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Trilhar os caminhos do desenvolvimento comunitário

Como surgiu a START.SOCIAL na sua vida e o que é que a motivou a enveredar pelo caminho da ação social? 

A START.SOCIAL, surgiu em 2001 com a designação de CSEPDC – Cooperativa Sócio Educativa Para Desenvolvimento Comunitário, Crl, sediada em Loures.

A START.SOCIAL, nasceu na maior mancha de pobreza e exclusão social às portas de Lisboa, na Quinta do Mocho, Sacavém, Concelho de Loures.

A zona denominada por Quinta do Mocho, era um conjunto de 12 prédios de 10 andares inacabados, só com a estrutura de tijolos e cimento, sem acabamentos, sem instalações sanitárias, sem proteções nas varandas e nas escadas, com caixas abertas onde deveriam constar os elevadores, sem saneamento básico (esgotos a céu aberto), sem eletricidade e água, sem ruas pavimentadas, enfim, abandonados pelo construtor que teve alguns problemas financeiros. Os prédios foram ocupados entre finais dos anos 70 e princípio dos anos 80, por população oriunda dos PALOP´S.

Na década de 90 residiam no “Bairro”, 680 agregados familiares, correspondendo a 3500 a 4000 indivíduos. O “Bairro” apresentava um problema social e habitacional gravíssimo, sem solução à vista, sendo um símbolo de pobreza e exclusão social, durante mais de uma década, ficando esquecidos e entregues a si próprios.

Numa ação concertada entre o poder central e o poder local, foi constituída uma Comissão Interministerial em 1997, para implementação de medidas de melhoria de vida da população. Em 1996 foi implementado o primeiro Programa Nacional da Luta Contra a Pobreza (PNLCP), que terminou em 1999, realizando algumas ações no “Bairro”, mas insuficientes face à dimensão do problema habitacional e social existente.

Em 1999 nasce o 2º PNLCP, Projeto D.A.R. – Desenvolver, Acolher e Recriar, cujo objetivo passava por implementar um Pavilhão Multiusos para organizar uma série de serviços e atividades para dar resposta as necessidades mais básicas e promover a inserção social dos residentes e o apoio às famílias.

Neste Projeto assumi as funções de Coordenadora Pedagógica, com a responsabilidade de implementar 4 salas de creche, dinamizar atividades socioeducativas, culturais e recreativas, promover a animação dos tempos livres do Centro de Animação Infantil Comunitário (CAIC), proporcionar formação a Amas, com vista a qualificar algumas Amas clandestinas já existentes no “Bairro” e selecionar dez para integrarem o pessoal da creche.

A minha paixão pela ação social começou aqui, esta Quinta do Mocho já não existe (apesar de ainda hoje se ouvir o nome de Quinta do Mocho associada à Arte Urbana, existente na nova Urbanização Terraços da Ponte).

Em 2001 termina o projeto e as famílias começam a ser realojadas, iniciando-se a fase do pós-projeto. A motivação e o desejo de acompanhar as famílias para a nova Urbanização, a criação de estruturas de apoio para as crianças, a inversão do processo de abandono e insucesso escolar, eram fatores determinantes para a continuação da intervenção social. As pontes que tinha estabelecido com a população pela dinamização das atividades de animação sócio culturais, entre as quais de ter levado 33 crianças dos 3 aos 5 anos a Cabo Verde, para conheceram o país dos seus pais e avós, marcou definitivamente a minha vida.

A nova Urbanização Terraços da Ponte, acolheu 680 agregados familiares, correspondendo a 3585 indivíduos, população residente no Bairro da Quinta do Mocho, os prédios foram demolidos e no seu local nasceu outra Urbanização.

A START.SOCIAL (CSEPDC), nasce na terceira fase, pós-projeto em parceria com as Associações locais, criando as Respostas Sociais de ATL (Atividades de Tempos Livres) e de Creche, reduzir as desigualdades, criar oportunidades, apostar na criação de Equipamentos Sociais promotores de Emprego e Inserção Profissional.

