizados. É com base nestes pilares, que está assente a missão da START.SOCIAL, “Mais e Melhor no Desenvolvimento Comunitário”.

Na sua maioria, a ação social é encarada como voluntariado. Qual é a sua opinião sobre a mesma ser antes vista como uma economia impulsionadora, também, do tecido empresarial do país?

A Ação social e o Voluntariado são motores de desenvolvimento social, o Voluntariado está seguramente afeto à Economia Social. A taxa de adesão tem crescido, contudo a Ação Social não pode ser encarada como Voluntariado apenas, pois a Ação Social realizada pelas Organizações do 3º Setor, é sustentada e estruturada maioritariamente, pelas equipas de colaboradores que integram as mesmas, insuficientes por vezes. Concordo sim, com a integração de voluntários, nas equipas no sentido de reforçar e enriquecer as ações desenvolvidas, no exercício da sua intervenção, sendo uma mais-valia pra ambos, a Organização porque necessita de voluntários numa determinada ação ou área e o voluntário porque quer contribuir com o seu conhecimento e vontade, adquirindo ao mesmo tempo mais experiência crescimento pessoal e social. Uma das formas que a Sociedade Civil tem para participar na Economia Social é através do Voluntariado e da Cidadania Ativa. O Voluntariado é a forma humanizada para realizar ações de carater social.

A Economia Social em Portugal é emergente e cada vez mais essencial, com base nos últimos dados da CASES (2013); a Economia Social através das entidades da economia nacional, registou um aumento em número de Entidades, assim como o seu peso no emprego total (5,2%) e emprego remunerado (6%). Em 2013, a Economia Social esteve presente em todas as atividades económicas, mais de 61 mil Entidades registadas em 2013, na Economia Social, presentes em todas as regiões NUTS III de Portugal. A Economia Social representa 3% do PIB nacional. Se o 3º Sector fosse chamado de país independente, ocuparia uma posição de destaque entre as maiores economias do mundo.

Sobre a questão da (des)igualdade de género em sociedade… O que pensa sobre esta questão?

A questão da (des)igualdade de género que hoje se fala em todos os setores da nossa Sociedade, tem sido combatida com a criação de leis e medidas Politicas, não sendo suficiente, claro que ajudam, mas é uma questão de mudança de mentalidades. A Igualdade tem que ser conquistada em dois palcos fundamentais da nossa Sociedade: A FAMÍLIA e a ESCOLA.

A Igualdade trabalha-se em casa, no seio da família, na distribuição e distinção de tarefas, na participação das decisões, no respeito da individualidade, na escolha do percurso escolar, na escolha dos momentos recreativos, a necessidade de diminuir a diferença entre rapazes e raparigas, já lá vai o tempo em que “as bicicletas e as bolas eram para os rapazes, as bonecas e as malas eram para as raparigas”. Desde muito cedo as crianças são confrontadas com as escolhas pelo género, para “eles” e para “elas”, desde logo nos brinquedos, nas cores e nos padrões.

A Escola é sem dúvida o local que deve proporcionar “tudo” para “todos” independentemente do género, ainda sou do tempo das turmas de rapazes e raparigas. A Educação deve ser impulsionadora de oportunidades para combater as desigualdades, no entanto ainda verificamos que temos uma elevada taxa de abandono escolar por parte das raparigas, em função das tarefas e responsabilidades que vão assumindo em casa, as raparigas continuam a ser discriminadas no acesso à escolarização. Em contextos socioeconómicos deprimentes existe uma tendência para o género feminino ser mais penalizado. Mudar este tipo de mentalidades leva gerações e gerações.

Quando ouço falar da Igualdade Salarial, nas quotas das mulheres nas empresas e na política é claro que me identifico com estas questões, mas pergunto-me “se não estamos a construir a casa pelo telhado?”

É preciso trabalhar a Igualdade nas famílias, na Escola, desde a mais tenra idade, nos contextos sociais mais fragilizados, sobretudo se queremos uma Sociedade mais igualitária, ainda somos o último país da Europa na questão da Igualdade.

O sistema de Educação, Formação e Cultura, ainda continua a transmitir estereótipos de género. Mulheres e Homens seguem muitas vezes, percursos educativos e formativos tradicionais, que colocam as mulheres em profissões menos valorizadas e menos remuneradas.

Na Europa a Igualdade entre homens e mulheres, constitui um direito fundamental, um valor comum e uma condição necessária para a concretização dos objetivos comunitários em matéria de crescimento, emprego e coesão social. Embora continuem a existir desigualdades neste domínio, a União Europeia (EU) realizou grandes progressos nas últimas décadas, principalmente graças à legislação sobre igualdade de tratamento, à integração da dimensão de género, nas diferentes políticas e à adoção de medidas especificas em favor das mulheres.

Que outros aspetos aponta, atualmente, como mais preocupantes, em Portugal, e que são um entrave ao desenvolvimento social?

O Estado, nomeadamente após 1974, tem privilegiado o desenvolvimento de Entidades Não Lucrativas, limitando ao mesmo tempo a sua independência e campo de atuação. As Organizações do 3º. Setor, têm um papel determinante na formação das Políticas Sociais. Os aspetos que considero mais preocupantes, que poderão ser um entrave ao Desenvolvimento Social são; a falta de legislação referente à sua atuação; a grande diversidade de Organizações que abarcam o 3º. Setor; o modelo de financiamento; a não profissionalização dos quadros dirigentes; a dificuldade de acesso e modernização tecnológica; entre outras.

A questão da profissionalização dos quadros dirigentes, continua a ser um tema relevante para a sustentabilidade das Organizações. É preciso mais do que “boa vontade” para dirigir uma Organização do 3º. Setor, são necessários conhecimentos técnicos e especializados. Um órgão de gestão profissionalizado com capacidade de gestão estratégica, com uma perspetiva interna e uma abertura para o maior envolvimento da Sociedade Civil.

O financiamento das Organizações, se por um lado, não podem depender na sua totalidade do Estado pelo trabalho que realizam, por outro, é necessário encontrar uma diversificação das fontes de financiamento que não desvirtuem a sua missão. A Economia Social tem um papel importante a nível local, no sentido de reforçar o carater democrático da descentralização e atenuar o desequilíbrio demográfico e económico do País. Neste sentido devem ser criados localmente, programas de apoio para a criação de novas Organizações e para a Sustentabilidade das existentes.

O que mais gosta no seu trabalho? Que legado gostaria de deixar?

O que mais gosto no meu trabalho é a proximidade às pessoas, ajudar quem precisa, criar estratégias para garantir a existência de “elevadores sociais”, continuamos com um elevado número de pessoas em situação de pobreza e exclusão social, principalmente ao nível da Infância. O meu maior legado passa, por deixar esta vontade e determinação de fazer algo e não “baixar os braços”, de partir para a ação, movermo-nos perante as problemáticas existentes, no dinamismo e eficácia de criar respostas, serviços de proximidade, na insistência do trabalho em parceria, em criar sinergias que tragam um “novo despertar”, para as Causas com que nos deparamos a cada dia!