Quais diria que são os pilares que sustentam a missão da START.SOCIAL?

A START.SOCIAL é uma Organização vocacionada para trilhar os caminhos do Desenvolvimento Comunitário, foi assim que se assumiu em 2001, na Quinta do Mocho em Sacavém, Concelho de Loures.

Tem a noção dos problemas sociais de um determinado território e procura a melhoria das condições de vida dessa população, com respostas assentes na valorização dos recursos disponíveis no local.

Apoiar grupos vulneráveis, em especial crianças, jovens, deficientes e idosos;

Apoiar famílias e comunidades socialmente desfavorecidas com vista à melhoria da sua qualidade de vida e inserção socioeconómica;

Desenvolver programas de apoio direcionados para grupos em situação de risco, doença, velhice e carência económica graves;

Apoiar o desenvolvimento social e comunitário com a criação de Respostas Sociais;

Desenvolver ações de formação que promovam as competências pessoais e sociais de forma a capacitar os indivíduos para a sua autonomização;

Valorizar as capacidades de cada indivíduo canalizando-as para as áreas de formação ou empregabilidade adequadas ao seu perfil;

Sabendo que toda a intervenção social deve ser feita em proximidade, em parceria, e com a participação dos cidadãos, devemos garantir os seus direitos fundamentais e condições de cidadania e contribuir para uma Sociedade mais justa, livre, diversificada e criativa, onde os valores essenciais sejam respeitados, construindo a “paz social” nos territórios mais fragilizados. É com base nestes pilares, que está assente a missão da START.SOCIAL, “Mais e Melhor no Desenvolvimento Comunitário”.

Na sua maioria, a ação social é encarada como voluntariado. Qual é a sua opinião sobre a mesma ser antes vista como uma economia impulsionadora, também, do tecido empresarial do país?

A Ação social e o Voluntariado são motores de desenvolvimento social, o Voluntariado está seguramente afeto à Economia Social. A taxa de adesão tem crescido, contudo a Ação Social não pode ser encarada como Voluntariado apenas, pois a Ação Social realizada pelas Organizações do 3º Setor, é sustentada e estruturada maioritariamente, pelas equipas de colaboradores que integram as mesmas, insuficientes por vezes. Concordo sim, com a integração de voluntários, nas equipas no sentido de reforçar e enriquecer as ações desenvolvidas, no exercício da sua intervenção, sendo uma mais-valia pra ambos, a Organização porque necessita de voluntários numa determinada ação ou área e o voluntário porque quer contribuir com o seu conhecimento e vontade, adquirindo ao mesmo tempo mais experiência crescimento pessoal e social. Uma das formas que a Sociedade Civil tem para participar na Economia Social é através do Voluntariado e da Cidadania Ativa. O Voluntariado é a forma humanizada para realizar ações de carater social.

A Economia Social em Portugal é emergente e cada vez mais essencial, com base nos últimos dados da CASES (2013); a Economia Social através das entidades da economia nacional, registou um aumento em número de Entidades, assim como o seu peso no emprego total (5,2%) e emprego remunerado (6%). Em 2013, a Economia Social esteve presente em todas as atividades económicas, mais de 61 mil Entidades registadas em 2013, na Economia Social, presentes em todas as regiões NUTS III de Portugal. A Economia Social representa 3% do PIB nacional. Se o 3º Sector fosse chamado de país independente, ocuparia uma posição de destaque entre as maiores economias do mundo.

Sobre a questão da (des)igualdade de género em sociedade… O que pensa sobre esta questão?

A questão da (des)igualdade de género que hoje se fala em todos os setores da nossa Sociedade, tem sido combatida com a criação de leis e medidas Politicas, não sendo suficiente, claro que ajudam, mas é uma questão de mudança de mentalidades. A Igualdade tem que ser conquistada em dois palcos fundamentais da nossa Sociedade: A FAMÍLIA e a ESCOLA.