Deixo o exemplo de entrega à causa social, deste “bichinho”, que é o desenvolvimento local, revisto na liderança que tenho desenvolvido em prol do crescimento e desenvolvimento das organizações e equipas de trabalho, por onde tive oportunidade de passar e por último na START.SOCIAL, da qual sou fundadora. Na preocupação de criar e implementar projetos, serviços e respostas sociais, sendo o nosso mais recente projeto, o projeto “memórias que ajudam a crescer”, que consistiu na construção de uma creche e de uma residência sénior, da qual nos orgulhamos muito. O papel da START.SOCIAL na construção deste projeto foi fundamental, pois foi uma obra que custou mais de 3 milhões de euros, tendo a organização suportado parte desse custo, mais precisamente cerca de 1 milhão e 500 mil euros. Sei que sou e sempre serei uma ativista e empreendedora social, provocadora de mudança.

A força da mulher no direito

Quem é Paula Neves Ramalho e o que a levou a tornar-se advogada?

Licenciei-me em Direito na Universidade Nova de Lisboa em 2006, e desde então que exerço advocacia, já lá vão cerca de 11 anos. Foi a minha única opção tanto que quando me candidatei à faculdade de Direito, no respetivo ingresso de candidatura, foi a única opção assinalada. Para tal, contei, como não poderia deixar de ser, com o total apoio e incentivo dos meus pais, que sempre me aconselharam muitíssimo bem. Foi uma opção que fiz ainda muito nova, talvez por idealizar uma sociedade justa, onde tivesse espaço para fazer a diferença, nem que fosse a uma pequena escala e isso nós, advogados, conseguimos fazer. É o mérito da profissão, dar voz a quem não tem voz, servir a justiça e trabalhar em prol dela.

Em algum momento teve dúvidas sobre a escolha da advocacia como carreira profissional?

Nunca! Exercer advocacia, tendo já exercido quer em regime de prática isolada, quer numa estrutura de sociedade de advogados, estando atualmente numa estrutura empresarial, nunca foi objeto de análise ou de reflexão no sentido de clarificação relativamente a se foi ou não a melhor opção ou caminho a seguir. Para além da maternidade, esta foi a única matéria na minha vida onde nunca tive qualquer dúvida.

Quais diria que são os maiores desafios desta profissão? Como é que eles são superáveis?

O maior desafio de todos é ter a capacidade de encontrar uma solução para aquele caso concreto dentro, naturalmente, dos limites legais. Pode ser simplesmente mais um caso, mas para quem nos procura poderá ser o caso da sua vida. Outro dos grandes desafios é lidar e ter de explicar muitas vezes a paralisação dos processos em tribunal, durante anos a fio. Tradicionalmente, o advogado era chamado para o litígio, para o processo, e hoje em dia, o objetivo é muitas vezes travar o conflito evitando-se o recurso às vias judiciais. É uma grande alteração de paradigma.

O que é que lhe dá mais prazer no seu trabalho?

No exercício da advocacia não existem dois casos iguais, ainda que se trate do mesmo tipo de ação, seja cível ou penal, de direito da família ou de sucessões, a verdade é que não existem dois casos exatamente iguais. As partes envolvidas e os contextos são sempre diferentes e para cada um deles temos de tentar encontrar a melhor solução possível enquadrada na lei. E isto é colocarmo-nos sempre, a cada caso, fora da nossa zona de conforto.

Na sua opinião, o Direito tem acompanhado de forma idónea a evolução da mulher em sociedade?

Existem obviamente avanços legislativos de relevo, se pensarmos na consagração do direito de voto, o acesso ao exercício de determinados cargos, a igualdade de direitos e deveres no que respeita à educação dos filhos, assegurou-se o direito a uma licença de parentalidade sem perda de remuneração, etc. De um modo teórico, penso que sim. Na prática está longe disso. E prova disso são ainda as decisões dos nossos tribunais a que temos a infelicidade de ainda hoje assistir, veja-se, a título de exemplo, o Acórdão do Tribunal da Relação do Porto, cujo teor é inenarrável e que deve preocupar todos os cidadãos, uma vez que perpetua uma visão machista e repressiva do papel da mulher na sociedade, o que não se pode admitir, para além das alusões bíblicas completamente inconcebíveis num estado laico, como Portugal. Terei certamente vergonha, e esta é a palavra correta, para descrever este Acórdão um dia mais tarde às gerações futuras, como as minhas filhas, pelo que considero que o Conselho Superior de Magistratura deve ter uma mão pesada para o sucedido, uma vez que não se trata de uma pessoa idónea para o exercício do cargo. Note-se que aquele juiz não se limitou a dizer que o adultério é um gravíssimo atentado à honra de qualquer ser humano, tendo dito que o adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem. E, não contente, ainda acrescentou que sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte. Não nos esqueçamos que um Tribunal, na pessoa do juiz, fala em nome do povo, do seu e do meu, de todos nós, em nome de todos os nossos leitores e em nome do Estado. Não aceito nem tolero que o exercício da minha liberdade sexual, seja esta exercida da forma que for e como eu bem entender, seja motivo justificativo ou desculpa para eventuais agressões, violências, maus tratos e no limite, um homicídio. Honestamente, desejo que as gerações vindouras não tenham de passar por isto.

Além dos obstáculos inerentes a uma construção de carreira profissional – seja ela qual for – o facto de ser mulher, pesou? 

Ainda pesa. Espero que quando as minhas filhas começarem a pensar na sua carreira profissional, esta seja uma não questão, que não seja sequer suscetível de ponderação. Hoje, com toda a certeza, afirmo que pesa e pesa muito. Na realidade, e na prática, assistimos ainda hoje a situações que são no mínimo caricatas. Por exemplo, se um homem sai mais cedo do trabalho para ir ao colégio buscar o filho que está doente, ouvem-se comentários, tais como, que pai tão dedicado, se fosse outro não ia. Se for uma mulher a sair mais cedo, muito provavelmente é desorganizada e não sabe compatibilizar a vida profissional com a familiar. Há, na minha opinião, um longo trabalho a percorrer, todo um processo. Espero, com a minha fé e convicção, que na altura das minhas filhas, daqui a 15 ou 20 anos a situação se encontre sanada, mas hoje, infelizmente, não está. Muitos dir-me-ão que a lei, mais concretamente o código do trabalho, prevê dispensas de trabalho para a mãe ir acompanhar os menores, entre muitos outros direitos inerentes à maternidade e que se encontram consagrados. Mas o que a lei do trabalho prevê é a parentalidade, que abrange ambos os progenitores, não sendo um direito exclusivo da mãe. Aliás, já há muito que deixou de se diferenciar paternidade ou maternidade. Infelizmente, salvo raras exceções, tal sucedeu apenas no papel e não na prática. A questão é que, não obstante estar previsto na lei, na maior parte das vezes, é a mulher trabalhadora quem sofre consequências a nível profissional e ao nível do seu desempenho e oportunidades. E mais, sofre muito mais a nível familiar com uma culpa – que não tem, de todo – de não estar presente para os seus filhos. A nossa profissão pode não determinar quem nós efetivamente somos, mas em alguns casos, faz parte de nós próprios, da nossa vida e tem um papel fundamental para a nossa realização, quer profissional, quer pessoal e como tal não pode nem deve ser descurada a partir do momento em que é o nosso objetivo, tal como a maternidade ou muitos outros objetivos a que nos propomos na vida. Pelo caminho, fazemos opções, perdem-se vivências, momentos, casamentos, mas no final, enquanto mulheres, na minha ótica, o que conta é ter a certeza que estas opções nos fazem sentir felizes e realizadas para, dessa forma, também feliz e realizada, desempenhar os maiores papéis das nossas vidas, que são aqueles que, em consciência, escolhemos. É sempre necessária alguma gestão, temos muitos dias em que somos malabaristas, e se não balizarmos as nossas duas vidas – pessoal e profissional – corremos o risco de falhar em ambas.