A Igualdade trabalha-se em casa, no seio da família, na distribuição e distinção de tarefas, na participação das decisões, no respeito da individualidade, na escolha do percurso escolar, na escolha dos momentos recreativos, a necessidade de diminuir a diferença entre rapazes e raparigas, já lá vai o tempo em que “as bicicletas e as bolas eram para os rapazes, as bonecas e as malas eram para as raparigas”. Desde muito cedo as crianças são confrontadas com as escolhas pelo género, para “eles” e para “elas”, desde logo nos brinquedos, nas cores e nos padrões.

A Escola é sem dúvida o local que deve proporcionar “tudo” para “todos” independentemente do género, ainda sou do tempo das turmas de rapazes e raparigas. A Educação deve ser impulsionadora de oportunidades para combater as desigualdades, no entanto ainda verificamos que temos uma elevada taxa de abandono escolar por parte das raparigas, em função das tarefas e responsabilidades que vão assumindo em casa, as raparigas continuam a ser discriminadas no acesso à escolarização. Em contextos socioeconómicos deprimentes existe uma tendência para o género feminino ser mais penalizado. Mudar este tipo de mentalidades leva gerações e gerações.

Quando ouço falar da Igualdade Salarial, nas quotas das mulheres nas empresas e na política é claro que me identifico com estas questões, mas pergunto-me “se não estamos a construir a casa pelo telhado?”

É preciso trabalhar a Igualdade nas famílias, na Escola, desde a mais tenra idade, nos contextos sociais mais fragilizados, sobretudo se queremos uma Sociedade mais igualitária, ainda somos o último país da Europa na questão da Igualdade.

O sistema de Educação, Formação e Cultura, ainda continua a transmitir estereótipos de género. Mulheres e Homens seguem muitas vezes, percursos educativos e formativos tradicionais, que colocam as mulheres em profissões menos valorizadas e menos remuneradas.

Na Europa a Igualdade entre homens e mulheres, constitui um direito fundamental, um valor comum e uma condição necessária para a concretização dos objetivos comunitários em matéria de crescimento, emprego e coesão social. Embora continuem a existir desigualdades neste domínio, a União Europeia (EU) realizou grandes progressos nas últimas décadas, principalmente graças à legislação sobre igualdade de tratamento, à integração da dimensão de género, nas diferentes políticas e à adoção de medidas especificas em favor das mulheres.

Que outros aspetos aponta, atualmente, como mais preocupantes, em Portugal, e que são um entrave ao desenvolvimento social?

O Estado, nomeadamente após 1974, tem privilegiado o desenvolvimento de Entidades Não Lucrativas, limitando ao mesmo tempo a sua independência e campo de atuação. As Organizações do 3º. Setor, têm um papel determinante na formação das Políticas Sociais. Os aspetos que considero mais preocupantes, que poderão ser um entrave ao Desenvolvimento Social são; a falta de legislação referente à sua atuação; a grande diversidade de Organizações que abarcam o 3º. Setor; o modelo de financiamento; a não profissionalização dos quadros dirigentes; a dificuldade de acesso e modernização tecnológica; entre outras.

A questão da profissionalização dos quadros dirigentes, continua a ser um tema relevante para a sustentabilidade das Organizações. É preciso mais do que “boa vontade” para dirigir uma Organização do 3º. Setor, são necessários conhecimentos técnicos e especializados. Um órgão de gestão profissionalizado com capacidade de gestão estratégica, com uma perspetiva interna e uma abertura para o maior envolvimento da Sociedade Civil.

O financiamento das Organizações, se por um lado, não podem depender na sua totalidade do Estado pelo trabalho que realizam, por outro, é necessário encontrar uma diversificação das fontes de financiamento que não desvirtuem a sua missão. A Economia Social tem um papel importante a nível local, no sentido de reforçar o carater democrático da descentralização e atenuar o desequilíbrio demográfico e económico do País. Neste sentido devem ser criados localmente, programas de apoio para a criação de novas Organizações e para a Sustentabilidade das existentes.

O que mais gosta no seu trabalho? Que legado gostaria de deixar?

O que mais gosto no meu trabalho é a proximidade às pessoas, ajudar quem precisa, criar estratégias para garantir a existência de “elevadores sociais”, continuamos com um elevado número de pessoas em situação de pobreza e exclusão social, principalmente ao nível da Infância. O meu maior legado passa, por deixar esta vontade e determinação de fazer algo e não “baixar os braços”, de partir para a ação, movermo-nos perante as problemáticas existentes, no dinamismo e eficácia de criar respostas, serviços de proximidade, na insistência do trabalho em parceria, em criar sinergias que tragam um “novo despertar”, para as Causas com que nos deparamos a cada dia!

Deixo o exemplo de entrega à causa social, deste “bichinho”, que é o desenvolvimento local, revisto na liderança que tenho desenvolvido em prol do crescimento e desenvolvimento das organizações e equipas de trabalho, por onde tive oportunidade de passar e por último na START.SOCIAL, da qual sou fundadora. Na preocupação de criar e implementar projetos, serviços e respostas sociais, sendo o nosso mais recente projeto, o projeto “memórias que ajudam a crescer”, que consistiu na construção de uma creche e de uma residência sénior, da qual nos orgulhamos muito. O papel da START.SOCIAL na construção deste projeto foi fundamental, pois foi uma obra que custou mais de 3 milhões de euros, tendo a organização suportado parte desse custo, mais precisamente cerca de 1 milhão e 500 mil euros. Sei que sou e sempre serei uma ativista e empreendedora social, provocadora de mudança.

Nenhum de nós é igual até que todos nós sejamos iguais

“Uma em cada três mulheres em todo o mundo sofrerá violência física e / ou sexual durante a sua vida, e quase um terço das raparigas em alguns países em desenvolvimento são casadas aos 15 anos de idade”.

Com este vídeo “incrivelmente poderoso” os dois grupos de campanha pedem que as pessoas tomem medidas contra o sexismo global.

“Pobreza é sexista” é o nome do vídeo e pretende transmitir a ideia de que as mulheres de todas as idades têm ouvido “não” um pouco por todo o mundo, todos os dias. 

Vários cenários são apresentados: uma menina que nasce com a conotação negativa de “não” ser um menino, uma criança que lhe é dito que não pode concentrar-se nos seus próprios interesses, e uma menina forçada a um casamento arranjado.

Cada cena é baseada num aspeto diferente que as mulheres enfrentam na sociedade de hoje. “Você não precisa ser uma menina em Uganda para entender o que significaria ser retida na escola por estar com o período”, explica o diretor criativo do ONE, Meagan Bond.

“Nenhum de nós é igual, até que todos nós sejamos iguais” e é pedido às pessoas que tomem uma posição.

Fonte: Independent

Matou os quatro filhos porque não podia alimentá-los

Uma mulher de 28 anos matou os quatros filhos, que tinham entre três e seis anos com um machado e pesticida, em Agushan, na China, porque não os conseguia alimentar. Depois de matar as crianças, Yang Gailan, bebeu pesticida e cometeu suicídio, segundo as autoridades locais.

O marido de Yang Gailan e pai das crianças, Li Keying, também cometeu suicídio – bebendo veneno – após ter chegado a casa e visto a cena.

Yang Gailan e o marido eram extremamente pobres e os filhos não podiam frequentar a escola nem tinham acesso aos serviços de saúde pois não estavam registados no sistema da cidade que dá autorização de residência e acesso aos serviços básicos, segundo a Sky News.

Os meios locais dizem ainda que a família não recebia qualquer apoio do sistema de segurança social chinês e sobrevivia do que conseguia plantar, praticando uma agricultura rudimentar, e vivendo abaixo do limiar da pobreza.

Este caso despertou um debate nas redes sociais chinesas, com algumas pessoas a condenarem o ato de Yang Gailan e outros a lamentarem a situação de desespero desta família.