“Façam tudo para serem felizes”

Quando é que surgiu a ideia de Isabel Monte Fotografia e porquê a escolha por esta área que, como sabemos, “mexe” tanto com os sentidos e as emoções?

A minha paixão pela fotografia começou quando conheci o meu ex-marido, na altura fotógrafo profissional de moda, arquitetura e interiores no Dubai, onde eu cresci. Ajudei-o e aprendi imenso. Após o nascimento da nossa primeira filha, a Jane, fiquei completamente rendida em fotografá-la e dei conta que era uma área muito mais emotiva. Vim para Portugal de férias em 2009, já grávida da nossa segunda filha, a Emma, e acabei por ficar cá para o parto. Infelizmente não correu muito bem e a Emma ficou com paralisia cerebral. Acabei por me divorciar e decidir ficar de vez em Portugal para um melhor acompanhamento médico.

Olhando para as escassas oportunidades de emprego para quem precisava de acompanhar a filha a consultas, a terapias, entre outros, resolvi dar a volta à situação e criar o meu próprio emprego onde pudesse gerir o meu tempo e fazer algo apaixonante. E foi assim que surgiu a ideia! Primeiro criei o blog onde convidei cerca de 30 famílias para portfólio e em seguida nasceu o site (www.isabelmonte.com) e o negócio Isabel Monte Fotografia.

Quais são as maiores dificuldades para singrar nesta área? O que procura ou pretende quando realiza um projeto? 

O investimento para todo o equipamento como também toda a gama de cenários e acessórios. Algo que fui conseguindo aos poucos com o sucesso do meu trabalho.

O meu objetivo é focar-me nas pessoas e nas suas emoções, seja a fase única de uma gravidez ou a chegada de um recém-nascido. Pretendo que anos mais tarde a família consiga reviver tudo como se tivesse sido ontem.

Que análise perpétua do seu trajeto profissional e quais têm sido as suas principais vitórias e conquistas?

Há sempre altos e baixos! Mas se formos persistentes e positivos, tudo é possível alcançar. Hoje em dia tenho o meu trabalho reconhecido a nível nacional e internacional, além de fidelizar famílias que temos o prazer de rever e registar o seu crescimento. 

Que desafios, no âmbito da sua função, é que enfrenta no seu quotidiano? Como mulher, de que forma é que ultrapassa os desafios que surgem diariamente? 

Sendo a minha área mais virada para o feminino, são poucos os obstáculos em comparação com os que tive de enfrentar na indústria automóvel no Dubai! Mas sendo uma mulher de luta e com grande vontade de triunfar, tenho ultrapassado tudo até nas fases mais difíceis.

Para si, o que faz um bom líder? É legítimo afirmar que as mulheres são melhores líderes que os Homens? Como analisa os gestores em Portugal? 

Um bom líder é alguém que trabalha com paixão! Que arrisca em transformar as suas ideias em ações. É alguém persistente e confiante que irá vencer, rodeado de boas pessoas e influências. É flexível e aberto a novas ideias e aprendizagens. Lidera dando o exemplo e avalia os erros para melhorar. É alguém que conhece bem os seus clientes e preocupa-se com o feedback. É alguém que faz tudo para superar sempre as expectativas!

Não gosto de generalizar. Acredito que devido ao contexto da sociedade, a mulher tenha mais qualidades de “multitasking” do que o homem. É caso para dizer que somos “a mulher dos sete ofícios”! Os gestores em Portugal ainda têm as mentes muito fechadas e retrógradas… Mas já vejo melhorias! (Risos)

Uma sociedade equilibrada contempla a integração de homens e mulheres com igualdade de oportunidades. O sexo não torna o indivíduo nem mais nem menos apto para o desempenho de uma determinada função. O que falta, na sua opinião, para que a igualdade de oportunidades seja cada vez mais uma realidade? 

Penso que falta criar estratégias nas empresas em relação a… Formar “Managers” sobre o tema da igualdade de oportunidades e formas de identificar e lidar com situações de discriminação.

Celebrar os sucessos, sejam de homens ou mulheres, de forma equiparada.

Selecionar novos colaboradores com base nas suas aptidões e competências e não no género. 

O que podemos continuar a esperar de si de futuro? 

Mais fotografias de qualidade, mais criatividade, mais conquistas de prémios, mais famílias felizes!

Que conselho lhe aprazaria deixar a todas as mulheres? 

Nunca desistam! Lutem pelo que querem, enfrentando os medos e saindo da zona de conforto! Não há impossíveis, o único limite está na mente. Peçam ajuda… “No man is an island”. Façam tudo para serem felizes. Tal como Fernando Pessoa escreveu: “Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo…”

“Considero que a liderança existe em cada um de nós”

Pertence a uma das principais marcas a atuar em Portugal desempenhando o cargo de Diretora Comercial Ibérica at ACAIL GÁS, S.A. Que análise perpetua do seu trajeto profissional e quais têm sido as suas principais vitórias e conquistas? 

Sempre fui uma pessoa determinada, concentrada em fazer e melhorar processos e não em “politicagem” e disputas de promoção. Considero-me uma autodidata dando asas à minha curiosidade e gosto por desafios. Isto tem talhado o meu percurso profissional, desde farmácia hospitalar, comunitária, parafarmácia e agora indústria, onde assumi funções de direção técnica do medicamento, dispositivo médico, cuidados respiratórios domiciliários e agora gestão comercial. As minhas vitórias são as amizades que construo com as pessoas com quem me cruzo, nomeadamente com os meus Clientes, ultrapassando anualmente diversas dificuldades com um sorriso no rosto. As minhas conquistas são o desenvolvimento de habilidades como a tomada rápida de decisões, gestão e liderança, bem como um autoconhecimento melhorado que me permite dizer que sou resiliente, criativa, flexível e altamente adaptada.

Que desafios, no âmbito da sua função, é que enfrenta no seu quotidiano? 

Honradamente enfrento os meus maiores desafios, que são: dar visibilidade e voz a esta empresa da indústria farmacêutica com menor dimensão face aos seus concorrentes, todos de âmbito multinacional. Diariamente confrontamo-nos com a máquina pesada e altamente burocrática da administração pública, que para além de não permitir que os processos sejam rápidos e eficientes ainda carregamos a difícil tarefa de pressionar essa mesma máquina a cumprir os compromissos assumidos. Quero com isto dizer, que todas as empresas criam ou fornecem algo de valor tendo como contrapartida justa e necessária o pagamento de um preço acordado que lhes permita obter a receita suficiente para que possam continuar a manter as operações e os postos de trabalho criados. É deste ciclo que dependem as empresas e parte do PIB de um país. A dívida dos hospitais do Serviço Nacional de Saúde aos fornecedores de medicamentos, como é público, tem vindo continuamente aumentar desde Dezembro do ano passado. Olhando para o tempo que os hospitais demoram, em média, a pagar aos fornecedores, constata-se que as unidades de saúde demoram mais do quadruplo do tempo definido na legislação vigente (CCP), o que se traduz numa redução forçada da rotação de capital das empresas, somada à redução forçada das suas margens via pressão das centrais de compras e ainda de contribuições extraordinárias que são aplicadas de forma indiscriminada, obrigando ao financiamento externo. Que exemplo dá o Estado às pessoas e às empresas quando é o primeiro a não cumprir ao que se propõe?