Mais de metade da população de Agushan é pobre e vive abaixo do limiar da pobreza. Segundo o Banco Mundial, a China tem mais de 200 milhões de pessoas a viver abaixo do limiar da pobreza.

China quer retirar 50 milhões de pessoas da pobreza até 2020

A decisão, tomada pelo comité Permanente do PCC, a cúpula do poder na China, prevê retirar 50 milhões de pessoas da pobreza nos próximos cinco anos através do apoio à indústria, migração de mão-de-obra e educação.

Mais de 20 milhões de pessoas consideradas, total ou parcialmente, inaptas para trabalhar serão incluídas num sistema de ajuda à subsistência, segundo o jornal oficial China Daily.

Em 2014, mais de 82 milhões de chineses viviam na pobreza, apesar das últimas três décadas de acelerado crescimento económico terem transformado a China na segunda maior economia mundial.

Já segundo o critério do Banco Mundial o número de chineses pobres alarga-se para 200 milhões.

De acordo com o Gabinete Nacional de Estatísticas chinês, a linha de pobreza rural no país está fixada num rendimento anual inferior a 2.800 yuan (412 euros ou 438 dólares), o que corresponde a pouco mais de um dólar por dia.

País mais populoso do mundo, com cerca de 1.350 milhões de habitantes, a China é também um dos mais desiguais, com o fosso social a fixar-se acima do “nível alarmante” definido pela ONU.

Segundo a Hurun Report Inc, considerada a Forbes chinesa, o país asiático ultrapassou este ano pela primeira vez os Estados Unidos da América no número de bilionários.