O Ministério da Saúde reúne com representantes da Apifarma e de grandes empresas da indústria farmacêutica, negociando acordos de liquidação de dívida, possibilitando a sua aplicação a outras empresas, de menor dimensão, que não veem qualquer efeito prático, já que são preteridas na hora dos pagamentos. Convido-o a reunir com a APEQ, associação que representa 100% das empresas do setor, constatar as dificuldades e debater as especificidades do setor. A ACAIL não pretende ser beneficiada em nenhum processo, apenas quer o mesmo tratamento que é aplicado às multinacionais. Nem sequer pretendemos descriminação positiva por termos menor dimensão ou sermos a única empresa de capitais 100% portugueses produtora de gases medicinais, que fornece oxigénio aos nossos Hospitais. Sabemos que apresentamos serviços de qualidade e que os nossos preços são competitivos.

Liderança no Feminino ou Liderança no Masculino? Existem de facto diferenças entre elas? 

Há uma variedade de pontos de vista conflituantes sobre as diferenças entre os estilos de liderança masculino e feminino em todo o mundo. Uma questão pendente é se isso reflete a influência de uma cultura em componentes automáticas ou controladas de atribuição causal. Eu acredito que os insights emergentes da pesquisa de neurociência cognitiva social podem informar este debate, sendo a minha resposta, com base nestas premissas: Depende! 

Para si, o que faz um bom líder? É legítimo afirmar que as Mulheres são melhores líderes que os Homens? Como analisa os gestores em Portugal? 

Ao discutir a liderança empresarial, muitas vezes confunde-se uma boa administração de uma boa liderança. Considero que a liderança existe em cada um de nós assumindo contornos individuais e únicos e, o melhor líder será aquele que tem a capacidade da pessoa ética que consegue iluminar a liderança individual de cada um e ajustá-la às necessidades emergentes da empresa. Esta competência é em parte inata, em parte aprendida. A necessidade de conjugação destes dois fatores, sendo um deles não controlável e que não se consubstanciam em diferenças de género, é que torna excecionais algumas pessoas, que por vezes nem são conhecidas.

O que observo é que em Portugal, em especial nos cargos de relevo da Administração Pública, as pessoas acreditam que precisam manter uma aura de controlo e conhecimento para parecerem superiores. Os gestores estão muito focados em distinções de status, concorrência e hierarquia em geral. Esta abordagem impacta negativamente sobre as necessidades conscientes e neurais que motivam as pessoas a trabalhar de forma produtiva. Os seres humanos são movidos a prestar atenção à comunicação atenciosa. Tememos a ambiguidade e buscamos certeza através da compreensão dos factos, o que só se alcança pelo diálogo. Esta necessidade foi demonstrada em experiências simples de escolha com base no chamado “Eladsberg Paradox”.

Uma sociedade equilibrada contempla a integração de homens e mulheres com igualdade de oportunidades. O que falta, na sua opinião, para que a igualdade de oportunidades seja cada vez mais uma realidade? 

Falta visão, conhecimento e coragem! A igualdade de oportunidades contribui para o enriquecimento do Know how. Sou licenciada em Farmácia, em Gestão e gostaria de ser também em Direito porque o conhecimento permite a análise de diversas perspetivas, que no seu conjunto nos aproximam do ponto de equilíbrio. Se o nosso tempo de vida útil não é suficiente para adquirirmos o conhecimento e experiência suficientes à tomada de decisões inteligentes, temos de trabalhar em equipa, envolver pessoas diferentes e incentivá-las a contribuir livremente com as suas visões. Construir novos horizontes a partir daí e ter a coragem de reconhecer quando estamos errados, ter a coragem de sair da zona de conforto, e ter a coragem de arriscar em terrenos desconhecidos, com a segurança de que não vamos sozinhos. 

O que podemos continuar a esperar de si de futuro? 

Uma mulher profissional, honesta e sincera, com elevada orientação para a gestão de pessoas, nomeadamente na vertente do relacionamento interpessoal e da comunicação, que pretende manter o seu estilo de liderança “participativa” envolvendo as pessoas ao meu redor (que assim o queiram) na minha visão e planos, procurando capacitá-las a serem líderes no seu trabalho e a perseguirem a excelência.

Que conselho lhe aprazaria deixar a todas as Mulheres? 

As mulheres, com o papel que desempenham no futuro da sociedade e nas famílias têm em geral uma maior limitação num recurso fundamental no sucesso profissional – o tempo, pelo que têm de criar mecanismos para serem substancialmente mais eficientes. O meu conselho é que se partilhem outras tarefas como as domésticas e não deleguem a educação e o carinho com os filhos, nem subestimem a família e os amigos. Sejam felizes, cultivem a instrução, mas também a intuição feminina.

“Ser mulher é uma vantagem”

É doutorada em Ciências da Engenharia, fez pesquisa a nível internacional que foi diversas vezes publicada e motivo de impacto. Esteve sempre envolvida em grandes projetos um pouco pelo mundo todo. Hoje, qual é o seu foco?

Hoje em dia são dois: i) a investigação na área biomédica, procurando alternativas às terapêuticas convencionais para o tratamento de várias doenças desde cancro às feridas crónicas e ii) a Associação Nacional de Investigadores em Ciência e Tecnologia (ANICT), que tem como objetivos: apoiar e representar os Investigadores Científicos que trabalham em Portugal; agir como parceiro no diálogo entre os Investigadores e o Governo, assim como outras instituições que participam na definição da política de Ciência em Portugal. Nos últimos anos à frente da ANICT visamos promover a excelência na investigação, a autonomia e liberdade, em todas as áreas e contribuir para a disseminação do conhecimento científico para o público em geral. 

O que a motivou a escolher a investigação como percurso profissional? 

A curiosidade! Acho que nunca deixei a idade dos porquês. Sempre senti a necessidade de saber mais. Trabalho todos os dias para deixar uma marca positiva na sociedade contribuindo para um mundo melhor. A investigação torna-se parte de nós.

É Presidente da ANICT – Associação Nacional de Investigadores em Ciência e Tecnologia, cujo um dos objetivos é “apoiar e representar os Investigadores Científicos que trabalham em Portugal”. Como surgiu este projeto na sua vida? 

Sou investigadora de pós-doutoramento desde 2005 e logo me deparei com as dificuldades de uma carreira de investigação em Portugal. Decidi aproveitar a experiência adquirida em diferentes laboratórios europeus e japoneses e contribuir para o desenvolvimento do sistema científico em Portugal. Comecei por fazer parte de grupos de trabalho da ANICT a convite do antigo Presidente Nuno Cerca. A partir daí fui-me envolvendo cada vez mais na ANICT. Como investigadores é importante não só realizarmos o nosso trabalho laboratorial, mas também contribuirmos para o desenvolvimento de carreira de investigação baseada no mérito.

Quais são os maiores desafios que os investigadores em Portugal enfrentam? 

Os investigadores em Portugal enfrentam vários desafios, desde o financiamento, à necessidade de uma carreira de investigador, estabilidade, políticas científicas a médio e longo prazo. Neste momento estamos atravessar um período particularmente importante na dignificação da carreira de investigador. A ANICT desde a sua génese que tem trabalhado e contribuído para a profissionalização da carreira de investigação. Sempre defendemos que, após o doutoramento, todos os investigadores devem ter um contrato de trabalho. Anos a fio as instituições abusaram na figura de bolseiro (normalmente atribuída a um estudante). Finalmente, este ano foi promulgada a Lei 57/2017, a qual reconhece que é essencial que os investigadores tenham um contrato de trabalho, limitando assim a figura altamente precária de bolseiro. Há ainda um longo caminho a percorrer, mas garantidamente não iremos deixar de trabalhar em prol da ciência e para que os cientistas sejam reconhecidos como trabalhadores de pleno direito.

Alguma vez se sentiu discriminada pelo facto de ser mulher? De que forma lidou com o assunto?

Não. Acredito que ser mulher é uma vantagem, temos a capacidade de gerir várias situações ao mesmo tempo, desde a vida profissional, às exigências de uma da vida familiar preenchida. 

Qual é o seu sonho enquanto investigadora? 

O sonho de qualquer investigador é ver os resultados da sua investigação aplicados no dia-a-dia. No meu caso é saber que contribui para o bem-estar de um paciente, que de alguma forma contribuí para o aumento da sua qualidade de vida. Como presidente da ANICT é contribuir para a erradicação da precariedade dos investigadores e a profissionalização da carreira de investigador.

“Mudou a forma como nós mulheres angolanas nos impusemos”

Como surgiu a comunicação na sua vida e o que é que a motivou a criar a On Time_ PR & Communication? 

Cresci com a frase “essa miúda fala muito, vai ser jornalista” (Risos). Obviamente que, quando chegou a idade para frequentar o ensino médio, a área escolhida foi jornalismo. Como ela surgiu? penso que faz parte de mim. Considero-me uma pessoa comunicativa, vivo e respiro a comunicação nas suas mais diversas vertentes e aprendi a ser seletiva.

A On Time é um “filho gerado sem ser planificado”. Depois de sair de uma agência de PR, estava em casa a trabalhar por conta própria, pequenos clientes, mas foi por causa de um amigo, Tigo Vilela de Sousa, e de um cliente que criei a On Time (A tempo e horas). Motivou o facto de saber que era minha e que não teria de depender de terceiros para dar resposta aos clientes a tempo e horas (cumprir com prazos), motivou o facto de saber que, mesmo não estando afecta a ninguém, consegui algumas grandes contas, tudo isso ainda na fase inicial, 2012 e 2013 e, posteriormente, seguiu-se a fase de montar uma equipa. 

O que é mais importante no seu trabalho e que não pode mesmo falhar? 

Cumprimentos dos prazos que damos aos clientes e feedback. Quando partilhamos com os clientes que determinada acção irá acontecer na data A, B ou C, estamos a criar expectativas. Logo, para nós é extremamente importante ter a noção que esta ação irá se concretizar. Apesar de que nem sempre depende de nós, mas é importante acautelar isso. Reconheço, desde já, que neste campo falhamos. 

Em algum momento sentiu que o facto de ser mulher foi sinónimo de discriminação? 

Não. Porque já venho de uma geração, ou fase, que aprendeu a desafiar o silêncio e romper barreiras. A discriminação vem de outros campos, como por exemplo, não estar associada a “pessoas de peso” como funciona o nosso mercado, mas acima de tudo destas discriminações fiz a estrada para a busca do meu oceano.

Como retrataria a mulher angolana atual? O que mudou nos últimos anos? 

Bastante oportuna a questão. Entramos agora para a terceira República e o atual presidente elege 12 mulheres a ocuparem cargos de destaque, o que corresponde a 36%. isso traduz tudo. Traduz a capacidade, força e o crescimento da mulher angolana. Mudou a forma como nós mulheres angolanas somos vistas, mudou a forma como nós mulheres angolanas nos impusemos e o respeito conquistado.

Retrato-as como lutadoras, capazes e mulheres de mérito. Hoje, totalmente transformadas.  

Que vulnerabilidades considera que têm as mulheres enquanto profissionais? E relativamente às melhores características? 

Somos vulneráveis quando nos colocamos na condição de vítimas e incapazes. Cada acto, ação, mudança ou status deve constituir um desafio e não uma dificuldade e no primeiro obstáculo temos de aprender a pedir ajuda. Os obstáculos, por mais difíceis que sejam, são para ser contornados. Levem o tempo que levar, unirmo-nos a alguém ajuda na facilitação do processo. Somos tão capacitadas quanto o sexo oposto. na gestão de equipas e de conflitos as mulheres demonstram maior controlo da situação, não por ser mulher, mas acho que as mulheres são mais humanas e conseguem distribuir atenção, prova disso são as várias atividade que desempenham.

Se pudesse mudar algo no mundo o que seria? Porquê? 

A forma como o mundo vê Angola. Amo meu país e, para além de todas às conotações negativas, existe um lado belo e bom de se explorar de Angola que está ofuscado pela má imagem que acabamos por ter fora das nossas fronteiras.

O líder português quer ser um influenciador

Muitas vezes uma entrevista parece uma guerra, onde todos perdem – o jornalista, o entrevistado e principalmente a audiência que fica sem um grande momento de informação. Hoje os empresários sabem que uma entrevista eficaz e moderna ‘é como se fosse uma dança – onde um brilha enquanto o outro lidera e vice-versa’. É assim a visão de Sara Batalha, especialista em comunicação com 24 anos de experiência profissional. Foi ela própria jornalista durante 12 anos, passou pela RTP e pelo jornal Expresso, dedicou-se depois à consultoria em agências de comunicação, trabalhou como assessora do famoso futurista Alvin Toffler e há dez anos foi convidada pessoalmente por TJ Walker, referência mundial e fundador da Media Training Worldwide Global (MTW) para abrir o negócio em Portugal.  A MTW Portugal é uma consultora com génese norte-americana que tem como propósito treinar, desenvolver e transformar profissionais em líderes de opinião. 

Sabe o que é o Media Training 4.0? 

“O Media training é só para políticos é pensamento dos anos 80”, começa por explicar a nossa entrevista, que afirma que “o líder moderno sabe que tem a responsabilidade e missão de ser ele próprio um media – um líder de opinião. Através dos media, em diferentes palcos e junto das suas equipas e pares”. Antes, responsabilizava-se o jornalista por descontextualizar a mensagem, mas ao que parece, o empresário de hoje compreende melhor que “todas as audiências querem ser ouvidas, valorizadas e respeitadas”. E para isso tem que se preparar com eficácia e significado, tal como executa a sua gestão, assim assume a sua liderança comunicativa. “Hoje um orador já descobriu que se for aborrecido ou apenas informativo perde a audiência. A comunicação acompanha os ciclos de liderança e de economia, o que significa que também evolui. E sim, em Portugal é possível ver essa evolução analisando o perfil de influenciador – o estilo de comunicação que os gestores portugueses mais necessitam de desenvolver e para o qual nos contratam”.