A proteção social no contexto dos sistemas alimentares

Hélder Muteia

Os sistemas alimentares são preferencialmente analisados em função da sua capacidade de garantir a disponibilidade de alimentos, através da sua produção primária na agricultura, pecuária, pesca, aquacultura, apicultura, etc.
Essa aceção restritiva tem vindo a sofrer mudanças, à medida que os sistemas alimentares se tornam mais complexos, e à medida que se aprofunda o conhecimento e compreensão sobre os mesmos.
Embora a abordagem da proteção social, como hoje a conhecemos, seja muito recente, e só nas últimas décadas alguns dos seus instrumentos tenham sido adotados como prática generalizada nos sistemas políticos e governativos no mundo desenvolvido, na sequência da revolução industrial e da instituição do chamado Estado Social, a ideia da solidariedade é milenar e intrínseca à natureza humana. A solidariedade familiar e comunitária sempre esteve presente desde as sociedades primitivas, e sempre foi e será um elemento essencial do processo organizativo e evolutivo da natureza humana.
Olhando para as principais caraterísticas dos sistemas alimentares modernos, nota-se que algumas delas são surpreendentes, chocantes e, por vezes, contraditórias entre si. Uma dessas realidades é que a produção mundial de alimentos atingiu índices recordes. Isto é, mesmo tendo em conta a explosão demográfica, não é deficitária. Se os alimentos atualmente produzidos fossem equitativamente distribuídos, bastariam para alimentar a todos, e não haveria 795 milhões de pessoas passando fome.
Outras caraterísticas que vale a pena destacar são: o facto de os sistemas alimentares se terem tornado mais diversificados, complexos, globalizados e com novos procedimentos e etapas na cadeia de valor, para responder às necessidades da crescente urbanização e explosão demográfica; o elevado índice de desperdício alimentar que acontece ao longo de toda a cadeia, como resultado de hábitos de consumos inadequados e ausência de tecnologias e infraestruturas de transporte e conservação; e a crescente agressão que os métodos de produção convencionais fazem à base de recursos naturais que sustentam a vida no planeta (solos, água, florestas, fauna, atmosfera etc.).
Paralelamente, o mundo está marcado por índices inaceitáveis de pobreza absoluta; desastres naturais frequentes e severos; choques económicos generalizados; clivagens políticas e sociais violentas; disputas e guerras sangrentas e destrutivas; movimentação desusada de populações vulnerabilizadas e relegadas à condição de deslocados, refugiados e emigrantes; desigualdades de género e intolerâncias; urbanização desorganizada e descontrolada; e diversos fenómenos demográficos que carecem de solução urgente.
Assim, a proteção social, como instrumento social e político, vê-se obrigada a adequar-se à grandeza e complexidade desses desafios. Sabendo que uma das faces mais expressivas da pobreza e da vulnerabilidade é a fome, requer-se uma atenção especializada que passa pela identificação de alvos concretos no âmbito dos sistemas alimentares, a adoção de um plano estratégico pragmático, e uma abordagem à escala global. Deve ter a capacidade de, sem perder de vista os restantes problemas sociais ligados à saúde e educação, gerar oportunidades para os mais vulneráveis no meio rural predominantemente agrícola, melhorando simultaneamente o rendimento e a situação alimentar e nutricional.
Contudo, o crescente entusiasmo sobre as potencialidades da proteção social esbate-se com a realidade aflorada por um estudo recente da OIT (Organização Internacional do Trabalho), segundo o qual cerca de 73% da população mundial está excluída dos serviços de proteção social. A mesma organização projetou que seriam necessários apenas 2% do Produto Interno Bruto mundial para organizar um sistema de proteção social que garanta cobertura a todos.
Conscientes dessa necessidade, muitos países estabeleceram programas de apoio monetário ou em espécie (por exemplo, cesta básica), com ou sem contrapartidas, tais como comida por trabalho, (cash for work) – dinheiro por trabalho – entre outros. Outros países optam por alargar o espectro dos programas de seguro social e de trabalho, e há ainda países que estabelecem redes de apoio e assistência a segmentos sociais específicos (como idosos, crianças, mulheres grávidas, deficientes físicos, doentes crónicos, refugiados etc.).
A experiência demonstra que até 2013 estas medidas retiraram 150 milhões de pessoas da pobreza extrema e, longe de serem assistencialistas e de criarem dependência, conferem as alavancas necessárias para a sua integração e dignificação, estimulando atividades agrícolas e não-agrícolas, fortalecendo os meios de subsistência, aumentando os rendimentos e melhorando as infraestruturas e o património das comunidades.
Curiosamente, perto de 70% das pessoas pobres no mundo são pequenos produtores rurais (maioritariamente agricultores) que se veem secundarizadas pelos sistemas políticos e económicos vigentes. Se não forem apoiadas, permanecerão reféns da subsistência e da indigência, recolhidas no medo e na incerteza de investir em tecnologias, para aumentar a sua produtividade, e na saúde e educação dos seus filhos.
Daí a crescente necessidade de olhar para as realidades específicas destas populações, definir políticas claras para o seu apoio, e apostar na integração da proteção social com as estratégias de desenvolvimento agrícola. Estas não devem ser apenas políticas e estratégias sectoriais ou localizadas, mas também outras de índole macroeconómica e caráter transversal, que podem ter um potencial coadjuvante ou retardador, como as políticas monetárias, aduaneiras e comerciais, e políticas sociais para fortalecer o emprego, seguro social, responsabilidade social, infraestruturas sociais etc.
O setor público tem naturalmente grandes responsabilidades, por serem os mais ativos nos países com situações económicas e políticas mais estáveis. Os organismos da sociedade civil também desempenham um papel fundamental para complementar esses esforços e, em situações de crises de governabilidade, estes podem ser os únicos no terreno para garantir assistência às populações vulneráveis.
Para além do compromisso global para erradicar a pobreza e a fome, importa também contar com lideranças destemidas e progressistas, com capacidade para promover o diálogo, gerar sinergias, e abordar os desafios com frontalidade. Urge despertar os valores mais nobres da humanidade, ajustando os paradigmas de desenvolvimento para dar primazia à dignidade e solidariedade, frente à rispidez do mercado, dinheiro, lucro, tabelas e gráficos.

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