Nem só o americano é que sabe comunicar    

O perfil do líder português é quase oposto ao líder americano. “Os americanos são High Profile Communicator e os portugueses preferiam o Low Profile Communication”. Mas nestes últimos cinco anos houve uma grande transformação e importância dada à comunicação do líder e hoje o serviço mais procurado junto da MTW Portugal é o treino de ‘Communication to Influence’. Uma necessidade que aponta uma tendência na evolução dos estilos de liderança – “saber comunicar para influenciar é essencial ao gestor português. E isto treina-se!”

Foi este contexto socioeconómico que levou Sara Batalha a transformar totalmente o seu modelo de negócio e metodologias consoante o perfil dos seus clientes nacionais. “Mantemos o melhor da eficácia da escola de consultoria americana e apostamos em três pilares: comunicação científica, relação a longo prazo com o cliente e rigor nos resultados. E foi o que fizemos de melhor.” Com um crescimento de 20% ao ano, a MTW Portugal deu um salto de 60% o ano passado, contando hoje com 13 colaboradores, quase 6 mil clientes, e uma lista de clientes com nomes sonantes das maiores empresas em Portugal, e internacionais.

Qual o segredo da MTW Portugal 

O segredo do trabalho da MTW incide na autenticidade. “Sim, porque a autenticidade treina-se!” Quando subimos a um palco e nos sentimos menos seguros ou menos preparados é natural que os nossos comportamos se alterem. É quando alguém nos diz: ‘Nem parecias tu, a tua voz estava diferente, estavas tão sério ou porque é que não estavas ‘natural’ como és?’ Isso acontece porque nos sentimos ameaçados. Da mesma forma quando alguém escreve um discurso para ser lido pelo gestor, ou o mesmo tem que apresentar algo no qual não acredita, o que acontece? “Muitas vezes, uma branca e depois uma bronca”, brinca Sara Batalha. Um bom momento de comunicação tem que ser congruente, e para tal deve existir um equilíbrio entre a comunicação do corpo, da palavra e do comportamento. Todo este trabalho é assente nos valores pessoais do orador e no seu estilo de comunicador, para garantir e potenciar o melhor da sua autenticidade. Segundo a antiga jornalista, “os portugueses ainda estão a descobrir qual é a diferença entre informar e comunicar” mas tem a certeza que em breve um português será o ‘novo Steve Jobs’ da comunicação internacional. 

“Esta é a minha terceira vida”

Sara Batalha gosta de se desafiar porque garante que “só assim crescemos e aprendemos”.

“Trabalho há 24 anos em comunicação e fui jornalista durante 12 anos em todos os tipos de meios de comunicação. Isto deu-me bagagem e uma perspetiva para perceber o que é necessário para um jornalista poder fazer uma boa entrevista e saber que o entrevistado necessita de um pacote de características para ter um bom desempenho e resultado. Tem de dominar o assunto, ser muito bem preparado e conseguir ajustar a sua mensagem à audiência, ao jornalista e ao media. Tem de ser empático, saber transmitir emoções através da sua postura e da própria voz e saber inspirar, motivar e levar à ação através da sua comunicação. Isto só se consegue com uma equipa e muito trabalho, tal como na gestão. Isso é ser um líder comunicativo eficaz”. 

“Para mim, são a melhor equipa do mundo!” 

E assim surge a MTW Portugal com uma equipa multidisciplinar e com diferentes saberes e com dez anos de formação intensiva em diversas áreas complementares à comunicação core. A MTW Portugal tem uma equipa altamente especializada com formação internacional em – Message Mapping, Body language, Vocal Coaching, Values Messaging, Branding, Image and Credibility, Presentation Training, Public Speaking, Talks Production and CEO communication strategy.

“Porquê que faço isto?” 

A maior parte dos nossos clientes são profissionais com bastante experiência profissional e de comunicação. Uma grande parte já são bons comunicadores, mas como são muito exigentes consigo próprios e querem ser muito bons ou até excelentes influenciadores através da sua comunicação, tal como são na sua gestão. E este perfil represente 80% do nosso negócio. Mas de vez em quando a equipa da MTW Portugal aceita casos que também desafiam a própria equipa. É o caso da Elisabete. “Há uns cinco anos, recebi uma chamada de uma pessoa que tinha lido uma entrevista minha no Expresso. Ligou-me porque queria a nossa ajuda. Tinha ficado viúva e com um império de negócios para gerir. O problema? Nunca tinha feito tal coisa. Nunca lidou com os negócios de forma ativa. Fazia uma gestão silenciosa. Depois da morte do marido viu-se obrigada a desafiar-se… e a ter que falar e comunicar em público, mas sentia pânico.

Na primeira vez em que nos encontramos analisei o seu perfil, traçámos um plano e ela quis fazer um contrato de um ano. Fizemos a primeira sessão. A cliente não conseguia articular três linhas de texto.

Tínhamos cumprido oito horas de treino quando ao discutir com o nosso Managing Partner que não a conseguiria ajudar, adiantei que não era caso para nós e que seria melhor para a cliente indicarmos-lhe um parceiro, rescindir o contrato e devolver-lhe o investimento. Pois bem… De volta à sala e antes de poder comunicar-lhe a nossa decisão, oiço: Dra. Sara, muito obrigada por não desistir de mim! Engoli em seco, e seguimos em frente, fazendo o impossível acontecer. Dois anos depois a cliente cumpriu o seu sonho – é guia intérprete, faz vídeos a falar para a câmara e é uma referência para nós de como a atitude e a resiliência podem ultrapassar os obstáculos mais desafiantes. Este é um caso extremo e desafiante, mas bem representativo do nosso reason why. Porque fazemos o que fazemos e como o queremos fazer diferente e melhor. Acredito profundamente que saber comunicar o nosso valor é um direito que todos os portugueses devem ter”.

“As pessoas são a peça mais importante do negócio”

Teresa Ferreira juntou-se à GMV em 2004 e hoje é Diretora de Espaço na GMV Portugal. Este percurso corresponde ao que expectava?

Estava longe de imaginar! Em 2004 integrei uma PME a dar os primeiros passos na área de Espaço. Com a entrada do grupo GMV passei a integrar uma equipa maior e onde a partilha de ideias e conhecimento tinha (e tem) um lugar de destaque. O caminho até aqui acabou por acontecer com bastante naturalidade.

Como descreveria as três etapas pelas quais já passou neste Grupo?

1) Trabalhar numa PME ambiciosa. Portugal estava a formar uma indústria espacial com a entrada na ESA em 2000 e por isso tudo era muito novo e dinâmico. Ao fim de alguns meses, estava a apresentar um dos nossos produtos na Workshop mais relevante da área de Navegação por Satélite da Agência Espacial Europeia.

2) A entrada do grupo GMV que colocou as nossas atividades num patamar global. Integrada numa equipa de centenas de técnicos de excelência com uma cultura muito sedimentada de colaboração e inovação. Orgulho-me de ter trabalhado com algumas das pessoas mais brilhantes que já conheci. Comecei a coordenar equipas, a especializar-me e tive oportunidade de trocar ideias com os principais especialistas mundiais na área.

3) Assumir o papel de diretora de Espaço onde muito do meu empenho passa por trazer desafios cada vez mais aliciantes, que são a razão principal pela qual voltamos todos os dias. As pessoas são a peça mais importante do negócio e o sucesso da GMV assenta na excelência técnica e numa comunicação fluída entre as equipas internacionais. Outro aspeto fundamental é a consolidação da nossa liderança em Portugal e o posicionamento de referência a nível mundial.

Há cada vez mais mulheres na liderança de empresas portuguesas. No final de 2016, as mulheres ocupavam já cerca de 28,6% dos cargos de liderança. No entanto, a desigualdade de género ainda é um assunto a debater. Em algum momento esta foi uma realidade para si?

Na área da Engenharia o número de mulheres é muito reduzido desde a escolaridade; quando entrei no IST éramos menos de 10% dos alunos do curso. Hoje há mais mulheres em cursos de Engenharia e penso que a igualdade de género já se vai avistando ao fim do túnel.

Ainda esta semana, na Nova Zelândia, um apresentador de televisão questionou a líder do partido trabalhista sobre a maternidade, dizendo que os neozelandeses tinham o direito de saber se ao escolherem o primeiro-ministro essa pessoa pode ausentar-se devido à licença de maternidade. A sociedade está preparada para ter mulheres em cargos de liderança?

Acredito que sim e eu sou um exemplo disso. Fui promovida precisamente quando estava em licença de maternidade e, embora esta não seja a regra em todo o lado, penso que enquanto sociedade estamos a caminhar no sentido de aceitar cada vez mais mulheres em cargos de liderança.

A GMV foi uma das empresas convidadas do encontro Ciência’17, um evento anual que reúne a comunidade científica e tecnologia Portuguesa. No âmbito da discussão sobre a Estratégia Nacional Espacial 2030, participou na sessão Portugal Espacial 2030: Satélites, Antenas e Lançadores. É fácil uma mulher conseguir ter voz neste setor dominado, maioritariamente, por homens?

Em Portugal a GMV é um dos atores principais na área de Espaço e consequentemente uma voz importante nestes debates públicos. A indústria de Espaço em Portugal é muito jovem, tendo praticamente nascido com a entrada de Portugal na ESA, no início do século. Pela minha experiência posso dizer que o ambiente é positivo e o debate de ideias flui naturalmente.

Quem é Teresa Ferreira? Como surgiu este gosto pela tecnologia e engenharia relacionadas com o Espaço?

Sou uma mulher apaixonada pelo que faço e muito feliz por durante o dia ter a cabeça no espaço e à noite os pés bem assentes na terra junto da minha família. O meu gosto esteve sempre ligado à matemática e à física e de achar fascinante como conseguiam explicar fenómenos que nem sequer víamos! A partir daí acabei por estudar ondas eletromagnéticas, processamento de sinal e aterrei no maravilhoso mundo da navegação por satélite! O Espaço tem um efeito inspirador que move gerações e representa hoje a força da multidisciplinaridade, nações a trabalhar em conjunto para conseguir atingir objetivos cada vez mais ambiciosos e, acima de tudo, o retorno para a sociedade num infindável número de aplicações e serviços relacionados com saúde, lazer, segurança marítima, migrações, gestão florestal, entre tantos outros.

“O erro faz parte do crescimento”

Que história pode ser contada sobre o seu percurso até se ter tornado Diretora RH na Transcrane Logistics?

Mulher, mãe de dois filhos adolescentes e com uma carreira profissional de 22 anos.

Licenciei-me em Educação Física e Desporto, pela Universidade Lusófona, paixão que tinha desde que iniciei o meu percurso como atleta de competição. Ao longo de 11 anos ensinei Educação Física no ensino básico e secundário, onde igualmente acumulei funções de coordenação do departamento e responsável pela gestão das instalações desportivas.

No ano de 2006 surgiu a oportunidade de abraçar novos projetos e de alterar o meu rumo profissional e pessoal, através de um convite para integrar a equipa da maior empresa moçambicana de aluguer de maquinaria pesada, transportes e sistemas de elevação – Servitrade – e ficar responsável pelo departamento de recursos humanos. Sem hesitações e quebrando, na altura, o estigma de que uma carreira era para toda a vida, aceitei o desafio de uma nova experiência que sabia, desde o início, que me acrescentaria valor, tanto a nível pessoal como profissional.

Foi na Servitrade que aprendi que a liderança não é uma posição, mas sim um conjunto de competências que se desenvolvem com muita humildade, honestidade, resiliência e generosidade, com o propósito de nos transformarmos em pessoas melhores e sermos um exemplo para os outros. Ajudar as pessoas a potenciar as suas competências, a terem confiança no seu trabalho e colocá-las ao serviço da equipa traduziu-se no fator de sucesso do meu trabalho.

Em 2012, com a aquisição da Servitrade pela empresa AMECO, uma subsidiária do grupo norte-americano Fluor, que pretendia reforçar a sua presença estratégica em África, tomei a decisão de participar na criação de uma nova empresa, num país que se apresentava em grande crescimento e com expectáveis oportunidades de negócio nos anos seguintes. Surgiu assim a Transcrane Logistics SA, uma empresa que entrou com muita força no mercado, apostando fortemente em frotas de equipamentos novos e certificados, assim como na formação, especialização e certificação dos seus quadros.

Na sua opinião, o mundo do trabalho ainda é discriminatório face às mulheres? Pessoalmente, lidou com algum tipo de preconceito? 

A igualdade de oportunidades para as mulheres é um tema para o qual devemos estar alerta e contribuir para acelerar o equilíbrio ainda inexistente. Os estudos são claros e apontam essa desigualdade. Para a mulher, em muitos casos, é necessário fazer mais e melhor que o homem, para ter o mesmo reconhecimento.

Para além de, muitas vezes, as mulheres terem que demonstrar o dobro das competências para desempenharem os cargos com sucesso, ainda sofrem o estigma da abstinência e da falta de disponibilidade acabando por serem preteridas no acesso a determinados cargos ou progressão na carreira, pelos homens.

No meu caso em especial não registo nenhuma situação de discriminação ou diferenciação por ser mulher. Acredito que ocupei os lugares pelas competências demonstradas, pela integridade, pelo elevado empenho e comprometimento. Todavia, reconheço que estamos longe de este tema estar ultrapassado, pois ainda há muito a fazer para que a igualdade entre homens e mulheres seja uma realidade. Cabe-nos, enquanto gestores de organizações, contribuir para esta mudança de mentalidade na nossa sociedade.

Sobre a questão da migração feminina dentro da CPLP, diria que existem oportunidades iguais para homens como para mulheres? 

Os maiores desafios colocados num processo de migração, no meu ponto de vista, não tem a ver com o género. Quer para homens, como para mulheres, existem fatores comuns que podem dar origem ao insucesso numa expatriação: as questões familiares, traduzidas pelo desequilíbrio emocional provocado pelas ausências físicas, a incapacidade de adaptação ao meio (por dificuldades culturais ou linguísticas), ou ainda traços de personalidade que impedem o relacionamento interpessoal eficaz, quer na empresa ou no meio local que o rodeia.

A expatriação é uma solução “cara” para as empresas. Neste sentido, a melhor solução consiste no desenvolvimento do talento local, através dos expatriados, contribuindo assim, não só para o crescimento sustentável da empresa como para desenvolvimento de competências no país.

Nas empresas onde os fenómenos migratórios são uma realidade, é difícil gerir a diversidade? 

Sim, trata-se de um processo complexo. O fluxo migratório para os PALOP conduz a transformações sociais e económicas nos países de acolhimento. Paralelamente, as organizações sofrem com essa realidade e necessitam de efetuar os devidos ajustamentos. Existe uma grande preocupação das empresas em gerir a diversidade. Este processo implica a capacidade de integrar harmoniosamente pessoas que têm hábitos, expectativas, valores socioculturais e formas de relacionamento interpessoal diferentes.

Aqui a questão que se coloca é se as organizações (pessoas que nelas trabalham) encaram a diversidade como uma oportunidade ou como uma ameaça, pois no primeiro momento podem existir alguns fatores de intolerância ou incompreensão. Na minha opinião, em termos de gestão, é imperativo que as empresas tenham em conta as oportunidades deste processo, uma vez que este é mais vantajoso na qualidade das soluções que proporciona, gera índices de produtividade superiores e permite olhar para os problemas com visões diferentes, mas complementares. Independentemente da “bagagem” cultural de cada um, deve ser garantido o alinhamento de todas as pessoas com a missão e os valores da organização, para a concretização dos objetivos e para o crescimento sustentável do negócio.

Que mensagem gostaria de deixar a todas as mulheres que irão ler a sua entrevista?

A vida é enriquecida com mudanças e transições. Mudar de lugar onde se vive, de carreira, de emprego, de projetos e de relações, permite-nos adquirir e desenvolver novas competências, novas formas de encararmos os obstáculos.

Aceitar os desafios sem medo de errar, porque o erro faz parte do nosso crescimento, sair da nossa zona de conforto, agarrar as oportunidades com muita dedicação e nunca ter receio de voltar ao princípio para construir tudo de novo, são a base para uma mudança evolutiva e certamente bem-sucedida.

Acredito que muito depende de nós, pois somos, em grande parte, consequência das nossas ações.

“As mulheres de Angola têm muitas conquistas conseguidas”

É Vice-decana interina para os Assuntos Académicos da Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto, deputada pela bancada do MPLA e secretária para as Relações Exteriores da OMA… Como descreveria o seu percurso e que motivações estiveram na origem de um trajeto desenhado entre o ensino, a política e o ativismo?

O meu percurso de vida esteve muito ligado aos meus sonhos. Desde pequena desejava ser professora, por força da vida (1974/ 75) enquadrei-me no MPLA e segui a trajetória política dos jovens da minha idade (irreverência) e tomada de decisão.

O ativismo veio por acréscimo, vontade de ajudar, colaborar e sobretudo prestar solidariedade aos que mais necessitavam. 

Por que escolheu o ensino para construir uma carreira profissional?

O ensino como carreira profissional, porque já fazia parte do meu “Eu”; a minha mãe dizia que mesmo desde pequena (7/11 anos) gostava de ensinar as crianças do bairro. Colocava-as em bancos e ensinava-as, estava inerente à minha pessoa.

A sociedade atribui ao papel de professor muitas vezes o de educador, aquele que prepara os futuros adultos e líderes. Sente isso?

Sinto sim senhora e tenho orgulho dessa minha vida de educadora, qualquer aluno ou estudante que passa por mim, sente isso, não só ensino, mas sobretudo educo.

É mãe de três filhos e já tem netos. Foi difícil encontrar o equilíbrio entre uma vida profissional tão preenchida com a familiar?

Nunca foi problema porque sempre tive apoio do meus familiares, especial do meu marido, que sempre envidou esforços para eu me formar e colaborar condignamente na família. Para ele, uma mulher formada é subsídio para vida futura.

O mundo está em constante mudança e com ele mudam as pessoas… Olhando para as gerações mais novas, que mundo diria que teremos amanhã?

Teremos amanhã o mundo que preparamos hoje. Acontece em todas as gerações. Tudo é fruto de continuidade. Tanto que nos adaptamos às mudanças muito rapidamente. Senão vejamos, até os anos 90 não existiam telefones móveis. Logo que as tecnologias evoluíram, imediatamente nos adaptamos e cá estamos. Hoje teclamos coisas que não sonharíamos em tempos.

Desde a criação da luz elétrica que o mundo vai se transformando vertiginosamente. Temos o dom de adaptação.

Sobre a OMA – organização que defende os direitos da mulher angolana – o que a levou a abraçar este projeto dedicado à emancipação feminina?

Foi toda uma sequência de vida, enquadrei-me na OMA quase simultaneamente com o Partido MPLA. A OMA naquela altura era uma organização muito proativa. Tínhamos o direito e dever de mobilizarmos as mulheres para os trabalhos socias no bairro; especificamente a educação familiar moral e ética. Presto uma homenagem merecida às mulheres que comigo militaram na OMA da Vila Alice: Regina Marques, Lourdes, Noémia, Miquelina Dinis, Deolinda, Conceição Caposso, Helena Milagre, Ana Ezequiel de Almeida, Conceição Piedade, Francisca do Marçal, Ana do Zangado, Palmira Pascoal, e tantas outras.

Neste momento, qual é a realidade da mulher angolana face à discriminação laboral e em sociedade?

A mulher angolana tem grandes desafios. Desde que me enquadrei na OMA que ela demostra estar com firmeza na luta pelos seus direitos. Temos vindo a ultrapassar algumas barreiras; as mulheres de Angola hoje têm muitas conquistas já conseguidas. Lutamos contra todas as formas de discriminação, sobretudo na educação do género; ainda há alguns tabus que não se conseguem ultrapassar somente com leis, mas sim com educação cultural; a mulher Angolana está inserida num processo de luta a nível mundial e há tabus que já conseguimos ultrapassar; Temos o direito ao voto; a Constituição de Angola consagra-nos no artigo 22º e 23º do Capítulo I, do Título II, Direitos e Deveres Fundamentais; Temos assinadas várias Convenções do género; somos membros da CEDAW (Comissão dos Direitos das Mulheres das Nações Unidas) e outras Convenções Internacionais. Mas, não descuramos o valor que a mulher detém na sociedade Angolana. Tudo são conquistas, não nos deixamos relaxar. 

Tem algum lema de vida? Qual é?

O meu lema de vida é a solidariedade e conseguir alcançar os meus sonhos. A solidariedade creio que é melhor para todas as mulheres de valor.

Estou inserida no continente africano, e como tal, em Angola, ainda há um longo caminho a percorrer na luta contra vários problemas sociais e não só. O nosso continente é muito fustigado. Temos problemas com refugiados, luta contra a pobreza, luta contra a discriminação, luta a favor da melhoria do meio ambiente, entre outras. Então não podemos adormecer. A nossa batalha é constante mas vamos vencer. Temos também que respeitar o outro, esse é outro lema para aprendermos a trabalhar em solidariedade e união. A nossa luta também é regional e internacional.

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